
Não era para começar uma semana assim. A notícia da morte de Fernando Sabino me atingiu dolorosamente no final da tarde, uma tarde fria como convém o entorno de uma novidade desta monta, uma novidade que não serve para nada, além de acabar um pouco mais com aquilo que ainda temos de alma e coração, como as primeiras lembranças literárias, pelo menos as minhas, que ficaram para sempre.
Aprendi a gostar de ler com Fernando Sabino, com seus livros e sua coluna que saía todos os domingos no Globo, Dito e Feito. Agora, vem a notícia de sua morte e parece que não sei mais escrever. Mas gostaria de poder escrever sobre nosso único encontro, na livraria Dazibao, em Ipanema, há muitos anos atrás, quando ele autografou um livro que, claro, guardo como troféu. Ele me perguntou:
_ O que você lê?
_ Você, é claro...
_ Menino, você precisa melhorar sua leitura...
Este diálogo faz parte da minha vida, como deve ser. Assinou o livro, desejou-me sorte e saí pela calçada feliz e pulando de alegria, como o menino no espelho. Aliás, não foi a última vez que o vi: uma tarde, anos depois, cruzei com ele em plena Prudente de Moraes, sem camisa e de bermudas, andando rápido. Olhei para ele, sabendo que nunca seria reconhecido, mas morrerei com a impressão mentecapta de que, ao passar por mim, ele me dirigiu aquela piscada marota, da criança que nunca deixou de ser. E quantas vezes passei pelo prédio da Rua Canning, ali na beirada de Ipanema, achando que ia vê-lo na janela, contemplando mais uma crônica. Fazia o mesmo na esquina do prédio do Drummond, em Copacabana, ali pertinho. Gostaria de escrever sobre isso e sobre o que ele deveria sentir sendo, durante tanto tempo, o último dos mosqueteiros sobrevivente, depois que Otto, Hélio e Paulo partiram, com uma pressa inexplicável, para mais longe.
Gostaria de escrever que li O Encontro Marcado quando devia mesmo ler, bem adolescente, e achei que seria igual ao Eduardo Marciano e seus colegas de letras. Procurei-os durante a vida inteira para falar e fazer literatura e festejar com álcool e espuma as glórias que nunca tive. Releio, como homenagem solitária e sincera, A Última Crônica, do livro A Companheira de Viagem, de 1965, e tenho o mesmo sentimento de quando a li pela primeira vez: queria escrever assim. Mais: queria ser capaz de descrever aquela cena simples - um casal de negros com sua filha, humildemente instalados no fundo de um bar, para comemorar o aniversário da menina com uma simples fatia de bolo e uma Coca-Cola. Ao final, o autor deseja que sua última crônica fosse pura como o sorriso do pai, satisfeito e orgulhoso do sucesso da celebração. Quem mais poderia descrever uma cena tão singela como profunda? Não há dúvida, Fernando, nunca haverá, sobre a pureza eterna desta crônica.
Mas a indesejada das gentes e suas coincidências são imponderáveis. Um dia antes, desaparece Christopher Reeve, depois de uma luta de quase dez anos contra a imobilidade do corpo que “incorporou” tão bem o Super-Homem do cinema e o super-homem do sofrimento e da luta pelas pesquisas das células-tronco que tanto aborrecem Bush. Fico mais triste ainda. Mas não é só isso. Ainda na seara cinematográfica, foi-se, há uma semana, Janeth Leigh que, há mais de 40 anos já havia morrido para viver na eternidade de nosso imaginário cinematográfico, na inesquecível cena do chuveiro em Psicose, e que era linda e dona dos (dizem) mais belos seios de Hollywood, à época, embora o conjunto da obra – rosto, pernas, olhos – também seja digno de um monumento estético, desses que deveriam existir num museu universal de todas as mulheres maravilhosas que já existiram. Eu, fosse o caso, fugiria também, numa estrada escura e sob chuva, direto ao Bates Motel, com a Marion Crane de Janeth, seu cabelinho louro curto, seus olhos perfeitos, disfarçando o medo e o susto depois de quase atropelar o mestre Hitch, ao som cortante dos violinos de Bernard Hermann.
Contudo, as coisas não param por aí: Jacques Derrida desconstrói-se da vida também nesta mesma época, deixando a impressão que a aquilo que conhecemos, tanto politicamente como filosoficamente, como esquerda vai perdendo os contornos, deixando o debate intelectual meio capenga, já que não há mais Althusser, Lacan, Focault, Barthes e Deleuze nas tertúlias atuais, numa mesa à sombra de um dos bares dos Champs Élysées. Não há mais como ser gauche na vida, sua morte pós-desestruturalista parece dizer.
Não vou tentar achar uma explicação mágica para estas pessoas que marcaram este encontro inesperado no obituário dos jornais. Não desejo isso. Só acho que gente assim, às vezes, se (des) encontra de modo misterioso em determinado momento de nossas vidas, ou porque fizeram parte de nossa biografia, de nossas aspirações artísticas e filosóficas ou simplesmente porque representaram uma saudade indefinível, inexplicável, absurda, dessas que doem permanentemente, sem cura, sem esperança, entre tantas que temos e que ainda vamos ter.
Eu, muitas vezes, não soube terminar uma crônica. Não saberei terminar esta. Só gostaria de dizer que estou profundamente triste com as mortes de Christopher, de Janeth, de Derrida e especialmente do meu querido, amado e estranhamente parecido - tanto nome como na vontade de permanecer menino - Fernando.
04/10/12
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