quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 9

Eu tenho uma amiga que me ligou hoje cedinho para me dizer que passou o Natal assistindo à Maratona The Big Bang Theory, na Warner. Disse que não poderia haver grupo melhor para passar as festas do que o composto por Leonard, Sheldon, Howard e Raj. Eles, pelo menos, não me abandonam nunca, acrescentou com certo sarcasmo que, claro, Sheldon teria dificuldade para entender. Eu, melhor que ninguém, entendi e assim lho disse, sem ser sarcástico, mas com inevitável melancolia. Ela ficou mais de trinta horas diante da TV, sozinha, sem se preocupar que em outros lugares festas aconteciam entre risos, champanhes e excesso de comida e gente gordurosa. Melhor ficar com os nerds. Falou, com a voz calma, meio sonolenta que, enquanto estivesse entre estes amigos, deixaria de tentar entender como as pessoas tiram tão facilmente as outras da tomada e as desligam para sempre das suas vidas. Havia terminado o ano assim, unpplugged, meio descrente dos sentimentos amoráveis, meio sem querer arriscar de novo, meio medrosa, admitiu. Preferiu ficar torcendo para que Leonard e Penny reatassem de vez, para que as esperanças fossem restabelecidas nos devidos parâmetros de sua vida e que ela pudesse estender seus sonhos para além de dois homens e meio. Claro que cada episódio a remetia a compartimentos perigosos da memória, mas ela queria estar acima disso, das reminiscências e, por vezes, conseguia. Nem por isso este estendal de recordações a incomodava menos. Sim, pois The Big Bang, assim como tantas outras coisas importantes, lhe havia sido depositado na vida por uma mão delicada e sensível que não mais havia sentido em sua rotina existencial. Eu a ouvia falar dos meninos como se fossem parte de sua família, e eu achei bonito e puro de ver alguém se relacionando assim com pessoas (ou personagens?) que ela nem conhecia pessoalmente e que foram escolhidos para passar o Natal com ela, por ela, juntos, como família. Claro, havia ali uma mistura sutil de saudade e de dor ácida que lhe corroía a aparentemente frágil existência. Se The Big Bang a ajudava a construir novos potes afetivos, ao invés de ficar admirando os cacos, que fosse assim. Se nem Sheldon é capaz de entender as intricadas engrenagens do comportamento humano, eu é que nem ia tentar achar qualquer outra explicação coerente. Não é fácil lidar com os sentimentos, sem transformá-los em pesadas placas de prensa e reduzi-los à máscara lamentável dos clichês, eu retruquei, sem querer ser inconvenientemente acadêmico. Sentimentos têm, quase sempre, uma aparência frágil: brotam espontaneamente, às golfadas, e escorrem molhados pelos olhos. Difícil é enfrentá-los a seco. Mais difícil ainda é observá-los como travas que, em vez de expressar, bloqueiam a experiência. A Literatura ajuda muito neste processo. Mas quando ela não se apresenta como ferramenta principal, as séries de TV também se prestam ao escoamento da certeza de que pode não haver nem nunca ter havido um big bang na gênese do mundo dos sentimento e tudo tenha sempre sido metamorfoses de metamorfoses, a ilusão necessária dos começos, a transformação esfuziante dos quereres, e que não podemos nada além desta constatação, como um personagem pintado em um quadro que, doriangraymente, não se pode olhar. Minha amiga, assim como Penny, não entendeu nada, mas estava feliz da vida com seu Natal na Warner.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 8

Eu tenho uma amiga que ficou um pouco desconcertada com o fim do mundo que não veio no dia 21 e tentou não deixar que ninguém percebesse tal decepção repetindo que não acreditaria nunca em crendices apocalípticas ou coisas do gênero. Na verdade, eu sei – porque a conheço a fundo – que ela não queria mesmo era passar as festas de final de ano com a cabeça em outro lugar, pensando coisas que nem às paredes confessaria. Ecoando em suas paredes internas, havia um desejo sem objeto, uma vontade de desejar e o temor de querer que a torturavam. Como ela é chegada a uma onda retrô, eu poderia descrever-lhe a dor imprecisa como um disco falhado que repete infinitamente uma frase musical, que de bela se torna odiosa pela simples e inexplicável repetição. Dez, cem vezes, as mesmas notas se sucedem, se entrelaçam, se confundem, e delas fica um som único, obsedante, terrível, implacável. Sente-se que um minuto só dessa obsessão será a loucura, mas o minuto passa, a obsessão continua e a loucura não vem. Em vez disso, a lucidez redobra, multiplica-se. Abandoná-la, quebrando o som, esmagá-lo sob o silêncio, seria a tranquilidade e a paz que não se compram em farmácias. Mas as palavras, as frases, os gestos erguem-se embaixo do silêncio e giram silenciosamente sem fim. No suposto fatídico dia 21, minha amiga, vendo mesmo que nada de mais ia acontecer com o mundo, foi às compras, fez as unhas, calibrou o corte do cabelo castanho e resolveu ocupar os compartimentos da memória não com o que havia passado, mas com o que ainda haveria de acontecer, conforme me disse entre um e outro gole de água mineral. Aí, então, eu lhe disse que ela estava se transformando para mim numa personificação da Literatura, pois o seu coração parecia estar sempre em outro lugar. Na zona de silêncio que a constitui e sustenta, a Literatura tem um centro vazio. É como uma rosca de alguma padaria fashion, um donuts semântico, cujas bordas saboreamos. A minha amiga me olhava com um jeito doce, sem dizer nada. A Literatura em mim se alimentava desse silêncio. Ou melhor: ela era a face visível deste silêncio. Se ela, linda e radiante, tinha desejado que o fim do mundo realmente acontecesse, tudo era possível. Todos carregamos um ruído incompreensível no peito. Não chegamos a ouvi-lo e nem temos certeza de onde exatamente ele vem. Muitas vezes, não passa de um murmúrio. Talvez seja o vestígio do silêncio, de que a Literatura se alimenta e que agora fazia minha amiga se integrar na minha vida, inevitavelmente.

sábado, 22 de dezembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 7


Eu tenho uma amiga que acha que pode vivenciar uma paz fabricada.Para tal, toma alguns cuidados, além dos que já tem com a pele e os cabelos: não assiste mais a qualquer episódio de Friends, emoldura o espelho do banheiro com notas adesivas que a lembram que ela é maravilhosa e não tem por que sofrer, evita um nome próprio bem comum e qualquer outro que lhe possa remeter a ele, não passa em algumas ruas e se esforça (como confessou) para esquecer certas pessoas, certas atitudes, alguns dias do calendário de sua vida. Ela me disse que pode, sim, construir esta paz tão sonhada à sua volta, até mesmo dentro dela, por uma simples razão de sobrevivência emocional. Ou constrói este bunker de tranquilidade ou a vida se complica de vez. Simples assim. Perguntei-lhe se uma paz assim não seria o resultado de um esquecimento que só viria com o tempo. Ela riu e olhou para cima (faz parte do processo) e respondeu que, claro, não sabia se viria a esquecer o que devia. Ninguém sabe se esquece antes de esquecer. Se fosse possível sabê-lo antes, muitas coisas de solução difícil a teriam fácil. Cutuquei a onça com vara curta: e se ela não conseguisse fabricar esta paz perfeita, sem prazo de validade e seguro contra roubo? Percebi que minha amiga se alterou: suas mãos se moveram, com algum nervosismo, em direção à bolsa, onde guardava coisas. A meio do movimento, porém, retraíram-se, perderam-se – como se esqueceram do que iam fazer. E não só as mãos denunciavam perplexidade. Com meus olhos tristes, vi perfeitamente a imagem do rosto de alguém que chegou a uma encruzilhada onde não há indicações ou onde os letreiros estão escritos numa língua desconhecida. Ao redor, o deserto, ninguém que lhe dissesse “por aqui...”. Minha amiga certamente tinha medo de não atingir a paz que idealizara, pois dela dependem o amor e o desamor. Ambos apostam num roteiro de premissas analíticas. Ambos têm frases calcadas numa relação de causa e efeito. Ambos sugerem que o esquecimento é uma equação de improbabilidades, na qual o valor de X a ser descoberto é a possibilidade de um final feliz para uma história nem tanto. Esta minha amiga, na realidade, não tem motivo para se preocupar. Terá a sua paz desejada, em breve, muito breve, pois transita íntima entre as deusas gregas e em qualquer concurso apaixonado, terá dez no decote, dez no contorno dos quadris e dez sobre os atrativos físicos e intelectuais de uma das mais belas e perspicazes fêmeas da cidade.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 6


Eu tenho uma amiga que faz aniversário no dia 19 de dezembro. No entanto, o tempo, para ela, está sempre à frente, nunca no mesmo dia em que ela está, tornando-a quase impossível de tocar e só quase possível de ver, como as estrelas, mesmo aquelas que já morreram há bilhões de anos, mas que ainda mantêm o brilho que nos engana e encanta viajando através do universo tão longo quanto este período que acabei de escrever. Esta minha amiga é um enigma. Faz-se presente na mais completa ausência e agudamente ausente na mais onipresente presença. Dentro da sua órbita magnética, ri muito, toma os melhores vinhos, aglutina as pessoas, mas também poderia fazer parte do grupo de Elliot Ness, Os Intocáveis. É sofisticadamente simples e, no confronto com o sexo masculino, vez por outra, solta uma daquelas frases habilmente orquestradas para demolir a vaidade de um homem: “Para de me mandar estes torpedos eróticos, hein?”, logo na lata, cobra semântica que sufoca antes da mordida real. Para quem a escreve/descreve, o que pensa a dor de não tê-la, nesta busca de contato com este outro mundo, com esta outra história onde ninguém entra sem licença da dona, esta minha amiga se apresenta com um álibi (literalmente, em Latim, “estar em outro lugar”) existencial, que pode ser lido deste modo: “Eu não sou aquela que é atualmente...”. Usuária de interjeições, aqueles blocos femininos que vêm com entonação especial e fazem a mulher também rebolar também na língua, ela apresenta um discurso lógico e, ao mesmo tempo, contraditório, deixando o interlocutor – geralmente eu – tendo que apelar para os neurônios no banco de reserva e dar novos tratos à bola. Sim, pois tudo é um jogo, ou se parece como tal, mas com regras que só ela sabe e que só confessou a quem desconfiava o que se lhe passava no coração. Faz-nos ver, delicadamente, esta minha amiga, que amar uma leoa é não poder amá-la – é aceitar o gozo da distância. Gosta de sentar-se no sofá, cruzar as longas pernas, intercalar vinho tinto com goles d’água, falar de cinema, de livros e ouvir quieta enquanto ouve um poema de Vinicius e faz planos para ver a árvore de Natal da Lagoa. No fim da noite, costuma deixar claro que já não há mais lugar para as grandes ilusões, mas ainda existe um espaço para os pequenos sonhos, que talvez sejam muito mais devastadores e, por isso mesmo, devam ser manipulados com extremo cuidado, como quem lida com orquídeas. Esta minha amiga sabe o poder que tem e também sabe estabelecer limites no território do seu corpo e na vastidão de sua alma. Seus blindados a protegem, seu radar a avisa, seus agentes secretos a previnem de qualquer plano de penetrá-la – a segurança total é uma quimera feminina constituinte de uma boa dose de experiência e desconfiança. É imperativo, portanto, resguardar as partes boas, prezando o prazer da vida e a posse das rédeas da mesma, embora sem deixar de observar, nas eventuais fraturas desta grande muralha existencial, os riscos de um grande amor acontecer.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 5

Eu tenho uma amiga que me disse quase chorando que esteve muito doente este ano e que a doença tinha nome, sobrenome, CPF, RG e endereço certo e consabido. Ela disse que sofreu, pois não sabia se havia remédio que a curasse nem esperança que a aliviasse da dor de achar que tudo aquilo não ia mais acabar. Essa minha amiga é muito bonita. Tirou as sandálias como se fosse a coisa mais natural do mundo e destampou o garrafão da narrativa. Olhei-a, à medida que escandia as sílabas. Feição por feição, a análise concluiria por aquele tipo de fisionomia que está tão perto da beleza como da felicidade. Uma coisa. Ela chorava um pouco e, neste momento, não a prejudicava estar pintada. Tinha o rosto luzidio, típico das pessoas que sofreram silentemente, um olhar que mirou batalhas que ela não tinha que lutar. Mas de toda ela se desprendia uma sedução absorvente que se misturava ao castanho-escuro dos olhos, os cabelos pretos, presos, num coque, por uma caneta (ela nunca saberá como eu achava isso lindo...). O rosto tinha, em momentos de cansaço, uma dureza que não combinava com ela, especialmente ao redor da boca e no contorno dos olhos, mas que ela sabia, com uma ligeira transformação, torná-lo acariciante e sedutor. Segurei-a com os braços esticados, afastando-a um pouco – minha amiga pertencia ao tipo de mulheres que atraem pelas formas do corpo e, da cabeça aos pés, irradiava sensualidade. Era bastante hábil para provocar em si própria um frêmito que deixava-nos, nós, os homens, sem raciocínio, impossibilitados de nos defender daquilo que supúnhamos ser natural, daquela onda dissimulada em que nos afogávamos, julgando-a verdadeira. Minha amiga sabia. Tudo eram cartas de seu jogo – e seu corpo, trêmulo e arfante, delgado como um junco e vibrante como uma vara de aço, o seu maior trunfo, juntamente com a inteligência rápida, meio desconcertante. Mas havia ainda o vestígio da dor imensa que 2012 lhe proporcionou em doses generosas e, convenhamos, injustas. A doença que não ousava dizer seu nome a castigou a ponto de perder as referências mais caras, as inesquecíveis. Deixou-a sozinha, descrente, perdida. Não raro, sentia o coração como um sorvete de sangue amargo derretendo-se dentro de si mesma, enquanto, para o mundo exterior, se via obrigada a espargir palavras doces, que chegavam a provocar filetes de mel que se lhe escorriam pela boca perfeita. Minha amiga tomou todos os remédios disponíveis para debelar a doença que tinha nome e sobrenome que lhe consumia os dias e, principalmente, as noites, quando os fantasmas se redimensionam e os medos nos engolem com suas bocarras banguelas. Mesmo assim, essa minha amiga me contou tudinho, todos esses detalhes tão pequenos que são coisas muito grandes de esquecer, enquanto contemplava, sorrindo sutilmente, os pés descalços (e perfeitos), assentes no tapete.