sábado, 19 de maio de 2007

NOVEMBRO



Não, não fui ao casamento da Angélica, o que seria uma boa desculpa para ter ficado tanto tempo sem escrever neste retângulo semanal. Já adianto: ninguém reclamou. Mas volto à labuta numa noite chuvosa, meio que custando a acreditar que já é novembro, aquele mês em que temos que correr para fazer tudo que ainda urge antes de acabar o ano. É também um mês que traz muitas recordações, algumas das quais persistem, ano após ano e se já duvidei do slogan que dizia “Cole com Tenaz e descole se for capaz”, não deixo de acreditar que ponho os pés (dois, quatro?) num mês cercado de mistérios e símbolos que se abatem sobre mim como uma tsunami gigantesca.
Talvez a explicação para esta imprecisa aura mística esteja no Dia de Finados, logo assim no começo, um dia que me assusta desde pequeno, só pela tentativa de entender como podia haver um dia especial para quem já havia morrido. Havia algo que não batia bem, além das engrenagens encefálicas. Mais coerente seria uma Noite de Finados, concluía minha implacável lógica infantil. Achava meio despropositado, sem sentido, um feriado que era para ninguém sair de casa para se divertir, sob pena de aborrecer quem já partiu dessa para melhor.
Mas isso passou rápido e aproveito sempre o penúltimo mês do ano para rever Sweet November, um filme com Charlize Theron no início de carreira, linda como sempre, com cabelinho curto e roupa meio riponga, no qual ela encontra o amor da vida dela, justamente quando não pode se entregar a ele. Sintomático, não? Assisto à noite, na madruga, sem a luminosidade do horário de verão, este fenômeno temporal que acontece no meio da primavera, para chorar e ninguém ver. São coisas só entre mim e Charlize e recuso-me a dar maiores detalhes. Aliás, o horário de verão, com seu efeito rolo de macarrão, espichando a tarde noite adentro, causa muitas polêmicas – tem gente que gosta e tem gente que o-dei-a – mas não há muito que fazer. Decide-se que o horário muda neste esfingético mês de novembro e temos que aceitar, gostando ou não. Não perco tempo com isso, como também não perderei entrando num grupo de discussão sobre o Código Da Vinci, a moda da hora, primeiro porque não li, segundo, porque sou totalmente contrário a essas teorias conspiratórias e prefiro ficar torcendo por Kerry e sua turma de artistas bacanas a tentar achar soluções para enigmas esotéricos e picuinhas que envolvam a Ordem dos Templários ou a natureza do Santo Graal. Tenho mais o que fazer e o dia continua a ter as mesmas 24 horas de sempre, mesmo com o novo horário, não tem jeito.
Só para não dizer que não acredito no sobrenatural, encontrei, por acaso, outro dia, no fundo de uma gaveta, um texto antigo, da minha humilde lavra, em que eu me cobrava escrever todos os dias para, digamos, burilar o estilo. Achei que era um toque. Apesar dos hiatos meio longos de ultimamente, tenho me pegado pelo colarinho e escrito até o cérebro explodir (a expressão existe em inglês, sorry!) só para ver se melhoro um pouquinho. Sei, sei, você vai dizer que não adiantou muito. Mas insisto. Claro que não tenho a inteligência lingüística de um James Joyce ou um Guimarães Rosa. Porém, não possuo também a burrice literária de alguns escritores famosos que, em função do marketing maciço das editoras ou da absoluta falta de critério crítico dos leitores - ou a provável combinação dos dois - se consideram no patamar da literariedade.
Não quero Ritalina para esta hiperatividade da escrita que se me acomete neste mês dos aniversários de Cecília Meireles e Joe. Alguma coisa diferente pode acontecer na tela do computador sem ser um spam. Ler e escrever costumam resultar numa combinação mais poderosa do que todas as bombas já deflagradas na estúpida guerra no Iraque e, se bem conjuminadas, podem se transformar num hubble cultural capaz de nos tirar o pé da lama da mediocridade, cuja liga uniforme e resiliente costuma deixar as pessoas, democraticamente, imobilizadas sob o pesado guante da ignorância. Por isso não deixo de registrar, nestas mal digitadas, o que penso e, assim, chegar a novas conclusões, a diferentes ângulos da realidade que nem o intricado roteiro de Matrix Reloaded conseguiu deslindar. Não tenho a pretensão de ser um polímata (dicionário, rápido!), mas num mundo dito globalizado de hoje, com tantas fontes de informação sobejamente jorrando em cada esquina do caminho árduo daqueles que têm curiosidade acadêmica, não dá para entender porque tanta gente simplesmente se recusa a dar um passo para fora da caverna platônica. Coisas assim me deixam mais apreensivo do que um alerta laranja em plena Times Square e, mesmo lidando com alunos há tanto tempo, ainda não consegui entender porque as pessoas, em geral, se satisfazem com tão pouca informação, estimulam ao mínimo a rede de neurônios que lhes deve ocupar a cabeça e se mostram, via de regra, desinteressadíssimas em qualquer novidade que abra uma picada que seja no denso matagal da falta de saber. Mas vou dar uma colher de chá aos preguiçosos: quanto mais se estuda, mais ciente ficamos do pouco que conhecemos e do quanto ainda há para ser descoberto. E que prazer perceber, a cada momento, que ainda há muito que aprender e que uma vida só é insuficiente para se chegar a um mínimo aceitável. Assim como o amor, viver dura mesmo o tempo da descoberta.
É esse tipo de curiosidade que me faz entrar em novembro com o respeito e a cerimônia de quem visita um templo. Hei de me deparar com o novo, com o desconhecido ou mesmo me curvar humildemente e pegar a ponta do novelo de algum trauma que anda emperrando minha história neste vale de lágrimas. Talvez descubra que a Charlize mora ao lado, que é a famosa girl next door, esta fantasia ianque que Ms Monroe tão bem personificou com sua pele alva e cabelos louros, por sinal os mesmos de Charlize em Sweet November, e introduziu, sem xilocaína, o culto às louras no imaginário masculino de uma nação onde quem manda bem mesmo são as morenas. Talvez me dê conta que o horário de verão sirva mesmo para promover estes encontros no final da tarde prolongada, com a loura, a morena, comigo mesmo se tiver sorte. Verei tudo com o olhar maravilhado que deve ter quem vê um disco voador e serei, enfim, dono absoluto dos enigmas de novembro. Especialmente este novembro, mês em que sinto que vou embarcar na definitiva viagem literária, mês que pode sacramentar, na Casa Branca, mais quatro anos de Bush e seu fanatismo religioso, aleijamento de uma política feita de soberba e arrogância que vem, lentamente, dissolvendo a esperança que temos um mundo melhor. Se isto acontecer, podemos tomar um uísque e acender um cigarro triste, como Humphrey Bogart em Casablanca diante da certeza cruel de que Ilsa se foi para sempre.
02 de novembro de 2004.

sábado, 12 de maio de 2007

O NOME




“Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente”

Ele passou tempos sem pronunciar o nome amado.
Aquele nome ainda provocava-lhe arrepios, decalcava da realidade uma emoção que, não raro, parecia ter se perdido no torvelinho cotidiano das platitudes. Havia alguma coisa viva naquela palavra, algo que queimava e o fazia sentir a mesma dor que o amputado registra na perna ou no braço que já não mais existem.
Durante muito tempo fugiu deste nome. Esforçava-se para não o reconhecer, mesmo quando ele aparecia num grito durante uma leitura, ou quando, entreouvido numa conversa de rua, feria-lhe a alma como uma espada samurai. Não imaginava que um nome podia ser tão forte, tão intenso, tão emblemático, que era possível habitar-lhe o imo. No entanto, ele estava lá, enquistado nas lembranças, para sempre. Assim lhe parecia. O nome tornara-se um castelo, uma fortaleza, um refúgio e, ao mesmo tempo, um cárcere. Assumia formas arquitetônicas – muros, corredores, torres. Por outro lado, a inequívoca junção fonética reconstruía cores, formas, cheiros, olhares e um sorriso que ainda imaginava ouvir. Não podia esquecer, suposto que quisesse, se pelo menos tivesse forças para tanto. Quanto mais fugia, mais se sentia preso ao nome desejado que, por vias de dor e ingente sofrimento, não tinha mais condições de proferir. E assim ele permanecia calado, calado do nome amado, calado da vida, imerso num silêncio enorme de si mesmo, pois não poder dizer o nome amado é também, de alguma forma, uma sentença de morte. É deixar de nominar o momento, o imponderável, o raio mágico que ilumina o mundo quando alguém passa e fica. É não saber mais o nome que o amor pode ter.
Mas o nome não morria. À noite, espreitava por entre os ruídos da madrugada, pisava-lhe os sonhos, acordava em sua boca: A...
A saudade que aquele nome lhe trazia não fazia barulho, não fazia sentido. Insidiosa, ela se movimentava lentamente pelas frestas das portas, espreitava anos a fio atrás das cortinas e – de repente – explodia, introduzindo uma cunha que levava à cisão entre corpo e mente, entre sonho e a realidade.
Trancou o nome no próprio coração, lugar distante e tão pouco freqüentado. Não queria vê-lo, ouvi-lo, tocá-lo. Também desejava que não o trouxessem à vida ao pronunciá-lo com descuido e, assim, por conseqüência, dessacralizar a saudade absurda que alimentava seu atormentado guardião. Havia algo de premonitório naquele embaraço de dor e saudade, alguma coisa que transcendia a rubra assinatura que não se apagava. Neste caso, o tempo fere todas as cicatrizes.
Contudo, o nome teimava em fugir da sua masmorra vermelha e voltava ainda mais forte, ainda mais nome. Percebeu, já exaurido, que não adiantava lutar. O nome sobrevivia nas cartas rasgadas, nas canções compartilhadas, nos crepúsculos de outono. Acompanhava-lhe os passos, em silêncio, como a sombra do fim da tarde quando, ao caminhar pela orla, pensava em depositá-lo nas ondas do mar, devolvê-lo à brisa que antecede a noite, perdê-lo enfim. Súbito, entendeu que o nome não era mais “o nome” e sim uma sensação indefinível que o escoltava, silente e plena. Uma sensação que se chamava A. e que não era A.
Começou a escrever um texto. Durante uma noite inteira, escreveu, inscreveu-se. Pensava no nome e na dona do nome, a senhora dele próprio, dos seus afetos, da sua história triste e carente de esperança. Sentia uma falta devastadora dela, dos fragmentos de vida que se espalhavam por dentro dele. Entre um parágrafo e outro, se dava conta de que o tempo é apenas uma imitação deformada da eternidade. Já não sabia se dominava o nome ou se a ele pertencia, pois este nome tinha um contorno, uma vontade característica, determinava as tintas, a moldura, a luz, o chiaroscuro que Caravaggio ousaria. Lembrou dela, a mulher a quem aquele nome remetia com a força de dez tsunami. Lembrou do seu aparecimento e de como havia se dado conta que algo de irreparável acabara de ocorrer em seu destino. Lembrou de como a olhava e de como ela redespertava nele sutis áreas de percepção. Era isso: sua presença era construída pelo olhar, sentido e verbo.
Continuou a escrever e as palavras o levaram a crer que a saudade apresenta-se de muitas maneiras, nem sempre com o som úmido das lágrimas na noite ou com a dor clássica no coração. Em alguns casos, é apenas uma porta que bate com o vento da noite e interrompe passado e futuro, a felicidade que foi e a que, dolorosamente, poderia ter sido.


06/04/15

ABRAÇOS



Recebeu a carta de manhã e deixou-a sobre a mesa da sala, enquanto ia fazendo as coisas do dia. Tentando esquecer daquele retângulo de papel, tomou banho, escolheu criteriosamente a roupa para o trabalho; tomou até café, coisa que andava evitando em função da insônia e dos pesadelos, quando conseguia dormir. Pediu a empregada que fizesse as compras e que conseguisse pêssegos, raros por causa da época. Achou que uma fruta assim, rara, macia, cheirosa, era um símbolo para aquela nova mulher que começara a nascer há pouco tempo, dos seus escombros, da sua pele rasgada, dos pedaços recolhidos entre lágrimas e dor.
Chegou ao escritório com a carta enfiada mentalmente num dos desvãos das lembranças. Ainda estaria lá quando chegasse à casa de noitinha? Talvez a empregada a confundisse com uma correspondência protocolar, sem maior importância, dessas de banco comunicando que não temos mais dinheiro quando já estamos cansados de saber disso, e a jogasse fora sem estranhar o envelope intacto. Talvez a carta se perdesse naturalmente no meio dos papéis da mesa e acabasse no fundo de uma gaveta que se abre cada vez menos. Seu plano de esquecimento se mostrava totalmente descabido e a fazia pensar mais ainda no que ele poderia ter escrito para ela depois daquele período indefinido, no qual não sabemos se já passou muito tempo ou se ainda é cedo para começar a esquecer. O que ele dizia naquela carta? Ou melhor, o que queria com aquela carta, assim, tão inesperada, tão improvável depois das discussões, das cobranças, das frustrações declaradas?
O dia demorou a passar. A estudada indiferença se transformara numa ansiedade incontrolável. Deveria ter lido a carta no momento que ela chegou, sem prolongar o suplício que ela própria já sabia que não conseguiria suportar. Ligou para casa para se certificar que a empregada não tinha mesmo dado um fim involuntário àquilo que ela mesma não soubera terminar. Não adiantou. A empregada já havia saído e a casa deveria estar então silenciosa e limpa, com aquela carta gritando em cima da mesa. Conformou-se. Achou até engraçado pensar que aquelas páginas escritas pela letra firme dele cuidadosamente dobradas em três partes rigorosamente iguais, como era o seu costume, eram como se ele mesmo, em pessoa, a estivesse esperando, na sala, exatamente como fazia antes de partir. Mas já não esperava mais nada. Já há algum tempo não se permitia ter estes devaneios adolescentes ou achar que os homens eram assim mesmo. Ninguém é assim mesmo. Cada um, por mais previsível que seja, é uma nova obra a ser lida, ouvida, apreciada, mas sem expectativas demais. Melhor ainda se as tivesse de menos, ou as eliminasse de vez da sua vida.
Abriu a porta da sala e logo viu a carta, no mesmo lugar. O trajeto entre o corredor e a mesa pareceu-lhe interminável. Seu coração disparou. Engoliu em seco. Mordeu levemente o lábio – coisa que fazia sempre que estava nervosa, ele, um dia, notara.
Releu seu nome no envelope. Jogou a bolsa sobre o sofá e sentou-se, a carta queimando os dedos longos, a pele alva. Começou a ler. Sua respiração ditava o ritmo dos parágrafos, esses mesmos sem grande relevância: apenas uma ou outra reminiscência, algumas observações formais. À medida que ia lendo, seu corpo confrangia-se numa súbita queda de temperatura, uma febre gauche. Sim, havia questões relacionadas ao advogado, à quitação de prestações de algo que havia sido comprado junto, mas do qual ela não se lembrava direito agora. Ele aproveitava para lhe comunicar que havia trocado de celular, mas que não tinha ainda o número novo, no que ela fingiu acreditar sem pensar muito. Assim, a carta ia terminando como uma voz cada vez mais baixa de alguém que se afasta ou vai para um outro cômodo da casa, sem se importar se estamos ouvindo ou não. Ela sempre detestou isso. Mas foi até o fim, entendendo que se tinha chegado até ali, o pior, certamente, já havia passado.
No entanto, sentiu-se apunhalada entre o último parágrafo e a assinatura, sem ter como se proteger, já que vinha lendo num só fôlego, trincando os dentes como se abotoasse uma armadura sentimental, não de todo indevassável e totalmente desnecessária num momento em que se encontrava inapelavelmente só.
Do lado esquerdo da folha, bem alinhado ao recuo do parágrafo anterior, veio o último e efetivo golpe, contra o qual não haveria defesa, não fosse ela de uma sensibilidade anacrônica, até impertinente. Uma palavra que destruía qualquer possibilidade de reação diante da fragilidade em que se encontrava naquele momento: abraços...
Seca, afiada, fria, ela ressoava como um sino no campanário de um cemitério, à saída do cortejo. Destituída de sua sonoridade e do contexto que a enobrece, a palavra lhe pareceu uma contrafação de si mesma, sem sentido, dura, deslocada entre duas pessoas que há pouco se amavam para sempre.
Embora embutisse no seu significado um dos mais nobres sentimentos humanos, embora fosse o que muitos pediam na hora do desespero, embora substituísse até com certa eficiência aquele silêncio angustiante que se instala nas despedidas, atingiu-a em cheio, como uma mera manifestação formal e fantasmagórica de um sentimento supostamente recém sepultado. Assim, no plural, bem que podia significar um prolongamento, um não-abandono, um conforto, o desejo de uma amizade sincera.
Mas, para ela, então, era somente e apenas o último degrau do cadafalso, diante do qual só sentiu uma repentina e absurda vontade de chorar.

03/01/28

O QUE SE PERDE COM A GUERRA, OU O LIVRO QUE BUSH JAMAIS ESCREVERÁ


O grande livro da História da Humanidade bem que poderia ter, como subtítulo, a seguinte frase “ou como administrar conflitos”, pois, desde que o mundo é mundo, o homem briga com seu próximo, mesmo que este próximo esteja a milhares de quilômetros de distância. Por isso mesmo, inventaram os mísseis intercontinentais.
Não se ganha muito com a guerra, embora a indústria bélica discorde disso, mas, na realidade, fora a opinião destes senhores, perde-se muita coisa. Perde-se, logo de saída, a esperança na paz, pois – a história mostra – quem começa a guerrear não pára mais. E sem paz perde-se tudo.
É bem conhecido o Mito da Caverna, tal como foi exposto por Platão, no trecho mais célebre de sua “República”. Para o filósofo grego, ao conhecermos as coisas na materialidade delas, estaríamos em contato com o que elas têm de fugaz, de provisório, e perderíamos de vista o fato de que a verdade profunda dos seres e das coisas está num nível transcendente: o mundo das idéias. Cada ser, cada coisa, dizia, é apenas a cópia material imperfeita de uma idéia perfeita, de cujo conhecimento só podemos nos aproximar através de um esforço de elevação espiritual.
Na caverna em questão, haveria um sujeito nascido e criado lá dentro, voltado exclusivamente para os fundos da gruta, enxergando apenas as sombras dos animais que passavam lá fora e eram projetadas na parede com que se defrontava. Esse sujeito não poderia deixar de supor que as sombras, afinal, eram os próprios animais.
Essa, segundo Platão, é a nossa situação. Somos prisioneiros de limitações ideológicas que correspondem às do indivíduo do Mito da Caverna. Acreditamos demais na nossa percepção empírica das coisas e não nos aprofundamos suficientemente na busca do seu significado menos óbvio.
Em pleno século XXI, diante da televisão, ou lendo os jornais, sinto-me como o inocente indivíduo da caverna, sem saber direito o que está acontecendo lá fora, se as informações que me chegam correspondem mesmo ou não à realidade.
Em função do mundo globalizado, a guerra, no Oriente Médio ou em qualquer outro lugar do mundo, já se instalou na alma do que habitam a confortável caverna do novo século. Pois em meio aos objetos high tech como o computador, a Internet, os eletrodomésticos e as câmeras digitais, nos sentimos, muitas vezes, receosos em sair do apartamento/caverna, para descobrir a realidade lá fora. Paradoxalmente, a realidade está se tornando cada vez menos confiável e, se sabemos, no momento real, o que Mr. Bush está falando para milhões de americanos em cadeia nacional (cadeia de TV, por enquanto, bem entendido), nunca vamos conhecer o que ele, ou qualquer pessoa, está tramando nos bastidores do poder.
Então, perde-se com guerra, ou com a proximidade dela – graças à “eficiência” dos meios de comunicação - a sensação de segurança de viver num mundo mais progressista, no qual bilhões de dólares são enterrados juntos com o que resta dos corpos dilacerados pelos ataques cirúrgicos em moda desde a guerra do Golfo, doze anos atrás.
Perde-se um pouco da quase certeza de que o empenho intelectual seja talvez a nossa maior arma contra a injustiça e o desequilíbrio entre os povos. A precária formação política e acadêmica de quem detém o poder (bélico, pelo menos) e a ameaça que isso representa para integridade física da humanidade são pontos perdidos a contabilizar no perverso jogo “o-meu-é-melhor”, uma sofisticação deletéria do WAR da nossa adolescência.
O poderoso líder da maior potência mundial, caracterizado por uma hamartia compreensível, mas não defensável, parece um personagem shakespeariano preste a enlouquecer, um hamlet moderno desprovido da sensibilidade do original, embora atormentado ainda pela figura paterna, pelo convite à vingança e por novéis elementos nesta história trágica: o convencimento de que ele, e só ele, é capaz de escoimar o mal do mundo, com pulso forte e mente fraca. Mente insana e corpos que não são, eis a hipotética epígrafe do livro que Bush jamais escreverá, menos por falta de tempo do que por capacidade intelectual. Definitivamente, há algo de podre no reino republicano e que não se restringe a essa antítese infame, mas bem ao gosto do hamlet ianque que, há muito, optou pela segunda premissa do to be or not to be.
01/05/23

A RUA



A Rua da Assembléia era especialmente dolorosa para ele. Quando passava pelo centro da cidade, a caminho do trabalho, desviava como podia, buscava atalhos, cortava caminho, dava voltas por quarteirões inteiros, para não ter que chegar perto daquela rua então alçada ao patamar de tabu intransponível. Naquela rua, num prédio de esquina, ela trabalhava. Séria, loura, sobrecarregada de serviço e, ao mesmo tempo, distante, alta, inalcançável. Uma torre, um abismo.
Mas a rua estava lá, longa, retilínea, intumescida como uma cicatriz que não sarava. Estendida no meio da cidade, era o arranhão mais rubro no mapa vermelho do coração.
Ao mesmo tempo em que a evitava, sentia que seus passos o levavam para aquela rua, onde ela estava. Mas resistia bravamente, sem dar chance ao que chamam de saudade traiçoeira, aquela que, ao se tentar contemplar, acaba-se na mais profunda frustração. Já acontecera uma vez: havia ido, de surpresa, no local de trabalho dela, motivado apenas pela saudade. Achara injusto estar ali tão perto, com tanto desejo, depois de tanto esforço e sofrimento, e não poder vê-la, nem que fosse por um instante. É, mas a saudade pregou-lhe uma peça justamente por não consultar seu objeto e, então saiu de lá mais triste, mais sofrido, mais saudoso. Viver era mesmo rasgar-se, remendar-se.
A Rua da Assembléia, paradoxalmente, o desconstruía. Perto da Rua da Assembléia, sentia-se desconstruído, desarmonizado, desfigurado, desunido. Era como se, ao passar por ali, fosse deixando partes de si pelo chão, partes importantes, detalhes da sua história com ela. Ela. Estava lá, em algum andar alto de algum edifício triste, longe dele. Ela. Perfeitamente integrada ao ambiente e produzindo, íntegra, plena, senhora de si. Ele. Pedaço. Fragmento. Porção esquecida. Desfeito. Despedaçado. Quebrado. Partido. Rasgado. Uma terra deserta, árida, sem dona.
Aos pedaços, andava. Aos pedaços, resistia. Sentiu várias vezes a imensa tristeza de não poder caminhar livremente pela Rua da Assembléia, entrar no edifício escuro de esquina e encontrar com ela. Era um castigo diário, que, ao invés de perder força, se intensificava, mais e mais, com tempo. Seria tão fácil, estava tão perto.
Tentava se portar com dignidade. Ninguém, no torvelinho do centro, saberia que ali estava um homem que se desintegrava cada vez que passava perto da rua que deveria remontá-lo, torná-lo inteiro outra vez. Era apenas mais um que passava perto da Rua da Assembléia e que, aparentemente, nem se importava com a história que ali se escondia. Ninguém saberia que seu desejo era mesmo dar passos firmes em direção àquela rua e sentir no coração a certeza de que iria, em breve, reencontrar a mulher que amava, a mulher que trabalhava, que telefonava, que organizava, que enfeitava com sua delicada rotina uma sala, num andar triste de um prédio escuro da Rua da Assembléia. Aquela rua, percebia, guardava o grande motivo para continuar acreditando no que se lhe passava no coração, sem explicação. Ali, ela passava de manhã, indo para o trabalho e voltava à tarde, às vezes à noite, para casa. Um fato simples, mas que o emocionava.
Por dentro, doía-lhe a certeza cruel de que ela não alteraria, nem por um segundo, sua rotina diária para pensar nele. Essa era uma das certezas que a Rua da Assembléia lhe trazia. No entanto, parou numa banca, comprou jornal e até tomou uma coca cola num bar de esquina, sem que qualquer uma das milhares de pessoas que transitam por ali percebesse que ele era só metade.
Trincado, mas ainda de pé, foi se distanciando daquela rua que desunia, afastava, separava. A moça loira de olhos azuis viveria mais um dia sem saber desta história triste que passava ali perto, em forma de homem partido. No entanto, apesar de remendado, ainda era o mesmo que, um dia, passou por aquela área sem sentir a dor pesada desta saudade que não se resolvia através de equações práticas. Tudo, aparentemente, já fora dito, mas, ele, ali próximo da Rua da Assembléia, continuava a sofrer aquela desconstrução interminável. Descontruiu-se a história, descontruiram-se os vínculos, tentou-se desconstruir o amor. Constatava, contudo, que este, contudo, apesar de tudo, e por causa de tudo, permanecia. Íntegro. Inconsútil. Pleno. Sem o mínimo sinal de rachaduras; como uma casa que resiste milagrosamente, ao mais impiedoso vendaval.
Chegará a hora que este homem destroçado se convencerá que, por mais que ame, por mais que sinta falta, a Rua da Assembléia continuará sendo apenas mais uma rua do centro da cidade, onde existirá para sempre – pelo menos para ele – uma moça loura, de olhos azuis, que acenderá um cigarro, na janela, no meio da tarde, sem saber que a poucos metros dali foi motivo suficiente para o amor de um homem anônimo, agora sem lirismo, no meio da multidão.

00/02/18th

segunda-feira, 7 de maio de 2007

GERE



Champinha disse que fugir foi fácil, e quem sou eu para discutir? Mandou beijos para as lentes do amor dos fotógrafos que o esperavam na chegada da viatura. Por outro lado, Mary Jane já não é a única no coração de Peter Parker, o aranha, que neste terceiro filme já põe as oito manguinhas de fora e, ao rever Gwen Stacy, a namoradinha de infância, deixa claro que o que cair na teia é peixe. Beijo-aranha. Depois do beijo da mulher-aranha, por que não? Não tem problema – um cara que sobe pelas paredes tem que ter suas prerrogativas. Não discuto com super-heróis ou com fugitivos da polícia. Não dou tanta despesa assim. A semana mal começou, mas não posso deixar de registrar que os dias estão mesmo difíceis. Não me sai da cabeça a notícia de que Richard Gere foi capaz de despertar a ira de uma turba religiosa conservadora ao beijar uma atriz indiana, Shilpa Shetty, em um evento de caridade televisionado em Mumbai. Os líderes religiosos islâmicos o acusaram de “indecência”. Os jornais de lá notaram que, segundo a lei Shariah, o contato com uma mulher com a qual alguém não tem parentesco é um crime que pode ser punido com a morte. Gere pediu desculpas às pessoas que ofendeu. Não devia. Está tudo errado. Chegamos a um ponto em que beijar pode ofender, sem que isso gere um mínimo de afeto. Sem que gere simpatia pelo menos para esses trocadilhos nem tão sutis assim, mas que pegam bem, assim como Richard pegou Shilpa e pespegou-lhe beijos comportados mesmo até para os padrões de hoje em dia – aí está o Youtube para não me deixar mentir – aliás, o Youtube não deixa mais ninguém mentir. Claro que há as diferenças culturais, mas querer punir alguém por beijar é um pouco demais, não. Mais compreensível seria o castigo por não beijar. “Queiram perdoar, meus jovens, mas estou observando que há mais de uma hora vocês dois conversam neste banco de praça sem trocar um mínimo beijo. Vou ter que, infelizmente, multá-los conforme o código penal vigente...”, diria um guarda municipal a dois namorados assustados e, certamente, envergonhados, por ficarem tanto tempo sem oscular. Mas, vem cá, se Richard Gere, que já beijou a Julia Roberts, não pode beijar a atriz de Bollywood, quem mais poderia? Abre-se, assim, perigoso precedente, pois se a kiss is just a kiss, como na letra de As Time Goes By, por que esse fuzuê em torno do fato? Será que Erasmo cantaria de novo “Terror dos Namorados”, aquele que tem aquele beijo tão falado? E o seu mccartney Roberto ecoaria o famoso splish aplash nela dentro do cinema, ainda assim? E o Elvis, em Kiss me Quick? Pois é, o beijo é uma linguagem com sintaxe própria, significante e significado, sinalizando barthesianamente um desejo que é quase um modo de estar no mundo, quase uma cosmogonia. Será que o beijo de Gere foi o que os estudiosos chamam de “choque de culturas”, quase inevitável num mundo globalizado? Cáspite! Um beijo é um beijo, apenas isso, e está aí a Dercy Gonçalves para confirmar, quase centenária, beijando quem lhe aparecer pela frente ou por trás. Richard, não esmoreça! Você fez o qualquer rapaz sensato faria e colocou na grande rede o fato de o beijo ser capaz mesmo de abalar as estruturas, de ser notícia, de causar medo, mesmo que gere protestos de quem não sabe beijar ou apreciar a tibieza lingüística de repetir o calemburgo. Melhor assim. O cara chegou, beijou e o mundo mulçumano agitou-se dentro das burcas. Melhor do que o homem-bomba é o homem-beijo, pois este só arrebenta as paredes do fanatismo moralista. O homem-beijo, esse herói moderno, é o terrorista do afeto, explode corações como um Gonzaguinha inspirado. Entende-se o medo, mas não a condenação. Não pode haver qualquer preclusão em relação ao beijo de Gere em Shilpa. Beijo vende notícia, realizou, meu chapa? Adrien Brody beijou a Hale Berry quando ganhou o Oscar. Fez bem. Leonardo Moura beijou a bola antes do derradeiro e definitivo pênalti que deu o campeonato ao Flamengo. Fez bem. João Paulo II beijou o chão. Fez bem. Beijar faz parte do mundo, desde que foi registrado o primeiro ósculo nos textos védicos em sânscrito – e na Índia!!! – por volta de 1500 a.C., onde certas passagens citam o contato entre bocas dos amantes. Há até uma ciência que se dedica a estudar o beijo, a Filematologia. Beijar emagrece e faz crescer a auto-estima, mesmo que esta seja uma demonstração exacerbada de paixão pelo próprio carro. Não viola o “espaço cultural” de ninguém. Champinha voltou para a cadeia e ao despedir-se da quase liberdade deu um beijinho para a câmera. Está certíssimo. O beijo de Richard na atriz indiana reverberou mais na web virtual do que o do Homem-Aranha na mulher idem e fez as mulheres de todo o mundo molharem previamente os lábios antes de darem uma esticadinha ao shopping para comprar mais um par de sandálias pretas e saltos finos.

07/05/07

domingo, 6 de maio de 2007

JANE FONDA, CHACRETES E O PAPA


Está nos jornais, sem a menor cerimônia, como sói acontecer nos dias atuais, mas, para quem tinha lá seus sonhos de infância ainda intactos no isopor amarelado da memória, foi meio assim, sei lá, um choque. Jane Fonda, minha paixão, ao falar do ex-marido Roger Vadim, em sua biografia, confessa: “Estar com Vadim significava sempre ter outra mulher na cama”. Estupefiquei. Eu, já na época, aqui sem nada, ó. Desde pequeno, aprendi que Jane Fonda, em qualquer dosagem, ajuda a melhorar a função do endotélio e previne a formação de coágulos. Para que mais? Será uma Jane só não era o suficiente? Parece que, para o indigitado Vadim não. Bobo ele.
Bem sei que não deveria começar uma crônica com um assunto como este, ainda mais neste período pré-conclave, com todos aqueles cardeais em Roma totalmente isolados do mundo para eleger o próximo pontífice, como se isso, este isolamento, fosse possível num mundo globalizado, com internet, celular e todas estas mídias escancarando os mais profundos segredos. Como este acima sussurrado pelos lábios carnudos, mas nunca botoxizados, da Jane, sobre este biltre do Vadim, se é que era mesmo segredo – bem, pelo menos para mim, era. Até porque, naquele tempo, não havia o “Sexy Hot”, ali apertadinho entre o Discovery e o Animal Planet, muito menos a Sue Johanson, com seu jeitinho de Dona Benta do sítio do pica-pau, explicando onde botar a tomada dos vibradores. Não dava mesmo realizar – para usar esta aberração lingüística trazida pelo mau uso da língua inglesa. Ainda sou do tempo do fuzuê, da estrovenga que tentávamos, debalde, entender. Mas para quê? Mim Tarzan, you Jane, Fonda, finda, finítima, fissípara, funda e todas as aliterações possíveis e cheias de sacanagens que aquele corpo bárbaro, barbarello, no-los inspirava. Claro que os similares nacionais da época não faziam feio. Eu gostava mesmo era da Índia Poti, da Vera Furacão, da Ester Bem-Me-Quer, da Gracinha Copacabana, da Sarita Catatau, todas lançadas rebolativamente nas nossas tão fatigadas retinas infantis graças ao próximo cantor mascarado, e bem antes da Rita Cadillac. Isso sem falar na Neide Aparecida, sempre nos intervalos com a mesma peruca Lady chanel, tá? Belas pernas. Mas nada se compara ao roda e avisa, com um minuto para o comercial, com ou sem Neide. Parece piada, mas a gente se excitava até com comercial de perucas. Consta, inclusive, que bem antes dos meus 10 anos bem vividos, me apaixonei perdidamente por uma chacrete, da qual, diga-se a verdade, não me lembro mais o nome de guerra, mas cuja foto surrupiada de uma ensebada Manchete da época, costumava enfeitar a parede do meu quarto e os sonhos que eu nem sabia que haveria de ter. Sumiu, como muitas outras, a danada.
Foi assim que, pensando nas pernas intermináveis da Sarita Catatau, que comecei a aprender a fazer a corte a todas aquelas mulheres que passavam, em preto e branco da minha jurássica Telefunken, Jane Fonda incluída, e imaginar os sutis segredos que até hoje me intrigam. Agora fico sabendo detalhes feitos tão pequenos da sua vida pessoal, que ela torna pública, via jornal, internet, o escambau. Afinal, quem tem tempo para ser ingênuo hoje em dia?
Não, naquela época a gente nem imaginava o que se passava nos lençóis da cama de uma Jane, nem sob os botões da blusa de uma Brigitte, muito menos o que acontecia intramuros no Vaticano, embora a diminuta figura de Paulo VI ainda esteja entre as lembranças dos anos 60, bem atrás, numa lista dos dez mais, do Capitão Aza e dos Agentes Fantasmas, sem mencionar o Speed Racer. Naqueles tempos, eu já conhecia, todo besta, detalhes dos afrescos da Capela Sistina. Não por ter ido lá e visitado a nave in loco, mas por ter visto um punhado de vezes Agonia e Êxtase, belo filme com Charlton Heston no papel de Michelangelo.
Mas são estes mistérios que ainda me nutrem da esperança absurda de reencontrar você. Ora, pois o que explicaria eu abrir a página da CNN on-line, logo cedo, a fim de saber mais notícias sobre a eleição do próximo papa, depois de ter tido um sonho daqueles que se quer, mas não se pode, e dar de cara com o rosto ainda belo de uma Jane Fonda madura sorrindo e fazendo confidências tão íntimas? Se há explicação, e há-a, a gente também poderia tentar entender porque, ao abrir aleatoriamente meu Aurélio eletrônico, esta maravilha tecnológica, fria e exata, instalada no imo do HD que nos guia, a tela abre justamente na definição do verbete cuja definição ainda não aprendi: amor.

05/04/18

sábado, 5 de maio de 2007

A LETRA



Sexta-feira. Enquanto todos se dirigiam a suas casas, depois de um dia inteiro de trabalho, ele se sentava diante do computador e observava, enquanto escrevia, a disposição quase matemática das letras contra o fundo branco da tela luminosa.
Escrevia uma história cujo personagem toma consciência de ter cada vez menos comando sobre sua mente confusa, no mundo de sombras e imprecisões da desmemória, do qual, assustado, não podia fugir. Buscava num texto assim descobrir como conseguir aumentar as falhas da memória, pois era isso mesmo que desejava: não reconhecer parentes e amigos, e, principalmente ela, perdendo-os, perdendo-a portanto, como perdemos a noção da utilidade e do valor de coisas que nos são caras. Seria assim a morte?
Nesta história, o personagem não teria passado, presente ou futuro. Tampouco palavras para externar suas abstrações e sentimentos, embaralhados na mente, como cartas de um jogo no qual ele, e somente ele, podia sair perdedor. E pior, sem entender a realidade a sua volta. Sua angústia é o tormento da amnésia, que vai deixando a mente vazia, frágil, à mercê de outras mentes. Desta forma, seu personagem ia, cada vez mais, se parecendo com ele, num daqueles mimetismos que a saudade transforma em cristal, ou na matéria frágil de que são feitas as flores.
Levantou-se. Procurou um livro na estante que tomava toda a parede. Encontrou-o, abriu na primeira página e leu o nome dela, escrito com a letra dela, dando informações simples como endereço dela, o telefone dela, o nome da faculdade dela. Era um livro para ser devolvido à dona, caso perdido ou emprestado, estava implícito. Ser-lhe-ia fácil encontrá-la se seguisse os dados pessoais, o nome da rua, o número do prédio e do apartamento, estava tudo ali. No entanto, deu-se conta de que aquelas informações eram inúteis, como se descrevesse o paradeiro de uma pessoa que não mais existisse, a quem seria frustrante procurar pois o guiaria ao endereço sem vida, sem presente, sem futuro. Talvez nem passado. Com aquele livro na mão, lembrou-se do momento decisivo em que a encontrou na vida, e sentiu que aquele tinha sido um dos momentos fadados a permanecer em aberto, inconcluso, uma janela que não se fecha. Como uma promessa bandeiriana de coisas que poderiam ter sido e não foram.
Depois de tanto tempo, ainda sentiu o coração apertado com aquela fugidia certeza do amor que se instala por completo, com a plenitude das águas, quando estamos diante da pessoa que procuramos. Como seria um reencontro agora? Mas seria preciso aceitar que os imprevistos haviam lhes marcado a vida. Nenhum dos dois teria mais a franqueza dos anos antes e, como carregariam a bagagem acumulada em tantos anos de separação – casamentos ruins, frustrações amorosas e profissionais – o trajeto para chegar até a intimidade novamente seria, claro, tortuoso. Partiria de generalidades, tangenciaria assuntos pessoais – compartilhados ou particulares – encontraria becos sem saída ou avenidas movimentadas demais e progrediria em marchas e contramarchas. Assim seria tudo que resultaria de exultante e embaraçoso que um reencontro como esse poderia provocar. Num átimo, perceberiam que teriam que correr atrás do tempo - essa imitação deformada da eternidade – sempre curto demais para tudo o que se quer fazer.
E era com esse sentimento que se viu, de novo diante dela. O livro, a letra, as memórias se transmutavam numa pessoa ao mesmo tempo irreconhecível e absurdamente querida. A letra redonda trazia à memória uma foto dos dois, na qual ele estava sentado em primeiro plano, num nível abaixo da perna direita dela, uma perna firme e branca, em cujo joelho direito recostava levemente a cabeça. O braço esquerdo dela se apoiava no seu ombro esquerdo, mas não havia peso. Nesta foto, literalmente, olhando com atenção, podia reparar que a posição dos braços de ambos se correspondia de tal maneira que pareciam formar um desenho. Havia uma continuidade de traço que saía da mão dele, sustentava seu cotovelo esquerdo, prolongava-se pela mão dela pousada no ombro. As mãos, enfim, se entrelaçavam – a mão suplicante de um homem perdido com a forte mão delicada de mulher (embora, na verdade, houvesse apenas um contato dos dedos). Lembrou-se vagamente do dia daquela fotografia. Lembrou que, olhando para aquela mulher, se deu conta que havia sido atingido por um raio de vida. Percebeu, no entanto, neste instantâneo de nostalgia de agora, definido com a letra fria da saudade sem esperança, que havia uma luz rasante, meio fantasmagórica, que vinha da direita, golpeando as figuras imóveis e se concentrando nos olhos dos dois. Súbito, sentiu o coração parar, agora e em algum lugar no passado. Os olhos sem viço da foto nada mais representavam. Neste quadro impossível, ele – autor, personagem, amante – descobriu-se finalmente, inapelavelmente, morto sem saber, ou aceitar, que morria. Ela se mantinha em silêncio, como sempre. Preferiu não falar nada, em consonância com seu estado de cadáver insepultável, até então. Limitou-se voltar à própria tumba, entre as folhas de um livro esquecido, ou num cemitério distante, como Montarnasse, em cuja lápide de mármore estaria escrito, com a mesma letra redonda e firme, apenas o seu nome, seguido de um sinal de hífen (que os franceses chamam de trait d’union, o que dá a este sinal diacrítico uma aura poética e romântica), ao qual, ao invés do nome dele, nada foi acrescentado...

05/02/28

QUER DANÇAR COMIGO...?



Se você é também um daqueles que jurava que nunca, em tempo algum, teria coragem de disparar uma pergunta dessas na direção de alguma donzela linda, escandalosamente linda, sentada à mesa, com ar de tédio, esse texto é para você. Se tremias só em cogitar achar que ela, elazinha, toda boa, toda-toda, iria topar e dizer que sim, claro, pode vir quente que estou fervendo, aceito, vamos?, bem, continue na trilha dessas mal digitadas que é por aqui que mora o perigo, é por aqui que a onça vai beber água, é aqui que você vai achar um igual, aquele que só comprou o bilhete de ida no tour que a nave-mãe deu no universo apenas porque lhe faltavam no bolso do traje espacial mais uns poucos dólares estelares, e lhe sobravam, no oco do cocuruto, aquela tendência juvenil à aventura tresloucada.
Pois bem, lá está você, numa festa nem tão estranha, nem com gente nem tão esquisita assim, e toca uma música que dá um choque naquele exato neurônio que só funciona ao cheiro do xampu da mulher sentada ali, longas pernas cruzadas, mãos doces, bebericando coca-cola e chupando gelo, o corpo quase que passando um e-mail público: “Quero dançar! Quero dançar!”, em letras normais ou mesmo na onda modernosa do movimento dos sem vogais - “qr dnçr c vc” – ou coisa que o valha. Ela está ali e você faz o que seu avô já fazia quando soube que Santos Dumont havia voado, dias desses, numa estrovenga com asas, em Paris: tira uma reta, respira fundo, desliga o transponder e vai em frente, sem muito medo da colisão do seu sim com o provável, esperado e temido não dela, cheio de graça, mais, ainda assim, um não que vai ficar ecoando no imenso vazio que forma o pé direito de um cômodo vasto chamado coração (não se preocupe: você um dia ainda vai ter um!) A música já está no seu quarto ou quinto compasso, e ela está ali, sentada, mas com a cintura visível, as mãos brancas e bem cuidadas, uma aparente indiferença com o mundo que, sob o olhar mais atento do homem moderno, comprova que é mesmo ao redor da biologia feminina que se originam os arquétipos e que essa tal propalada masculinização da sociedade só se dá porque ela, essa moça suave, cuja voz quase não se ouve, não teve vontade de sair de casa e mostrar que não assim que a banda toca, meu chapa, ó mané! Acorda, vai! Ainda não se inventou uma palavra melhor para designar uma mulher linda do que a palavra “linda”! Assim ela o é, em sua total magnitude, uma coisa! Você, então, vai, e os olhos se encontram já na altura da segunda estrofe. Nem é preciso dizer nada – ela iça o braço com leveza, os dedos parecendo fazer riscos na areia fina da praia dos seus sonhos, e você recolhe aquela mão perfeita sem se importar que a sístole e a diástole estejam fazendo a dança das cadeiras no seu cansado músculo cardíaco. Ela sorri, abaixa os olhos, pousa a mão esquerda no seu ombro direito, vira o rosto em 47 graus, deixa que você pegue a mão direita dela como quem colhe a orquídea que pende do seu caule aéreo, e coloca a cintura de um jeito, mas de um jeito, que seu braço tosco e rude, ao contorná-la, aprende num instante a ser leve e delicado como um verdadeiro cavalheiro que, fora dali, fora da órbita mesmerizante dessa mulher, você nunca, mas nunca, há de ser. Há agora o movimento sincronizado das pernas fazendo giros no salão, pequenas hipérboles de sonho nas quais você não é mais você, seu corpo não é mais seu corpo, mas também o dela, transmutando-se, de fato, num corpo perfeito, como fica evidente na formação de uma sombra única e perfeita que se projeta na parede. Quando você se dá conta, há uma mulher se deixando conduzir entre outros pares, entre outras rotas, e seu silêncio é como se ela estivesse falando, ao seu ouvido tímido, inaudíveis e inconfessáveis pensamentos. Preste atenção no jeito como ela projeta a boca numa direção e os olhos na outra, o modo com que oferece seus segredos entre um passo e outro, a maneira com a qual se encaixa em você. Súbito, percebe-se que, à musica, sobrepõe-se outra linha melódica, marcada pelo ritmo cardíaco de quem já amou e conheceu a dor. As mãos, antes imobilizadas num aperto hesitante, passam a descobrir outros entrelaçamentos; os passos, que começaram um tanto desencontrados, harmonizam-se em movimentos miméticos. O espaço vital toma, enfim, ares convergentes. Experimenta-se uma sensação de completude, como se a vida fosse constituída de sete notas, um sorriso e um perfume suave de mulher, como no filme com Al Pacino.
Mas a música acaba, braços e pernas descolam-se, os passos distanciam-se, a voz inesperadamente essencial torna-se inaudível, e a mão gentílima, que antes enleava a cintura da linda mulher, súbito, abraça o nada.

06/10/22

NINGUÉM




“Eu não saio de ti quando me afasto”
Pablo Neruda

Ao sair de casa, o azul leve das primeiras horas resplandecia, se acentuava à medida que passava pelas avenidas e ruas, em direção ao parque. O outono chegava de mansinho, raiando pela janela entreaberta, a brisa transida de cheiros de todas as saudades que se espraiam no ar frio da manhã.
Ele sabia que era muito arriscado retomar as ações, prosseguir numa história interrompida, e que seria muito melhor começar do zero, construindo tudo, sem olhar para trás. A coisa mais tranqüila – porém falsamente sublimadora – seria silenciar, não procurar, parar de pensar. Amargurava-se com a forma como tudo tinha acabado. Culpava-se. Anistiava-se. Qualquer palavra era insuficiente para descrever aquela sensação ainda presente. Mas que fazer? Era a pergunta que adejava em torno de sua vida como um inseto na luz. Chegava à conclusão que nenhum homem se torna sábio antes de ter tido neste mundo sua porção de invernos. Não raro, sentia vontade de ligar para ela. Seria bom poder dizer que ainda a amava, apenas para extravasar aquele sentimento represado que vinha sufocando suas tênues tentativas de buscar a felicidade, para ter chance de navegar de novo por águas calmas, sem as procelas das incertezas e as nuvens pesadas da angústia. Recuava, por vezes. Sorria, aparentemente do nada, como se pegasse a si mesmo num outro momento, diferente daquele em que seria um estranho, um desconhecido sem nome, sem história, uma emoção sem sentido. “Onde ela está?”, perguntava-se silenciosamente. Achava, tantas vezes, que, ao contrário dele, ela não saberia como lidar com essas grandes janelas de tempo que se abrem entre pessoas que se perderam nos desvãos da vida. Queria vê-la, procurá-la, mas sentia medo. “Não, não vou”, concluía, triste e sem alma. Um contato, depois de tanto tempo, depois de um silêncio devastador, não teria nem o heroísmo de um ato kamikaze, porque sequer seria uma morte honrada. Seu gesto solitário bateria direto num rochedo qualquer e sua morte ecoaria triste e silenciosa no meio de um deserto.
Mas queria. Desejava. Pulsava. Imaginava que ela, onde quer que estivesse, gostaria de ter alguém para compreender seus sinais, seus sintomas, seus dizeres, suas cálidas revelações, pequenos pedaços dispersos de uma alma avarandada, porém vazia. Sim, tinha consciência de que seria capaz de entendê-la, fazendo esforços para. E ela? Teria a grandeza necessária para pelo menos ouvi-lo? Nada garantia, por isso, pensava, às vezes precisamos entregar os anéis – pessoas a quem amamos e nunca teremos – para não perder os dedos – paz e equilíbrio emocional tão duramente conquistados.
Frustrado... era assim que se sentia em relação aos desencontros que distanciam as pessoas, pulverizam amores, institucionalizam saudades. Pois nada pode ser mais frustrante do que esse quase tocar, esse quase sentir, esse quase caminhar junto, numa mesma direção, em paz. De forma alguma nos livramos dos sentimentos. Muito pelo contrário, eles às vezes passam a ser matéria de outros sonhos, de outras esperanças e podem até voltar ao ponto em que começaram, pois os corações iguais podem se entender, mesmo na distância, mesmo nas impossibilidades, mesmo no vazio do abismo que aparece quando as palavras são insuficientes. O que é isso senão um sentimento sem nome que não quer ir embora?
De repente, a viu caminhando com uma amiga em sua direção. Aproximavam-se. Três, quatro passos, no máximo e seus olhos se encontrariam.
Pararam quase ao mesmo tempo. Cumprimentaram-se, sem conseguir disfarçar que já eram dois estranhos. O reencontro inesperado, a despedida formal, tudo em questão de segundos. Seguiram seus caminhos opostos. Ainda pôde ouvir a amiga: “Quem é ele?”
A resposta, numa voz estranha, queimou-lhe de leve os ouvidos:
_ “Não é ninguém. É apenas um namorado que eu tive...”


05/06/29

ENCONTRO MARCADO



Não era para começar uma semana assim. A notícia da morte de Fernando Sabino me atingiu dolorosamente no final da tarde, uma tarde fria como convém o entorno de uma novidade desta monta, uma novidade que não serve para nada, além de acabar um pouco mais com aquilo que ainda temos de alma e coração, como as primeiras lembranças literárias, pelo menos as minhas, que ficaram para sempre.
Aprendi a gostar de ler com Fernando Sabino, com seus livros e sua coluna que saía todos os domingos no Globo, Dito e Feito. Agora, vem a notícia de sua morte e parece que não sei mais escrever. Mas gostaria de poder escrever sobre nosso único encontro, na livraria Dazibao, em Ipanema, há muitos anos atrás, quando ele autografou um livro que, claro, guardo como troféu. Ele me perguntou:
_ O que você lê?
_ Você, é claro...
_ Menino, você precisa melhorar sua leitura...
Este diálogo faz parte da minha vida, como deve ser. Assinou o livro, desejou-me sorte e saí pela calçada feliz e pulando de alegria, como o menino no espelho. Aliás, não foi a última vez que o vi: uma tarde, anos depois, cruzei com ele em plena Prudente de Moraes, sem camisa e de bermudas, andando rápido. Olhei para ele, sabendo que nunca seria reconhecido, mas morrerei com a impressão mentecapta de que, ao passar por mim, ele me dirigiu aquela piscada marota, da criança que nunca deixou de ser. E quantas vezes passei pelo prédio da Rua Canning, ali na beirada de Ipanema, achando que ia vê-lo na janela, contemplando mais uma crônica. Fazia o mesmo na esquina do prédio do Drummond, em Copacabana, ali pertinho. Gostaria de escrever sobre isso e sobre o que ele deveria sentir sendo, durante tanto tempo, o último dos mosqueteiros sobrevivente, depois que Otto, Hélio e Paulo partiram, com uma pressa inexplicável, para mais longe.
Gostaria de escrever que li O Encontro Marcado quando devia mesmo ler, bem adolescente, e achei que seria igual ao Eduardo Marciano e seus colegas de letras. Procurei-os durante a vida inteira para falar e fazer literatura e festejar com álcool e espuma as glórias que nunca tive. Releio, como homenagem solitária e sincera, A Última Crônica, do livro A Companheira de Viagem, de 1965, e tenho o mesmo sentimento de quando a li pela primeira vez: queria escrever assim. Mais: queria ser capaz de descrever aquela cena simples - um casal de negros com sua filha, humildemente instalados no fundo de um bar, para comemorar o aniversário da menina com uma simples fatia de bolo e uma Coca-Cola. Ao final, o autor deseja que sua última crônica fosse pura como o sorriso do pai, satisfeito e orgulhoso do sucesso da celebração. Quem mais poderia descrever uma cena tão singela como profunda? Não há dúvida, Fernando, nunca haverá, sobre a pureza eterna desta crônica.
Mas a indesejada das gentes e suas coincidências são imponderáveis. Um dia antes, desaparece Christopher Reeve, depois de uma luta de quase dez anos contra a imobilidade do corpo que “incorporou” tão bem o Super-Homem do cinema e o super-homem do sofrimento e da luta pelas pesquisas das células-tronco que tanto aborrecem Bush. Fico mais triste ainda. Mas não é só isso. Ainda na seara cinematográfica, foi-se, há uma semana, Janeth Leigh que, há mais de 40 anos já havia morrido para viver na eternidade de nosso imaginário cinematográfico, na inesquecível cena do chuveiro em Psicose, e que era linda e dona dos (dizem) mais belos seios de Hollywood, à época, embora o conjunto da obra – rosto, pernas, olhos – também seja digno de um monumento estético, desses que deveriam existir num museu universal de todas as mulheres maravilhosas que já existiram. Eu, fosse o caso, fugiria também, numa estrada escura e sob chuva, direto ao Bates Motel, com a Marion Crane de Janeth, seu cabelinho louro curto, seus olhos perfeitos, disfarçando o medo e o susto depois de quase atropelar o mestre Hitch, ao som cortante dos violinos de Bernard Hermann.
Contudo, as coisas não param por aí: Jacques Derrida desconstrói-se da vida também nesta mesma época, deixando a impressão que a aquilo que conhecemos, tanto politicamente como filosoficamente, como esquerda vai perdendo os contornos, deixando o debate intelectual meio capenga, já que não há mais Althusser, Lacan, Focault, Barthes e Deleuze nas tertúlias atuais, numa mesa à sombra de um dos bares dos Champs Élysées. Não há mais como ser gauche na vida, sua morte pós-desestruturalista parece dizer.
Não vou tentar achar uma explicação mágica para estas pessoas que marcaram este encontro inesperado no obituário dos jornais. Não desejo isso. Só acho que gente assim, às vezes, se (des) encontra de modo misterioso em determinado momento de nossas vidas, ou porque fizeram parte de nossa biografia, de nossas aspirações artísticas e filosóficas ou simplesmente porque representaram uma saudade indefinível, inexplicável, absurda, dessas que doem permanentemente, sem cura, sem esperança, entre tantas que temos e que ainda vamos ter.
Eu, muitas vezes, não soube terminar uma crônica. Não saberei terminar esta. Só gostaria de dizer que estou profundamente triste com as mortes de Christopher, de Janeth, de Derrida e especialmente do meu querido, amado e estranhamente parecido - tanto nome como na vontade de permanecer menino - Fernando.

04/10/12

É COMPLICADO...

Não é fácil tocar num assunto como esse, mas, vá lá, é para isso mesmo que essa coluna se posiciona – para servir de aríete contra as altas muralhas das incongruências lingüísticas que estes tempos verborrágicos oportunizam sem nos dar muito tempo para pensar além das platitudes hodiernamente comezinhas.
Acontece que a cada declaração que se ouve por aí, depois de qualquer pergunta, de qualquer natureza, segue-se o imperecedouro comentário: é complicado... . Tudo bem, mas o que, especificamente, é tão complicado assim que o falante, após parecer intelectualmente extenuado, decreta com ares de homo sapiens redivivo “é complicado!”, deixando no ar que de nada adiantou refletir, pensar, discutir, usar, enfim, aqueles famosos 10 por cento ativos que, sabe-se lá porque, nos fazem, diferentemente de outros seres do reino animal, supostamente racionais? Olha que o peso dos meus middle ages, que já carrego há algum tempo, tem me dado uma paciência praticamente inesgotável. Tenho sido complacente com Bush – um cara assim deve mesmo ter problemas sérios, não é? Acho o Bin Laden um cara carente, que mereceria mais compreensão do mundo ocidental. Admito até que no peito desafinado do Rumsfeld ainda bate um coração. E por que não achar a Hebe Camargo um mal necessário? Como se vê, não posso mesmo ser chamado de radical. Mas o sujeito chegar e assim, sem mais nem menos, declarar, diante de qualquer situação, que é complicado!, sem ao menos se justificar, já é ir muito além do que se convencionou aceitável entre pessoas civilizadamente articuladas.
Então, de repente, tudo passa a ter uma “não-explicação” que absolve qualquer tentativa de entender porque este mundo é um palco desde a era elisabetana. O importante é dizer que é complicado! e botar um freio nisto a que chamamos de evolução intelectual ou, simplesmente, diálogo. É mais ou menos como dizer que alguma coisa não passa bem por aí. Se não passa bem por aí, deve passar melhor acolá ou alhures e não há GPS que de jeito nesta procura. É dose! É complicado mesmo! É o fim!
Ao gosto do falante por expressar uma opinião tão, digamos, perfunctória, casado com o gosto do ouvinte de ouvir e não entender o que foi dito, junta-se o fato de que a percepção que cada um tem do teor complicador das questões varia de acordo com a vida acadêmica pregressa do indivíduo. Chegamos assim à conclusão de que é uma tarefa dura, hoje em dia, saber exatamente o que é menos ou mais complicado na vida.
O é complicado! dispensa muita gente do operoso dever de raciocinar e ainda dá um verniz de intelectualidade ao falante que – ainda ao sei ao certo – ou quer encerrar a conversa por ali mesmo ou quer humilhar o interlocutor com um desafio mental que não leva a lugar nenhum. E a indefectível expressão ainda faz o papel da cereja rubra e reluzente, encimando um papo de baixíssimas calorias intelectuais.
O écompliadorismo se estende como praga no campo fértil do deserto lingüístico, consumindo ferozmente o nada e produzindo, com avidez, coisa nenhuma. Vejo a cena todos os dias: sala de aula repleta de jovens capilarmente avantajados, supostamente interessados em aprender o assunto em pauta até que, num ipon irretorquível, um deles derruba o mestre com a conclusão irretorquível a que chegou: “professor, isso é complicado...”. Com seu vago cheiro científico, o troço bate bem, o inventor dá de repeti-lo, depois dão de imitar o inventor, enfim, pega. Que fazer? Cartas para a redação.
Para quem ouve, o “é complicado!” mais parece um ucasse sem apelação, levantando o alto muro do fascismo lingüístico e nos deixando do lado das trevas da ignorância, sem direito a réplica ou à lanterna de Aníbal. Quem vai discutir tal referência sibilina?
Está no Aurélio: complicado é o que tem complicação; embaraçado, enredado, difícil. Complicar é reunir (coisas heterogêneas), tornar confuso, intricado, difícil; embaraçar, enredar, dificultar a compreensão ou a resolução de alguma coisa. Se tudo, em todos os momentos, é tão complicado assim, para que pensar?
Psicanaliticamente, é dizendo o nome das coisas que começamos a ter algum controle e conhecimento sobre elas. Mas, se no meio da conversa – quando não no início – o indivíduo vem e taca o veredicto “É complicado!”, é como se sinalizasse que já está, de antemão, desistindo de qualquer tentativa de solucionar a questão e que, se houver concordância geral, é melhor irmos embora e desistir de vez deste costume, que já foi civilizado um dia, de dialogar, trocar idéias. Foi assim, creio, que saímos, sob a broquel da bipedestação, da caverna para as cidades.
Junte-se a isso o famigerado “Com certeza!”, que feriu de morte o simpático advérbio afirmativo “sim”, tão simples com suas letrinhas simétricas nos convidando ao sorriso franco e amável ao final de sua emissão. Pois parece que ninguém mais diz sim neste país. E tome Com certeza! pela goela abaixo, como se fôssemos obrigados a nos convencer de que tudo o que o outro diz é constituído de intimativas inabaláveis, que ele é um ser superior dotado de preceitos sólidos que, reafirmados com essa constância e nesse tom peremptório, nos fazem - pobres mortais cheios de dúvidas - andar mais um pouco a caminho do cadafalso da forca lingüística.
Assim foi com o já finado “a nível de” e outros trambolhos que atravancaram o fluxo de raciocínio de gerações inteiras.
Todos estes vícios da língua vão formando hordas de adictos naquilo que é mais fácil, dependentes do modismo vocabular que impede qualquer sinapse mais imaginativa. É a lei do menor esforço levada às últimas conseqüências, capaz de transformar um bordão televisivo dos meus verdes anos, tão comum numa época que a comunicação começava a assumir uma postura de ciência de linguagem, bem diferente da chacrinha de hoje, em verdade premonitoriamente incontestável: Eu não vim aqui para explicar, vim para confundir!
Contudo, para corroborar minha flexibilidade em relação a estes clichês, me vejo obrigado a concordar com um amigo que, lanhado indelevelmente pelas dores sentimentais, e depois de muito desabafar, concluiu que, no seu caso, ao tentar compreender aquilo que não podia ser mesmo compreendido, só poderia resumir (e aliviar) seu martírio com a infanda frase: é complicado!
Em tais circunstâncias, eu não poderia deixar de aquiescer humildemente, pois compartilho do mesmo assombro: nada é mais complicado do que tentar entender porque o grande amor de nossa vida se foi para sempre.

04.05.09

A MULHER DO ESTACIONAMENTO



Uma das coisas mais interessantes de estar num lugar tão frio é olhar pela janela e não acreditar que lá fora a temperatura está quase abaixo de zero, apesar do céu azul e do litoral da mesma cor, só que com uma tonalidade mais forte. E a ilusão do que eles chamam aqui de central heating, uma sensação térmica sem a qual até os pingüins, caso existissem neste lugar, pediriam urgente uma reserva para o próximo vôo em direção ao Havaí.
A Southampton University e um bálsamo para as almas acadêmicas como eu. Agora no inverno, tudo está quase que completamente parado, não se vê quase ninguém pelo campus, os corredores estão vazios e apenas o pessoal da administração habita os espaçosos edifícios de dois andares, no máximo.
Estou ocupando uma sala no English Language Institute, anexa a uma maior, onde trabalham diligentemente três adoráveis americanas: Danielle, Tricia e Jackie. Do meu nicho, ouço-as falando sobre trivialidades e rindo-se, vez por outra, de algum chiste em relação aos quais não tenho o mínimo conhecimento. Vez por outra, uma delas vem a minha sala e me oferece uma xícara de coffee com pretzels e donuts, que aceito com prazer, mas um pouco desconfiado que a culinária local não deva passar muito mais disso mesmo.
Olho novamente pela janela e volto a não acreditar que lá fora só se anda com pelo menos três casacões pesados, luvas, cachecol e touca, se não quiser correr o risco de uma pneumonia dupla - talvez tripla, dependendo do freguês, pois se já conheci uma pessoa sem coração, não me surpreenderia de encontrar alguém com três pulmões.
Aí, então, vejo uma moça atravessando a passos rápidos o estacionamento do campus. Sei que e uma moça porque, do meio daquela confusão de toucas e cachecóis, entrevejo um bom pedaço de um longo e loiro cabelo que brilha ao sol flébil do final da tarde. Súbito, uma outra mecha se desprende daquele emaranhado de lã sintética e pêlo de doninha, formando uma imagem que me lembra uma cena familiar: a das mulheres com cabelos soltos, caminhando contra o vento, na praia. Só que esta não esta na praia, mas por um segundo o deus vento descobre o rosto que até então estivera escondido e vejo que ela usa óculos escuros e tem uma boca grande, mas perfeitamente integrada ao conjunto do belo rosto que agora contemplo. Ela continua caminhando contra o vento, sem saber que, para mim, o vento é a favor, pois descortina, em átimos, aquilo que ela tanto esconde.
Num próximo e inesperado gesto, desenrola a longa echarpe azul e liberta o pescoço da prisão. Parece cansada de tanta roupa e chego a pensar, pela expressão que agora apresenta, que chegaria até à ousadia de se despir tudo que a impede de se mostrar na sua totalidade. Mas eu sei, e ela também, que o frio aqui não é brincadeira e logo se recompõe prendendo os cabelos e se enforcando, charmosamente por sinal, com a echarpe que lhe aquece o longo e alvo pescoço.
Some do meu raio de visão, mas não do meu desejo literário de transformá-la num ícone misterioso, numa mulher americana que nunca achará que alguém bem estrangeiro, de uma janela próxima, a observou docemente e, docemente também, adivinhou seus sonhos há muito congelados, e que, caso não encontre o verdadeiro amor de sua vida bem rápido, permanecerão assim, mesmo nos dias quentes dos próximos verões americanos.

Nova York, 04/01/12

FALE COM ELA



Este filme de Almodóvar trata, entre outras coisas, da necessidade que o ser humano tem de se comunicar. A história da profunda amizade entre dois homens, cujas mulheres amadas estão em coma, é emocionante e particularmente sensível porque coloca a questão da palavra como sustentáculo das relações humanas.
A obstinação de Benigno (Javier Câmara) em conversar com Alicia diariamente, nestes quatro anos em que está em coma, denota não apenas o desdobramento da descoberta que este fez ao vê-la dançar numa academia vizinha a sua casa. Ele alimenta este amor com conversas constantes, um monólogo contínuo, no qual ele procura alcançá-la no seu mundo de silêncio. Sabe que se parar de falar não mais terá nenhuma relação com aquele corpo, que voltaria, assim, a ser apenas um corpo sobre uma cama de hospital. A palavra, deste modo, representa aí um papel vital, tanto para ele, como para ela. Nos seus papos com Alicia, Benigno (sim, o nome não é apenas uma feliz coincidência) reconstrói o mundo dela e, de certa forma, o dele também. Sua vida igualmente pode ser entendida como uma espécie de coma social, no qual ele se isolou, quase sem contato com a vida lá fora. Sua relação mais forte era a mãe, que logo morre e o deixa a procura de outro contraponto com quem estabelecer seu diálogo de mão única. Assim como a mãe, Alicia o permite ser o que é, sem questioná-lo o exercer alguma pressão para que viva uma vida independente. Psicanaliticamente, Benigno permanece em simbiose com mãe, mesmo depois da morte dela. Transfere para Alicia seus cuidados, sua atenção, seu afeto, e consolida com ela – numa cena sutil e significativa porque sugerida num filme mudo, sem palavras, silencioso, como o mundo de Alicia – o desejo sexual reprimido e que, não por acaso, é punido posteriormente em função de suas conseqüências.
Há em Benigno um pouco da característica chapliniana de alguns anti-heróis do cinema contemporâneo. Sua inocência e pureza sofrem a condenação dos intolerantes, dos preconceituosos, numa Europa que se diz avançada e bem resolvida, apesar de a Comunidade Européia ter, no momento, um líder trapalhão como Berlusconi. Tanto é que ele fica como o herói incompreendido que, apesar de boa vontade, não sobrevive à insensibilidade da jungle modernosa e civilizada que ainda cultiva espetáculos primitivos e discutíveis como a tourada. A presença de Geraldine Chaplin como a professora de dança de Alicia parece que é uma brincadeira do diretor e, ao mesmo tempo, uma homenagem a filha e ao pai.
Todos estes dramas podem ser abordados pela necessidade imperiosa que temos de nos comunicar com alguém, sobretudo com quem se ama. Fale com ela é um drama sobre a capacidade do amor para produzir monólogos que, de tão plenos, equivalem aos diálogos mais estreitos.

Friburgo, 03/07/11

sexta-feira, 4 de maio de 2007

UM DIA NOS EUA...



Do diário de viagem de Fernando Rocha

Ainda não consegui entender o porquê do fascínio que os habitantes dos trópicos têm por neve. E olha que até procuro gostar, descobrir uma fascinaçãozinha aqui e ali, os telhados todos brancos, aquela sensação que tudo está coberto por uma alva manta de algodão sem fim. Tudo bem. Só que acontece que, por baixo (e por cima) deste cartão postal tão apreciado nas plagas de alta temperatura, há um frio que não se pode avaliar apenas através de geladeiras e freezers existentes no Brasil. Aqui, o frio dói e dói muito. Dói no osso, como se diz por aí.
Quando se está em casa, fugindo das snow storms, basta ligar a TV e ver de tudo. Nesta área em que ora assisto, em especial, há vários canais hispânicos. Dizem que o número de hispânicos aqui já ultrapassou em muito o de negros, por isso as políticas mais recentes em relação à legalização dos imigrantes. Mas o hispânico aqui tem uma presença meio imposta, meio tolerada, já que representa a força de trabalho braçal que o americano renega. Todos os dias, perto de um 7 Eleven da vida, é fácil ver dezenas deles, congelando na rua, esperando uma oferta de emprego, que vai da pintura de paredes ao conserto do encanamento, quando muito. É… a vida do amante latino já foi mais glamourosa nestas paragens. Rodolfo Valentino teria que ralar mais, não há a menor dúvida.
Mas, falando dos canais, é inacreditável a quantidade de programas de baixaria que essa gente vê. Também na TV ianque, há sempre um lugarzinho na grade para se lavar a roupa suja, aquela que as automatic laundries daqui, que funcionam com apenas um quarter, não dão conta. São casais se acusando, crianças com DNA na mão procurando seus pais, e o tal felony, nosso famoso pula-cerca, que, ao que parece, causa muito mais que dor de cabeça por aqui. O espertinho que é descoberto com outra mulher (ou vice versa) tem logo que dar satisfações à justiça e começa perdendo carteira de motorista e outros documentos sem os quais a vida se torna um inferno. Se for estrangeiro, e reincidir, é deportado. Pois bem, a TV está repleta destas coisas. Parece que este estilo meio “Ratinho” de ser é coisa universal. Os americanos, tão comportados, quem diria, adoram jogar detritos no ventilador. Uso a palavra “detritos” em homenagem ao que é considerado politicamente correto nesta roça: há eufemismos para tudo, e se você não prestar atenção no que está “between the lines”, dança bonito o rock’n’roll local.
Mas, aí é que vem a contradição, essa característica humana que nem termômetros marcando 30 abaixo de zero conseguem dirimir. Pelo que vejo, o namoro na América é artigo de luxo. Tudo por baixo dos panos, literalmente. Ninguém diz se esta namorando ou não e qualquer alusão ao flerte pode ser considerada abusiva, e até ofensiva, dependendo do grupo social presente. Também há o tal harassement, o manjado assédio sexual, do qual todos sentem profundo medo. Um elogiozinho pode terminar no tribunal, segundo me disseram. Mas recuso-me a acreditar nisso. O ser humano não pode estar reduzido a uma série de convenções de etiqueta tão sem graça. Afinal, onde está aquele famoso “break the ice”, que aprendemos nos primeiros dias de Cultura Inglesa? E ainda existe o part pris do Clinton aprontando na Casa Branca, sem falar na cama, digo, fama, de Kennedy. Come on, boys and girls, vão soltar a franga, ou qualquer coisa que o valha, sem se preocupar tanto com o que pode ou não acontecer. Afinal, a vida é curta e o inverno rigoroso está aí mesmo – aproveitem a onda e mandem tudo para o inferno, sem esquecer de chamar alguém para lhes aquecer neste inverno, como Roberto falou. Será que ninguém aqui ouviu falar nos anos 60, bicho?
Continuo cutucando com vara curta estes preconceitos tão fora de moda quanto as roupas que as mulheres usam nos shoppings de Riverside. Os vestidos são muito floridos, cheio de cores desconexas, que beiram o mau gosto irreversível. Não, definitivamente, a elegância não chegou à maioria dos lares americanos. Ainda mais no inverno, quando as baixas temperaturas parecem justificar ainda mais a exposição descarada de casos terminais de confusão cromática. E, ainda por cima, bem por cima mesmo, há o terrível pó de arroz. Ah, rapaz, isso é desalentador... O rosto é todo coberto por uma grossa camada de algo equivalente a um pó branco que parece aquelas coberturas de glacê de pão doce. Os olhos são pintados com uma tinta preta que, vira e mexe, borra ao menor sinal de uma lágrima furtiva (sim, as americanas, assim como os brutos, também amam e, às vezes, choram quando um avião bate em algum prédio…). Os cabelos destas donas vivem escondidos embaixo de chapéus de gosto duvidoso, quando não estão espetados para cima, desafiando a lei da gravidade, em função de um creme muito popular por aqui, de nome difícil, mas cuja fórmula, certamente, estará publicado num dos próximos boletins da NASA.
Fico imaginando o trabalho que esse pessoal tem para sair de casa todo empastelado e para desfazer toda esta camada de cosméticos quando volta. Não é à toa que vivem com medo de guerra química. Eu também teria se tivesse que beijar estas mulheres todos os dias. Sim, porque não acredito que seus respectivos maridos e namorados esperem, para manifestar seu carinho ianque, a desmontagem deste aparato que torna essas mulheres discípulas de Helena Frankenstein mais do que da outrora famosa Rubinstein. Devem beijar assim mesmo, estes amantes aprendizes, sem imaginar como deve ser boa e suave a pele lavada, liberta desta armadura primitiva que uniformiza o sexo frágil nestas landas, fazendo de todas um arremedo de Monalisa, sem sorriso. Tento me acostumar, mas confesso que não consigo. Tenho sempre a impressão que estas mulheres são mesmo inatingíveis, que são como pinturas barrocas, perdidas no tempo e no espaço aéreo americano, mas com a expressão pétrea resultante de anos e anos de soterramento por este pó misterioso, o Césio 147 do condado de York. Isso deve afetar as células de todos os sexos, não há dúvidas. Receio que anos e anos de exposicão a estes produtos químicos levem qualquer um a se transformar no Michael Jackson, na melhor das hipóteses.
Concluo, então, que deve ser muito difícil mesmo encontrar a cara metade aqui, especialmente se a cara metade estiver coberta desta lama cosmética. No wonder que proliferem na TV tantos programas teen ensinando como namorar. Sim, namoro aqui é coisa que, supostamente, se ensina através destes reality shows débeis mentais, nos quais, por exemplo, tranca-se um punhado de bad boys numa casa, juntamente com outro punhado de garotas supostamente puras, abrem-se as portas, liga-se o conjunto de câmeras escondidas e deixa-se o pau comer, na falta de expressão melhor. Não é de admirar que as meninas queiram esconder o rosto pelo resto da vida.
Assim é um dia típico nesta village, que é como eles gostam de chamar a boa e velha Southampton. Mas não há como não notar as mulheres e suas maquiagens, a vida em torno da TV, as relações interpessoais, etc. No final do dia, todos pegam seus Subarus, Hyundays, Civics e Buicks e vão para casa com a consciência leve de terem feito o melhor para a sociedade americana, a grande mãe-terra que mantém seus filhos sob a abóbada protetora da star and stripes, provendo-lhes daquilo que é essencial à vida: donuts, pretzels, a bunch of dollars e, se sobrar tempo, um pouco de carinho.

BÁRBARA...


Até hoje me pergunto por que o major Nelson demorou tanto para perceber que tinha um mulherão dentro de casa, digo, dentro da garrafa, prontinha para satisfazer todos os seus desejos, sem reclamar. Não precisava ser um gênio para sacar que tinha tirado a sorte grande. Do ponto de vista da idade madura (não reclame – você já chegou lá também), é constrangedor ver, hoje, a Barbara Eden correndo atrás do major com aquelas curvas, aqueles olhos, aquela barriguinha, e ele nada. Pô, pegava até mal para a força aérea americana ter um astronauta com a cabeça na lua tendo um avião daqueles à disposição. E olha que estávamos na revolucionária década de 60, o movimento hippie estourando, pílula anticoncepcional, e outros avanços na área do comportamento. Por mais que a pudicícia impusesse códigos morais e frenasse qualquer abuso dos mid-morning sitcons, bem que moçada podia entender que a Barbara era bárbara mesmo e não havia outra musa mais linda, mais perfeita, para nossa pré-puberdade em ebulição. Melhor só estando no (a) éden. Ainda tinha o fetichismo daquela garrafa meio fálica, onde ela desaparecia e aparecia numa nuvem de fumaça rosa, em plena sala da casa do major. Gente, e ele dormia no quarto! E sozinho! Não, só mesmo a pueril inocência daquela época para nos manter diante da TV esperando o dia em que veríamos a Jeannie de biquíni ou de topless, mãos na cintura, já sem paciência, bicando a porta do quarto do major, dizendo com os olhos semicerrados: “Pode ser ou tá difícil?”. Mas longe dos discursos de Betty Fredman, Jeannie se comportava como a mais submissa das imortais e nada de botar o amo contra a parede, em cima da cama ou do sofá. Ele parecia estar mais preocupado com o Dr. Bellows, aquele que nunca podia dizer que acreditava em São Tomé. Aliás, psicanaliticamente falando, e já que o Bellows era psiquiatra, acho que o roteiro sempre ocultou que os dois eram pai e filho, fato que a sociedade americana podia não receber bem em função da sombra de nepotismo que podia pairar sobre a hierarquia da aeronáutica da Praia dos Cocos. Mas, bicho, era a Jeannie, toda boa, em casa, para satisfazer muito mais do que três desejos, e o major Nelson preocupado com os relatórios da Nasa. Nada justifica. Ainda mais que tínhamos o simpático mulherengo major Healey, que não podia ver um rabo de saia. Agora me explica porque ele nunca deu em cima da Jeannie? Será que gênio de amigo meu é homem? Será que ele não podia dar umas aulas pro Anthony? Afinal de contas, um pouco de romance não iria atrasar o programa espacial e ainda faria o major ver estrelas muito antes de entrar em órbita. Ficávamos todos nos perguntando como, entre tantas pessoas bem mais espertas no mundo, a Jeannie foi logo parar nas mãos inábeis do desajeitado major Nelson. Ah, se fosse comigo, lembro de ter ouvido vários amiguinhos dizerem quando Jeannie trepava (!) no pescoço do major e cobria-lhe de beijos sem nenhuma correspondência por parte do panaca. E o cara resistia também à irmã da Jeannie, tão gostosa quanto, não fossem a mesma atriz, só que morena e muito mais maliciosa. Como é que confiam o volante de um Saturno V a um sujeito assim? Lá para o terceiro ano da série, Sydney Sheldon deve ter achado que já estava mesmo demais e resolveu que Jeannie e o major deviam se casar, o que, paradoxalmente, tornou os roteiros mais monótonos e previsíveis, agora sem as trapalhadas que o esconde-esconde com o Dr. Bellows proporcionava. Era um casamento meio chocho e a nossa musa semidespida de então passou a usar uns vestidinhos horrorosos que, apesar de tudo, ainda deixavam o joelho e panturrilha à vista quando o enquadramento abria um pouco para o nosso deleite. Mas nada mais da barriguinha, do topezinho rosa (que já foi azul nos primeiros episódios) e o talvegue dos seios perfeitos, numa era que silicone deveria ser apenas um neologismo para designar algo que ainda seria inventado. Convenhamos, aquelas roupas da senhora Nelson tiraram da Jeannie muito do que ela tinha de melhor, apesar dos olhos azuis e do sorriso de menina ingênua que tinha passado séculos trancada numa garrafa. Pouca gente sabe que Bárbara fez todo o primeiro ano da série grávida de seu primeiro filho com o ator Michael Ansara e continuou em forma, como bem sabemos, na outras temporadas, apesar dos seus dois mil anos de idade que ela mal aparentava. Pelo contrário, com o tempo, ficou mais linda e sexy, o que compromete, em muito, a já famosa reputação do Major Anthony Nelson de não fazer o dever de casa.
Meu Deus! Como eram ingênuos os anos 60!

quarta-feira, 2 de maio de 2007

OS RETRATOS DO HERÓI


Os retratos do Herói


Ensaio comparativo sobre o filme “Herói” e o romance “O Retrato de Dorian Gray”.

“Herói” é, principalmente, uma fábula sobre a verdade. Além disso, é um espetáculo para os olhos – cada cena parece uma pintura expressionista em constante movimento que seduz e mesmeriza o espectador. As cores são tão essenciais, presentes, intensas, quanto os personagens humanos que, em certos momentos, parecem se diluir na vertiginosa profusão de cores, deslocamentos prodigiosos de câmera, música intimista, como se, diante de tudo isso, estivéssemos contemplando um quadro no qual o tempo obedece ao ciclo sempiterno dos sonhos.
Considero um aspecto essencial para a conexão entre este filme e minha pesquisa sobre a formação da imagem em “O Retrato de Dorian Gray”: na língua chinesa não há distinção entre singular e plural. Portanto, o “herói” do título pode se transmutar em vários “heróis”, de acordo com a leitura das imagens. Num primeiro momento, assim também é com a representação plástica no romance de Wilde. A imagem múltipla, variegada, que se fraciona e se repete indefinidamente, impulsionada por um sopro etílico de Warhol e é, ao mesmo tempo, individual e singular, apenas um simulacro do jovem Dorian, distante e abúlico, numa tarde de outono, no estúdio londrino de Basil Hallward.
“Herói” também é um libelo visual do sublime e do belo. Em todas as seqüências, o diretor aproxima a estesia da realidade violenta da guerra, da imposição da disputa, do despudor da ambição, tudo que, num outro contexto narrativo, seria uma espécie de retrato do mundo reificado em que vivemos, mas que, neste filme, assume a forma estética das cores que bailam com as letras, da escrita que dialoga com os sonhos e, finalmente, da ligação visceral do homem com sua própria terra. Destarte, enxergo facilmente a exposição do sublime e do belo nestas conexões e a integro com a mesma temática em Dorian Gray. A discussão do “sublime”, dentro de parâmetros estéticos, tem a ver diretamente com o pós-modernismo, por se referir à experiência da ansiedade prazerosa que experimentamos ao contemplarmos uma imagem arrebatadora, como sói acontecer em “Herói”. Não há como negar que isso também é Dorian Gray em estado puro.
Considero o estudo semântico importante para o entendimento mais profundo do universo narrativo e, especialmente, em “Herói” e em “O Retrato de Dorian Gray”. No caso do filme de Feng Li, o personagem principal não tem nome. Ou tem. O personagem de Jet Li, o guerreiro “sem nome”, parece suscitar com seu “não-nome” muito mais sentidos do que os epítetos dos outros personagens. Pois vejamos: alguém sem nome é sempre um livro em branco em cujas páginas podemos (nos) inscrever, com o estilo suave que, antes de marcar superficialmente, caligrafa nossas mais autênticas expectativas. Por isso, a importância da grafia e, mais do que isso, da caligrafia. Mais essencial do que escrever apenas por escrever, é escrever com a forma estética pulsando em cada voluta das letras - a atitude estética buscando naturalmente o conteúdo que fascina e emociona. No filme, a presença da caligrafia vai tangenciando as ações do único personagem sem nome tradicional como se, com isso, representasse a capacidade que todos temos de nos reescrever, de modo belo, definitivamente, na vida. Então, não basta a grafia apenas – há de se ter uma grafia sublime, que tenha, ao mesmo tempo, a beleza da mensagem e da forma que a movimenta. Como no poema “A Imitação das Águas, de João Cabral de Melo Neto: “Uma onda que guardasse / na praia cama, finita / a natureza sem fim / do mar de que participa”.
Assim como no filme, no romance “O Retrato de Dorian Gray” almeja-se um objetivo graficamente estético. O retrato de Dorian é, antes de tudo, a imagem que se tem de Dorian, e torna-se importante numa sociedade vitoriana que valoriza o belo, mesmo que apenas externamente. É este belo que pode ser considerado o “herói” desta época tão marcada por uma apreciação excessiva do ser e do parecer estético, como corrobora o Esteticismo e suas ramificações manifestas em outras mídias. Em “Herói”, acontece o inverso: a grafia, alçada a um patamar de essencialidade, não apenas é e deve ser bela, mas também representa o objeto estético e remete a um conjunto de valores – coragem, lealdade, respeito, amor, etc. - que não encontramos no entorno narrativo de Dorian Gray, num dos muitos paralelos que podem ser traçados entre as duas obras. Por outro lado, se em “Herói” podemos ficar maravilhados pela realidade que se transforma numa pletora de imagens oníricas transidas de significados, o mesmo acontece em Dorian Gray, em cujo cenário narrativo, nos deparamos com um completo desdém pelo realismo, que era exatamente a tendência literária da época. Isso me remete a Maurice Béjart: “O que é um especialista perto de um apaixonado?”.
Herói revisita um episódio central para a história da China: a unificação do país pelo rei Qin, que no século III a.C. submeteu as monarquias rivais e tornou-se o primeiro imperador – além de construtor da Grande Muralha. No filme, o rei recebe um oficial da província que acaba de eliminar os assassinos que ameaçavam seu trono, e pede para ouvir sua narrativa. Seguem-se, então, três versões de como o obscuro Sem Nome derrotou os lendários Céu, Espada Quebrada e Neve que Voa. Cada versão é encenada em uma cor diferente, e todas servem de mote para o maior atrativo do filme: as lutas estupendamente coreografadas, que vão do mais ortodoxo ao mais lírico, como um combate travado sobre as águas de um lago. Tudo o que há de drama em Herói está expresso na atmosfera diversa de cada uma das lutas e no êxtase dos cenários, figurinos e cores.
A beleza quase excessiva de Herói remete imediatamente aos conflitos estéticos de Dorian Gray e do universo de Oscar Wilde. Um dos aspectos mais relevantes do cotejo das duas obras é verificar que as imagens se apresentam à nossa consciência instantaneamente, encerradas pela sua moldura – a parede de uma caverna ou de um museu – em uma superfície específica. Com o passar do tempo, podemos ver mais ou menos coisas em uma imagem (o retrato de Dorian), emprestar-lhes palavras para contar o que vemos mas, em si mesma, uma imagem existe no espaço que ocupa, independente do tempo que reservamos para contemplá-la.
Vemos uma pintura como algo definido por seu contexto; podemos saber algo sobre o pintor e sobre o seu mundo; podemos ter alguma idéia as influências que moldaram sua visão; se tivermos consciência do anacronismo, podemos ter o cuidado de não traduzir essa visão pela nossa – mas, no fim o que vemos não é nem uma pintura em seu estado fixo, nem uma obra de arte aprisionada nas coordenadas estabelecidas por qualquer parâmetro estético. Isso acontece em Dorian Gray e em Herói, pois, conforme Bacon já sugeriu, só podemos ver aquilo que, de alguma forma, já vimos antes. Só podemos ver as coisas para as quais já possuímos imagens identificáveis, assim como só podemos ler em um língua cuja sintaxe, gramática e vocabulário já conhecemos.
Quando lemos imagens – de qualquer tipo, sejam pintadas, esculpidas, fotografadas, edificadas ou encenadas -, atribuímos a elas o caráter temporal da narrativa (Manguel, Alberto, “Lendo Imagens”). Ampliamos o que é limitado por uma moldura para um antes e um depois e, por meio da arte de narrar histórias, conferimos à imagem imutável uma vida infinita e imutável. Em Dorian Gray, essa imutabilidade é relativa, já que espelha o espaço interno do retratado, emprestando-lhe contornos de finitude.
Tanto no filme de Zhang Yimou, como no romance de Wilde, identifico algo parecido com o que André Malraux chamou de “canto da metamorfose”, um diálogo entre obras de arte realizadas em tempos e culturas diferentes. Há, no impacto visual de Herói, um arrebatamento parecido com a estesia despertada na contemplação de Dorian Gray do seu próprio retrato. Por extensão, diante das duas obras, nós, os espectadores/leitores reagimos de maneira parecida: como lidar com, como entender, como absorver esse golpe estético? É algo como a chamada síndrome de Stendhal, que afeta os visitantes que vêem as obras-primas da Renascença pela primeira vez. Algo nessas obras de arte colossais assombra, e a experiência estética, em lugar de ser uma experiência de revelação e de conhecimento, torna-se caótica e simplesmente desnorteante, a autobiografia de um pesadelo (a cidade de Florença criou uma clínica especial para tratar desses casos, cerca de duzentos por ano). Esse pesadelo traduz a angústia de Dorian Gray, pois a imagem de uma obra de arte existe em algum local entre percepções: entre aquela que o pintor imaginou e aquela que o pintor pôs na tela. Quando tentamos ler uma pintura, ela pode nos parecer perdida em um abismo de incompreensão ou, se preferirmos, em um vasto abismo que é uma terra de ninguém, feito de interpretações múltiplas.
Quem vê pode querer fabricar substitutos do visto e, na qualidade de eido (eu vejo), pode fabricar as formas aparentes das coisas – eidolon (simulacro, ídolo, imagem, retrato). Dos cinco sentidos, somente a audição rivaliza com a visão no léxico do conhecimento. Os demais estão ausentes ou operam como metáforas da visão. Falamos em captar uma idéia ou em agarrá-la. Dizemos que um conceito contém ou envolve certas determinações e que as compreendemos ou a explicamos. Falamos de beber idéias ou opiniões nesta ou naquela fonte, em tocar neste ou naquele ponto. Dizemos que algo “tem (ou não tem) cheiro de verdade” e, para manifestar suspeita, que uma idéia “não cheira bem”. Falamos na posição de conceitos, em movimento de uma idéia, passos de um raciocínio, choque de opiniões e no sabor/saber amargo de uma derrota. Entretanto, essas expressões tácteis, olfativas, gustativas e cinestésicas cumprem um papel preciso, qual seja, trazer o invisível – pensamentos – ao visível.
Se o olhar usurpa os demais sentidos, fazendo-se cânone de todas as percepções é porque, como dizia Merleau-Ponty, ver é ter à distância. O olhar apalpa as coisas, repousa sobre elas, as trespassa, mas delas não se apropria. Ultrapassa os outros sentidos porque os realiza naquilo que lhes é vedado pela finitude do corpo, sem precisar de mediação alguma, sem sofrer qualquer alteração material. Ao assistirmos às cenas de Herói, o olhar se depara com os Impressionistas franceses, para os quais o que é pintado é o menos importante e apenas determina o ponto de partida: o que acontece depois está no espaço entre quem olha e o objeto do seu olhar. Isso comprova que o ser humano é, por natureza, um ser criativo. No ato de perceber, ele tenta interpretar e, aí, já começa a criar. Não existe um momento de compreensão que não seja ao mesmo tempo criação. Isso se traduz na linguagem artística de uma maneira extraordinariamente simples, porque nossa tentativa de ler, como espectadores, aquilo que em sua essência é ilegível meramente preenche a ausência deliberada de um código decifrável com um sentido que tanto inventamos quando desentranhamos.
Pois as imagens são criadas com a intenção de serem lidas. Ao cotejarmos Herói e o Retrato de Dorian Gray, constatamos que essa característica é inerente e essencial ao ato estético: a possibilidade, por meio de um vocabulário


Ainda em Dorian: a busca pelo prazer estético e o desejo fatal de possuí-lo são mostrados sob o aspecto material e sensual. No filme “Herói”, ao contrário, a hedônica empresa se reveste da natureza intangível do cinema, na qual os fotogramas movem-se em velocidade e, assim, em constante mutação. Como no retrato encantado de Dorian, as imagens em “Herói” não podem ser imobilizadas ou retidas. Essas imagens do filme – do terçar de lanças à imperceptível explosão de uma gota atingindo o chão – sempre em constante e célere movimento, nos remetem ao slow motion do processo que envilece Dorian, mas que não o envelhece.
Um outro ponto de identificação entre Dorian Gray e “Herói” é a presença, nas duas obras, da função do olhar. O olhar no romance de Wilde desafia os empedernidos costumes vitorianos. É o olhar que gera o desejo da eternidade pelo qual o protagonista é castigado. Em “Herói”, o olhar está presente como motivo desencadeador de cada cena. Percebe-se que os personagens primeiramente dialogam com os olhares antes de iniciar a ação propriamente dita. Como é natural nas obras orientais, o tempo gasto para que os olhares estabeleçam conversações em longos silêncios, não é considerado desperdício.
Se o retrato de Dorian é uma variação do tema do duplo, poder-se-ia investigar a mesma ocorrência na história de “Herói”. Baseio esta ousadia na constatação de que quando o indivíduo é confrontado com seu duplo, a idêntica imagem de si mesmo, há uma desfragmentação da realidade, causando uma terrível ansiedade, até que, no final, esta relação se torna tão insuportável para este indivíduo que, num ato extremo, destrói seu duplo, sem se dar conta que tanto ele quanto o seu duplo são feitos da mesma matéria psicológica. Assim, ao matá-lo, ambos morrem. Se isso ocorre com Dorian Gray, também acontece, de forma inversa, com o guerreiro sem nome de “Herói”: ao se deparar com o rei, vê nele refletidos as suas qualidades e defeitos, seus anseios e certezas. E mais: o rei tem um nome e é sua imagem refletida, aquele que deve morrer para que ele, o inominado, continue vivendo. Porém, ao não atacá-lo, o guerreiro sem nome de depara com a sua própria morte. Se Dorian encontra seu fim justamente quando “mata” o quadro que o assombra; o guerreiro sem nome morre por não se achar a altura do seu duplo. Nos dois cenários, nossos heróis se vêem diante do paroxismo da eternidade. Nas duas obras, o cisma moral e psicológico se desloca para o visual e o especular.
A visualidade hiperbólica nas duas obras, com suas belas e obsessivas composições e montagens, com seus reflexos fascinantes e perturbadores (lembre da cena da luta sobre o “espelho” d’água do lago), a linguagem literal e figurativa e sua insistente correlação de sexualidade e visualidade, tudo isso avizinha estes heróis compostos de imagens, reflexos, contradições e um mesmo desejo de imortalidade.
Enquanto em “Herói” temos uma alegoria sobre a lealdade e confiança, no livro de Wilde nos deparamos com uma história que, entre outros aspectos, descreve a narcisística vontade de dominar o tempo e seus efeitos deletérios, tanto física quanto emocionalmente. Curiosamente, parece que, no filme, é a história que controla o tempo, numa inversão inesperada quando cotejamos as duas obras. Uma clara indicação disso é o fato de as cenas se interporem num flashback nem sempre linear, que nos faz perceber o sentido de tudo justamente no terço final do filme. Ou seja: em “Herói”, o tempo possui uma conotação diametralmente oposta do que em Dorian. Para Dorian, o tempo é a nêmesis que o apavora e tortura, enquanto no filme de Feng Li é um aliado poderoso e imparcial, pois favorece a todos sem exigir que lhes dêem a alma em troca.
Ao aproximarmos “Herói” de “O Retrato de Dorian Gray”, podemos perceber que ambos refletem um marcante aspecto estético, representado no filme, principalmente, pela relevância da caligrafia, e no romance de Wilde, no simbolismo mutante do retrato em si. A caligrafia em “Herói” é um símbolo de poder – em certo momento é comparada à habilidade no manuseio da espada. O retrato, no romance, possui uma forte conotação de decadência, de uma malversação do poder estético da imagem. Este é o ponto de tangenciamento que este ensaio pretende mostrar: a escrita é também, e sobretudo, imagem, como a tradicional verônica de Dorian na tela de Basil. A escrita pode e deve ser bela, como imagem e representação, forma e conteúdo, enfim. No caso do belíssimo filme de Feng Li, esta escrita é muito mais resistente ao tempo e aos desejos egoístas de poder. Generosa e democrática, ela é capaz de transformar todos em heróis, sem que haja os vencidos pela lâmina coruscante espada ou pelo inexorável abraço do tempo.