domingo, 25 de novembro de 2007

TIM BURTON E A ESTÉTICA DO GROTESCO


Tim Burton é um sujeito esquisito. Quando se entrega às suas tristezas e angústias, é um expoente do cinema americano. Não esperem dele o glamour dos musicais ou a suavidade das comédias românticas. O diretor é, por natureza, um daqueles tipos angustiados, que não se sentem muito bem na própria pele e que buscam na palheta das escuras nuances do sofrimento o tom certo para delinear suas produções. Todos os seus filmes podem ser vistos por este viés: dos mais dramáticos, como Edward Mãos de Tesoura, aos mais cômicos, como A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. Reinventou, com maestria e uma overdose de sombras, um Batman imune ao Prozac e macacos malvados que, no futuro, organizariam um planeta só para eles.
Os personagens de Burton são tristes, entediados ou neuróticos. O protagonista geralmente é econômico em seus arroubos heróicos e quem realmente arrebata o espectador são aqueles que, em princípio, seriam os vilões das histórias. Parece que se compraz com a composição de contos de fadas com o sinal invertido, nos quais os personagens grotescos ou repugnantes dão o tom. Se fosse filmar a história da Branca de Neve, provavelmente centraria sua narrativa na Bruxa ou nos anões, explorando o que há de mais bizarro nos tipos mais excêntricos.
Excentricidade talvez seja mesmo a melhor descrição para o seu trabalho. Excêntrico vem do Latim ex centricu, que significa aquele ou aquilo que se desvia ou se afasta do centro. Sua abordagem é exatamente assim: uma fuga do que se convencionou normal ou padronizado nas histórias nas quais o herói ocupa, sem parcimônia, todo o espaço do proscênio. Para ele, os vilões também amam ou merecem ser amados, mesmo sendo malvados e feiosos, como no caso do Pingüim de Batman, O Retorno, feito pelo excepcional Danny DeVito, do Coringa de Jack Nicholson, no filme anterior, e de Edward, com suas mãos tesourando quem quer que dele se aproxime.
Estes personagens, suas histórias e lados mais obscuros, nos remetem às obras de Edgard Allan Poe, Ionesco, Mervyn Peake e outros escritores que buscavam no grotesco uma representação mais sutil da alma. Pinçando um personagem como o Coringa, por exemplo, maravilhosamente bem trabalhado por Burton, podemos reconhecer um pouco do protagonista do romance O Homem Que Ri, do escritor francês Victor Hugo. A estética do tempo de Victor Hugo tinha como lema a combinação entre o sublime e o grotesco, a criação de personagens repugnantes que comovessem o leitor, como o corcunda da ópera Rigoletto, também inspirado num livro seu.
O termo grotesco nos chegou através do italiano grottesea, que deriva de grotta (grota, caverna), uma alusão a certas cavernas sob Roma nas quais foram encontradas pinturas características deste estilo deformado e absurdo. Mais tarde, se transformou em adjetivo, descrevendo alguma coisa nesta categoria estética bizarra, supernatural, fora dos padrões, cujas imagens privilegiam a análise, crítica ou reflexão, o disforme, o ridículo, o extravagante. A partir do século 18, o termo começou a ser usado na Literatura para caracterizar comédias ou sátiras que mostrassem as contradições e as inconsistências da vida.
Cinema e literatura têm sido aspectos complementares e fundamentais na percepção que temos do mundo. Livros e filmes são referências pontuais que vamos acumulando durante a vida e, não raro, um influencia o outro e o resultado desta combinação vai aduzindo elementos ao imaginário das histórias que lemos através do cinema.
Desta forma, Tim Burton consegue um duplo objetivo: agrada aos que buscam a fantasia do cinema, e incomoda, no melhor sentido, em virtude de seus intricados meios de direção, os que tentam ler nas entrelinhas, e nas entrecenas, o sentido menos explorado da vida destes personagens marginalizados com os quais ninguém quer se identificar - estes mesmos personagens que simbolizam também o lado mais obscuro que nem tentamos descobrir em nós mesmos.

Mas Tim casou-se com Helena Borhan-Carter e, assim, diminuiu sensivelmente o coeficiente de bizarrices na sua artística vida.

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