
Gosto da língua. De todas as nacionalidades, de todos os sabores e saberes. Aprecio a alaúza que ela faz e a ascese que ela provoca em gente estranha que gosta de ler e escrever diariamente: cem abdominais de estilo, supino de vocabulário, caminhada matinal por landas literárias de diferentes países. Gosto desta propedêutica, das preliminares que devem balizar o conhecimento dos limites das palavras; das perspectivas sincrônica e diacrônica da língua. Sou, como o Joaquim, um taxidermista semântico, sem papas na língua. Consumo doses altíssimas de dicionários online ou não. Procuro, sintaticamente, a versão sem cortes da vida. Tenho aversão ao silêncio. Só na língua portuguesa, são 90 000 mil, nervosas, à procura de um bom cultor. Palavra emagrece – mais de 350 kcal por segundo. A rotina ideal depende do indivíduo e do que ele sente nos canos hidráulicos, quando ouve alguém dizer que “deambulou por aí”, ou se depara com o mau uso do demonstrativo ou com a falta da vírgula no fim da circunstância antecipada.. Há de se ter capilaridade, hein Giovanni? A língua se intromete, a danada. Agora, no Congresso, alguém (quem mesmo?) quer proibir palavras estrangeiras em anúncios publicitários, meios de comunicação, documentos oficiais, letreiros de lojas e restaurantes. Quero ver. É de uma clareza de alabastro que isso não vai pegar. Experimente suprimir a palavra show do vocabulário médio de um brasileiro: ninguém mais sai de casa para pagar um ingresso. E se não pudermos mais dizer de uma garina que ela é sexy? Vamos perder muito. Não se pode dar um chute no traseiro de um trompe-l'oeil sem mais nem menos, sob pena de não se ter mais como apreciar os alcances artísticos do mundo das imagens. Sejamos razoáveis: para que proteger a língua de influências estrangeiras? Nada mais pedestre. Como viver sem o to be or not to be de certas palavras que se aboletam nos lugares mais inesperados e lá ficam para sempre, como se nunca houvessem saído dali? Se a razão pode entrar em domínios que a transcendem, sem deixar de ser razão, o mesmo acontece com a emoção embutida em vocábulos como vórtice, penumbra, adejar, farândola, albores, e por aí vai. Abaixo ao autoritarismo píssico dessa gente que aproveita a onda legiferante apenas para aparecer na mídia (oops!). Sou a favor da anomia nestas questões, pois quero continuar a usar a língua e desfrutar de sua força sem me preocupar com normas absurdas. Melhor baixar o chanfalho, camarada! Nada mais kitsch do que essa penada contra a liberdade de expressão. Nada mais mendaz do que esse medo de invasão vernacular! Vamos lá, deixemos de dar rabelo a essa desídia. Shopping não está bom? Não serve para ocupar a vaga que ficou quando uma palavra esquecida se levantou e não voltou para o lugar? Nem o corretor ortográfico do computador denuncia. Coisa boa é mastigar galicismos sem temer dor de barriga. Evanildo Bechara bem o disse: “O nacionalismo lingüístico é uma parvoíce!”. Assino embaixo da declaração do nobre filólogo. Deixemos as portas abertas às palavras turistas que, uma vez por aqui, acabam se estabelecendo no enorme território lingüístico da nossa terra. Ação proativa é isso aí. É mais fácil jogar futebol do que balípodo. Essa implicância é um tremendo goal contra! Set point para nós, falou? Faltaria swing depois dessa blitz purista. Por isso, volto a afirmar: gosto da língua, das línguas, do que elas são capazes de fazer. A invasão das palavras funciona na contramão da ocupação do Iraque, porque enriquece o povo invadido. É como um Bush ao contrário: por onde passa constrói-se cultura e conhecimento. Não é preciso de ter medo delas, seja qual for a origem. Elas ajudam, sempre. O Natal passou, mas ainda dá para saborear o sentido de muitas. Experimente, morda, deguste, engula o caroço.
071226

