quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

ESCOIMANDO A LÍNGUA



Gosto da língua. De todas as nacionalidades, de todos os sabores e saberes. Aprecio a alaúza que ela faz e a ascese que ela provoca em gente estranha que gosta de ler e escrever diariamente: cem abdominais de estilo, supino de vocabulário, caminhada matinal por landas literárias de diferentes países. Gosto desta propedêutica, das preliminares que devem balizar o conhecimento dos limites das palavras; das perspectivas sincrônica e diacrônica da língua. Sou, como o Joaquim, um taxidermista semântico, sem papas na língua. Consumo doses altíssimas de dicionários online ou não. Procuro, sintaticamente, a versão sem cortes da vida. Tenho aversão ao silêncio. Só na língua portuguesa, são 90 000 mil, nervosas, à procura de um bom cultor. Palavra emagrece – mais de 350 kcal por segundo. A rotina ideal depende do indivíduo e do que ele sente nos canos hidráulicos, quando ouve alguém dizer que “deambulou por aí”, ou se depara com o mau uso do demonstrativo ou com a falta da vírgula no fim da circunstância antecipada.. Há de se ter capilaridade, hein Giovanni? A língua se intromete, a danada. Agora, no Congresso, alguém (quem mesmo?) quer proibir palavras estrangeiras em anúncios publicitários, meios de comunicação, documentos oficiais, letreiros de lojas e restaurantes. Quero ver. É de uma clareza de alabastro que isso não vai pegar. Experimente suprimir a palavra show do vocabulário médio de um brasileiro: ninguém mais sai de casa para pagar um ingresso. E se não pudermos mais dizer de uma garina que ela é sexy? Vamos perder muito. Não se pode dar um chute no traseiro de um trompe-l'oeil sem mais nem menos, sob pena de não se ter mais como apreciar os alcances artísticos do mundo das imagens. Sejamos razoáveis: para que proteger a língua de influências estrangeiras? Nada mais pedestre. Como viver sem o to be or not to be de certas palavras que se aboletam nos lugares mais inesperados e lá ficam para sempre, como se nunca houvessem saído dali? Se a razão pode entrar em domínios que a transcendem, sem deixar de ser razão, o mesmo acontece com a emoção embutida em vocábulos como vórtice, penumbra, adejar, farândola, albores, e por aí vai. Abaixo ao autoritarismo píssico dessa gente que aproveita a onda legiferante apenas para aparecer na mídia (oops!). Sou a favor da anomia nestas questões, pois quero continuar a usar a língua e desfrutar de sua força sem me preocupar com normas absurdas. Melhor baixar o chanfalho, camarada! Nada mais kitsch do que essa penada contra a liberdade de expressão. Nada mais mendaz do que esse medo de invasão vernacular! Vamos lá, deixemos de dar rabelo a essa desídia. Shopping não está bom? Não serve para ocupar a vaga que ficou quando uma palavra esquecida se levantou e não voltou para o lugar? Nem o corretor ortográfico do computador denuncia. Coisa boa é mastigar galicismos sem temer dor de barriga. Evanildo Bechara bem o disse: “O nacionalismo lingüístico é uma parvoíce!”. Assino embaixo da declaração do nobre filólogo. Deixemos as portas abertas às palavras turistas que, uma vez por aqui, acabam se estabelecendo no enorme território lingüístico da nossa terra. Ação proativa é isso aí. É mais fácil jogar futebol do que balípodo. Essa implicância é um tremendo goal contra! Set point para nós, falou? Faltaria swing depois dessa blitz purista. Por isso, volto a afirmar: gosto da língua, das línguas, do que elas são capazes de fazer. A invasão das palavras funciona na contramão da ocupação do Iraque, porque enriquece o povo invadido. É como um Bush ao contrário: por onde passa constrói-se cultura e conhecimento. Não é preciso de ter medo delas, seja qual for a origem. Elas ajudam, sempre. O Natal passou, mas ainda dá para saborear o sentido de muitas. Experimente, morda, deguste, engula o caroço.
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

SEM CERTEZAS


Não tenho a intenção de usar o chamado marketing de guerrilha, mas é de uma clareza palmar que alguma coisa impactante vai acontecer com essas pessoas que só falam “com certeza” para tudo, e é meu dever (não?) registrar tal risco aqui no meu quadrado virtual. Cada vez mais tenho menos certeza de tudo. “De omnibus dubitandum est”, já falava René Descartes, muito antes de São Tomé que, mesmo assim, andou dançando em um sem número de ocasiões - é só dar um reboot na memória RAM que ainda lhe resta. O mundo, tal como o conhecemos (será?), vem mudando celeremente há, pelo menos, três lustros, e para acompanhar tal transformação, milhares de livros e artigos já foram publicados. Redimensionou-se a noção (antiga) de tempo. O tempo de hoje não é mais o tempo de antigamente, assim como também era diferente entre as cidades e os povoados do interior. O exaflood da internet é inevitável, assim como também é a constatação de que não temos como absorver tamanho volume de informações. Pior: corremos o risco de perder aquela mínima – mas valiosíssima - capacidade de usufruir das poucas fontes de que dispúnhamos num tempo nem tão distante assim. Quem lembra? Eram só alguns canais de TV, com imagem precária e chuviscos fantasmagóricos que a HDTV há de enterrar de vez. E essas opções restritíssimas me fizeram ter uma infância para lá de rica, se comparada com o torvelinho de canais a cabo, internet e tudo mais que hoje é tão comum, mas pouco utilizado de maneira eficaz. Parece que é só abrir um buraco no chão asfaltado da jungle moderna para que uma onda de informações jorre como o petróleo por entre as mãos de James Dean, em Assim Caminha a Humanidade. Assim como não vejo sentido na expressão “ter uma vida pela frente” (por onde mais?), percebo toda uma dialética acessível no que um educador americano chamado Marc Prensky chamou de “imigrantes e nativos digitais”. Pois bem, são esses nativos que não se surpreendem com a imensidão da internet. Sabem que a rede é quase infinita e, por isso, não abrem o espectro mais que do que precisam. Tudo muito condizente com o modus operandi da pós-modernidade: rapidez, velocidade, análise instantânea das opções. “More, more, more...”, diria o Andrea True Connection, num LP rodando numa vitrola de museu. Mas, devagar com o andor, pega leve, puxe o freio de mão, segure a onda, baixe a bola. E a reflexão que fez Vinicius esculpir alguns dos mais lindos poemas em língua portuguesa? Reflexão demanda tempo. Divagar é parecido com devagar. É preciso deixar-se encharcar mais no banho-maria do mundo virtual. Mesmo assim, a multiplicidade das fontes não consegue fugir a certa padronização redutora incapaz de ir muito além da primeira página do Google. Ou seja, há mais democracia na informação, mas isso não implica necessariamente em mais riqueza no conteúdo e na forma. Portanto, mudemos o eixo cognitivo. Não mais morrer de sede diante do rio. Não mais CPMF, não mais spinplasmônica em papos nerds na rede, não mais idelis e renans, não mais Xuxa na TV, ou em qualquer lugar (Deus é grande!). Ainda se vai ao longe, devagar, divagando. Sem mais certezas, apenas dúvidas charmosas sobre qual o melhor filme de Visconti, se devemos temer a nanotecnologia ou se uma metáfora pode mesmo explicar aquele sonho que nunca morreu dentro de você.

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sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

MADALENA

Não sei que tonalidade verde me chamou pela primeira vez a atenção, mas posso dizer que, do lugar de onde estava, dava para ver um cinturão de árvores copadas, com seus frondosos galhos carregados de folhas, como se a minúscula capela estivesse protegida, no tempo e no espaço, do que existe do outro lado do mundo.
As pessoas chegavam devagar, em silêncio, como se viessem para um encontro marcado há muito tempo, para o qual não se exigia palavra alguma. Lágrimas solidárias pareciam desenhar látegos úmidos na face interminável dessa sufocante tarde de dezembro. Alguém que eu não conhecia me cumprimentou, eu acenei com a cabeça e, por um momento, senti que tinha valido a pena estar ali. Todos estavam vestidos com certa dignidade e minuciosamente limpos; isso parecia lhes dar um comprometimento maior com aquele interminável ritual de despedida.
Alguém sussurrou que a vida é dura e que só nos resta a morte; outro lembrou de uma tarde perdida no tempo, na qual havia café fresco e broa de milho sobre a mesa da cozinha ampla de cheiros de pomar; quando era fácil para um parente reconhecer o tio ou o sobrinho que não via há anos e selar este reencontro com abraços e risos honestos.
Entre apertos de mão e abraços tímidos, recordavam-se coisas. Um homem grisalho lamentava ser o único irmão sobrevivente; à senhora de bengala ocorreu o fato da assustadora freqüência com que voltava àquela mesma capela ultimamente; a bela moça de pulseiras e cabelo preso lembrou de sua mãezinha, e uma nuvem de lágrimas manchou rapidamente a dimensão celeste do seu olhar.
De dentro, ouvia-se o choro intermitente da filha devotada que buscava amparo nos braços frágeis e cansados do velho pai. A filha, abraçada assim ao pai, me suscitava uma tristeza imensa e profunda. Ali, naquele quadrado de cimento e massa, a solidão, o desamparo e o sofrimento constituíam um quadro que certamente não sairá da lembrança dos netos, ambos assustados e chorando também, agarrados a pernas adultas e a saias conformadas.
Ali, três gerações conheciam uma dor inqualificável.
Súbito, me dei conta de havia pouquíssimas pessoas que eu conhecia. No entanto, como quando acontecera há alguns instantes, só o fato de estar ali já me alçava à condição de quase-parente. E eu gostava disso. Duas senhoras encanecidas praticamente agradeceram minha vinda, quando pararam e me estenderam a mão para reconfortar ou serem reconfortadas, não importava. Do meu posto, via, ao mesmo tempo, o cinturão verde imenso e a aproximação de mais gente – moços, crianças e velhos, todos numa marcha lenta e determinada. Um grupo de jovens estava onde deveria estar: no jardim; antigas rodas se reuniam depois de anos, e seus integrantes, em determinados momentos, se sentiam culpados de soltar uma gargalhada pura e leve.
Dentro da casa, parecia ainda haver um vago eco das vozes que tinham falado na noite. Do lado de fora, encostado num Del Rey enferrujado, um homem de chapéu falava coisas místicas a um grupo de seres mudos que havia chegado atrasado. A mulher que eu conhecia estava sentada num banco, do lado de fora da capela. A filha lhe acariciava o rosto, numa conjugação terna de apoio e entendimento. O filho desta, neto daquela, queria saber de que cor eram as asas dos anjos, e de que tamanho eles eram. Uma voz de tia explicou que os anjos tinham as asas da mesma cor das flores que cobriam o corpo diminuto da bisavó, lá dentro, entre velas e o nada. O garoto sorriu e foi correr longe, perseguindo uma borboleta que flutuava sem destino no ar quente daquela tarde.

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domingo, 25 de novembro de 2007

A MOÇA DA LOJA


Antônio tinha um sonho. O sonho se chamava Anna e trabalhava numa pet shop, dessas cheias de cachorrinhos, cadelinhas, gatinhos e passarinhos, todos aparentemente felizes nas suas jaulinhas assépticas, comida farta e regular.
Antônio achava que a moça – chamava-se Anna, como haveremos de saber – era linda demais para desperdiçar tempo num lugar daqueles e imaginava para ela uma vida mais glamourosa, menos previsível, uma vida de princesa, ao seu lado. Mas Antônio era um esteta tímido: só a conhecia de vista e jamais tivera coragem de se aproximar de Anna e de seus longos cabelos louros, suas formas arredondadas e elegantes, seu sorriso amplo e seus olhos verdes. Mas, no fundo, conhecia-a, sabia-a, amava-a tanto e com tanto silêncio que achava melhor deixar assim mesmo e não provocar o que, nela, poderia ser um desencanto sem remédio, caso se apresentasse pessoalmente e lhe declarasse o sentimento represado.
Mas e o nome? Como sabia o nome da moça?
Fácil. Já havia descoberto seu itinerário para o trabalho, e até o edifício onde morava. Postava-se numa esquina e esperava-a passar, do outro lado da calçada. Um dia, uma amiga a chamou pelo nome: Anna!
Ah! Um palíndromo perfeito, pensou, satisfeito, com suas vogais laterais e nn internos sugerindo um ronronar de gata que ele imaginava esparramada numa ampla cama, entre travesseiros e sonhos que ele, lógico, dividiria sem hesitar caso...
Caso ele não concebesse um plano para alcançá-la e lhe dizer alguma coisa que a fizesse reparar nele e aceitar aquele amor grande que aumentava cada vez que Anna passava, distraída, sem nem imaginar que Antônio, do outro lado da rua, diariamente, fazia planos, acariciava-lhe mentalmente os cabelos de ouro, beijava-lhe o pescoço longo, apertava-lhe as coxas grossas e lambia-lhe cupidamente os seios que as blusas decotadas lhe ofereciam, impiedosamente, naquele espetáculo matutino.
Postou-se, dia após dia, na esquina estratégica, de onde podia contemplá-la com esta admiração platônica, porém tenaz, dos acanhados, em cujos corações se escondem os maiores e mais compreensíveis amores. Deu, a si próprio, o prazo de mais um mês, ao fim do qual, caso nada acontecesse até então, dirigir-lhe-ia a palavra e todo o amor que por ela cultivara neste período de angústia, expectativas e incertezas.
Mas a insegurança típica destes momentos importantes, nos quais acreditamos estar dando o passo definitivo em direção ao nosso destino, levou Antônio a deixar o tempo correr sem que tomasse uma iniciativa mais eficaz, esperando que, enquanto isso, algo inesperado acontecesse e trouxesse Anna para seus braços.
Dez dias. Quinze. Agora só faltava um. Durante todo este tempo, manteve-se à espreita, olhando-a indo ao trabalho, passando, vez por outra, pela porta da loja, vendo-a ir e voltar para casa, alheia ao processo que o consumia desde a primeira vez que a vira. Já havia deixado o acaso trabalhar para si, sem que obtivesse qualquer resultado. Amanhã, teria que se aproximar mais, conforme a si próprio prometera.
Chegara a hora. Esperou que ela viesse, como sempre o fazia, pela calçada, distraída, para mais um dia comum na sua vida comum de moça loura e linda. Virou a esquina e ele pôde vê-la, ainda de longe, no esplendor da sua louridão, do seu olhar de esperança, do seu corpo perturbador.
Antônio estava de pé, do lado oposto à calçada na qual ela caminhava, repetindo para si mesmo o início do diálogo que imaginara para começar aquele romance que mudaria sua vida.
Atravessou a rua e logo se viu bem diante dela. Por um momento, inesperadamente, achou-se a mais ridícula das criaturas e não teve coragem de dizer uma única palavra das muitas que havia decorado. Ela passou rápido, sem olhá-lo, como se ele não existisse mesmo. Antônio se virou ainda sentindo o perfume dos cabelos que naquele dia estavam soltos e mais louros do que nunca.
Como chegar tão perto de um sonho e vê-lo passar assim como um estranho na multidão? Não, iria até ela e lhe diria, de uma só vez, o discurso que havia preparado durante a vida, um discurso amorável e até meio ingênuo, mas que era um apanágio dele reservado única e exclusivamente a ela, a Anna dos seus sonhos, dos seus desejos, a Anna que preenchia aquele silêncio enorme a que ele chamava de vida. Não! Chegara muito perto, preparara-se para aquele momento, para o encontro definitivo, para tudo acabar assim. Não desistiria.
Assim, correu para alcançá-la antes abrisse a loja. À medida que se aproximava, despenteava-se, encharcava-se num suor quase febril, sentia o ar frio da manhã furar-lhe o peito, continente incompatível com amor que transbordava como se estivesse carregando uma xícara de café dentro de um ônibus em movimento. Corria, suava, extravasava, não se continha, na esperança de chegar ainda transpassado de emoção insonte diante dela, seu objetivo maior, sua razão de postar-se diariamente naquela esquina solitária só para testemunhar um pouco de luz e esperança.
_ Anna!
A voz saiu abafada, mais pelo esforço da corrida do que pelo nervosismo natural de estar diante daquela mulher que parecia ser feita de uma ilusão sem fim. Mas, afinal, ali estava ele, pronto para falar. Falar? Sim, falar, vamos! Articule algumas palavras, apresente-se, diga bom dia, sei lá!
Mas sentiu as pernas fraquejarem e um zumbido tomar conta de sua cabeça. Tentou ainda fixar os olhos na mulher que o olhava um pouco assustada, sem entender o que estava acontecendo. Tentou sorrir e dizer alguma coisa. Mas faltou-lhe ar exatamente quando mais precisava, o mundo pareceu girar e, num instante, Antônio caiu de bruços, desmaiado, aos pés da sua amada que, muito prudentemente, se afastou com discrição, pediu demissão da loja e, em poucos dias, se casou com o dono do açougue da esquina que nunca havia lido um só livro na vida, mas sabia preparar um churrasco que ela achava divino.
Moral da história: um sonho é facilmente visualizável, mas a escala de valores não.

HOMEM SENTADO NO BANCO DA PRAÇA


Um homem sentado num banco de praça lê o jornal sem se importar com a algaravia de umas crianças que saíram do colégio e que agora brincam na grama, se escondem atrás das estátuas, e agarram-se nas brincadeiras mais violentas e mais suaves que existem. O homem, este homem, encerra-se em seu mundo, calado para si mesmo.
Olho-o, assim, meio isolado da vida e sinto um pouco da sua solidão. Veste-se de maneira comum, mas, na posição em que se encontra, contra o sol tênue do final da tarde – inesperadamente, numa praça repleta de crianças - projeta na minha mente um Fernando Pessoa taciturno, com jeito de quem não foi convidado para aquilo, meio triste atrás dos óculos de aros finos e do circunflexo bigode que torna seu silêncio ainda mais fechado.
Dou-me conta, sabe-se lá porque, que muitos homens devem se sentir assim nos dias de hoje. Mesmo quando se encontram e riem alto, dando tapinhas nas costas dos outros, quando bebem juntos falando animados ou concentrados na discussão de algum negócio importantíssimo, entrevejo neles toda uma melancolia que me enche de respeito e me comove. Observo-os num parque assim como este, com os filhos pequenos, olhando-os entre embevecidos e ternos; ou calados num restaurante diante da companheira a quem parecem não ter mais nada a dizer.
Imagino o que sentem quando têm que ir ao advogado tratar da pensão da esposa que amou no silêncio do seu mundo macho, mas autêntico, ou da visita regulada aos filhos, um final de semana sim, outro não; ou quando dirigem seus carros no torvelinho de um trânsito que ninguém merece, ou caminhando apressados com uma pasta na mão, pensando na família que ficou ou no trabalho que os espera, na filha que fuma maconha, na idade que passa e pesa se multiplicando em frustrações materiais e títulos vencidos. Pensam também em todo o passivo afetivo encharcado em chopes e caipirinhas, em todas as noites de jogo e lassidão malsã, e nas lágrimas que não verteram no enterro daquele amigo mais engraçado, mais animado e que justamente faltou naquele dia em que mais precisavam dele.
Estes homens não sabem que me importo com o que se lhes passa na cabeça quando brincam com a amante e lembram-se, num gesto dela, num jeito de rir, daquela que ficou em casa, ou da que agorinha mesmo foi buscar o mais novo no colégio, e que confia nele. Como é profundo e incompreensível o sofrimento destes homens.
Como muitos ainda suportam escutar, desde pequenos, que “homem não presta”, daquelas para as quais se esforçam em serem leais, ternos e grandes companheiros, e se ver em constante luta para provar que também queimam de solidão, que estão soterrados pelo peso de ter que ser firme e forte sem titubear, de ter sucesso e não fraquejar; de não demonstrar o medo de se aposentar e virar uma caricatura de pijama e chinelos, sozinho, impotente e vagamente patético?
São mesmo fortes estes homens que, ao se inclinarem para beijar a mulher, fingem não perceber uma repulsa mal disfarçada; que têm todos os seus planos frustrados porque a companheira nunca está disposta para sair, que detesta todos os amigos dele e seus tolos divertimentos, que não valoriza seus esforços e nunca aprecia seus presentes. Eles ainda não sabem que estão sozinhos.
Mas há aqueles que não se importam mesmo, e para quem serve uma criatura muda que lhes traz o chinelo ou a comida requentada do almoço e vai lhes dando herdeiros e solidão, sem se dar conta que os cabelos estão embranquecendo, a voz se tornando mais rouca e cansada, a pele sem viço e os olhos baços como os daqueles peixes esquecidos no fundo das bandejas das peixarias, que ninguém mais quer, pois deles já não se aproveita nem a morte.
Durante este tempo todo, me dou conta que há uma legião de homens assim, crianças, esquecidos, incapazes de se comunicar e que aquele homem do início deste texto continua sentado no banco de uma praça e seu jornal/escudo o protege das idéias pré-concebidas que certas mulheres, e um outro tanto de homens, promovem numa corporação unida por péssimas intenções, se esquecendo, ou mesmo ignorando volitivamente, que muitos que estão sentados no banco da praça, num fim de tarde, estão, na verdade sofrendo calados e ansiando, sem esperança, pelo grande amor que só uma mulher especial, aquela não teve o amor interdito pelo atávico ódio ao companheiro, pode ensinar.

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA


O título deste velho filme de Hollywood me chama a atenção entre tantos outros na estante da locadora e penso que, na época do seu lançamento, a felicidade não podia mesmo ser achada nas lojas ou nas farmácias, com o apelido de Prozac, Ixel ou similares, conforme anunciam, hoje, os cientistas.
Pesquisas indicam que nascemos felizes e que, com o passar do tempo, vamos nos infelicitando, mais e mais, especialmente durante a adultidade, até recuperarmos a felicidade na velhice quando, em geral, se a saúde ajudar, as pressões são mais leves, os filhos já estão criados e os netos aparecem como um sentido de renovação.
A felicidade não se compra, mas os antidepressivos sim, dirão os médicos. A depressão é considerada pela Organização Mundial da Saúde a quinta maior questão de saúde pública do mundo. Em 2020, prevê-se que ela estará no segundo lugar do ranking, depois das doenças cardíacas. Vamos às estatísticas então: estima-se que 20% dos pacientes demoram até cinco anos para procurar ajuda especializada e que mais de 15% das pessoas terão pelo menos um episódio de depressão ao longo da vida. Já se deprimiu? Não? Fique tranqüilo, ainda há tempo.
A palavra depressão entrou para o vocabulário cotidiano como sinônimo de tristeza e frustração. Mais do que uma simples licença semântica, esse fenômeno é a expressão mais clara da confusão que reina nessa área. Ficar triste e frustrado é parte incancelável da existência. O problema é quando os sentimentos negativos se tornam tão avassaladores que impedem o curso da vida.
Não obstante, a infelicidade, em suas inúmeras formas, possibilitou a felicidade de muita gente. Não fosse assim, não teríamos os grandes artistas atormentados que produziram – e ainda produzem - as maiores obras de arte da humanidade, com as quais nos deleitamos e distraímos a angústia. Foi o caso de Mozart, Michelangelo, Oscar Wilde, e tantos outros que não eram exatamente exemplos de vidas felizes.
Mas falamos da infelicidade a granel, essa maldita, associada à depressão, que assola milhões de pessoas em todo o mundo, movimentando cerca de 12 bilhões de dólares por ano. A infelicidade, por exemplo, da intelectualidade suburbana que não resiste às perguntas do Show do Milhão, pois, afinal, quem não quer ser um milionário? Dizem que dinheiro não traz felicidade, mas que ajuda a ser infeliz em Paris; e que ele, o mal eterno, o corruptor de honras através dos séculos, o vil metal, pode não comprar o amor verdadeiro, mas é capaz de adquirir imitações muito boas.
E tem a alta do dólar, todos os dias, todas as horas, como um fantasma verde que vacila entre o assustador e autoritário, mandando nas nossas vidas, nas nossas economias, nos nossos sonhos de consumo. Como não ficar deprimido? Como não se entristecer?
Como não se abalar com a fúria disfarçada em tecnicolor do Sr. Bush, aquele que está sempre na moita, esperando um árabe bigodudo qualquer ter alguma atitude estranha, para apertar o botãozinho vermelho que vai acender o ON no painel de lançamento de mísseis e bombas?
Vamos, poetas, escritores, pintores, músicos e toda essa gente estranha que faz da arte, ao mesmo tempo, um produto direto da angústia e um antídoto para a tristeza, essa infeliz, mãos à obra e desencalhem, desembuchem, pintem e bordem, façam barulho pondo a boca no trombone – afinal, o Prozac não é tão democrático assim, mas a serotonina está em falta em todos nós. Se preciso, cortem metaforicamente as orelhas e combatam com longos galhos de arruda todos os Salieris que a vida proporciona.
Temos tempo, não para sermos tristes e melancólicos, mas para por em prática a tal vida feliz que recebemos de presente anos atrás. Ainda temos tempo para os planos de uma existência em paz. Temos tempo para dormir, acordar, amar, viver. Tudo. Mais. Agora. Sei que é difícil, quase impossível, que os tempos humanos consigam tais ritmos – só o universo é exato, apesar de seus buracos negros e os homens são assim mesmo, desordenados e anárquicos.
A dolarização da vida nos leva a crer, muitas vezes, que a felicidade se compra mesmo, ali, cash, sem desconto, pois o produto é bom, meu senhor, e está em falta. Portanto, aproveite a oportunidade antes que o Mercado, esta entidade sensível aos rumores, mas insensível à humanidade, faça você perder a chance da sua vida. Wall Street e a Nasdaq passaram, há muito, a ter o controle de suas ações.
Houve uma época que Hollywood acreditava que a felicidade não se comprava. Ela era um presente, uma conquista de uma vida inteira que não podia ser trocada por moedas, mas sim descoberta, sem se tratar propriamente de um golpe de sorte, mas de um desvio intencional, volitivo, o que não elimina – e talvez até reforce – o estranhamento.

NO BANCO


Entrou no banco. Despreocupadamente. Tudo aquilo que fazemos por obrigação, sem conseguir disfarçar o tédio era, para ele, uma tarefa prática: descontar cheques, conferir saldo, enfrentar fila, pagar contas, perder um tempo nunca ressarcido.
Calor. Banco cheio. Ar deficiente. Fila morosa. Relógio da parede quebrado. Funcionários mais lentos do que o costume. Mas ninguém parecia se importar muito. Um senhor de bengala, diante do gerente, pedia um empréstimo. Outro, óculos na ponta do nariz, examinava atentamente o extrato da conta , enquanto a mulher humilde, tecnofóbica, suava frio diante do terminal eletrônico.
Movimento na fila. “Vai ser rápido”, pensou, virando-se, por puro reflexo, para trás. Um choque. Perto da porta, ela o olhava. Não se viam há tempos – fato raro numa cidade tão pequena. Pressentiu: mais cedo ou mais tarde se encontrariam. Havia se preparado. Mesmo assim, a súbita visão o perturbou.
Discreto, cumprimentou- a. Sorriu sem jeito, fazer o quê?, ainda semi-paralisado. Alguém gritou:
- Olha a fila!
Dois passos a frente. Olhou o relógio parado marcando a hora daquele encontro sem tempo. Que fazer? Que dizer? Que sentir?
Virou-se novamente, avaliando a distância que os separava. Cinco, seis metros? Uma vida?
Achou-a ainda muito bonita. Reconheceu o gesto antigo quando a viu puxar os cabelos negros para trás. Por um instante, sentiu desmoronar anos e anos de indiferença planejada. Cartas e fotos antigas, sepultadas nas grandes gavetas de mogno, já estavam convenientemente esquecidas. Não havia mais encontros, telefonemas ou sustos. Tudo, ou quase tudo, se dissipara na bruma do tempo. Eles haviam mutuamente se transformado em lembranças pálidas, sem contorno ou cor.
De fato, numa outra época, eles haviam sido felizes. Talvez por causa da idade – eram jovens e aos jovens tudo se perdoa – tinham a ilusão de que acabavam de penetrar num mundo perfeito, sem sofrimento, sem dores. Lembrou da vezes que contemplavam o pôr do sol e de uma tarde em especial, quando ela falou, séria, olhando para ele: “Na presença da eternidade, mesmo as montanhas mais altas são mais transientes do que as nuvens.” Ele nunca entendera bem o que ela quisera dizer com isso, mas a frase passou a ser mais um detalhe embrincado no já extenso mosaico de memórias em que sua vida havia se transformado. Decidiu, então, que não havia mais o que fazer e que não adiantava procurá-la no grande labirinto que surgira à sua frente.
Então, de repente, ela. Viu-se atônito, num torvelinho de sentimentos desencontrados. Ali mesmo, num prosaico banco lotado e sufocante.
Um funcionário apareceu com uma escada. Abriu o vidro do relógio e cirurgicamente, mexeu nas suas engrenagens. Num instante, restabeleceu-se a hora oficial. Um ruído surdo e, quase imediatamente, o ar também voltou a funcionar.
A fila se movimentou nervosamente. Algumas pessoas acorreram ao balcão de informações e a porta giratória acusava alguém portando algum objeto de metal, enquanto o único caixa disponível contava, com ar entediado, um bolo de notas amassadas.
Olharam-se mais uma vez. Imóvel, ele esperava um movimento dela para prosseguir vivendo. Com as mãos, ela deu um nó suave nos cabelos e o fixou com um lápis. Como antigamente, ele pensou. Mas ela desistiu da fila como se, desiludida, também desistisse dele. Foi embora, sem um gesto de despedida ou atenção.
Surpreso, mais um vez, ele mal teve tempo de se dirigir ao caixa que, sem paciência, já o chamava batendo furiosamente com a uma caneta no vidro do balcão.

TIM BURTON E A ESTÉTICA DO GROTESCO


Tim Burton é um sujeito esquisito. Quando se entrega às suas tristezas e angústias, é um expoente do cinema americano. Não esperem dele o glamour dos musicais ou a suavidade das comédias românticas. O diretor é, por natureza, um daqueles tipos angustiados, que não se sentem muito bem na própria pele e que buscam na palheta das escuras nuances do sofrimento o tom certo para delinear suas produções. Todos os seus filmes podem ser vistos por este viés: dos mais dramáticos, como Edward Mãos de Tesoura, aos mais cômicos, como A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. Reinventou, com maestria e uma overdose de sombras, um Batman imune ao Prozac e macacos malvados que, no futuro, organizariam um planeta só para eles.
Os personagens de Burton são tristes, entediados ou neuróticos. O protagonista geralmente é econômico em seus arroubos heróicos e quem realmente arrebata o espectador são aqueles que, em princípio, seriam os vilões das histórias. Parece que se compraz com a composição de contos de fadas com o sinal invertido, nos quais os personagens grotescos ou repugnantes dão o tom. Se fosse filmar a história da Branca de Neve, provavelmente centraria sua narrativa na Bruxa ou nos anões, explorando o que há de mais bizarro nos tipos mais excêntricos.
Excentricidade talvez seja mesmo a melhor descrição para o seu trabalho. Excêntrico vem do Latim ex centricu, que significa aquele ou aquilo que se desvia ou se afasta do centro. Sua abordagem é exatamente assim: uma fuga do que se convencionou normal ou padronizado nas histórias nas quais o herói ocupa, sem parcimônia, todo o espaço do proscênio. Para ele, os vilões também amam ou merecem ser amados, mesmo sendo malvados e feiosos, como no caso do Pingüim de Batman, O Retorno, feito pelo excepcional Danny DeVito, do Coringa de Jack Nicholson, no filme anterior, e de Edward, com suas mãos tesourando quem quer que dele se aproxime.
Estes personagens, suas histórias e lados mais obscuros, nos remetem às obras de Edgard Allan Poe, Ionesco, Mervyn Peake e outros escritores que buscavam no grotesco uma representação mais sutil da alma. Pinçando um personagem como o Coringa, por exemplo, maravilhosamente bem trabalhado por Burton, podemos reconhecer um pouco do protagonista do romance O Homem Que Ri, do escritor francês Victor Hugo. A estética do tempo de Victor Hugo tinha como lema a combinação entre o sublime e o grotesco, a criação de personagens repugnantes que comovessem o leitor, como o corcunda da ópera Rigoletto, também inspirado num livro seu.
O termo grotesco nos chegou através do italiano grottesea, que deriva de grotta (grota, caverna), uma alusão a certas cavernas sob Roma nas quais foram encontradas pinturas características deste estilo deformado e absurdo. Mais tarde, se transformou em adjetivo, descrevendo alguma coisa nesta categoria estética bizarra, supernatural, fora dos padrões, cujas imagens privilegiam a análise, crítica ou reflexão, o disforme, o ridículo, o extravagante. A partir do século 18, o termo começou a ser usado na Literatura para caracterizar comédias ou sátiras que mostrassem as contradições e as inconsistências da vida.
Cinema e literatura têm sido aspectos complementares e fundamentais na percepção que temos do mundo. Livros e filmes são referências pontuais que vamos acumulando durante a vida e, não raro, um influencia o outro e o resultado desta combinação vai aduzindo elementos ao imaginário das histórias que lemos através do cinema.
Desta forma, Tim Burton consegue um duplo objetivo: agrada aos que buscam a fantasia do cinema, e incomoda, no melhor sentido, em virtude de seus intricados meios de direção, os que tentam ler nas entrelinhas, e nas entrecenas, o sentido menos explorado da vida destes personagens marginalizados com os quais ninguém quer se identificar - estes mesmos personagens que simbolizam também o lado mais obscuro que nem tentamos descobrir em nós mesmos.

Mas Tim casou-se com Helena Borhan-Carter e, assim, diminuiu sensivelmente o coeficiente de bizarrices na sua artística vida.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

A APARIÇÃO



Era um sonho. Entrou no apartamento e colocou as chaves na mesa de mármore da sala. O mesmo raio de sol, entrando de través pela janela, fez brilhar porcelanas, pratas, cristais. Sentiu-se, no entanto, como o próprio fantasma de uma lembrança e não uma pessoa viva, em carne e osso.
A solidão que então lhe pesava não era a solidão provisória que uma companhia costuma resolver. Era uma solidão irremediável; a única pessoa que poderia pôr-lhe um fim estava longe, muito longe. Assim, estava só, perguntando-se o tempo inteiro o que lhe convinha fazer, se expulsar definitivamente a lembrança ou entregar-se a ela, deixando-se cair lentamente naquele oceano de fatos, naquela voz, naquele rosto.
Tem início assim, para ele, um período difícil e ao mesmo tempo, de modo obscuro, intenso. A saudade da mulher se expressava numa série de comportamentos rituais, como deixar os sapatos na janela para arejarem, ao chegar a casa; dobrar cuidadosamente as roupas no armário; escrever cartas durante a madrugada. Estes atos cotidianos faziam-no ultrapassar a fase da contemplação fetichista e induziam-no a uma veleidade alucinatória: no silêncio, apurava os ouvidos como que esperando ouvir a voz da mulher falando na cozinha ou no quarto; ou, de noite, na hora de deitar-se, quase acreditava vê-la na cama, encostada aos travesseiros, lendo.
Sabe que continua a agir sem sentido. Espera uma aparição da mulher, uma epifania; torna-se refém de seu retorno. Espera que ela bata à porta, ou telefone à noite, dê um endereço qualquer e peça para que ele vá buscá-la. Imagina-a com um vestido azul, leve, como ela – o mesmo que usava quando se encontraram.
Finalmente, depois da idéia do retorno, começa a instalar-se nele a do reencontro. Embora não estejam perto, pensa vê-la na rua, dobrando uma esquina, entrando numa loja, pegando um táxi. Sente-lhe o perfume e, não raro, vira-se como um desses bonecos de marionetes, sem vida e sem voz, puxados grotescamente por um titereteiro inábil, achando que a ouviu dizer seu nome.
Incompreensíveis são os caminhos da saudade. A saudade quer apossar-se de nós a todo instante. E ela mesma é coisa instante. Aparece de repente, pelo cheiro, pela visão, pelo som que remetem à coisa amada. Para isso, reveste-se de todos os disfarces, representando ocasionalmente em nós papéis que se repetem por longas temporadas. Outras vezes, sua atuação é eletronicamente rápida e múltipla como um teatro de variedades: entre duas batidas do coração, a saudade entra lá dentro. E aí, toda a tessitura humana representa uma peça completa e se retira de cena, para retornar no intervalo de duas batidas, com uma novidade, um novo guarda-roupa, uma nova encenação, um novo argumento. A esse alucinante virtuosismo teatral da saudade devemos a perplexidade do conhecimento. Num único instante, simultaneamente, podemos ter a impressão de que agarramos afinal a realidade do mundo e que ela fugiu de nós para todo o sempre.
Lembrou que, um dia, alguém disse: a saudade passa. Passa como os rios passam; como passa o circo em tumulto num povoado de crianças, como passa o mergulhador nos corredores pesados do mar, como passa o tempo, a doida cantando, a vida. Lembrou-se e achou graça. Não, com ele a saudade não passava.
Chegou à janela e sentiu no rosto o ar da noite, transido de outras e distantes solidões, de todos os tipos, de todas as pessoas. Pensou que parecia haver um freio que não permite amar o que está ao alcance da mão. Por que esta dificuldade de amar o imediato?, perguntou a si mesmo. Estava vivendo na contramão da história e quando se encontrava com os equívocos do passado, ficava confuso e perplexo, perdido no meio de um nada.
Se estava ali, sozinho, sua única alternativa era tentar entender os motivos de ter sido esquecido e arcar com o prejuízo. Reconhecia que não era fácil assumir esta atitude, mas era a única que preservava algum resto de dignidade na sua obscura existência de sujeito excluído. Por um instante, percebeu que os projetos de amor, felicidade e plenitude são intangíveis e que por isso as pessoas preferiam buscá-los a encontrá-los.
O problema era sempre o mesmo: tempo para amar e viver este amor junto. É difícil, quando não impossível, que os tempos humanos consigam tais ritmos, só o universo é exato, os homens são desordenados e anárquicos. Há um grande vazio a ser preenchido na vida. Daí, os compositores saberem a importância do silêncio e os escritores não viverem das palavras que escrevem, mas dos espaços que as separam.
Pensou em Sartre, nauseado, descrevendo a concretude indiferente de uma árvore. Pensou ainda que não é por outra razão que os que amam precisam se separar para descobrir que se amam de verdade. A beleza, profunda, funda, doída da vida, talvez só pudesse ser apreciada de longe, no espaço e no tempo, como uma foto em preto-e-branco de Marc Ferraz.

CINEMA E LITERATURA - I



O silêncio da madrugada não apenas emoldura, mas também reforça os movimentos mágicos e significativos de Chaplin em Luzes da Cidade. Descrevo – ou pelo menos tento – essa sensação através das palavras que, também silentes, preenchem a tela luminosa do computador, e percebo que o cinema, como arte, renovou o nosso conceito de literatura, principalmente na invenção de novos modos narrativos.
A invenção do cinema foi, sob certos aspectos, uma redescoberta das artes puras, pois retratando as feições imediatas da vida, suas emoções e alcances intelectuais, e da natureza com mais exatidão do que as artes plásticas e as palavras atingiu o inesperado artístico.
Mais de 110 anos se passaram desde que os irmão Lumière assombraram os parisienses com o cinematógrafo. Desde então, calcula-se que mais de um milhão de filmes foram rodados em todo o mundo e, consequentemente, feitas muitas releituras. Mostrou também que a descrição literária não descreve com precisão, pois cada leitor cria pela imaginação uma paisagem sua, apenas servindo-se dos dados capitais fornecidos pelo autor. Por isso, cada obra só existe a partir que vista/lida/vivenciada. Um livro jamais lido continua sendo um livro? Um filme inédito ainda é um filme? a resposta é clara: ao ler um livro (ver um filme), nós o destruímos e o transformamos em outro livro. Um livro sempre nasce de outro destruído. As palavras e as imagens não nos pertencem. São abismo.
Para uma melhor compreensão do entrelaçamento entre cinema e literatura talvez seja possível imaginar um processo em que os filmes buscam nos livros temas e modos de narrar extraídos, por sua vez, dos livros. Nenhuma arte é totalmente autônoma no sentido de não utilizar meios de expressão comuns a outras artes. O cinema como conceito, dessa forma, tão logo se concretizou na tela, iluminou a literatura, renovou a escrita, abriu picadas na densa floresta da imaginação, Como fundir imagens com o mesmo impacto depois do primeiro baile de luzes e sombras sobre a tela em Paris?
Para Gertrude Stein, antes de Cézanne, “a composição consistia numa idéia central. Todos os outros elementos acompanhavam esta idéia ou se subordinavam a ela, não tinham uma existência em si”. Esta ponte com as artes plásticas – a pintura, no caso – joga luzes no argumento que a imagem é muito mais do que ela diz. Multiplica-se esse efeito pela corrida de fotogramas do cinema, e teremos uma revolução em termos narrativos.
No cinema, nenhuma memória é permanente. Na imagem continuamente em movimento, não existe a memória do objeto, existe, sim, o objeto existindo. Pois vejamos: a prosa cada vez mais visual e urbana dos últimos anos tem imposto limitações à criação literária - perde-se de vista o mundo interior e mais reflexivo dos personagens. Ganha-se em ritmo e velocidade, impactos e sustos, mas perde-se em profundidade.
A velocidade em que a vida é retratada nas telas impõe um certo paralelismo aos novos escritores. Um Machado de Assis, nos dias de hoje, ficaria, pelo menos, confuso e sem condições de escrever Dom Casmurro, não apenas pelo anacronismo do tema, mas, sobretudo, pela forma com que as relações afetivas vêm atingindo seu nível mais raso, na maior parte das vezes.
“Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa...”, dizia Stein a respeito da dificuldade de achar explicações para determinadas coisas na vida. Concordo. Na relação intercambiável entre Cinema e Literatura, faltar-me-ão palavras para descrever o processo sempiterno da construção das imagens. Chaplin não precisou delas. No entanto, continuarei insistindo.

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segunda-feira, 8 de outubro de 2007

A SUPER-MULHER


Pois é, o ano ainda está longe de terminar e ela já é considerada a mulher do mesmo, com toda a razão, diga-se a bem da verdade. Entendo que ser considerada a mulher do ano é homenagem que a põe num patamar bem mais alto do outras que fazem sua existência modesta acontecer sob os mesmos auspícios desses 365 dias. A novela, concordo, deu projeção, mas ela é muito mais do que um personagem descoberto pelo autor. Ela dá corpo – se me permitem a expressão um tanto óbvia no caso – ao que se pode chamar de “beleza inteligente”, pois basta olhar com um pouco de atenção para ver que ela resolve fácil a antiquíssima divisão entre o físico e o imaterial. Se os filósofos especulam sobre a beleza enquanto os cientistas afirmam que ela é resultado de um aumento de fluxo sanguíneo na base do lobo frontal, não vou bater de frente com ninguém. Assim como o cérebro é esculpido pela música, as áreas mais sensíveis à beleza são formadas a partir da visão que temos dela. Explico: quando alguém observa uma obra de arte, diversas áreas do cérebro se ativam em sincronia. Chamam isso de neuroestética, palavra meio feia para o que ela representa, eu sei, e acredito que Vinicius de Moraes não a teria acolhido por sob as barbas brancas. Mas teimo. Esses seres femininos que habitam o mundo e o imaginário dos homens têm seus mistérios e suas ilogicidades. Querem, não querem. Sabem, não sabem. Chegam, indo. Fazem-se profundamente ausentes na mais sólida presença. Por isso, ela persiste em todas as capas de revistas, nos programas de televisão, nas conversas com cheiro de esmalte dos salões cheios de mulheres que parecem ter só pés e mãos, nas esquinas, nos bares, na alma. A melhor de todas as tropas de elite, pode ser explicada pela cor da pele, ou o formato sonoro do sorriso. Mas é mais. Tem “catiguria”, sem cortes, mantendo a unidade espacial e temporal. Tem também, certamente, mais de um milhão de citações numa busca simples por seu nome no Google. É o exemplo perfeito de que são as imagens que nos captam. Lacan, sempre ele, dizia que antes de olhar, somos olhados. Ela nos olhava diariamente, sem nos ver, sabendo que estávamos de olho nela. Agora, a temos queimada, como a imagem eterna de um DVD idem, na memória daquilo que consideramos lindo. Vai descansar a beleza longe dos que a absorviam, nem sempre com bons olhos. A existência humana requer uma dose de anonimato. Clark Kent tem a segurança de seus óculos, exatamente quando vê sem querer ser visto. Como Super-Homem, ele está sendo olhado sempre por todos e por tudo. Não pode ser assim o tempo todo, nem para o filho de Jor-El. Destarte, ela também precisa sair do foco, descansar no backstage, pendurar por uns tempos os saltos altos. Chega de ser a Super-Mulher, demiurgo que a exposição exacerbada da mídia tornou quase que obrigatório ao nosso cotidiano mortal. Missão dada é missão cumprida. Há de existir, alhures, sua fortaleza de gelo, onde, sem ninguém do showbiz por perto, poderá dizer: “Venci!”.

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sexta-feira, 5 de outubro de 2007

MULHER RECEBENDO FLORES


Subiu as escadas com as flores que acabara de ganhar. Eram três buquês coloridos, tantas flores que quase não enxergava os degraus. Estava feliz. Pelas flores, pela surpresa de as receber assim no fim da noite, quando muita gente já não espera mais que nada aconteça para alegrar a vida, para semear esperança. Enquanto subia cuidadosamente as escadas, também sentiu uma felicidade diferente por poder carregar tantas flores assim, depois de um dia cansativo de trabalho estressante e os inevitáveis afazeres domésticos. Poder carregar tantas flores não apenas fisicamente, mas poder merecê-las, poder aninhá-las junto ao peito e incorporá-las à vida. Uma vida repleta de flores. Assim ele, que as entregou, quisera para ela.
Depositou os buquês sobre a mesa da sala. Buscou, rápido, na memória, onde estava a jarra maior. Súbito, se deu conta que há muito não enchia aquela jarra com flores. Vazia por tanto tempo era, por assim dizer, um símbolo do nada que invadira insidiosamente sua vida, sua rotina, seus planos. Desfez o laço vermelho e retirou o plástico que protegia os caules. Cortou, cuidadosamente, as extremidades, na diagonal, como sempre fizera, para que sobrevivessem por mais tempo. Colocou água na jarra, junto com um pouco de açúcar. Ao fazer isso, lembrou-se que ele, um dia, ao vê-la na mesma função, havia estranhado a água açucarada e que tinha até dito que, por mais que tal procedimento ajudasse a sobrevida das flores, era uma providência desnecessária: bastaria às flores o toque daquelas mãos delicadas, por cujas pontas dos dedos, através de misteriosa transmutação, vertiam uma substância similar ao mais dulcíssimo mel - especialmente quando lhe acariciavam o rosto, dando-lhe a sensação de que uma seda finíssima se lhe tocava a pele. Ela sentiu a lembrança entrecortando-lhe o coração em duas partes – uma com aquele homem que sempre amou e outra, sem ele. Por um instante, então, estremeceu.
Arrumou as flores no jarro e o colocou no centro da mesa de madeira escura da sala. Tantas eram as flores, as cores, os aromas, que ela se sentiu mesmo num jardim. A casa, em silêncio, pois já era mais de meia-noite, parecia mesmo um castelo e a moça de olhos de cristal se permitiu sentir como se fosse uma princesa de verdade, dona de um vasto reino de carinho, amada por um plebeu. Não se importou com o horário daquelas flores noturnas. Eram bem-vindas, não importava a hora, não importava quando, não importava porque. Lembrou-se que havia uma flor rara, dessas que passam para o nível mitológico, que só floresce à noite, só aparece na primeiras horas e madrugada. Na infância, entre os contos de fadas que mais gostava, havia uma história de uma princesa que dedicava sua vida, dedicava sua jovem energia, a procurar esta misteriosa flor noturna que supostamente nasceria num vale distante e perigoso. Segundo um feitiço encomendado por princesas rivais e invejosas, caberia a esta princesa perseguir a flor até o fim dos seus dias, sem poder encontrá-la, num suplício parecido com o de Tântalo, gerando sofrimento e frustração.
Ficou emocionada ao dar-se conta que, ao receber aquelas flores numa hora tão improvável, ela devia se sentir como a tal princesa que buscava a flor rara e, por fim, a encontrava – feliz e completa. E mais: não tinha apenas uma flor, mas várias, inúmeras, que ela agora contemplava como um tesouro redescoberto. Nem precisou sair de casa – aquele homem que a amava as trouxe diligentemente, incondicionalmente, de longe, como um mensageiro da paz que ela merecia. Ele, com seu romantismo quase infantil e anacrônico, já a havia comparado a uma princesa antes. Ela, sem dúvida, gostava, e balançava a cabeça como se dissesse “ele não tem jeito mesmo”. Mas agora, no meio da noite, naquele momento em que chegamos a duvidar se somos ou não amados de verdade, ela dispunha de várias provas, várias pétalas, vários perfumes assegurando-lhe que sim, ele a amava, e seria capaz de lhe trazer flores a qualquer momento, inesperadamente, para que não pairasse dúvida sobre o que sentia.
Dando a última arrumação nos buquês, ela sorriu e, mordendo levemente o lábio, balançou a cabeça e pensou: ele não tem jeito...
Apagou a luz da sala e foi dormir com a sensação única que o amor não é mesmo ruidoso. Seu acolhimento é tranqüilo e silente. Sutil, se movimenta lentamente por trás das portas da percepção, nos desvãos das palavras escritas, entre as cortinas da saudade e, de repente, explode.

MULHER PASSANDO PERFUME


A mulher passando perfume é um acontecimento precedido por outro que ninguém vê, que é o próprio banho. Enxuga-se minuciosamente, quase bailando com a toalha, trazendo-a para junto à pele com uma firmeza delicada, resguardando certas visões, certos ângulos que são só dela neste momento. Não tem pressa. Contempla o corpo no espelho do banheiro à procura de imperfeições que não existem, e conclui com autocrítica implacável que ainda precisa emagrecer aqui, engordar ali, empinando-se meio de lado e equilibrando-se nas pontas dos pés. Assim, esguia, lembra uma bailarina e chega mesmo a fazer um movimento clássico, que lhe acontece naturalmente e que ela reconhece como uma pose já incorporada ao seu repertório de gestos.
Está linda assim nua. Súbito, junta a toalha com as mãos e a traz apertada junto ao peito, roçando de leve o tecido com o queixo. Interrompe esse diálogo íntimo consigo mesma para começar a se vestir. Desejará colocar a roupa ali mesmo, no banheiro, e não no closet, onde costuma passar horas escolhendo o que irá usar. Mas não se importa – faz daquele cômodo apertado um amplo espaço para a operosa tarefa de aperfeiçoar a perfeição. Sim, constata, sem desânimo, que a beleza, às vezes, cansa.
Instintivamente, enrola-se na toalha e faz um movimento surpreendente: num átimo, abre os braços como se fosse pegar alguma coisa de grande volume. Mas logo se vê o seu verdadeiro intuito: passa rapidamente os dedos longos entre os cabelos molhados e chega a considerar a possibilidade de deixá-los assim, meio rebeldes, com a assimetria umedecida e inesperada. “Acho que vou cortar mais um pouco”, pensa, enquanto sacode os fios negros com incomum presteza.
(Ponho-me a pensar: o que guardam essas mulheres lindas nos cabelos? O que acariciam? O que desabrocham? Que companhia se fazem através de seus cabelos? Quantas horas do dia, da vida, dedica uma mulher a tecer e destecer paixões e esperas nesses fios...?)
Está tão serena e tão profundamente concentrada que, se estivéssemos no tempo dos antigos gregos, certamente transformar-se-ia numa deusa única e, em torno de si, nasceria um mito. Rivalizaria com Afrodite nos domínios do amor e da beleza e criaria uma nova instância estético-mitológica: a deusa se perfumando.
Pois é exatamente aí que esta mulher, flutuando entre a divindade e o traço feminino das mortais, torna-se a senhora de todas as essências. Estica o longo braço alvo até o armário e, de lá, tira um frasco cujo conteúdo asperge sobre o corpo com movimentos rápidos e precisos. As pequenas gotas caem sobre a pele como chuva num um jardim, produzindo uma sensação olfativa que se mistura com lembranças de uma praia, de uma música, de uma voz ao telefone, de uma cor que ela não saberia definir, mas que seria como a cor de um sonho bom do qual não se quer acordar.
Com os dedos, percorre o rosto, a nuca, o pescoço, os seios, as pernas, até chegar ao côncavo atrás dos joelhos. Estremece. Ainda envolvida pela cortina invisível do perfume, olha-se no espelho e distingue fragrâncias diferentes no ar. Franze a testa levemente, como a classificar mentalmente a origem de tantos perfumes que pareciam perdidos no tempo. Primeiro, reconhece o cheiro da infância e as brincadeiras com os irmãos naquela antiga casa em Olaria; depois, vem-lhe o cheiro das bonecas e da roupa de cama ao se deitar à noite. Chega a ouvir, durante este mosaico de aromas, sua mamãezinha lhe dizendo “Durma com Deus, minha filhinha!”, enquanto a olha ternamente nos olhos negros e lhe acarinha os cabelos com a mão sábia. Sente o cheiro do café buscando-a na calçada e, então, o bolo sobre a mesa da cozinha se materializa numa fragrância quase palpável. Vêm, gradativamente, o perfume alegre das festas e o aroma protetor do pai que, num abraço demorado, resguarda dos perigos do mundo, seu único e mais precioso dengo. Uma profusão de cheiros antigos passa a visitar-lhe a memória: cheiro de livro novo, cheiro de goiaba, cheiro de cachorro molhado, cheiro de chuva, cheiro de férias, cheiro de flores, cheiro de chocolate, cheiro de esmalte e até um certo cheiro de saudade que costumava vir dentro de cartas antigas. Então, de repente, percebe que, entre essas cartas, Deus – ou isso a que chamamos assim tão descuidadamente de Deus – havia lhe enviado um presente raro: a possibilidade do amor. Ou isso a que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. Com aquelas palavras escritas, sentia-se protegida: a vida toda, esses pedacinhos desconexos se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal lhe aconteceria, tinha certeza, enquanto tivesse dentro do campo magnético daquela pessoa que costumava terminar suas cartas com apenas uma letra: F.
A mulher volta-se para os perfumes da realidade. Olha para o espelho e compõe mentalmente o momento poético em que se transforma diariamente: as pulseiras, os anéis, os brincos delicados. O que faz com que, entre milhares de pulseiras que ela vê diariamente nas matérias das revistas de moda, nas lojas e nos pulsos das outras, ela escolha exatamente aqueles aros de prata para adornar as mãos lindas? O que possuem aquelas pulseiras a mais do que todas as outras que as tornam capazes de se encaixar com perfeição no intricado quebra-cabeça do desejo? Ela é assim: uma mistura harmoniosa de cheiro bom e cintilações, uma mulher que quer possuir os átomos do tempo e que sabe que o amor é como um brinquedo desejado cuja magia misteriosa tentamos decifrar desmontando-o.
Deixa-se cercar pelos silêncios da casa. Contempla-se no espelho: de onde viria aquele equilíbrio de luzes no seu rosto? Relê, com os olhos da memória, a carta de F. Diante da fria superfície refletida, sente o perfume amado e retoma esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente a seus olhos, há tanto tempo incapazes de ver: a possibilidade do amor.


MULHER FALANDO COM A FILHA


Ela está num restaurante. Dá uma rápida olhada no salão e avalia, com olho sábio qual a melhor mesa. Escolhe uma, com cuidado, porém com rapidez. Há rosas vermelhas no vaso de vidro transparente, a mesma toalha e os guardanapos vermelhos bordados em branco. É como ela deseja, como imaginou.
Há poucas pessoas no restaurante no meio da tarde. Ela pretende só tomar uma xícara de chá, enquanto descansa e se prepara para os outros afazeres.
Súbito, seu celular toca. A partir daí, um espetáculo se instala naquele local fechado, exclusivo. Ela se levanta, ajeita os cabelos com a mão direita. Com a esquerda, leva o aparelho ao ouvido e começa a sorrir bem antes de falar. A princípio, não me dou conta, mas logo entendo a cena simples, mas multiplamente significativa que acontece a minha frente: a mulher está falando com a filha.
Seus olhos parecem assumir outras tonalidades, seu rosto se ilumina numa expressão de alegria e contentamento, sublinhado por um sorriso contido, mas que é todo uma mistura de orgulho e satisfação. Ninguém sabe, ninguém poderia saber. Mas eu sei, ela está falando com a filha, e alterna voz e sorriso com sábia discrição. Em dado momento, é firme e taxativa: “Não pode, e assunto encerrado!”. Em outro, é terna e irrefreavelmente delicada: “Claro, filha, claro que pode!”.
Os sapatos altos, de bico fino, a faziam mais alta e, contraditoriamente, íntima e hierática. As formas, pude bem constatar, eram coisa de Deus. O braço do telefone dobrava-se com sutileza, formando um ângulo oblíquo com o corpo ereto, de singular elegância. As mãos não apenas seguravam o aparelho, mas pareciam envolvê-lo com certo carinho, como se estivesse afagando os cabelos da filha, sussurrando ao seu ouvido.
Era, em si, uma fonte independente de luz. Sua sombra se projetava na parede de granito, amalgamando-se às reentrâncias do bloco mineral. Era como uma flor rara, solitária, que nasce da pedra, inesperadamente. Ela mesma, no recato de seu diálogo íntimo, tentou se incorporar naturalmente ao ambiente, sem querer chamar atenção, como se isso fosse possível. Só queria, naquele momento, mergulhar na filha que estava do outro lado da linha imaginária do celular, talvez brincando; talvez se arrumando para ir ao cinema com as amiguinhas; talvez brincando no quarto; talvez estudando, com uma dúvida que só a mãe poderia tirar.
A filha contava segredos e desfiava uma série de acontecimentos da escola. A mulher, então, fez um movimento que a deixou ainda mais linda. Continuou com a angulação do braço esquerdo, o que segurava o celular e, na a mão direita, apoiou com suavidade o cotovelo. Em pé, sempre, cruzou o pé direito sobre o esquerdo e se reclinou até quase encostar-se à parede. Sim, ela parecia em contato com a parede, mas não era assim que acontecia aquela cena. Ela não estava mais ali – havia se transportado para perto da filha quando pequena, a ida ao hospital, as roupas do enxoval, as noites em claro, as instruções às empregadas, o banho de sol no final da tarde, a doença inesperada, as primeiras palavras, o primeiro dia no colégio, as primeiras notas, as amigas do colégio, a dúvida entre tantos lápis coloridos. Ela ouvia a filha, mas também a via correndo na praia, rindo, tomando banho já atrasada para o colégio, deitada no quarto ouvindo música, chorando, pedindo, cantando. Via a filha dançar e imaginava como seria quando crescesse, que rumos tomaria aquela vidinha que ela cuidava como uma planta rara. Que faria a filha no futuro? Que profissão escolheria? Casaria? Teria filhos? Continuaria estudiosa e terna como agora? Estas questões passavam como turbilhão na sua cabeça, mas ela não perdia o rumo da conversa das duas, e se divertia com as descobertas que a sua menina estava fazendo. Uma coisa era certa: faria tudo para vê-la feliz. Súbito, atravessou-lhe também um medo: e se acontecer alguma coisa? Alterando levemente a voz, fez a filha prometer tomar cuidado e ligar mais tarde, de onde estivesse, ela iria pegá-la e cobri-la de beijos.
Mas essa apreensão passou logo, e a mulher, mais linda do que nunca, se recompôs. O laivo de preocupação foi deixado de lado e ela voltou a sorrir, tombando levemente a cabeça para o lado e, desta vez, olhando para um ponto infinito a sua frente. As duas tinham uma a outra. Nada mais importava.
Desligou o telefone, mas a sensação era que ainda estava em conexão com a filha, cuidando, protegendo, nutrindo. Caminhou, assim, leve, para a mesa. Colocou o celular na bolsa e se sentou. Sorriu mais umas orquídeas e começou a beber o chá que o garçom havia trazido.
Eu, que a observava de longe, tentei permanecer discreto. Mas nossos olhares se encontraram rapidamente e pude ver que seus olhos, agora, tinham a cor que enxergaríamos se pudéssemos olhar todas as estrelas de uma vez.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

MULHER ARRUMANDO APARTAMENTO



Da minha janela, vejo, no outro lado da rua, um casal num apartamento. O apartamento é novo, assim como os dois. Ela é morena e linda e, mesmo à distância, posso ver a luz intensa de seus olhos de fogo. Ele, alto e magro, com jeito de professor, acompanha com atenção os passos da companheira, que examina cuidadosamente cada centímetro do novo lar.
É uma tarde de domingo, o sol reina no céu límpido e eu observo, de longe, aquele casal arrumando prateleiras e esvaziando caixas, numa tarefa que nada tem de árdua e é simplesmente a preparação, em conjunto, da vida, juntos. Num dos quartos, ela, sentada na cama ampla de casal, dobra as peças que, há pouco, estufavam malas e bolsas. Está tão serena, tão concentrada, que nada parece existir à sua volta e só tem olhos – e mãos – para a arrumação das roupas da família nos cabides e gavetas. Vez por outra, ela pára e olha com atenção um par de meias ou uma blusinha, avaliando com olho prático se vale a pena mesmo guardar isso ou aquilo. Vejo-a colocando, com suavidade e sem pressa, cada item em seu lugar no grande armário que toma quase toda a parede. Parece que assim ela quer sua vida – tudo arrumado, limpo, passado e perfumado, nenhuma bagunça, nenhuma confusão. Ela está tão certa disso que, por um momento, contempla as roupas postas em ordem diante de si, e se deixa cair na cama, de costas, como se, enfim, tivesse a certeza que o pior já passara e que ela finalmente conseguiu o que tanto sonhava.
O homem, agora, faz o trabalho mais pesado de puxar móveis e montar estantes onde, em breve, ficarão seus livros e suas autênticas ousadias literárias. Já vislumbrou um canto para o computador, que ainda não veio, e sua mente criativa certamente começou a esboçar a história do primeiro livro escrito ali, no novo apartamento. Este livro, como os outros, será dedicado a ela que, no fundo, ele sabe, e todos sabemos, é a verdadeira autora da família.
Como sei disso? Bem, é só vê-la atravessando ligeiramente o corredor em direção à cozinha para logo inventar uma nova disposição para a geladeira e o freezer para obter mais espaço e luz. E consegue. Depois, vai para o quarto da filha, põe a mão no queixo por uns instantes e faz, dali, mais que um quarto de dormir: com uma nova iluminação e uma certa combinação de cores, constrói, como mágica, um reino fantástico onde a pequena haverá de sonhar e estudar.
Há qualquer coisa de comovente neste casal construindo o lar. Sim, pois a casa já estava construída muito antes, mas ainda não era um lar. Ela ajeita os quadros na parede e limpa minuciosamente a grande mesa da sala de jantar, no centro da qual colocará um jarro com flores do campo. Noto que a felicidade dela depende da ciência na escolha de cada objeto da moradia nova. Ao tirar as louças dos seus embrulhos de jornal, ela mentalmente vai eliminando os excessos do passado que não quer na nova morada e os substitui por novos planos, novos instrumentos que ainda vão ser comprados para compor o concerto da vida que agora, juntos, vão iniciar.
Os dois se empenham na colocação das luminárias, dos estendedores na área de serviço, na montagem da mesa de centro, aparafusando, apertando, nivelando. Mas há no homem algo de transitório que o faz assumir, meio sem querer, um ar de superficialidade de quem está com a cabeça nos negócios, no trabalho, no dia seguinte, em outro lugar. Ela, por sua vez, está empenhada até o último fio dos cabelos, e seu envolvimento com a casa a transforma num ser diferente do companheiro, pois ela sabe que as providências deste primeiro dia serão muito importantes no novo apartamento, onde se vai nidificar por um período apenas ou para sempre.
Vez por outra, ele vai à janela e faz um gesto chamando-a para contemplar a vista do oitavo andar. Ela vem, abraça-o com ternura, como se entendesse a necessidade dele de olhar para fora e para além das janelas do apartamento. Na maioria das vezes, os homens são assim mesmo: pensam na casa olhando-a de dentro para fora; enquanto a mulher, mais consciente de que a vida cotidiana se faz na intimidade, na minúcia, entre eles e só eles, tem os olhos para dentro, para cada pequeno detalhe interior, sem cujo bom funcionamento ela, na sua infinita sapiência feminina, sabe que nada funcionará. Mas assim também são os outros bichos da natureza: a fêmea parece sempre ser a criatura mais completa, mais íntegra, mais responsável pelo processo, que muitos julgam natural e quase banal, de construir uma família de verdade. É só ir ao zoológico e observar, por exemplo, os leões em suas jaulas – enquanto ele, meio indiferente e preguiçoso, dorme a um canto, a leoa rodeia a família, com um olho nos filhotes e outro, incrivelmente inteligente e crítico, nos curiosos que espiam do lado de fora das grades.
Posso sentir daqui o cheiro de pintura nova, da cola do carpete recém colocado e até do café que ela faz na cozinha já montada. Com esmero, vai colocando, com delicadeza indubitável, sobre a mesa ainda improvisada, o pão, as frutas, os biscoitos e os pequenos potes de geléia que refletem a luz do sol, como pequenas cores aprisionadas. Sorri, pois sabe que logo, logo, vai alimentar o amado, a filha e os sonhos; e seu sorriso é tão doce e de paz que me convenço sem demora que essa é uma família feliz que viverá uma vida simples e alegre, dessas a que chamamos de uma vida tranqüila, num apartamento pequeno, onde caberá todo o grande amor que houver nesta vida.
De repente, o homem se levanta e parece discutir com a mulher. Esforço-me para não deixar que o silêncio, que fazia daquela cena uma peça renascentista, se quebre com aquele inesperado e distante altear de voz. A mulher parece atônita diante daquele extravasamento de incompreensão e hostilidade que não combinava com o universo que ela havia imaginado. Antes, o trincava, assustadoramente. Pude ver, então, que num mundo tão barbárico e pragmático de hoje, em que os sentimentos estão em descrédito, não precisamos transitar nas trevas, ou evocar espíritos, para nos depararmos com o estranho. A qualquer momento, em qualquer lugar, se não estivermos atentos, a felicidade tão desejada pode entrar em irremissível e desastrosa falência.

070926

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A AZEITONA



Tudo ainda está muito quieto. Ainda é cedo. Lentamente, as pessoas começam a passar. Acho isso bom. Neste imenso e líquido silêncio escuro em que me encontro há tanto tempo, é sempre bom ver movimento através, que seja, desta visão vítrea, supostamente fria, asséptica. A manhã irrompe com o barulho frenético do trânsito, da força dos elementos, do toque, por vez suave, por vez duro, das solas dos sapatos na poeira sem nome das calçadas. Aqui dentro, ainda faz o frio úmido das águas já turvas que rodopiam nesta parede circular. A primeira dona de casa se aproxima, me vê com um olhar vazio e segue adiante. Está mal vestida e parece ruminar dores antigas. Sua blusa precariamente ajambrada lembra um pano sujo sobre o qual se derramaram lágrimas de raiva. O senhor que ora flana pelos corredores pensa na filha que finge não o abandonar com ligações a cobrar para seu celular. Sei disso porque escutei uma conversa que ele teve com um conferencista, que também simulou interesse e sequer o ouviu. Foi outro dia, mas pareço rever a cena várias vezes cada vez que ele passa procurando nada que possa ser encontrado ali. Surge uma moça de cabelos claros que também gosta deste recanto. Já reparei: não raro, pára de repente e o olhar se perde de uma forma tão desabrigada, tão desprotegida, que lembra a protagonista cega de Luzes da Cidade, de Chaplin. Tenho ímpetos de lhe adoçar a boca e o mundo, mas minha natureza sabe a um travo não deve combinar com sua existência destemperada. Pena. Crianças correm. Alguém pergunta as horas. O dia avança. Súbito, uma outra forma feminina se aproxima. É séria. Os cabelos longos ainda a fazem mais alta, como se, de fato, não andasse ali como o fazem o restante dos seres humanos. Não pretende comprar. Os aromas e as cores não a seduzem. Apenas veio àquele lugar como se acorresse a um chamado misterioso, ao qual ela não ousaria desobedecer. Do outro lado da rua, percebo que alguém atravessa depressa, não sem antes hesitar por angustiantes momentos. Ele também a viu e decidiu, num átimo, se aproximar, mesmo temendo que ela não soubesse lidar com a grande janela de tempo que se fechara sobre seu jardim. Espreita, por trás de uma prateleira de biscoitos, a mulher séria e alta, a que está prestes a descobrir o que veio fazer ali. Ela flutua em direção à bancada de maionese, e ele finge escolher uma marca de cream crackers. Ainda estão a certa distância, mas o destino já os conduz pela mão ao longo do setor dos enlatados. Vão se achar, finalmente, no mais prosaico dos lugares – um supermercado simples, repleto de gente distraída que nunca imaginaria que duas pessoas que há muito tempo não se viam, mas que evidentemente não deixaram de se amar, iram se reencontrar. Por trás do vidro gélido, eu tudo via e me sentia importante. O desfecho daquela história certamente ficaria comigo para sempre e eu sentiria que valera a pena o confinamento, o vidro redondo, a tampa entarraxada e selada de fábrica. Alguns passos os separavam. Meu coração vegetal pululava de ansiedade...
_ Mãe! Achei as azeitonas!
O grito me soou ainda mais pavoroso quando percebi os dedos gigantes eclipsarem a cena que tinha diante de mim. Fui jogado, juntamente com meus pares, num carrinho cheio de compras que, guiado pelas mãos inocentes de uma criança, virou rápido para a seção de frutas e me subtraiu a melhor cena que eu poderia ter visto em toda minha vida.

070919

domingo, 9 de setembro de 2007

A RESPOSTA



As mulheres andam perguntando coisas cada vez mais difíceis de responder. Isso, certamente, se dá porque elas têm o radar interno mais calibrado, são controladoras do próprio vôo e não dependem de grooving para pousar em pista molhada. Perguntam porque logo percebem o que está rolando, e não raro, a intuição, que já lhes vem de fábrica, vai pondo uma pulga atrás do piercing e não há nada que não deixe um blip registrado na imensa tela de cristal líquido dos olhos. Indagam, pois sabem quando estão prontas para a resposta – e esse é o critério, seguramente intuitivo, que as orienta os passos e olhares – na hora em que se deparam com questões amorosas. Há um gosto de chocolate no que querem saber. Uma bela mulher perguntou: por que o amor, que é tão bom, pode se transformar num sofrimento tão grande? As mulheres sabem que há um momento em que elas podem questionar o amor e que ele não desabará. Às vezes, tiram-se-lhe as mãos e contempla-se-o ereto, em riste, incontornável; outras vezes, largado, o amor titubeia como joão-bobo e então é preciso colocar-lhe calços, descobrir-lhe suas zonas de desequilíbrio, de fragilidade. Por mais sem garantias que seja esse processo, é certo, entretanto, que um sentimento assim se dirija à sua própria completude, a seu acabamento, à sua definição. De nós, gente estranha, só se pode dizer que sejamos o avesso de tudo isso – imperfeitos, incompletos, indefinidos, indeterminados. Essa combinação, em níveis diversos, do precário e do sólido, do inacabado e do acabado, do aberto e do fechado, da luz e das sombras é que faz da pergunta feminina supracitada aquilo que, drummondianamente, poder-se-ia chamar de “claro enigma”. Esse oxímoro é o que seria a diferença profunda, da perspectiva teórica, dos pontos de vistas do homem e da mulher, esta muito mais sábia do que aquele, como sói acontecer na maior parte do tempo. Mas isso são palavras velhas que tonitroam semanalmente. Já sabemos. Elas, mais ainda. Querem distância das cicatrizes antigas que doem de repente, do telefone que não toca, das atitudes passionais que estragam tudo, do e-mail que não chega, do amor que rima com tristeza. Não há como fugir do caráter heterotélico do olhar amorável que se tem sobre as coisas, as pessoas, os gestos, cuja finalidade ou sentido está além ou fora de si. A resposta àquela pergunta tão difícil pode estar ao nosso alcance, pois temos o apetite da esperança que embriaga o revolucionário, temos o dom de entrar em contato com os astros e com os amplos silêncios que cingem os deuses, tal como fazem, sistematicamente, os monges profissionais. Porém, é assim, quase sempre: queima-se de saudade até que não reste mais alguma coisa além de cinzas de tudo aquilo que um dia foi-nos essencial e estranhamente sólido. Aí, se instala o outro problema: como sobreviver até lá?

070909

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

TÚNEL DO TEMPO



Eu entendi a frase interrogativa desde a primeira vez que ela, a mulher de olhos de cristal, sorriu dizendo aquelas palavras que ainda ardem na alma de quem as ouviu. Mas, modesto, achei que não era comigo. Ora, veja só, será que eu não me enxergava?
Há muito tempo que eu não entendo mais nada. Talvez tenha sido, sem saber, o primeiro membro do movimento “Cansei!”. Por isso, preferi ficar distante, fingir que estava prestando atenção a outra coisa, sair de fininho. Não deu. Ela estava ali, hierática, esperando a resposta, séria e compenetrada como uma Ellen Gracie antes de uma votação do Supremo, só que muito, muito mais bonita. O que a levava crer que eu sabia a resposta me era desconhecido. Já era tarde. Chovia. O mundo estava em paz - à exceção do Oriente Médio, claro - e não haveria motivo aparente para se levantar questões desta ordem, tão profundas, tão desconfortavelmente atormentadoras. Há coisas terríveis para as quais não se tem uma explicação satisfatória. Paciência, fazer o quê? São várias: receber uma ligação de uma antiga namorada depois de anos, por exemplo. Ser capturado por uma melancolia inesperada no final da tarde. Não conseguir dormir e queimar-se de saudade. Amar sem poder ser amado. Ser amado sem saber amar. Absurdamente, teimosamente, desesperadamente, olhar para o celular à espera de uma ligação ou torpedo que nunca vem. Receber uma mensagem no Dia do Amigo exatamente daquela pessoa que dorme de camiseta branca no seu coração. Essas coisas doem. Doem para sempre. Injetam na corrente sangüínea uma dose considerável de raiva e angústia. Perde-se, então, a vontade de sonhar. A ruptura com a felicidade se instala sem trégua. E não há analgésico que dê jeito – todo o corpo parece dilacerar-se em ondas de febril sofrimento. Por isso, a frase da tal mulher de olhos de cristal (fazia-se assim) bateu na trave do campo de futebol que tenho no coração - onde jogo mal e quase sempre perco - e entrou no fundo das redes, sem chance de defesa. Mal pude perceber que a sentença da quase-Gracie era uma pergunta, pois a moça disfarçou o suposto tom interrogativo com um drible de língua, daqueles que deixam os fonemas oclusivos no chão e os bilabiais da arquibancada de boca aberta. Numa imagem de esgrima, foi uma estocada verbal, com a classe de um florete levíssimo. Sangrei pouco, por timidez. Uma vez disparada, a frase-míssil executou uma parábola perfeita e fez piscarem as luzes que suponho existirem no córtex cerebral que me recheia o crânio. Assim como Tony Newman e Doug Phillips, me perdi num torvelinho de um túnel do tempo particular e fui jogado num mundo antigo, escondido num daqueles escaninhos empoeirados da memória. Súbito, uma mulher corre no jardim da minha infância, despenteando flores e desmontando o tempo; o sol vermelho, dardejante, encontra, enfim, morada nos seus olhos de fogo que, um dia, viram Seabiscuit e que, de tão sensíveis, notavam, sem dificuldade, a rotação da Terra. Vá entender os caminhos de rato da memória. A quase pergunta – pois era mais um pedido de socorro – reverberava ainda na capilaridade auditiva de meus tímpanos cansados de ouvir tanta explicação para nada, tanta distração para a angústia, tantas promessas que se perderam no tempo, como lágrimas na chuva. Entendi perfeitamente as 19 palavras que ela proferiu numa voz firme, mas com manchas de sangue coagulado. Cada um dos 19 vocábulos veio-me cinzelado pelo Escultor Divino, a quem sempre recorremos na hora do aperto. Por isso, pensei: “Meu Deus! O que digo?”. Sou tímido no lidar com as pessoas. Prefiro o eyekissing. Gostaria de ter respostas prontas. Sábias, de preferência. Na hora, não tinha nada, não sabia nada, não entendia nada, com toda a ênfase niilista que essas duplas negativas me proporcionavam. Perdi o chão. Desliguei o reverso das duas turbinas que me movem as engrenagens atrás dos olhos míopes e fiquei em silêncio, mesmo depois da terceira vez que ela usou o chicote de Indiana Jones para eu dizer alguma coisa:
- Fernando, como amar alguém que em vez de se afirmar pela presença, se eterniza em nossa vida pela ausência?
Não tenho a mínima idéia do que pensei na hora. Digitei mentalmente a palavra “help” no Google da alma e esperei a salvação. Que responder à moça de olhos de cristal que, agora, me fitava aflita com os mesmos? Só o fato de não ter sido acometido por uma fulminante catatonia já me enche de orgulho. Procurei emular Drummond, que dizia que um mundo confuso pede também um método confuso. Não me seria difícil. Quis lhe dizer - mas não soube como - que não há instrumento, não há força, nada que adiante. Resta a delicadeza. E, sobretudo, a atitude que justifica tanto sofrimento: a paciência de esperar.

070905

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

ELVIS NÃO MORREU



Elvis não morreu. Sei que não conto uma novidade, mas sou levado a repetir: o cara está ainda por aí. Pode estar escondido no Havaí ou isolado numa ilha perdida no pacífico. Graceland é para despistar. Pode ter comprado um castelo na Mongóvia, cercado de lagos sobre cujas superfícies ele apara as costeletas encanecidas, logo depois de acordar, lá pelas cinco da tarde, cercado de coelhinhas da Playboy (tem um acordo vitalício com o velho Hefner). Elvis está vivinho da silva, posso ver no recém lançado DVD com um showzaço em Las Vegas, chamado, com toda propriedade de “That’s the way it is”, dirigido por Denis Sanders. O cara era e ainda é isso mesmo. O cara. The Pelvis. Em plena forma física e vocal, como na famosa cena em que canta Love Me Tender enquanto beija as fãs ao lado do palco. Delírio. 1970 era o ano. O Brasil ganhava a Copa e ele mexia as franjas do macacão branco, com golas altíssimas, cheio de strass e lantejoulas que, nele, pasmem, ficava muito bem. As luzes da cidade cintilavam mais porque ele chegara. Fechou cinco andares do hotel, chamou as meninas boas com as quais fazia coisas ainda melhores e confessou, antes do show, que estava nervoso, ajeitando os enormes óculos de lentes azuis. Durante os ensaios, brincava com os músicos, fazendo piadinhas com a tensão pré-estréia. No show, não vacilou em saltar do palco e dar uma volta no meio da platéia. Os fãs, incrédulos, se amontoavam ao seu redor e o agarravam com o que permitia a ousadia da época. Tudo isso restauradinho no DVD duplo como a dupla vida do filho de Gladys, que venceu a data fatídica e, para muitos, fictícia, de 16 de agosto de 1977. Morreu? Que nada. Elvis deve estar conectado na grande rede, lendo sobre as comemorações de 30 anos de sua morte. “Caramba! Quanto tempo!”, exclama baixinho enquanto faz um download da versão beat de Heartbreak Hotel. Ele sabe que os sapatos de camurça azul combinam ainda com uma ponte sobre águas turbulentas. É agora ou nunca. Está livre. Não mais prisioneiro do rock. Tom Parker, o coronel, não mais lhe controla os passos e os gingados. Priscilla só entra com crachá, e Lisa Marie só aparece no Dia de Ação de Graças para pedir um reforço na mesada, aquela ingrata. Ainda grava num estúdio no porão do castelo e treina karatê uma vez por semana. Um dia, ainda deixa fazerem um documentário igualzinho ao que Patrícia Pillar fez agora sobre Waldick Soriano, e ficaremos sabendo que ele teve glaucoma, passou por uma rinoplastia e viveu, em 1962, um romance com a feiticeira Elizabeth Montgomery. Pode ser. Não duvido. Tudo bem, mama, cantarola sem perceber que a velha turma chegou para uma jam session. “Entraí, mermão!”, a voz do ídolo ecoa pela clarabóia da sala de jogos. Elvis continua. Era como ele era e ainda é. Basta ver a imagem digital do show. Lá vem ele. Entra no palco. A galera vibra. Já faz trinta e sete anos e parece que foi ontem.

070829

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

O QUE AS MULHERES PROCURAM NA BOLSA



Joaquim, me perdoe. Peguei mesmo, na mão grande, o título de uma de suas crônicas porque vi, ninguém me contou, olhos femininos cheios de curiosidade assim que se depararam com a frase na capa do livro em cuja página inicial você me escreveu uma das mais singelas e inesquecíveis dedicatórias que já me ocorreram nesse longo trajeto: “Para Fernando, companheiro de letras, uma olhada na bolsa dessas mulheres maravilhosas. Grande Abraço, Joaquim Ferreira dos Santos”. Os olhos a que me refiro quiseram mesmo saber o que contêm bolsas de todos os tamanhos e tipos, de mulheres de todos os tamanhos e tipos, nas horas em que essas mulheres estremecem achando que esqueceram o celular em casa e passam a procurá-lo, desesperadamente, mas com classe, em cada compartimento do acessório essencial. Os olhos femininos em questão se perguntaram se alguém sabia mesmo o que elas, TO-DAS as mulheres, procuram achando que vão achar. Pode ser um batom, pode ser uma edição de O Segredo, pode ser o borrifador com aquele perfume que ela considera infalível, pode ser a chave do carro. Pode ser tudo. Pode não ser nada também. Os olhos femininos sabem que a bolsa é a representação do universo delas, um mundo no qual ninguém pode entrar assim – só se elas deixarem. As mulheres procuram na bolsa os elementos componentes da cosmogonia, pois elas conhecem a natureza da dor e o rastro de vida que é deixado para trás quando a luta já é ontem. Elas têm plena consciência de que deixar um amor é tão difícil quando se entregar a ele, com a diferença que, na partida, abandona-se o melhor de nós calcinado, irreconhecível, sem recuperação, sem DNA afetivo para posterior reconhecimento no IML das lembranças noturnas. As mulheres estão atrás disso quando vasculham a Louis Vuitton que o camelô jurou ser “igualzinha” a da loja, com cuidado para não estragar o esmalte, claro, pois o homem moderno tem a obrigação de saber que uma unha lascada pode devastar todo um plano perfeito para o final de semana. Elas procuram - e não acham – o lugar exato onde os amores verdadeiros podem estar. Sabem que alguns os encontram virando a esquina, outros num chat, como Meg Ryan e Tom Hanks em You’ve got a Mail. Procuram na bolsa o espelho para conferir se têm mesmo a alma nos olhos, aquele olhar de ternura que humaniza a beleza. Sim, pois não basta ser bela – há de ser terna e eterna. Sabem que não lhes basta ser olhada. É preciso que olhem o mundo com olhos de quem realmente quer ver. Em geral, o olhar de uma mulher bonita se perde em vagas emanações de um nada remoto. De tanto ser olhada, esquece que tem olhos. Por isso, essas mulheres procuram na bolsa pedaços de certezas e vão em frente. No fundo, as mulheres buscam, lá no fundo, a confirmação que por mais que se mutile o ser, ele se recompõe. Quando agoniza, na verdade, está renascendo. Como se a inabalável determinação de outrora constituísse, em si mesma, numa cirurgia eficaz, um botox psicológico nas idéias e atitudes. Estão convictas de que a única plástica que funcionaria é a do olhar porque se pode esticar tudo, mas é o olhar que guarda arqueológicas certezas. Elas procuram sem encontrar porque precisam de muito mais informações do que o homem para se apaixonarem e avaliam seu objeto de amor a partir da delicadeza do trato, na firmeza das atitudes, no carinho do toque, no significado que ele, o homem limitado de hoje em dia, dá à relação de amor. Pela teoria einsteiniana, tudo no universo é relativo – com exceção da velocidade da luz, que é absoluta. A isso eu acrescentaria os olhares femininos, absolutíssimos. São esses olhares que perscrutam a bolsa e provam que entre o caos de cremes, batons, canetas, lenços de papel, documentos e fotografias há uma estrutura matemática. Elas sabem que até os sonhos têm uma disposição lógica e estão ligados a alguma coisa femininamente misteriosa. Por isso, procuram na bolsa o que perseguem na vida – alguém que as entenda, alguém que consiga enxergar mais do que elas deixam ver, alguém que, além de saber a diferença entre luzes e balaiage, lhes dê um forte e profundo abraço quando as encontram no fim do dia e as façam se sentir únicas e essenciais.


070815

terça-feira, 24 de julho de 2007

ANTES E DEPOIS...


Eu não sabia que poderia existir algo como antes e depois. Só quando a noite cala todos os sons, todas as possibilidades de sons solidários que a luz solar traz sem o menor comedimento, é que nos damos conta que o depois já se instalou neste espaço de esquecimento que só o solitário pode avaliar. É quando se pode ter aquela oportunidade, cada vez mais rara, de pular fora da sincronia com o mundo, de experimentar algo íntimo e profundamente doloroso sem que olhos insensíveis nos condenem. Por isso, tento me despedir de parte de mim que não chegou a se realizar e que morreu, na noite passada de complicações decorrentes da perda do seu objeto onírico. Era uma parte considerável de minha pessoa, distinta, com tendências controlavelmente obsessivas e nunca pareceu padecer de um romantismo incurável e inconveniente. Porém, nos últimos dias de sua vida, essa parte revelou um lado pouco conhecido de minha personalidade, se é que gente estranha assim pode tê-lo. Esta persona oculta, quase Jungiana, pereceu na busca de sua alma gêmea, que também tinha a forma onírica dos desejos. No entanto, os sonhos precisam daqueles que o sonhem e, infelizmente, essa busca terminou, tristemente, sem que se chegasse ao encontro, numa noite dessas, de completo e irremitente fracasso. Tinha convicções. Agarrava-me à certeza de que a vida não é uma mera seqüência de coincidências sem sentido, mas sim num conjunto de eventos inesperados que culminam num plano perfeito, sublime e belo. Não sabia se o destino existia ou não. Não obstante achava essa discussão útil à aproximação das pessoas e à permanência dos laços, apesar dos desatamentos que a imperfeição humana insiste em nos impor. Pergunto: como olhar para você sem lembrar que, entre nós, a carne, a boca, as unhas, braços e pernas nunca tiveram estremecido em delírio? O sofrimento parece sugerir que o amor é, em grande medida, uma imagem que se desfaz quando dela nos aproximamos – vai perdendo a nitidez e passa a existir como miragem que, pelo menos, nos guia piedosamente neste imenso deserto de carinhos em que a vida se transformou. Uma dor assim não significa a falência de nossas convicções, mas a necessidade de aprimorarmos nossos planos de amor. Mesmo que só nos reste o depois.

07/07/24

segunda-feira, 16 de julho de 2007

PANACÉIA



Ok, está certo! Pode cobrar a taxa de rolha que vou levar meu próprio vinho, me sentar diante da TV e deixar o Pan acontecer diante dos meus olhos. Pode deixar que sei que “entregar o travesseiro” tem a ver com pagamento de corruptos e que “gastos com a reforma da igreja” é propina mesmo. E ainda há mais um catadão de expressões criadas para fugir da escuta da PF. Ao contrário de muitas gírias, que podem passar de geração para geração, as criadas no calor do crime costumam ter vida curta, ao sabor da existência de uma quadrilha. Mas gosto de estar por dentro, saber das coisas. Sigo adiante. Se Lenny Kravitz gosta de afogar as mágoas no Rei do Bacalhau, em Duas Barras, e bater uma papo com Haroldo sobre cogumelos, fazer o quê? Vai, relaxa e goza, não esquenta. Vamos ao Pan e tentar acompanhar as emocionantes provas de esgrima ou os jogos de beisebol de tirar o fôlego. Gosto de televisão. Tenho várias, aliás. Ficarei com ela, madrugada adentro, num diálogo em tom azul. Essa é uma das maneiras de se enfrentar a solidão, juntamente com livros e o rádio, bem baixinho, na CBN, ouvindo o que o mundo tem a dizer, mesmo que seja sobre a novela da renúncia de um tal de renan em Brasília ou mais uma incursão do Caveirão ao Complexo do Alemão. Não quero saber de iPhone. Tenho o que me basta à alma. Vou testemunhar as vitórias certas da seleção de vôlei na solitária dimensão quadrada do meu quarto e lembrarei que já dei minhas cortadas no corredor e bloqueei muito troglodita que não via a beleza sutil de uma deixadinha inesperada. Aproveitarei os interregnos das competições para rever Cartas de Iwo Jima, obra memorável do mestre Clint, e me emocionar, mais uma vez com Ken Watanabe caminhando pela praia silenciosa, mas sem prenúncio de paz. São duas semanas daquilo a que chamam férias, e tenho que acabar a Modernidade Líquida de Bauman; preciso ver aquele pôr-do-sol na praia; é imperioso que escreva mais, em qualidade e quantidade. Seria um exagero palmar pretender ler tudo o que ficou para depois, mas farei força e isso certamente me levará a reencontrar por alguns momentos a sintonia perdida com esse mundo barbárico e sem sentido. Sempre foi assim – a gente é que insiste no contrário, na estrada de tijolos amarelos, se é que você me entende. Assim como no Planeta Bizarro do Super-Homem, onde todos os conceitos foram virados pelo avesso, o amor pode dar certo. Esperemos. Torçamos. O estar-sozinho-no-mundo deve ter ramificações ainda inexploradas. Por isso, suspeito, criamos o lócus amorável encimado pelo the end antes de rolarem os créditos finais. Deve existir. Onde? Deve ser acessível. Quando? Deve ter um perfume que inebria. Quem? Tudo bem que a globalização, a informatização, a individualização, customização, a clusterização, e tudo mais que o sufixo sopre nos neurônios, diluem a potencialidade dos encontros verdadeiros, mas fazemos bem em resistir. No lugar mais alto do pódio, estará aquele que transpuser barreiras externas e vencer os limites da própria existência. Medalha, medalha, medalha... diria Mutley com aquele risinho irônico. Queremos ganhar a prova, ser livres, não? Como pegar o trem para a liberdade? Como entender que as pessoas podem simplesmente não querer ser livres e rejeitar a perspectiva da libertação pelas dificuldades que o exercício da liberdade pode acarretar? Volto à TV. Já é tarde, ou cedo (olha o Planeta Bizarro aí gente!), e pego um filme da Mia Zottoli num desses canais a cabo. Linda. É uma cena no mar – ela está deitada, e nas mansas ondas de calor que a areia emana, como se cada uma despisse sua pele, desfazem-se os limites. Nada é fixo, nem há quinas no vento. A imensidão murmura, movendo lentamente sua carne roliça. É o remédio para todos os males (ou males, em inglês, não é Callahan?).

07/07/16