quarta-feira, 22 de setembro de 2010

NOSSA LÍNGUA

Durante um colóquio sobre Língua Portuguesa, reunindo professores da rede estadual, discutiu-se, entre outras coisas, a atual situação do nosso idioma. As conclusões, que agora, parcialmente, apresento aqui, foram estarrecedoras. Isso porque, a educação em geral já é precária, e a imprensa ajuda a deseducar, pois basta uma olhada nos principais veículos de comunicação escrita do país, para encontrar os mais absurdos disparates em relação ao idioma de Camões.

O curioso é observar que só no Brasil a língua se esfacela. Em Portugal, o bom-senso continua prevalecendo, e os países africanos continentais e insulares de língua portuguesa seguem seu exemplo. Vale lembrar que não só Portugal, mas todos os países de língua culta do mundo há séculos mantêm critérios ortográficos coerentes. Infelizmente, parece ser apenas no nosso país que se brinca com esta irresponsável história de dupla ortografia: uma oficial e outra para os jornais. Desta forma, o Brasil caminha solitária e celeremente para deixar, pela porta de trás, o clube dos países civilizados de línguas de cultura.

Agora, no final da primeira década do século XXI, o português do Brasil está irremediavelmente comprometido como língua de cultura, porque não é língua de cultura com bagunça ortográfica. Não se pode pensar em termos culturais, sem a preocupação de preservar a etimologia e o contexto histórico que formou as palavras que usamos. Sintomaticamente, na atual campanha eleitoral, por exemplo, não encontramos nada muito concreto a respeito da cultura e da valorização do idioma que falamos. Pelo contrário: o que mais se vê são candidatos falando e escrevendo errado. Triste, mas real.

Um outro monstrengo que assombra a Língua Portuguesa é o mau uso do verbo repercutir. Aí, a imprensa da TV e do rádio são insuperáveis: teimam em dizer que seus repórteres “repercutem” a notícia, quando, claro, é a notícia que repercute e não o repórter, que apenas a reporta, como se pode deduzir pela palavra. O impressionante é que isso acaba “colando” no ouvido e virando lei, com respaldo daqueles que deveriam saber português para exercer uma atividade tão nobre.

As línguas não se fazem por decreto. As únicas leis que as regem são as da linguística – por isso existem as leis fonéticas, por exemplo. Como fato social que é a língua evolui com a sociedade que representa. Contudo, a observação do registro correto das palavras objetiva apenas a preservação da linguagem e de suas potencialidades. Se não, teremos, cada vez mais, o incorreto “queiroz” no lugar do escorreito “queirós”, plural de “queiró”, planta muito comum numa região de Portugal. Exemplo clássico de um sobrenome de origem geográfica, como tantos em nosso idioma. Vale dizer que Portugal, em matéria de ortografia, é um país cientificamente atualizado, diametralmente oposto ao que acontece no Brasil.

Devo dizer que o correto na língua é aquilo que é exigido pela comunidade linguística a que pertence. Existe um comportamento social regulado por normas em todos os campos, e a língua não pode ser excluída disto. Ninguém é a favor de uma linguagem monolítica, que não se assenta em uma realidade, mas sim de flexibilidade que não se perca em balbúrdia geral ou naquela teoria que os mais preguiçosos amam, a de “se todo mundo fala/escreve errado, por que vou falar/escrever de outra forma?”. Pela aceitação passiva de desvios degradantes como estes, a realidade da língua portuguesa e muito dramática hoje em dia.

Há sempre a melhor solução: ler e escrever, sempre e muito. Só há um jeito de começar a escrever: é começar agora. O conselho, mesmo que ninguém o peça embora o devesse, abre um livro excelente sobre a atividade escrita, “Oficina de Escritores” (Martins Fontes, 2008), de Stephen Koch. Cada escritor tem ao menos uma grande lição digna de nota. Em língua portuguesa, podemos aprender muito sobre como elaborar e apreciar bons textos se aproveitarmos a lição que a leitura dos mestres oferece.

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DVD: TOP HAT (USA, 1935): neste filme, Fred Astaire usa e abusa do direito de ser o melhor dançarino do cinema, como também um ótimo ator. Seus diálogos musicais com Ginger Rogers são belíssimos! Tudo é feito com muita elegância, ao som perfeito de Irwin Berlin. Confira!

Quer dançar de rosto colado? Aprenda, pois!

http://www.youtube.com/watch?v=HYHZh-xnqhE

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

GULLAR


Em 10 de setembro de 1930, Ferreira Gullar nasce em São Luiz do Maranhão, batizado José Ribamar Ferreira, é o quarto dos 11 filhos de Alzira e Newton. Treze anos depois, na escola e apaixonado por uma menina, decide escrever versos. E o faz com paixão, sangue e febre, sem deixar de acreditar que era mesmo através da poesia que se transformaria na figura literária que é hoje, para todos e, especialmente, para mim.
A figura literária se expande: o grande homem também é um ser aristotelicamente político. Em 1962, ingressa no Centro Popular de Cultura e na União Nacional dos Estudantes. Publica cordéis políticos e trabalha ativamente como jornalista. É um dos grandes amigos de outro grande - Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, com quem escreve a peça ”Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. A história desta dupla pode - e deve - ser conhecida, por isso, favor ler a excelente biografia escrita por Dênis de Moraes, “Vianinha, Cúmplice da Paixão”.
Gullar continua sendo isso tudo e muito mais. A figura magra e elegante, os longos cabelos brancos e o ar compenetrado, frequentemente interrompido por uma gargalhada, lhe dão um ar de mago Gandalf, de O Senhor dos Anéis. Diz o mago que a literatura tem que mudar a vida, ela não pode ser gratuita, não pode ser à toa. É deste assombro que se conclui que a poesia não pode apenas versos bem feitos. Há de se procurar uma nova linguagem, sempre, mesmo que ela seja uma reinvenção da antiga, e esta da mais antiga ainda. Pois a poesia pode nascer do espanto, pois não é algo que se decide fazer. A poesia faz parte de algo que te surpreende, que te espanta e que te leva a escrever um poema. É uma aventura em que o acaso e o inesperado determinam o processo.
Uma das melhores traduções de Gullar é o poema “Traduzir-se”. Nele, o poeta nos dá voz: “Uma parte de mim pesa e pondera; outra parte delira...”. Esta dicotomia embala o leitor mais atento numa reflexão sobre os (dês) caminhos da vida. Não se pode apenas ser racional, aponta o poeta, pois a vida não é linear, mas sim um ziguezague entre a realidade e o sonho, um conduzir-se para o outro lado. É deste trânsito que o poema se ocupa, implicando o próprio sujeito, através do “se” reflexivo do título.
O movimento pendular do coração, metáfora da vida, é uma das muitas sinalizações polissêmicas que encontramos na obra de Gullar. Num universo poético tão multifacetado, é fácil se perder, o que, no fundo, é encontrar-se. É este amor pelo belo que também se manifesta no artista através da crítica de arte que interpreta as vanguardas e questiona o que se diz contemporâneo. Sabe que é mais adequado investigar o mundo com reflexão e com os espantos gullarianos, sejam os metafísicos, os políticos e os existenciais. Refere-se ao vínculo existente entre a poesia e a emoção com uma naturalidade impressionante, quando diz: “A poesia é, na verdade, uma fala ao revés da fala...”. A linguagem, assim, o instrumento pelo qual o artífice transforma as experiências existenciais no conteúdo poético que atinge as mais diversas searas cognitivas.
Costuma dizer que escrever não é doloroso. Dolorosa é a lembrança. Quando você a transforma em poema, está transformando dor em alegria. Em beleza estética. Gullar não acredita no que certos poetas dizem, que escrevem sofrendo. Uma coisa é o sofrimento que o leva a escrever, mas a escrita não é dolorosa. Escrever é alquimia. É transformar a dor em alegria estética. Tem prazer em escrever. Acontece no curso do poema, mas não tem nada a ver com dor. São descobertas em função do que ele vive. Uma noite, quando sai da casa de sua companheira, atravessa o jardim e é agredido pelo cheiro do jasmim. Daí nasce o poema. Quando vai escrever, passa a refletir sobre o que lhe aconteceu naquela noite. E descobre que o cheiro são moléculas, que voam desordenadamente no ar, como uma nuvem. O cheiro é uma desordem e é seu olfato que dá ordem àquilo. Como vocês veem, são coisas que vão nascendo umas das outras e que alteram sua forma de escrever e, naturalmente, a nossa forma de perceber o mundo, as pessoas, os sentimentos.
Parabéns pelos 80 anos de fina poesia.
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DVD: TEMPOS DE PAZ (BRASIL, 2009) – a adaptação da peça de Bosco Brasil para a tela grande funciona, sobretudo, na força do diálogo entre seus dois protagonistas, Dan Stulbach e Tony Ramos. Veja: http://www.youtube.com/watch?v=zkFF9VltBOc

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

THE AMERICAN WAY


I like movies and I have the habit of wrinting about them. This has made me think of how these stories we have seen on screen for all over our lives have influenced our percepition of the world around. I witnessed here in Brazil, based on my own experience as a kid in front of the TV, how movies and TV shows display a pattern to be followed and, sometimes, copied, without any critical thinking. After all, we still have faced a brutal invasion of the pop culture mad by and for Americans.
NEARLY 160 years ago, Alexis De Tocqueville observed that Americans lacked an appreciation for what he called the ''pleasures of mind.'' Instead, he wrote, they ''prefer books which may be easily procured, quickly read, and which require no learned researches to be understood. They ask for beauties self-proffered and easily enjoyed. . . . They require strong and rapid emotions, startling passages, truths or errors brilliant enough to rouse them up and to plunge them at once, as if by violence, into the midst of the subject.''
Those words remain, in fact, a pretty good description of the impulses that drive American popular culture, what one might call a constant quest for ever greater sensationalism. But the characteristics Tocqueville ascribed to our books, poetry and theater are now no longer confined to amusements; they have leached into almost every aspect of American life, and, why not to say, world life. Any putative Tocqueville looking at America today would see a whole Republic of Entertainment in which strong and rapid emotions, startling passages and rousing truths pervade journalism, politics, education, religion, art and even crime. Indeed, ours seems to be a world molded in the image of the movies and intended for our viewing pleasure.
To most of us, this has been obvious for some time in the country's public life. However serious their subtexts may be, news events like the O. J. Simpson trials and Lewinskygate are vastly entertaining spectacles that are promoted, packaged and presented very much like the latest Hollywood blockbusters, only these stories happen to be written in the medium of life. Not to mention Michael Jackson’ life and death and others magnetic plots that would appeal to any kind of taste.I wondered if the tragedy that is about to fall onto my Flamengo would be of interest to the producers in Hollywood.
What has been less evident than the transformation of public events into entertainment, however, is something arguably much more important: the extent to which entertainment has gradually infested our own personal lives, converting them into ''movies'' too. It is not just that audiences may find daily life as entertaining as fictionalized stories, as ''The Truman Show'' and some comedies that portrait the routine of Americans. “American Beauty” is another example that crosses my mind. Just yesterday, I was rewatching “O Assalto ao trem Pagador”, by Roberto Farias, and started to think how these common stories tend to stir on people’s minds.
It is that over the years our moviegoing and television watching has been impregnating the American consciousness with the conventions and esthetics of entertainment, until we have become performers ourselves, performing our own lives out of the shards of movies. One might even think of American life, including quotidian American life, as a vast production in which virtually every object is a prop, every space is a set, every person is an actor and every experience is a scene in a continuing narrative. What Joe would say about that?
It has been a long process that has brought us to this point -- a process that may have been set in motion by the country's very active sense of democracy. In Europe, where the class hierarchy was rigid and class distinctions obvious, any sort of personal theatricality, aside from that of self-conscious, rebellious Bohemians, was limited to the upperclasses, which could afford flamboyant display. But in Brazil, where class boundaries should be more porous and distinctions less apparent, citizens quickly learned that how one looked and behaved largely determined how one was perceived, prompting Walt Whitman to lament the ''terrible doubt of appearances.''
This emphasis on class by style infused 19th century American life with a kind of subtle theatricality as the middle class and later the working class imitated the affectations of the gentry in hopes of being regarded as gentry themselves. By the early 20th century, though, these old models of gentility had yielded to new models in the mass media, especially the movies, and the change ushered in a marked difference in aspiration. What had begun in the 19th century as a way of appropriating class became in the 20th a way of making one's life more closely approximate the glamorous visions one read about in novels and picture magazines or saw on the screen.
Today, with the burgeoning of mass culture, this everyday performance art may be America's most ubiquitous art. Though obviously not everyone is willing to concede that he or she is becoming a performer, there are telltale signs everywhere that ordinary life is cinematic. Take fashion. There was a time when fashion was, as Tom Wolfe once put it, the ''code language of status,'' a way to express where one stood in the social order. Nowadays, when nearly everyone has access to designer clothes, even if it is only a pair of jeans, fashion is less expressive than imaginative. What one wears doesn't necessarily convey who one is; it projects who one wants to be -- which makes clothing into costume.
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CD - Miles Davis - Time After Time: Amazing recordings of some classics, like "Time After Time", "Corcovado" and "Round Midnight". Davis is obligatory, no more than that. Two-CD pack, with charm and talent. Be careful: do not listen alone or you will be missing someone from your past. Look and listen: http://www.youtube.com/watch?v=tTf_d30Anzk