
Em 10 de setembro de 1930, Ferreira Gullar nasce em São Luiz do Maranhão, batizado José Ribamar Ferreira, é o quarto dos 11 filhos de Alzira e Newton. Treze anos depois, na escola e apaixonado por uma menina, decide escrever versos. E o faz com paixão, sangue e febre, sem deixar de acreditar que era mesmo através da poesia que se transformaria na figura literária que é hoje, para todos e, especialmente, para mim.
A figura literária se expande: o grande homem também é um ser aristotelicamente político. Em 1962, ingressa no Centro Popular de Cultura e na União Nacional dos Estudantes. Publica cordéis políticos e trabalha ativamente como jornalista. É um dos grandes amigos de outro grande - Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, com quem escreve a peça ”Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. A história desta dupla pode - e deve - ser conhecida, por isso, favor ler a excelente biografia escrita por Dênis de Moraes, “Vianinha, Cúmplice da Paixão”.
Gullar continua sendo isso tudo e muito mais. A figura magra e elegante, os longos cabelos brancos e o ar compenetrado, frequentemente interrompido por uma gargalhada, lhe dão um ar de mago Gandalf, de O Senhor dos Anéis. Diz o mago que a literatura tem que mudar a vida, ela não pode ser gratuita, não pode ser à toa. É deste assombro que se conclui que a poesia não pode apenas versos bem feitos. Há de se procurar uma nova linguagem, sempre, mesmo que ela seja uma reinvenção da antiga, e esta da mais antiga ainda. Pois a poesia pode nascer do espanto, pois não é algo que se decide fazer. A poesia faz parte de algo que te surpreende, que te espanta e que te leva a escrever um poema. É uma aventura em que o acaso e o inesperado determinam o processo.
Uma das melhores traduções de Gullar é o poema “Traduzir-se”. Nele, o poeta nos dá voz: “Uma parte de mim pesa e pondera; outra parte delira...”. Esta dicotomia embala o leitor mais atento numa reflexão sobre os (dês) caminhos da vida. Não se pode apenas ser racional, aponta o poeta, pois a vida não é linear, mas sim um ziguezague entre a realidade e o sonho, um conduzir-se para o outro lado. É deste trânsito que o poema se ocupa, implicando o próprio sujeito, através do “se” reflexivo do título.
O movimento pendular do coração, metáfora da vida, é uma das muitas sinalizações polissêmicas que encontramos na obra de Gullar. Num universo poético tão multifacetado, é fácil se perder, o que, no fundo, é encontrar-se. É este amor pelo belo que também se manifesta no artista através da crítica de arte que interpreta as vanguardas e questiona o que se diz contemporâneo. Sabe que é mais adequado investigar o mundo com reflexão e com os espantos gullarianos, sejam os metafísicos, os políticos e os existenciais. Refere-se ao vínculo existente entre a poesia e a emoção com uma naturalidade impressionante, quando diz: “A poesia é, na verdade, uma fala ao revés da fala...”. A linguagem, assim, o instrumento pelo qual o artífice transforma as experiências existenciais no conteúdo poético que atinge as mais diversas searas cognitivas.
Costuma dizer que escrever não é doloroso. Dolorosa é a lembrança. Quando você a transforma em poema, está transformando dor em alegria. Em beleza estética. Gullar não acredita no que certos poetas dizem, que escrevem sofrendo. Uma coisa é o sofrimento que o leva a escrever, mas a escrita não é dolorosa. Escrever é alquimia. É transformar a dor em alegria estética. Tem prazer em escrever. Acontece no curso do poema, mas não tem nada a ver com dor. São descobertas em função do que ele vive. Uma noite, quando sai da casa de sua companheira, atravessa o jardim e é agredido pelo cheiro do jasmim. Daí nasce o poema. Quando vai escrever, passa a refletir sobre o que lhe aconteceu naquela noite. E descobre que o cheiro são moléculas, que voam desordenadamente no ar, como uma nuvem. O cheiro é uma desordem e é seu olfato que dá ordem àquilo. Como vocês veem, são coisas que vão nascendo umas das outras e que alteram sua forma de escrever e, naturalmente, a nossa forma de perceber o mundo, as pessoas, os sentimentos.
Parabéns pelos 80 anos de fina poesia.
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DVD: TEMPOS DE PAZ (BRASIL, 2009) – a adaptação da peça de Bosco Brasil para a tela grande funciona, sobretudo, na força do diálogo entre seus dois protagonistas, Dan Stulbach e Tony Ramos. Veja: http://www.youtube.com/watch?v=zkFF9VltBOc
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