
O grande livro da História da Humanidade bem que poderia ter, como subtítulo, a seguinte frase “ou como administrar conflitos”, pois, desde que o mundo é mundo, o homem briga com seu próximo, mesmo que este próximo esteja a milhares de quilômetros de distância. Por isso mesmo, inventaram os mísseis intercontinentais.
Não se ganha muito com a guerra, embora a indústria bélica discorde disso, mas, na realidade, fora a opinião destes senhores, perde-se muita coisa. Perde-se, logo de saída, a esperança na paz, pois – a história mostra – quem começa a guerrear não pára mais. E sem paz perde-se tudo.
É bem conhecido o Mito da Caverna, tal como foi exposto por Platão, no trecho mais célebre de sua “República”. Para o filósofo grego, ao conhecermos as coisas na materialidade delas, estaríamos em contato com o que elas têm de fugaz, de provisório, e perderíamos de vista o fato de que a verdade profunda dos seres e das coisas está num nível transcendente: o mundo das idéias. Cada ser, cada coisa, dizia, é apenas a cópia material imperfeita de uma idéia perfeita, de cujo conhecimento só podemos nos aproximar através de um esforço de elevação espiritual.
Na caverna em questão, haveria um sujeito nascido e criado lá dentro, voltado exclusivamente para os fundos da gruta, enxergando apenas as sombras dos animais que passavam lá fora e eram projetadas na parede com que se defrontava. Esse sujeito não poderia deixar de supor que as sombras, afinal, eram os próprios animais.
Essa, segundo Platão, é a nossa situação. Somos prisioneiros de limitações ideológicas que correspondem às do indivíduo do Mito da Caverna. Acreditamos demais na nossa percepção empírica das coisas e não nos aprofundamos suficientemente na busca do seu significado menos óbvio.
Em pleno século XXI, diante da televisão, ou lendo os jornais, sinto-me como o inocente indivíduo da caverna, sem saber direito o que está acontecendo lá fora, se as informações que me chegam correspondem mesmo ou não à realidade.
Em função do mundo globalizado, a guerra, no Oriente Médio ou em qualquer outro lugar do mundo, já se instalou na alma do que habitam a confortável caverna do novo século. Pois em meio aos objetos high tech como o computador, a Internet, os eletrodomésticos e as câmeras digitais, nos sentimos, muitas vezes, receosos em sair do apartamento/caverna, para descobrir a realidade lá fora. Paradoxalmente, a realidade está se tornando cada vez menos confiável e, se sabemos, no momento real, o que Mr. Bush está falando para milhões de americanos em cadeia nacional (cadeia de TV, por enquanto, bem entendido), nunca vamos conhecer o que ele, ou qualquer pessoa, está tramando nos bastidores do poder.
Então, perde-se com guerra, ou com a proximidade dela – graças à “eficiência” dos meios de comunicação - a sensação de segurança de viver num mundo mais progressista, no qual bilhões de dólares são enterrados juntos com o que resta dos corpos dilacerados pelos ataques cirúrgicos em moda desde a guerra do Golfo, doze anos atrás.
Perde-se um pouco da quase certeza de que o empenho intelectual seja talvez a nossa maior arma contra a injustiça e o desequilíbrio entre os povos. A precária formação política e acadêmica de quem detém o poder (bélico, pelo menos) e a ameaça que isso representa para integridade física da humanidade são pontos perdidos a contabilizar no perverso jogo “o-meu-é-melhor”, uma sofisticação deletéria do WAR da nossa adolescência.
O poderoso líder da maior potência mundial, caracterizado por uma hamartia compreensível, mas não defensável, parece um personagem shakespeariano preste a enlouquecer, um hamlet moderno desprovido da sensibilidade do original, embora atormentado ainda pela figura paterna, pelo convite à vingança e por novéis elementos nesta história trágica: o convencimento de que ele, e só ele, é capaz de escoimar o mal do mundo, com pulso forte e mente fraca. Mente insana e corpos que não são, eis a hipotética epígrafe do livro que Bush jamais escreverá, menos por falta de tempo do que por capacidade intelectual. Definitivamente, há algo de podre no reino republicano e que não se restringe a essa antítese infame, mas bem ao gosto do hamlet ianque que, há muito, optou pela segunda premissa do to be or not to be.
Não se ganha muito com a guerra, embora a indústria bélica discorde disso, mas, na realidade, fora a opinião destes senhores, perde-se muita coisa. Perde-se, logo de saída, a esperança na paz, pois – a história mostra – quem começa a guerrear não pára mais. E sem paz perde-se tudo.
É bem conhecido o Mito da Caverna, tal como foi exposto por Platão, no trecho mais célebre de sua “República”. Para o filósofo grego, ao conhecermos as coisas na materialidade delas, estaríamos em contato com o que elas têm de fugaz, de provisório, e perderíamos de vista o fato de que a verdade profunda dos seres e das coisas está num nível transcendente: o mundo das idéias. Cada ser, cada coisa, dizia, é apenas a cópia material imperfeita de uma idéia perfeita, de cujo conhecimento só podemos nos aproximar através de um esforço de elevação espiritual.
Na caverna em questão, haveria um sujeito nascido e criado lá dentro, voltado exclusivamente para os fundos da gruta, enxergando apenas as sombras dos animais que passavam lá fora e eram projetadas na parede com que se defrontava. Esse sujeito não poderia deixar de supor que as sombras, afinal, eram os próprios animais.
Essa, segundo Platão, é a nossa situação. Somos prisioneiros de limitações ideológicas que correspondem às do indivíduo do Mito da Caverna. Acreditamos demais na nossa percepção empírica das coisas e não nos aprofundamos suficientemente na busca do seu significado menos óbvio.
Em pleno século XXI, diante da televisão, ou lendo os jornais, sinto-me como o inocente indivíduo da caverna, sem saber direito o que está acontecendo lá fora, se as informações que me chegam correspondem mesmo ou não à realidade.
Em função do mundo globalizado, a guerra, no Oriente Médio ou em qualquer outro lugar do mundo, já se instalou na alma do que habitam a confortável caverna do novo século. Pois em meio aos objetos high tech como o computador, a Internet, os eletrodomésticos e as câmeras digitais, nos sentimos, muitas vezes, receosos em sair do apartamento/caverna, para descobrir a realidade lá fora. Paradoxalmente, a realidade está se tornando cada vez menos confiável e, se sabemos, no momento real, o que Mr. Bush está falando para milhões de americanos em cadeia nacional (cadeia de TV, por enquanto, bem entendido), nunca vamos conhecer o que ele, ou qualquer pessoa, está tramando nos bastidores do poder.
Então, perde-se com guerra, ou com a proximidade dela – graças à “eficiência” dos meios de comunicação - a sensação de segurança de viver num mundo mais progressista, no qual bilhões de dólares são enterrados juntos com o que resta dos corpos dilacerados pelos ataques cirúrgicos em moda desde a guerra do Golfo, doze anos atrás.
Perde-se um pouco da quase certeza de que o empenho intelectual seja talvez a nossa maior arma contra a injustiça e o desequilíbrio entre os povos. A precária formação política e acadêmica de quem detém o poder (bélico, pelo menos) e a ameaça que isso representa para integridade física da humanidade são pontos perdidos a contabilizar no perverso jogo “o-meu-é-melhor”, uma sofisticação deletéria do WAR da nossa adolescência.
O poderoso líder da maior potência mundial, caracterizado por uma hamartia compreensível, mas não defensável, parece um personagem shakespeariano preste a enlouquecer, um hamlet moderno desprovido da sensibilidade do original, embora atormentado ainda pela figura paterna, pelo convite à vingança e por novéis elementos nesta história trágica: o convencimento de que ele, e só ele, é capaz de escoimar o mal do mundo, com pulso forte e mente fraca. Mente insana e corpos que não são, eis a hipotética epígrafe do livro que Bush jamais escreverá, menos por falta de tempo do que por capacidade intelectual. Definitivamente, há algo de podre no reino republicano e que não se restringe a essa antítese infame, mas bem ao gosto do hamlet ianque que, há muito, optou pela segunda premissa do to be or not to be.
01/05/23
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