quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

ESCOIMANDO A LÍNGUA



Gosto da língua. De todas as nacionalidades, de todos os sabores e saberes. Aprecio a alaúza que ela faz e a ascese que ela provoca em gente estranha que gosta de ler e escrever diariamente: cem abdominais de estilo, supino de vocabulário, caminhada matinal por landas literárias de diferentes países. Gosto desta propedêutica, das preliminares que devem balizar o conhecimento dos limites das palavras; das perspectivas sincrônica e diacrônica da língua. Sou, como o Joaquim, um taxidermista semântico, sem papas na língua. Consumo doses altíssimas de dicionários online ou não. Procuro, sintaticamente, a versão sem cortes da vida. Tenho aversão ao silêncio. Só na língua portuguesa, são 90 000 mil, nervosas, à procura de um bom cultor. Palavra emagrece – mais de 350 kcal por segundo. A rotina ideal depende do indivíduo e do que ele sente nos canos hidráulicos, quando ouve alguém dizer que “deambulou por aí”, ou se depara com o mau uso do demonstrativo ou com a falta da vírgula no fim da circunstância antecipada.. Há de se ter capilaridade, hein Giovanni? A língua se intromete, a danada. Agora, no Congresso, alguém (quem mesmo?) quer proibir palavras estrangeiras em anúncios publicitários, meios de comunicação, documentos oficiais, letreiros de lojas e restaurantes. Quero ver. É de uma clareza de alabastro que isso não vai pegar. Experimente suprimir a palavra show do vocabulário médio de um brasileiro: ninguém mais sai de casa para pagar um ingresso. E se não pudermos mais dizer de uma garina que ela é sexy? Vamos perder muito. Não se pode dar um chute no traseiro de um trompe-l'oeil sem mais nem menos, sob pena de não se ter mais como apreciar os alcances artísticos do mundo das imagens. Sejamos razoáveis: para que proteger a língua de influências estrangeiras? Nada mais pedestre. Como viver sem o to be or not to be de certas palavras que se aboletam nos lugares mais inesperados e lá ficam para sempre, como se nunca houvessem saído dali? Se a razão pode entrar em domínios que a transcendem, sem deixar de ser razão, o mesmo acontece com a emoção embutida em vocábulos como vórtice, penumbra, adejar, farândola, albores, e por aí vai. Abaixo ao autoritarismo píssico dessa gente que aproveita a onda legiferante apenas para aparecer na mídia (oops!). Sou a favor da anomia nestas questões, pois quero continuar a usar a língua e desfrutar de sua força sem me preocupar com normas absurdas. Melhor baixar o chanfalho, camarada! Nada mais kitsch do que essa penada contra a liberdade de expressão. Nada mais mendaz do que esse medo de invasão vernacular! Vamos lá, deixemos de dar rabelo a essa desídia. Shopping não está bom? Não serve para ocupar a vaga que ficou quando uma palavra esquecida se levantou e não voltou para o lugar? Nem o corretor ortográfico do computador denuncia. Coisa boa é mastigar galicismos sem temer dor de barriga. Evanildo Bechara bem o disse: “O nacionalismo lingüístico é uma parvoíce!”. Assino embaixo da declaração do nobre filólogo. Deixemos as portas abertas às palavras turistas que, uma vez por aqui, acabam se estabelecendo no enorme território lingüístico da nossa terra. Ação proativa é isso aí. É mais fácil jogar futebol do que balípodo. Essa implicância é um tremendo goal contra! Set point para nós, falou? Faltaria swing depois dessa blitz purista. Por isso, volto a afirmar: gosto da língua, das línguas, do que elas são capazes de fazer. A invasão das palavras funciona na contramão da ocupação do Iraque, porque enriquece o povo invadido. É como um Bush ao contrário: por onde passa constrói-se cultura e conhecimento. Não é preciso de ter medo delas, seja qual for a origem. Elas ajudam, sempre. O Natal passou, mas ainda dá para saborear o sentido de muitas. Experimente, morda, deguste, engula o caroço.
071226

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

SEM CERTEZAS


Não tenho a intenção de usar o chamado marketing de guerrilha, mas é de uma clareza palmar que alguma coisa impactante vai acontecer com essas pessoas que só falam “com certeza” para tudo, e é meu dever (não?) registrar tal risco aqui no meu quadrado virtual. Cada vez mais tenho menos certeza de tudo. “De omnibus dubitandum est”, já falava René Descartes, muito antes de São Tomé que, mesmo assim, andou dançando em um sem número de ocasiões - é só dar um reboot na memória RAM que ainda lhe resta. O mundo, tal como o conhecemos (será?), vem mudando celeremente há, pelo menos, três lustros, e para acompanhar tal transformação, milhares de livros e artigos já foram publicados. Redimensionou-se a noção (antiga) de tempo. O tempo de hoje não é mais o tempo de antigamente, assim como também era diferente entre as cidades e os povoados do interior. O exaflood da internet é inevitável, assim como também é a constatação de que não temos como absorver tamanho volume de informações. Pior: corremos o risco de perder aquela mínima – mas valiosíssima - capacidade de usufruir das poucas fontes de que dispúnhamos num tempo nem tão distante assim. Quem lembra? Eram só alguns canais de TV, com imagem precária e chuviscos fantasmagóricos que a HDTV há de enterrar de vez. E essas opções restritíssimas me fizeram ter uma infância para lá de rica, se comparada com o torvelinho de canais a cabo, internet e tudo mais que hoje é tão comum, mas pouco utilizado de maneira eficaz. Parece que é só abrir um buraco no chão asfaltado da jungle moderna para que uma onda de informações jorre como o petróleo por entre as mãos de James Dean, em Assim Caminha a Humanidade. Assim como não vejo sentido na expressão “ter uma vida pela frente” (por onde mais?), percebo toda uma dialética acessível no que um educador americano chamado Marc Prensky chamou de “imigrantes e nativos digitais”. Pois bem, são esses nativos que não se surpreendem com a imensidão da internet. Sabem que a rede é quase infinita e, por isso, não abrem o espectro mais que do que precisam. Tudo muito condizente com o modus operandi da pós-modernidade: rapidez, velocidade, análise instantânea das opções. “More, more, more...”, diria o Andrea True Connection, num LP rodando numa vitrola de museu. Mas, devagar com o andor, pega leve, puxe o freio de mão, segure a onda, baixe a bola. E a reflexão que fez Vinicius esculpir alguns dos mais lindos poemas em língua portuguesa? Reflexão demanda tempo. Divagar é parecido com devagar. É preciso deixar-se encharcar mais no banho-maria do mundo virtual. Mesmo assim, a multiplicidade das fontes não consegue fugir a certa padronização redutora incapaz de ir muito além da primeira página do Google. Ou seja, há mais democracia na informação, mas isso não implica necessariamente em mais riqueza no conteúdo e na forma. Portanto, mudemos o eixo cognitivo. Não mais morrer de sede diante do rio. Não mais CPMF, não mais spinplasmônica em papos nerds na rede, não mais idelis e renans, não mais Xuxa na TV, ou em qualquer lugar (Deus é grande!). Ainda se vai ao longe, devagar, divagando. Sem mais certezas, apenas dúvidas charmosas sobre qual o melhor filme de Visconti, se devemos temer a nanotecnologia ou se uma metáfora pode mesmo explicar aquele sonho que nunca morreu dentro de você.

071213

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

MADALENA

Não sei que tonalidade verde me chamou pela primeira vez a atenção, mas posso dizer que, do lugar de onde estava, dava para ver um cinturão de árvores copadas, com seus frondosos galhos carregados de folhas, como se a minúscula capela estivesse protegida, no tempo e no espaço, do que existe do outro lado do mundo.
As pessoas chegavam devagar, em silêncio, como se viessem para um encontro marcado há muito tempo, para o qual não se exigia palavra alguma. Lágrimas solidárias pareciam desenhar látegos úmidos na face interminável dessa sufocante tarde de dezembro. Alguém que eu não conhecia me cumprimentou, eu acenei com a cabeça e, por um momento, senti que tinha valido a pena estar ali. Todos estavam vestidos com certa dignidade e minuciosamente limpos; isso parecia lhes dar um comprometimento maior com aquele interminável ritual de despedida.
Alguém sussurrou que a vida é dura e que só nos resta a morte; outro lembrou de uma tarde perdida no tempo, na qual havia café fresco e broa de milho sobre a mesa da cozinha ampla de cheiros de pomar; quando era fácil para um parente reconhecer o tio ou o sobrinho que não via há anos e selar este reencontro com abraços e risos honestos.
Entre apertos de mão e abraços tímidos, recordavam-se coisas. Um homem grisalho lamentava ser o único irmão sobrevivente; à senhora de bengala ocorreu o fato da assustadora freqüência com que voltava àquela mesma capela ultimamente; a bela moça de pulseiras e cabelo preso lembrou de sua mãezinha, e uma nuvem de lágrimas manchou rapidamente a dimensão celeste do seu olhar.
De dentro, ouvia-se o choro intermitente da filha devotada que buscava amparo nos braços frágeis e cansados do velho pai. A filha, abraçada assim ao pai, me suscitava uma tristeza imensa e profunda. Ali, naquele quadrado de cimento e massa, a solidão, o desamparo e o sofrimento constituíam um quadro que certamente não sairá da lembrança dos netos, ambos assustados e chorando também, agarrados a pernas adultas e a saias conformadas.
Ali, três gerações conheciam uma dor inqualificável.
Súbito, me dei conta de havia pouquíssimas pessoas que eu conhecia. No entanto, como quando acontecera há alguns instantes, só o fato de estar ali já me alçava à condição de quase-parente. E eu gostava disso. Duas senhoras encanecidas praticamente agradeceram minha vinda, quando pararam e me estenderam a mão para reconfortar ou serem reconfortadas, não importava. Do meu posto, via, ao mesmo tempo, o cinturão verde imenso e a aproximação de mais gente – moços, crianças e velhos, todos numa marcha lenta e determinada. Um grupo de jovens estava onde deveria estar: no jardim; antigas rodas se reuniam depois de anos, e seus integrantes, em determinados momentos, se sentiam culpados de soltar uma gargalhada pura e leve.
Dentro da casa, parecia ainda haver um vago eco das vozes que tinham falado na noite. Do lado de fora, encostado num Del Rey enferrujado, um homem de chapéu falava coisas místicas a um grupo de seres mudos que havia chegado atrasado. A mulher que eu conhecia estava sentada num banco, do lado de fora da capela. A filha lhe acariciava o rosto, numa conjugação terna de apoio e entendimento. O filho desta, neto daquela, queria saber de que cor eram as asas dos anjos, e de que tamanho eles eram. Uma voz de tia explicou que os anjos tinham as asas da mesma cor das flores que cobriam o corpo diminuto da bisavó, lá dentro, entre velas e o nada. O garoto sorriu e foi correr longe, perseguindo uma borboleta que flutuava sem destino no ar quente daquela tarde.

071206