
Recebeu a carta de manhã e deixou-a sobre a mesa da sala, enquanto ia fazendo as coisas do dia. Tentando esquecer daquele retângulo de papel, tomou banho, escolheu criteriosamente a roupa para o trabalho; tomou até café, coisa que andava evitando em função da insônia e dos pesadelos, quando conseguia dormir. Pediu a empregada que fizesse as compras e que conseguisse pêssegos, raros por causa da época. Achou que uma fruta assim, rara, macia, cheirosa, era um símbolo para aquela nova mulher que começara a nascer há pouco tempo, dos seus escombros, da sua pele rasgada, dos pedaços recolhidos entre lágrimas e dor.
Chegou ao escritório com a carta enfiada mentalmente num dos desvãos das lembranças. Ainda estaria lá quando chegasse à casa de noitinha? Talvez a empregada a confundisse com uma correspondência protocolar, sem maior importância, dessas de banco comunicando que não temos mais dinheiro quando já estamos cansados de saber disso, e a jogasse fora sem estranhar o envelope intacto. Talvez a carta se perdesse naturalmente no meio dos papéis da mesa e acabasse no fundo de uma gaveta que se abre cada vez menos. Seu plano de esquecimento se mostrava totalmente descabido e a fazia pensar mais ainda no que ele poderia ter escrito para ela depois daquele período indefinido, no qual não sabemos se já passou muito tempo ou se ainda é cedo para começar a esquecer. O que ele dizia naquela carta? Ou melhor, o que queria com aquela carta, assim, tão inesperada, tão improvável depois das discussões, das cobranças, das frustrações declaradas?
O dia demorou a passar. A estudada indiferença se transformara numa ansiedade incontrolável. Deveria ter lido a carta no momento que ela chegou, sem prolongar o suplício que ela própria já sabia que não conseguiria suportar. Ligou para casa para se certificar que a empregada não tinha mesmo dado um fim involuntário àquilo que ela mesma não soubera terminar. Não adiantou. A empregada já havia saído e a casa deveria estar então silenciosa e limpa, com aquela carta gritando em cima da mesa. Conformou-se. Achou até engraçado pensar que aquelas páginas escritas pela letra firme dele cuidadosamente dobradas em três partes rigorosamente iguais, como era o seu costume, eram como se ele mesmo, em pessoa, a estivesse esperando, na sala, exatamente como fazia antes de partir. Mas já não esperava mais nada. Já há algum tempo não se permitia ter estes devaneios adolescentes ou achar que os homens eram assim mesmo. Ninguém é assim mesmo. Cada um, por mais previsível que seja, é uma nova obra a ser lida, ouvida, apreciada, mas sem expectativas demais. Melhor ainda se as tivesse de menos, ou as eliminasse de vez da sua vida.
Abriu a porta da sala e logo viu a carta, no mesmo lugar. O trajeto entre o corredor e a mesa pareceu-lhe interminável. Seu coração disparou. Engoliu em seco. Mordeu levemente o lábio – coisa que fazia sempre que estava nervosa, ele, um dia, notara.
Releu seu nome no envelope. Jogou a bolsa sobre o sofá e sentou-se, a carta queimando os dedos longos, a pele alva. Começou a ler. Sua respiração ditava o ritmo dos parágrafos, esses mesmos sem grande relevância: apenas uma ou outra reminiscência, algumas observações formais. À medida que ia lendo, seu corpo confrangia-se numa súbita queda de temperatura, uma febre gauche. Sim, havia questões relacionadas ao advogado, à quitação de prestações de algo que havia sido comprado junto, mas do qual ela não se lembrava direito agora. Ele aproveitava para lhe comunicar que havia trocado de celular, mas que não tinha ainda o número novo, no que ela fingiu acreditar sem pensar muito. Assim, a carta ia terminando como uma voz cada vez mais baixa de alguém que se afasta ou vai para um outro cômodo da casa, sem se importar se estamos ouvindo ou não. Ela sempre detestou isso. Mas foi até o fim, entendendo que se tinha chegado até ali, o pior, certamente, já havia passado.
No entanto, sentiu-se apunhalada entre o último parágrafo e a assinatura, sem ter como se proteger, já que vinha lendo num só fôlego, trincando os dentes como se abotoasse uma armadura sentimental, não de todo indevassável e totalmente desnecessária num momento em que se encontrava inapelavelmente só.
Do lado esquerdo da folha, bem alinhado ao recuo do parágrafo anterior, veio o último e efetivo golpe, contra o qual não haveria defesa, não fosse ela de uma sensibilidade anacrônica, até impertinente. Uma palavra que destruía qualquer possibilidade de reação diante da fragilidade em que se encontrava naquele momento: abraços...
Seca, afiada, fria, ela ressoava como um sino no campanário de um cemitério, à saída do cortejo. Destituída de sua sonoridade e do contexto que a enobrece, a palavra lhe pareceu uma contrafação de si mesma, sem sentido, dura, deslocada entre duas pessoas que há pouco se amavam para sempre.
Embora embutisse no seu significado um dos mais nobres sentimentos humanos, embora fosse o que muitos pediam na hora do desespero, embora substituísse até com certa eficiência aquele silêncio angustiante que se instala nas despedidas, atingiu-a em cheio, como uma mera manifestação formal e fantasmagórica de um sentimento supostamente recém sepultado. Assim, no plural, bem que podia significar um prolongamento, um não-abandono, um conforto, o desejo de uma amizade sincera.
Mas, para ela, então, era somente e apenas o último degrau do cadafalso, diante do qual só sentiu uma repentina e absurda vontade de chorar.
03/01/28
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