sábado, 5 de maio de 2007

É COMPLICADO...

Não é fácil tocar num assunto como esse, mas, vá lá, é para isso mesmo que essa coluna se posiciona – para servir de aríete contra as altas muralhas das incongruências lingüísticas que estes tempos verborrágicos oportunizam sem nos dar muito tempo para pensar além das platitudes hodiernamente comezinhas.
Acontece que a cada declaração que se ouve por aí, depois de qualquer pergunta, de qualquer natureza, segue-se o imperecedouro comentário: é complicado... . Tudo bem, mas o que, especificamente, é tão complicado assim que o falante, após parecer intelectualmente extenuado, decreta com ares de homo sapiens redivivo “é complicado!”, deixando no ar que de nada adiantou refletir, pensar, discutir, usar, enfim, aqueles famosos 10 por cento ativos que, sabe-se lá porque, nos fazem, diferentemente de outros seres do reino animal, supostamente racionais? Olha que o peso dos meus middle ages, que já carrego há algum tempo, tem me dado uma paciência praticamente inesgotável. Tenho sido complacente com Bush – um cara assim deve mesmo ter problemas sérios, não é? Acho o Bin Laden um cara carente, que mereceria mais compreensão do mundo ocidental. Admito até que no peito desafinado do Rumsfeld ainda bate um coração. E por que não achar a Hebe Camargo um mal necessário? Como se vê, não posso mesmo ser chamado de radical. Mas o sujeito chegar e assim, sem mais nem menos, declarar, diante de qualquer situação, que é complicado!, sem ao menos se justificar, já é ir muito além do que se convencionou aceitável entre pessoas civilizadamente articuladas.
Então, de repente, tudo passa a ter uma “não-explicação” que absolve qualquer tentativa de entender porque este mundo é um palco desde a era elisabetana. O importante é dizer que é complicado! e botar um freio nisto a que chamamos de evolução intelectual ou, simplesmente, diálogo. É mais ou menos como dizer que alguma coisa não passa bem por aí. Se não passa bem por aí, deve passar melhor acolá ou alhures e não há GPS que de jeito nesta procura. É dose! É complicado mesmo! É o fim!
Ao gosto do falante por expressar uma opinião tão, digamos, perfunctória, casado com o gosto do ouvinte de ouvir e não entender o que foi dito, junta-se o fato de que a percepção que cada um tem do teor complicador das questões varia de acordo com a vida acadêmica pregressa do indivíduo. Chegamos assim à conclusão de que é uma tarefa dura, hoje em dia, saber exatamente o que é menos ou mais complicado na vida.
O é complicado! dispensa muita gente do operoso dever de raciocinar e ainda dá um verniz de intelectualidade ao falante que – ainda ao sei ao certo – ou quer encerrar a conversa por ali mesmo ou quer humilhar o interlocutor com um desafio mental que não leva a lugar nenhum. E a indefectível expressão ainda faz o papel da cereja rubra e reluzente, encimando um papo de baixíssimas calorias intelectuais.
O écompliadorismo se estende como praga no campo fértil do deserto lingüístico, consumindo ferozmente o nada e produzindo, com avidez, coisa nenhuma. Vejo a cena todos os dias: sala de aula repleta de jovens capilarmente avantajados, supostamente interessados em aprender o assunto em pauta até que, num ipon irretorquível, um deles derruba o mestre com a conclusão irretorquível a que chegou: “professor, isso é complicado...”. Com seu vago cheiro científico, o troço bate bem, o inventor dá de repeti-lo, depois dão de imitar o inventor, enfim, pega. Que fazer? Cartas para a redação.
Para quem ouve, o “é complicado!” mais parece um ucasse sem apelação, levantando o alto muro do fascismo lingüístico e nos deixando do lado das trevas da ignorância, sem direito a réplica ou à lanterna de Aníbal. Quem vai discutir tal referência sibilina?
Está no Aurélio: complicado é o que tem complicação; embaraçado, enredado, difícil. Complicar é reunir (coisas heterogêneas), tornar confuso, intricado, difícil; embaraçar, enredar, dificultar a compreensão ou a resolução de alguma coisa. Se tudo, em todos os momentos, é tão complicado assim, para que pensar?
Psicanaliticamente, é dizendo o nome das coisas que começamos a ter algum controle e conhecimento sobre elas. Mas, se no meio da conversa – quando não no início – o indivíduo vem e taca o veredicto “É complicado!”, é como se sinalizasse que já está, de antemão, desistindo de qualquer tentativa de solucionar a questão e que, se houver concordância geral, é melhor irmos embora e desistir de vez deste costume, que já foi civilizado um dia, de dialogar, trocar idéias. Foi assim, creio, que saímos, sob a broquel da bipedestação, da caverna para as cidades.
Junte-se a isso o famigerado “Com certeza!”, que feriu de morte o simpático advérbio afirmativo “sim”, tão simples com suas letrinhas simétricas nos convidando ao sorriso franco e amável ao final de sua emissão. Pois parece que ninguém mais diz sim neste país. E tome Com certeza! pela goela abaixo, como se fôssemos obrigados a nos convencer de que tudo o que o outro diz é constituído de intimativas inabaláveis, que ele é um ser superior dotado de preceitos sólidos que, reafirmados com essa constância e nesse tom peremptório, nos fazem - pobres mortais cheios de dúvidas - andar mais um pouco a caminho do cadafalso da forca lingüística.
Assim foi com o já finado “a nível de” e outros trambolhos que atravancaram o fluxo de raciocínio de gerações inteiras.
Todos estes vícios da língua vão formando hordas de adictos naquilo que é mais fácil, dependentes do modismo vocabular que impede qualquer sinapse mais imaginativa. É a lei do menor esforço levada às últimas conseqüências, capaz de transformar um bordão televisivo dos meus verdes anos, tão comum numa época que a comunicação começava a assumir uma postura de ciência de linguagem, bem diferente da chacrinha de hoje, em verdade premonitoriamente incontestável: Eu não vim aqui para explicar, vim para confundir!
Contudo, para corroborar minha flexibilidade em relação a estes clichês, me vejo obrigado a concordar com um amigo que, lanhado indelevelmente pelas dores sentimentais, e depois de muito desabafar, concluiu que, no seu caso, ao tentar compreender aquilo que não podia ser mesmo compreendido, só poderia resumir (e aliviar) seu martírio com a infanda frase: é complicado!
Em tais circunstâncias, eu não poderia deixar de aquiescer humildemente, pois compartilho do mesmo assombro: nada é mais complicado do que tentar entender porque o grande amor de nossa vida se foi para sempre.

04.05.09

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