
O silêncio da madrugada não apenas emoldura, mas também reforça os movimentos mágicos e significativos de Chaplin em Luzes da Cidade. Descrevo – ou pelo menos tento – essa sensação através das palavras que, também silentes, preenchem a tela luminosa do computador, e percebo que o cinema, como arte, renovou o nosso conceito de literatura, principalmente na invenção de novos modos narrativos.
A invenção do cinema foi, sob certos aspectos, uma redescoberta das artes puras, pois retratando as feições imediatas da vida, suas emoções e alcances intelectuais, e da natureza com mais exatidão do que as artes plásticas e as palavras atingiu o inesperado artístico.
Mais de 110 anos se passaram desde que os irmão Lumière assombraram os parisienses com o cinematógrafo. Desde então, calcula-se que mais de um milhão de filmes foram rodados em todo o mundo e, consequentemente, feitas muitas releituras. Mostrou também que a descrição literária não descreve com precisão, pois cada leitor cria pela imaginação uma paisagem sua, apenas servindo-se dos dados capitais fornecidos pelo autor. Por isso, cada obra só existe a partir que vista/lida/vivenciada. Um livro jamais lido continua sendo um livro? Um filme inédito ainda é um filme? a resposta é clara: ao ler um livro (ver um filme), nós o destruímos e o transformamos em outro livro. Um livro sempre nasce de outro destruído. As palavras e as imagens não nos pertencem. São abismo.
Para uma melhor compreensão do entrelaçamento entre cinema e literatura talvez seja possível imaginar um processo em que os filmes buscam nos livros temas e modos de narrar extraídos, por sua vez, dos livros. Nenhuma arte é totalmente autônoma no sentido de não utilizar meios de expressão comuns a outras artes. O cinema como conceito, dessa forma, tão logo se concretizou na tela, iluminou a literatura, renovou a escrita, abriu picadas na densa floresta da imaginação, Como fundir imagens com o mesmo impacto depois do primeiro baile de luzes e sombras sobre a tela em Paris?
Para Gertrude Stein, antes de Cézanne, “a composição consistia numa idéia central. Todos os outros elementos acompanhavam esta idéia ou se subordinavam a ela, não tinham uma existência em si”. Esta ponte com as artes plásticas – a pintura, no caso – joga luzes no argumento que a imagem é muito mais do que ela diz. Multiplica-se esse efeito pela corrida de fotogramas do cinema, e teremos uma revolução em termos narrativos.
No cinema, nenhuma memória é permanente. Na imagem continuamente em movimento, não existe a memória do objeto, existe, sim, o objeto existindo. Pois vejamos: a prosa cada vez mais visual e urbana dos últimos anos tem imposto limitações à criação literária - perde-se de vista o mundo interior e mais reflexivo dos personagens. Ganha-se em ritmo e velocidade, impactos e sustos, mas perde-se em profundidade.
A velocidade em que a vida é retratada nas telas impõe um certo paralelismo aos novos escritores. Um Machado de Assis, nos dias de hoje, ficaria, pelo menos, confuso e sem condições de escrever Dom Casmurro, não apenas pelo anacronismo do tema, mas, sobretudo, pela forma com que as relações afetivas vêm atingindo seu nível mais raso, na maior parte das vezes.
“Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa...”, dizia Stein a respeito da dificuldade de achar explicações para determinadas coisas na vida. Concordo. Na relação intercambiável entre Cinema e Literatura, faltar-me-ão palavras para descrever o processo sempiterno da construção das imagens. Chaplin não precisou delas. No entanto, continuarei insistindo.
071108
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