domingo, 25 de novembro de 2007

A MOÇA DA LOJA


Antônio tinha um sonho. O sonho se chamava Anna e trabalhava numa pet shop, dessas cheias de cachorrinhos, cadelinhas, gatinhos e passarinhos, todos aparentemente felizes nas suas jaulinhas assépticas, comida farta e regular.
Antônio achava que a moça – chamava-se Anna, como haveremos de saber – era linda demais para desperdiçar tempo num lugar daqueles e imaginava para ela uma vida mais glamourosa, menos previsível, uma vida de princesa, ao seu lado. Mas Antônio era um esteta tímido: só a conhecia de vista e jamais tivera coragem de se aproximar de Anna e de seus longos cabelos louros, suas formas arredondadas e elegantes, seu sorriso amplo e seus olhos verdes. Mas, no fundo, conhecia-a, sabia-a, amava-a tanto e com tanto silêncio que achava melhor deixar assim mesmo e não provocar o que, nela, poderia ser um desencanto sem remédio, caso se apresentasse pessoalmente e lhe declarasse o sentimento represado.
Mas e o nome? Como sabia o nome da moça?
Fácil. Já havia descoberto seu itinerário para o trabalho, e até o edifício onde morava. Postava-se numa esquina e esperava-a passar, do outro lado da calçada. Um dia, uma amiga a chamou pelo nome: Anna!
Ah! Um palíndromo perfeito, pensou, satisfeito, com suas vogais laterais e nn internos sugerindo um ronronar de gata que ele imaginava esparramada numa ampla cama, entre travesseiros e sonhos que ele, lógico, dividiria sem hesitar caso...
Caso ele não concebesse um plano para alcançá-la e lhe dizer alguma coisa que a fizesse reparar nele e aceitar aquele amor grande que aumentava cada vez que Anna passava, distraída, sem nem imaginar que Antônio, do outro lado da rua, diariamente, fazia planos, acariciava-lhe mentalmente os cabelos de ouro, beijava-lhe o pescoço longo, apertava-lhe as coxas grossas e lambia-lhe cupidamente os seios que as blusas decotadas lhe ofereciam, impiedosamente, naquele espetáculo matutino.
Postou-se, dia após dia, na esquina estratégica, de onde podia contemplá-la com esta admiração platônica, porém tenaz, dos acanhados, em cujos corações se escondem os maiores e mais compreensíveis amores. Deu, a si próprio, o prazo de mais um mês, ao fim do qual, caso nada acontecesse até então, dirigir-lhe-ia a palavra e todo o amor que por ela cultivara neste período de angústia, expectativas e incertezas.
Mas a insegurança típica destes momentos importantes, nos quais acreditamos estar dando o passo definitivo em direção ao nosso destino, levou Antônio a deixar o tempo correr sem que tomasse uma iniciativa mais eficaz, esperando que, enquanto isso, algo inesperado acontecesse e trouxesse Anna para seus braços.
Dez dias. Quinze. Agora só faltava um. Durante todo este tempo, manteve-se à espreita, olhando-a indo ao trabalho, passando, vez por outra, pela porta da loja, vendo-a ir e voltar para casa, alheia ao processo que o consumia desde a primeira vez que a vira. Já havia deixado o acaso trabalhar para si, sem que obtivesse qualquer resultado. Amanhã, teria que se aproximar mais, conforme a si próprio prometera.
Chegara a hora. Esperou que ela viesse, como sempre o fazia, pela calçada, distraída, para mais um dia comum na sua vida comum de moça loura e linda. Virou a esquina e ele pôde vê-la, ainda de longe, no esplendor da sua louridão, do seu olhar de esperança, do seu corpo perturbador.
Antônio estava de pé, do lado oposto à calçada na qual ela caminhava, repetindo para si mesmo o início do diálogo que imaginara para começar aquele romance que mudaria sua vida.
Atravessou a rua e logo se viu bem diante dela. Por um momento, inesperadamente, achou-se a mais ridícula das criaturas e não teve coragem de dizer uma única palavra das muitas que havia decorado. Ela passou rápido, sem olhá-lo, como se ele não existisse mesmo. Antônio se virou ainda sentindo o perfume dos cabelos que naquele dia estavam soltos e mais louros do que nunca.
Como chegar tão perto de um sonho e vê-lo passar assim como um estranho na multidão? Não, iria até ela e lhe diria, de uma só vez, o discurso que havia preparado durante a vida, um discurso amorável e até meio ingênuo, mas que era um apanágio dele reservado única e exclusivamente a ela, a Anna dos seus sonhos, dos seus desejos, a Anna que preenchia aquele silêncio enorme a que ele chamava de vida. Não! Chegara muito perto, preparara-se para aquele momento, para o encontro definitivo, para tudo acabar assim. Não desistiria.
Assim, correu para alcançá-la antes abrisse a loja. À medida que se aproximava, despenteava-se, encharcava-se num suor quase febril, sentia o ar frio da manhã furar-lhe o peito, continente incompatível com amor que transbordava como se estivesse carregando uma xícara de café dentro de um ônibus em movimento. Corria, suava, extravasava, não se continha, na esperança de chegar ainda transpassado de emoção insonte diante dela, seu objetivo maior, sua razão de postar-se diariamente naquela esquina solitária só para testemunhar um pouco de luz e esperança.
_ Anna!
A voz saiu abafada, mais pelo esforço da corrida do que pelo nervosismo natural de estar diante daquela mulher que parecia ser feita de uma ilusão sem fim. Mas, afinal, ali estava ele, pronto para falar. Falar? Sim, falar, vamos! Articule algumas palavras, apresente-se, diga bom dia, sei lá!
Mas sentiu as pernas fraquejarem e um zumbido tomar conta de sua cabeça. Tentou ainda fixar os olhos na mulher que o olhava um pouco assustada, sem entender o que estava acontecendo. Tentou sorrir e dizer alguma coisa. Mas faltou-lhe ar exatamente quando mais precisava, o mundo pareceu girar e, num instante, Antônio caiu de bruços, desmaiado, aos pés da sua amada que, muito prudentemente, se afastou com discrição, pediu demissão da loja e, em poucos dias, se casou com o dono do açougue da esquina que nunca havia lido um só livro na vida, mas sabia preparar um churrasco que ela achava divino.
Moral da história: um sonho é facilmente visualizável, mas a escala de valores não.

HOMEM SENTADO NO BANCO DA PRAÇA


Um homem sentado num banco de praça lê o jornal sem se importar com a algaravia de umas crianças que saíram do colégio e que agora brincam na grama, se escondem atrás das estátuas, e agarram-se nas brincadeiras mais violentas e mais suaves que existem. O homem, este homem, encerra-se em seu mundo, calado para si mesmo.
Olho-o, assim, meio isolado da vida e sinto um pouco da sua solidão. Veste-se de maneira comum, mas, na posição em que se encontra, contra o sol tênue do final da tarde – inesperadamente, numa praça repleta de crianças - projeta na minha mente um Fernando Pessoa taciturno, com jeito de quem não foi convidado para aquilo, meio triste atrás dos óculos de aros finos e do circunflexo bigode que torna seu silêncio ainda mais fechado.
Dou-me conta, sabe-se lá porque, que muitos homens devem se sentir assim nos dias de hoje. Mesmo quando se encontram e riem alto, dando tapinhas nas costas dos outros, quando bebem juntos falando animados ou concentrados na discussão de algum negócio importantíssimo, entrevejo neles toda uma melancolia que me enche de respeito e me comove. Observo-os num parque assim como este, com os filhos pequenos, olhando-os entre embevecidos e ternos; ou calados num restaurante diante da companheira a quem parecem não ter mais nada a dizer.
Imagino o que sentem quando têm que ir ao advogado tratar da pensão da esposa que amou no silêncio do seu mundo macho, mas autêntico, ou da visita regulada aos filhos, um final de semana sim, outro não; ou quando dirigem seus carros no torvelinho de um trânsito que ninguém merece, ou caminhando apressados com uma pasta na mão, pensando na família que ficou ou no trabalho que os espera, na filha que fuma maconha, na idade que passa e pesa se multiplicando em frustrações materiais e títulos vencidos. Pensam também em todo o passivo afetivo encharcado em chopes e caipirinhas, em todas as noites de jogo e lassidão malsã, e nas lágrimas que não verteram no enterro daquele amigo mais engraçado, mais animado e que justamente faltou naquele dia em que mais precisavam dele.
Estes homens não sabem que me importo com o que se lhes passa na cabeça quando brincam com a amante e lembram-se, num gesto dela, num jeito de rir, daquela que ficou em casa, ou da que agorinha mesmo foi buscar o mais novo no colégio, e que confia nele. Como é profundo e incompreensível o sofrimento destes homens.
Como muitos ainda suportam escutar, desde pequenos, que “homem não presta”, daquelas para as quais se esforçam em serem leais, ternos e grandes companheiros, e se ver em constante luta para provar que também queimam de solidão, que estão soterrados pelo peso de ter que ser firme e forte sem titubear, de ter sucesso e não fraquejar; de não demonstrar o medo de se aposentar e virar uma caricatura de pijama e chinelos, sozinho, impotente e vagamente patético?
São mesmo fortes estes homens que, ao se inclinarem para beijar a mulher, fingem não perceber uma repulsa mal disfarçada; que têm todos os seus planos frustrados porque a companheira nunca está disposta para sair, que detesta todos os amigos dele e seus tolos divertimentos, que não valoriza seus esforços e nunca aprecia seus presentes. Eles ainda não sabem que estão sozinhos.
Mas há aqueles que não se importam mesmo, e para quem serve uma criatura muda que lhes traz o chinelo ou a comida requentada do almoço e vai lhes dando herdeiros e solidão, sem se dar conta que os cabelos estão embranquecendo, a voz se tornando mais rouca e cansada, a pele sem viço e os olhos baços como os daqueles peixes esquecidos no fundo das bandejas das peixarias, que ninguém mais quer, pois deles já não se aproveita nem a morte.
Durante este tempo todo, me dou conta que há uma legião de homens assim, crianças, esquecidos, incapazes de se comunicar e que aquele homem do início deste texto continua sentado no banco de uma praça e seu jornal/escudo o protege das idéias pré-concebidas que certas mulheres, e um outro tanto de homens, promovem numa corporação unida por péssimas intenções, se esquecendo, ou mesmo ignorando volitivamente, que muitos que estão sentados no banco da praça, num fim de tarde, estão, na verdade sofrendo calados e ansiando, sem esperança, pelo grande amor que só uma mulher especial, aquela não teve o amor interdito pelo atávico ódio ao companheiro, pode ensinar.

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA


O título deste velho filme de Hollywood me chama a atenção entre tantos outros na estante da locadora e penso que, na época do seu lançamento, a felicidade não podia mesmo ser achada nas lojas ou nas farmácias, com o apelido de Prozac, Ixel ou similares, conforme anunciam, hoje, os cientistas.
Pesquisas indicam que nascemos felizes e que, com o passar do tempo, vamos nos infelicitando, mais e mais, especialmente durante a adultidade, até recuperarmos a felicidade na velhice quando, em geral, se a saúde ajudar, as pressões são mais leves, os filhos já estão criados e os netos aparecem como um sentido de renovação.
A felicidade não se compra, mas os antidepressivos sim, dirão os médicos. A depressão é considerada pela Organização Mundial da Saúde a quinta maior questão de saúde pública do mundo. Em 2020, prevê-se que ela estará no segundo lugar do ranking, depois das doenças cardíacas. Vamos às estatísticas então: estima-se que 20% dos pacientes demoram até cinco anos para procurar ajuda especializada e que mais de 15% das pessoas terão pelo menos um episódio de depressão ao longo da vida. Já se deprimiu? Não? Fique tranqüilo, ainda há tempo.
A palavra depressão entrou para o vocabulário cotidiano como sinônimo de tristeza e frustração. Mais do que uma simples licença semântica, esse fenômeno é a expressão mais clara da confusão que reina nessa área. Ficar triste e frustrado é parte incancelável da existência. O problema é quando os sentimentos negativos se tornam tão avassaladores que impedem o curso da vida.
Não obstante, a infelicidade, em suas inúmeras formas, possibilitou a felicidade de muita gente. Não fosse assim, não teríamos os grandes artistas atormentados que produziram – e ainda produzem - as maiores obras de arte da humanidade, com as quais nos deleitamos e distraímos a angústia. Foi o caso de Mozart, Michelangelo, Oscar Wilde, e tantos outros que não eram exatamente exemplos de vidas felizes.
Mas falamos da infelicidade a granel, essa maldita, associada à depressão, que assola milhões de pessoas em todo o mundo, movimentando cerca de 12 bilhões de dólares por ano. A infelicidade, por exemplo, da intelectualidade suburbana que não resiste às perguntas do Show do Milhão, pois, afinal, quem não quer ser um milionário? Dizem que dinheiro não traz felicidade, mas que ajuda a ser infeliz em Paris; e que ele, o mal eterno, o corruptor de honras através dos séculos, o vil metal, pode não comprar o amor verdadeiro, mas é capaz de adquirir imitações muito boas.
E tem a alta do dólar, todos os dias, todas as horas, como um fantasma verde que vacila entre o assustador e autoritário, mandando nas nossas vidas, nas nossas economias, nos nossos sonhos de consumo. Como não ficar deprimido? Como não se entristecer?
Como não se abalar com a fúria disfarçada em tecnicolor do Sr. Bush, aquele que está sempre na moita, esperando um árabe bigodudo qualquer ter alguma atitude estranha, para apertar o botãozinho vermelho que vai acender o ON no painel de lançamento de mísseis e bombas?
Vamos, poetas, escritores, pintores, músicos e toda essa gente estranha que faz da arte, ao mesmo tempo, um produto direto da angústia e um antídoto para a tristeza, essa infeliz, mãos à obra e desencalhem, desembuchem, pintem e bordem, façam barulho pondo a boca no trombone – afinal, o Prozac não é tão democrático assim, mas a serotonina está em falta em todos nós. Se preciso, cortem metaforicamente as orelhas e combatam com longos galhos de arruda todos os Salieris que a vida proporciona.
Temos tempo, não para sermos tristes e melancólicos, mas para por em prática a tal vida feliz que recebemos de presente anos atrás. Ainda temos tempo para os planos de uma existência em paz. Temos tempo para dormir, acordar, amar, viver. Tudo. Mais. Agora. Sei que é difícil, quase impossível, que os tempos humanos consigam tais ritmos – só o universo é exato, apesar de seus buracos negros e os homens são assim mesmo, desordenados e anárquicos.
A dolarização da vida nos leva a crer, muitas vezes, que a felicidade se compra mesmo, ali, cash, sem desconto, pois o produto é bom, meu senhor, e está em falta. Portanto, aproveite a oportunidade antes que o Mercado, esta entidade sensível aos rumores, mas insensível à humanidade, faça você perder a chance da sua vida. Wall Street e a Nasdaq passaram, há muito, a ter o controle de suas ações.
Houve uma época que Hollywood acreditava que a felicidade não se comprava. Ela era um presente, uma conquista de uma vida inteira que não podia ser trocada por moedas, mas sim descoberta, sem se tratar propriamente de um golpe de sorte, mas de um desvio intencional, volitivo, o que não elimina – e talvez até reforce – o estranhamento.

NO BANCO


Entrou no banco. Despreocupadamente. Tudo aquilo que fazemos por obrigação, sem conseguir disfarçar o tédio era, para ele, uma tarefa prática: descontar cheques, conferir saldo, enfrentar fila, pagar contas, perder um tempo nunca ressarcido.
Calor. Banco cheio. Ar deficiente. Fila morosa. Relógio da parede quebrado. Funcionários mais lentos do que o costume. Mas ninguém parecia se importar muito. Um senhor de bengala, diante do gerente, pedia um empréstimo. Outro, óculos na ponta do nariz, examinava atentamente o extrato da conta , enquanto a mulher humilde, tecnofóbica, suava frio diante do terminal eletrônico.
Movimento na fila. “Vai ser rápido”, pensou, virando-se, por puro reflexo, para trás. Um choque. Perto da porta, ela o olhava. Não se viam há tempos – fato raro numa cidade tão pequena. Pressentiu: mais cedo ou mais tarde se encontrariam. Havia se preparado. Mesmo assim, a súbita visão o perturbou.
Discreto, cumprimentou- a. Sorriu sem jeito, fazer o quê?, ainda semi-paralisado. Alguém gritou:
- Olha a fila!
Dois passos a frente. Olhou o relógio parado marcando a hora daquele encontro sem tempo. Que fazer? Que dizer? Que sentir?
Virou-se novamente, avaliando a distância que os separava. Cinco, seis metros? Uma vida?
Achou-a ainda muito bonita. Reconheceu o gesto antigo quando a viu puxar os cabelos negros para trás. Por um instante, sentiu desmoronar anos e anos de indiferença planejada. Cartas e fotos antigas, sepultadas nas grandes gavetas de mogno, já estavam convenientemente esquecidas. Não havia mais encontros, telefonemas ou sustos. Tudo, ou quase tudo, se dissipara na bruma do tempo. Eles haviam mutuamente se transformado em lembranças pálidas, sem contorno ou cor.
De fato, numa outra época, eles haviam sido felizes. Talvez por causa da idade – eram jovens e aos jovens tudo se perdoa – tinham a ilusão de que acabavam de penetrar num mundo perfeito, sem sofrimento, sem dores. Lembrou da vezes que contemplavam o pôr do sol e de uma tarde em especial, quando ela falou, séria, olhando para ele: “Na presença da eternidade, mesmo as montanhas mais altas são mais transientes do que as nuvens.” Ele nunca entendera bem o que ela quisera dizer com isso, mas a frase passou a ser mais um detalhe embrincado no já extenso mosaico de memórias em que sua vida havia se transformado. Decidiu, então, que não havia mais o que fazer e que não adiantava procurá-la no grande labirinto que surgira à sua frente.
Então, de repente, ela. Viu-se atônito, num torvelinho de sentimentos desencontrados. Ali mesmo, num prosaico banco lotado e sufocante.
Um funcionário apareceu com uma escada. Abriu o vidro do relógio e cirurgicamente, mexeu nas suas engrenagens. Num instante, restabeleceu-se a hora oficial. Um ruído surdo e, quase imediatamente, o ar também voltou a funcionar.
A fila se movimentou nervosamente. Algumas pessoas acorreram ao balcão de informações e a porta giratória acusava alguém portando algum objeto de metal, enquanto o único caixa disponível contava, com ar entediado, um bolo de notas amassadas.
Olharam-se mais uma vez. Imóvel, ele esperava um movimento dela para prosseguir vivendo. Com as mãos, ela deu um nó suave nos cabelos e o fixou com um lápis. Como antigamente, ele pensou. Mas ela desistiu da fila como se, desiludida, também desistisse dele. Foi embora, sem um gesto de despedida ou atenção.
Surpreso, mais um vez, ele mal teve tempo de se dirigir ao caixa que, sem paciência, já o chamava batendo furiosamente com a uma caneta no vidro do balcão.

TIM BURTON E A ESTÉTICA DO GROTESCO


Tim Burton é um sujeito esquisito. Quando se entrega às suas tristezas e angústias, é um expoente do cinema americano. Não esperem dele o glamour dos musicais ou a suavidade das comédias românticas. O diretor é, por natureza, um daqueles tipos angustiados, que não se sentem muito bem na própria pele e que buscam na palheta das escuras nuances do sofrimento o tom certo para delinear suas produções. Todos os seus filmes podem ser vistos por este viés: dos mais dramáticos, como Edward Mãos de Tesoura, aos mais cômicos, como A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. Reinventou, com maestria e uma overdose de sombras, um Batman imune ao Prozac e macacos malvados que, no futuro, organizariam um planeta só para eles.
Os personagens de Burton são tristes, entediados ou neuróticos. O protagonista geralmente é econômico em seus arroubos heróicos e quem realmente arrebata o espectador são aqueles que, em princípio, seriam os vilões das histórias. Parece que se compraz com a composição de contos de fadas com o sinal invertido, nos quais os personagens grotescos ou repugnantes dão o tom. Se fosse filmar a história da Branca de Neve, provavelmente centraria sua narrativa na Bruxa ou nos anões, explorando o que há de mais bizarro nos tipos mais excêntricos.
Excentricidade talvez seja mesmo a melhor descrição para o seu trabalho. Excêntrico vem do Latim ex centricu, que significa aquele ou aquilo que se desvia ou se afasta do centro. Sua abordagem é exatamente assim: uma fuga do que se convencionou normal ou padronizado nas histórias nas quais o herói ocupa, sem parcimônia, todo o espaço do proscênio. Para ele, os vilões também amam ou merecem ser amados, mesmo sendo malvados e feiosos, como no caso do Pingüim de Batman, O Retorno, feito pelo excepcional Danny DeVito, do Coringa de Jack Nicholson, no filme anterior, e de Edward, com suas mãos tesourando quem quer que dele se aproxime.
Estes personagens, suas histórias e lados mais obscuros, nos remetem às obras de Edgard Allan Poe, Ionesco, Mervyn Peake e outros escritores que buscavam no grotesco uma representação mais sutil da alma. Pinçando um personagem como o Coringa, por exemplo, maravilhosamente bem trabalhado por Burton, podemos reconhecer um pouco do protagonista do romance O Homem Que Ri, do escritor francês Victor Hugo. A estética do tempo de Victor Hugo tinha como lema a combinação entre o sublime e o grotesco, a criação de personagens repugnantes que comovessem o leitor, como o corcunda da ópera Rigoletto, também inspirado num livro seu.
O termo grotesco nos chegou através do italiano grottesea, que deriva de grotta (grota, caverna), uma alusão a certas cavernas sob Roma nas quais foram encontradas pinturas características deste estilo deformado e absurdo. Mais tarde, se transformou em adjetivo, descrevendo alguma coisa nesta categoria estética bizarra, supernatural, fora dos padrões, cujas imagens privilegiam a análise, crítica ou reflexão, o disforme, o ridículo, o extravagante. A partir do século 18, o termo começou a ser usado na Literatura para caracterizar comédias ou sátiras que mostrassem as contradições e as inconsistências da vida.
Cinema e literatura têm sido aspectos complementares e fundamentais na percepção que temos do mundo. Livros e filmes são referências pontuais que vamos acumulando durante a vida e, não raro, um influencia o outro e o resultado desta combinação vai aduzindo elementos ao imaginário das histórias que lemos através do cinema.
Desta forma, Tim Burton consegue um duplo objetivo: agrada aos que buscam a fantasia do cinema, e incomoda, no melhor sentido, em virtude de seus intricados meios de direção, os que tentam ler nas entrelinhas, e nas entrecenas, o sentido menos explorado da vida destes personagens marginalizados com os quais ninguém quer se identificar - estes mesmos personagens que simbolizam também o lado mais obscuro que nem tentamos descobrir em nós mesmos.

Mas Tim casou-se com Helena Borhan-Carter e, assim, diminuiu sensivelmente o coeficiente de bizarrices na sua artística vida.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

A APARIÇÃO



Era um sonho. Entrou no apartamento e colocou as chaves na mesa de mármore da sala. O mesmo raio de sol, entrando de través pela janela, fez brilhar porcelanas, pratas, cristais. Sentiu-se, no entanto, como o próprio fantasma de uma lembrança e não uma pessoa viva, em carne e osso.
A solidão que então lhe pesava não era a solidão provisória que uma companhia costuma resolver. Era uma solidão irremediável; a única pessoa que poderia pôr-lhe um fim estava longe, muito longe. Assim, estava só, perguntando-se o tempo inteiro o que lhe convinha fazer, se expulsar definitivamente a lembrança ou entregar-se a ela, deixando-se cair lentamente naquele oceano de fatos, naquela voz, naquele rosto.
Tem início assim, para ele, um período difícil e ao mesmo tempo, de modo obscuro, intenso. A saudade da mulher se expressava numa série de comportamentos rituais, como deixar os sapatos na janela para arejarem, ao chegar a casa; dobrar cuidadosamente as roupas no armário; escrever cartas durante a madrugada. Estes atos cotidianos faziam-no ultrapassar a fase da contemplação fetichista e induziam-no a uma veleidade alucinatória: no silêncio, apurava os ouvidos como que esperando ouvir a voz da mulher falando na cozinha ou no quarto; ou, de noite, na hora de deitar-se, quase acreditava vê-la na cama, encostada aos travesseiros, lendo.
Sabe que continua a agir sem sentido. Espera uma aparição da mulher, uma epifania; torna-se refém de seu retorno. Espera que ela bata à porta, ou telefone à noite, dê um endereço qualquer e peça para que ele vá buscá-la. Imagina-a com um vestido azul, leve, como ela – o mesmo que usava quando se encontraram.
Finalmente, depois da idéia do retorno, começa a instalar-se nele a do reencontro. Embora não estejam perto, pensa vê-la na rua, dobrando uma esquina, entrando numa loja, pegando um táxi. Sente-lhe o perfume e, não raro, vira-se como um desses bonecos de marionetes, sem vida e sem voz, puxados grotescamente por um titereteiro inábil, achando que a ouviu dizer seu nome.
Incompreensíveis são os caminhos da saudade. A saudade quer apossar-se de nós a todo instante. E ela mesma é coisa instante. Aparece de repente, pelo cheiro, pela visão, pelo som que remetem à coisa amada. Para isso, reveste-se de todos os disfarces, representando ocasionalmente em nós papéis que se repetem por longas temporadas. Outras vezes, sua atuação é eletronicamente rápida e múltipla como um teatro de variedades: entre duas batidas do coração, a saudade entra lá dentro. E aí, toda a tessitura humana representa uma peça completa e se retira de cena, para retornar no intervalo de duas batidas, com uma novidade, um novo guarda-roupa, uma nova encenação, um novo argumento. A esse alucinante virtuosismo teatral da saudade devemos a perplexidade do conhecimento. Num único instante, simultaneamente, podemos ter a impressão de que agarramos afinal a realidade do mundo e que ela fugiu de nós para todo o sempre.
Lembrou que, um dia, alguém disse: a saudade passa. Passa como os rios passam; como passa o circo em tumulto num povoado de crianças, como passa o mergulhador nos corredores pesados do mar, como passa o tempo, a doida cantando, a vida. Lembrou-se e achou graça. Não, com ele a saudade não passava.
Chegou à janela e sentiu no rosto o ar da noite, transido de outras e distantes solidões, de todos os tipos, de todas as pessoas. Pensou que parecia haver um freio que não permite amar o que está ao alcance da mão. Por que esta dificuldade de amar o imediato?, perguntou a si mesmo. Estava vivendo na contramão da história e quando se encontrava com os equívocos do passado, ficava confuso e perplexo, perdido no meio de um nada.
Se estava ali, sozinho, sua única alternativa era tentar entender os motivos de ter sido esquecido e arcar com o prejuízo. Reconhecia que não era fácil assumir esta atitude, mas era a única que preservava algum resto de dignidade na sua obscura existência de sujeito excluído. Por um instante, percebeu que os projetos de amor, felicidade e plenitude são intangíveis e que por isso as pessoas preferiam buscá-los a encontrá-los.
O problema era sempre o mesmo: tempo para amar e viver este amor junto. É difícil, quando não impossível, que os tempos humanos consigam tais ritmos, só o universo é exato, os homens são desordenados e anárquicos. Há um grande vazio a ser preenchido na vida. Daí, os compositores saberem a importância do silêncio e os escritores não viverem das palavras que escrevem, mas dos espaços que as separam.
Pensou em Sartre, nauseado, descrevendo a concretude indiferente de uma árvore. Pensou ainda que não é por outra razão que os que amam precisam se separar para descobrir que se amam de verdade. A beleza, profunda, funda, doída da vida, talvez só pudesse ser apreciada de longe, no espaço e no tempo, como uma foto em preto-e-branco de Marc Ferraz.

CINEMA E LITERATURA - I



O silêncio da madrugada não apenas emoldura, mas também reforça os movimentos mágicos e significativos de Chaplin em Luzes da Cidade. Descrevo – ou pelo menos tento – essa sensação através das palavras que, também silentes, preenchem a tela luminosa do computador, e percebo que o cinema, como arte, renovou o nosso conceito de literatura, principalmente na invenção de novos modos narrativos.
A invenção do cinema foi, sob certos aspectos, uma redescoberta das artes puras, pois retratando as feições imediatas da vida, suas emoções e alcances intelectuais, e da natureza com mais exatidão do que as artes plásticas e as palavras atingiu o inesperado artístico.
Mais de 110 anos se passaram desde que os irmão Lumière assombraram os parisienses com o cinematógrafo. Desde então, calcula-se que mais de um milhão de filmes foram rodados em todo o mundo e, consequentemente, feitas muitas releituras. Mostrou também que a descrição literária não descreve com precisão, pois cada leitor cria pela imaginação uma paisagem sua, apenas servindo-se dos dados capitais fornecidos pelo autor. Por isso, cada obra só existe a partir que vista/lida/vivenciada. Um livro jamais lido continua sendo um livro? Um filme inédito ainda é um filme? a resposta é clara: ao ler um livro (ver um filme), nós o destruímos e o transformamos em outro livro. Um livro sempre nasce de outro destruído. As palavras e as imagens não nos pertencem. São abismo.
Para uma melhor compreensão do entrelaçamento entre cinema e literatura talvez seja possível imaginar um processo em que os filmes buscam nos livros temas e modos de narrar extraídos, por sua vez, dos livros. Nenhuma arte é totalmente autônoma no sentido de não utilizar meios de expressão comuns a outras artes. O cinema como conceito, dessa forma, tão logo se concretizou na tela, iluminou a literatura, renovou a escrita, abriu picadas na densa floresta da imaginação, Como fundir imagens com o mesmo impacto depois do primeiro baile de luzes e sombras sobre a tela em Paris?
Para Gertrude Stein, antes de Cézanne, “a composição consistia numa idéia central. Todos os outros elementos acompanhavam esta idéia ou se subordinavam a ela, não tinham uma existência em si”. Esta ponte com as artes plásticas – a pintura, no caso – joga luzes no argumento que a imagem é muito mais do que ela diz. Multiplica-se esse efeito pela corrida de fotogramas do cinema, e teremos uma revolução em termos narrativos.
No cinema, nenhuma memória é permanente. Na imagem continuamente em movimento, não existe a memória do objeto, existe, sim, o objeto existindo. Pois vejamos: a prosa cada vez mais visual e urbana dos últimos anos tem imposto limitações à criação literária - perde-se de vista o mundo interior e mais reflexivo dos personagens. Ganha-se em ritmo e velocidade, impactos e sustos, mas perde-se em profundidade.
A velocidade em que a vida é retratada nas telas impõe um certo paralelismo aos novos escritores. Um Machado de Assis, nos dias de hoje, ficaria, pelo menos, confuso e sem condições de escrever Dom Casmurro, não apenas pelo anacronismo do tema, mas, sobretudo, pela forma com que as relações afetivas vêm atingindo seu nível mais raso, na maior parte das vezes.
“Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa...”, dizia Stein a respeito da dificuldade de achar explicações para determinadas coisas na vida. Concordo. Na relação intercambiável entre Cinema e Literatura, faltar-me-ão palavras para descrever o processo sempiterno da construção das imagens. Chaplin não precisou delas. No entanto, continuarei insistindo.

071108