
Um homem sentado num banco de praça lê o jornal sem se importar com a algaravia de umas crianças que saíram do colégio e que agora brincam na grama, se escondem atrás das estátuas, e agarram-se nas brincadeiras mais violentas e mais suaves que existem. O homem, este homem, encerra-se em seu mundo, calado para si mesmo.
Olho-o, assim, meio isolado da vida e sinto um pouco da sua solidão. Veste-se de maneira comum, mas, na posição em que se encontra, contra o sol tênue do final da tarde – inesperadamente, numa praça repleta de crianças - projeta na minha mente um Fernando Pessoa taciturno, com jeito de quem não foi convidado para aquilo, meio triste atrás dos óculos de aros finos e do circunflexo bigode que torna seu silêncio ainda mais fechado.
Dou-me conta, sabe-se lá porque, que muitos homens devem se sentir assim nos dias de hoje. Mesmo quando se encontram e riem alto, dando tapinhas nas costas dos outros, quando bebem juntos falando animados ou concentrados na discussão de algum negócio importantíssimo, entrevejo neles toda uma melancolia que me enche de respeito e me comove. Observo-os num parque assim como este, com os filhos pequenos, olhando-os entre embevecidos e ternos; ou calados num restaurante diante da companheira a quem parecem não ter mais nada a dizer.
Imagino o que sentem quando têm que ir ao advogado tratar da pensão da esposa que amou no silêncio do seu mundo macho, mas autêntico, ou da visita regulada aos filhos, um final de semana sim, outro não; ou quando dirigem seus carros no torvelinho de um trânsito que ninguém merece, ou caminhando apressados com uma pasta na mão, pensando na família que ficou ou no trabalho que os espera, na filha que fuma maconha, na idade que passa e pesa se multiplicando em frustrações materiais e títulos vencidos. Pensam também em todo o passivo afetivo encharcado em chopes e caipirinhas, em todas as noites de jogo e lassidão malsã, e nas lágrimas que não verteram no enterro daquele amigo mais engraçado, mais animado e que justamente faltou naquele dia em que mais precisavam dele.
Estes homens não sabem que me importo com o que se lhes passa na cabeça quando brincam com a amante e lembram-se, num gesto dela, num jeito de rir, daquela que ficou em casa, ou da que agorinha mesmo foi buscar o mais novo no colégio, e que confia nele. Como é profundo e incompreensível o sofrimento destes homens.
Como muitos ainda suportam escutar, desde pequenos, que “homem não presta”, daquelas para as quais se esforçam em serem leais, ternos e grandes companheiros, e se ver em constante luta para provar que também queimam de solidão, que estão soterrados pelo peso de ter que ser firme e forte sem titubear, de ter sucesso e não fraquejar; de não demonstrar o medo de se aposentar e virar uma caricatura de pijama e chinelos, sozinho, impotente e vagamente patético?
São mesmo fortes estes homens que, ao se inclinarem para beijar a mulher, fingem não perceber uma repulsa mal disfarçada; que têm todos os seus planos frustrados porque a companheira nunca está disposta para sair, que detesta todos os amigos dele e seus tolos divertimentos, que não valoriza seus esforços e nunca aprecia seus presentes. Eles ainda não sabem que estão sozinhos.
Mas há aqueles que não se importam mesmo, e para quem serve uma criatura muda que lhes traz o chinelo ou a comida requentada do almoço e vai lhes dando herdeiros e solidão, sem se dar conta que os cabelos estão embranquecendo, a voz se tornando mais rouca e cansada, a pele sem viço e os olhos baços como os daqueles peixes esquecidos no fundo das bandejas das peixarias, que ninguém mais quer, pois deles já não se aproveita nem a morte.
Durante este tempo todo, me dou conta que há uma legião de homens assim, crianças, esquecidos, incapazes de se comunicar e que aquele homem do início deste texto continua sentado no banco de uma praça e seu jornal/escudo o protege das idéias pré-concebidas que certas mulheres, e um outro tanto de homens, promovem numa corporação unida por péssimas intenções, se esquecendo, ou mesmo ignorando volitivamente, que muitos que estão sentados no banco da praça, num fim de tarde, estão, na verdade sofrendo calados e ansiando, sem esperança, pelo grande amor que só uma mulher especial, aquela não teve o amor interdito pelo atávico ódio ao companheiro, pode ensinar.
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