domingo, 25 de novembro de 2007

A MOÇA DA LOJA


Antônio tinha um sonho. O sonho se chamava Anna e trabalhava numa pet shop, dessas cheias de cachorrinhos, cadelinhas, gatinhos e passarinhos, todos aparentemente felizes nas suas jaulinhas assépticas, comida farta e regular.
Antônio achava que a moça – chamava-se Anna, como haveremos de saber – era linda demais para desperdiçar tempo num lugar daqueles e imaginava para ela uma vida mais glamourosa, menos previsível, uma vida de princesa, ao seu lado. Mas Antônio era um esteta tímido: só a conhecia de vista e jamais tivera coragem de se aproximar de Anna e de seus longos cabelos louros, suas formas arredondadas e elegantes, seu sorriso amplo e seus olhos verdes. Mas, no fundo, conhecia-a, sabia-a, amava-a tanto e com tanto silêncio que achava melhor deixar assim mesmo e não provocar o que, nela, poderia ser um desencanto sem remédio, caso se apresentasse pessoalmente e lhe declarasse o sentimento represado.
Mas e o nome? Como sabia o nome da moça?
Fácil. Já havia descoberto seu itinerário para o trabalho, e até o edifício onde morava. Postava-se numa esquina e esperava-a passar, do outro lado da calçada. Um dia, uma amiga a chamou pelo nome: Anna!
Ah! Um palíndromo perfeito, pensou, satisfeito, com suas vogais laterais e nn internos sugerindo um ronronar de gata que ele imaginava esparramada numa ampla cama, entre travesseiros e sonhos que ele, lógico, dividiria sem hesitar caso...
Caso ele não concebesse um plano para alcançá-la e lhe dizer alguma coisa que a fizesse reparar nele e aceitar aquele amor grande que aumentava cada vez que Anna passava, distraída, sem nem imaginar que Antônio, do outro lado da rua, diariamente, fazia planos, acariciava-lhe mentalmente os cabelos de ouro, beijava-lhe o pescoço longo, apertava-lhe as coxas grossas e lambia-lhe cupidamente os seios que as blusas decotadas lhe ofereciam, impiedosamente, naquele espetáculo matutino.
Postou-se, dia após dia, na esquina estratégica, de onde podia contemplá-la com esta admiração platônica, porém tenaz, dos acanhados, em cujos corações se escondem os maiores e mais compreensíveis amores. Deu, a si próprio, o prazo de mais um mês, ao fim do qual, caso nada acontecesse até então, dirigir-lhe-ia a palavra e todo o amor que por ela cultivara neste período de angústia, expectativas e incertezas.
Mas a insegurança típica destes momentos importantes, nos quais acreditamos estar dando o passo definitivo em direção ao nosso destino, levou Antônio a deixar o tempo correr sem que tomasse uma iniciativa mais eficaz, esperando que, enquanto isso, algo inesperado acontecesse e trouxesse Anna para seus braços.
Dez dias. Quinze. Agora só faltava um. Durante todo este tempo, manteve-se à espreita, olhando-a indo ao trabalho, passando, vez por outra, pela porta da loja, vendo-a ir e voltar para casa, alheia ao processo que o consumia desde a primeira vez que a vira. Já havia deixado o acaso trabalhar para si, sem que obtivesse qualquer resultado. Amanhã, teria que se aproximar mais, conforme a si próprio prometera.
Chegara a hora. Esperou que ela viesse, como sempre o fazia, pela calçada, distraída, para mais um dia comum na sua vida comum de moça loura e linda. Virou a esquina e ele pôde vê-la, ainda de longe, no esplendor da sua louridão, do seu olhar de esperança, do seu corpo perturbador.
Antônio estava de pé, do lado oposto à calçada na qual ela caminhava, repetindo para si mesmo o início do diálogo que imaginara para começar aquele romance que mudaria sua vida.
Atravessou a rua e logo se viu bem diante dela. Por um momento, inesperadamente, achou-se a mais ridícula das criaturas e não teve coragem de dizer uma única palavra das muitas que havia decorado. Ela passou rápido, sem olhá-lo, como se ele não existisse mesmo. Antônio se virou ainda sentindo o perfume dos cabelos que naquele dia estavam soltos e mais louros do que nunca.
Como chegar tão perto de um sonho e vê-lo passar assim como um estranho na multidão? Não, iria até ela e lhe diria, de uma só vez, o discurso que havia preparado durante a vida, um discurso amorável e até meio ingênuo, mas que era um apanágio dele reservado única e exclusivamente a ela, a Anna dos seus sonhos, dos seus desejos, a Anna que preenchia aquele silêncio enorme a que ele chamava de vida. Não! Chegara muito perto, preparara-se para aquele momento, para o encontro definitivo, para tudo acabar assim. Não desistiria.
Assim, correu para alcançá-la antes abrisse a loja. À medida que se aproximava, despenteava-se, encharcava-se num suor quase febril, sentia o ar frio da manhã furar-lhe o peito, continente incompatível com amor que transbordava como se estivesse carregando uma xícara de café dentro de um ônibus em movimento. Corria, suava, extravasava, não se continha, na esperança de chegar ainda transpassado de emoção insonte diante dela, seu objetivo maior, sua razão de postar-se diariamente naquela esquina solitária só para testemunhar um pouco de luz e esperança.
_ Anna!
A voz saiu abafada, mais pelo esforço da corrida do que pelo nervosismo natural de estar diante daquela mulher que parecia ser feita de uma ilusão sem fim. Mas, afinal, ali estava ele, pronto para falar. Falar? Sim, falar, vamos! Articule algumas palavras, apresente-se, diga bom dia, sei lá!
Mas sentiu as pernas fraquejarem e um zumbido tomar conta de sua cabeça. Tentou ainda fixar os olhos na mulher que o olhava um pouco assustada, sem entender o que estava acontecendo. Tentou sorrir e dizer alguma coisa. Mas faltou-lhe ar exatamente quando mais precisava, o mundo pareceu girar e, num instante, Antônio caiu de bruços, desmaiado, aos pés da sua amada que, muito prudentemente, se afastou com discrição, pediu demissão da loja e, em poucos dias, se casou com o dono do açougue da esquina que nunca havia lido um só livro na vida, mas sabia preparar um churrasco que ela achava divino.
Moral da história: um sonho é facilmente visualizável, mas a escala de valores não.

Nenhum comentário:

Postar um comentário