
Uma das coisas mais interessantes de estar num lugar tão frio é olhar pela janela e não acreditar que lá fora a temperatura está quase abaixo de zero, apesar do céu azul e do litoral da mesma cor, só que com uma tonalidade mais forte. E a ilusão do que eles chamam aqui de central heating, uma sensação térmica sem a qual até os pingüins, caso existissem neste lugar, pediriam urgente uma reserva para o próximo vôo em direção ao Havaí.
A Southampton University e um bálsamo para as almas acadêmicas como eu. Agora no inverno, tudo está quase que completamente parado, não se vê quase ninguém pelo campus, os corredores estão vazios e apenas o pessoal da administração habita os espaçosos edifícios de dois andares, no máximo.
Estou ocupando uma sala no English Language Institute, anexa a uma maior, onde trabalham diligentemente três adoráveis americanas: Danielle, Tricia e Jackie. Do meu nicho, ouço-as falando sobre trivialidades e rindo-se, vez por outra, de algum chiste em relação aos quais não tenho o mínimo conhecimento. Vez por outra, uma delas vem a minha sala e me oferece uma xícara de coffee com pretzels e donuts, que aceito com prazer, mas um pouco desconfiado que a culinária local não deva passar muito mais disso mesmo.
Olho novamente pela janela e volto a não acreditar que lá fora só se anda com pelo menos três casacões pesados, luvas, cachecol e touca, se não quiser correr o risco de uma pneumonia dupla - talvez tripla, dependendo do freguês, pois se já conheci uma pessoa sem coração, não me surpreenderia de encontrar alguém com três pulmões.
Aí, então, vejo uma moça atravessando a passos rápidos o estacionamento do campus. Sei que e uma moça porque, do meio daquela confusão de toucas e cachecóis, entrevejo um bom pedaço de um longo e loiro cabelo que brilha ao sol flébil do final da tarde. Súbito, uma outra mecha se desprende daquele emaranhado de lã sintética e pêlo de doninha, formando uma imagem que me lembra uma cena familiar: a das mulheres com cabelos soltos, caminhando contra o vento, na praia. Só que esta não esta na praia, mas por um segundo o deus vento descobre o rosto que até então estivera escondido e vejo que ela usa óculos escuros e tem uma boca grande, mas perfeitamente integrada ao conjunto do belo rosto que agora contemplo. Ela continua caminhando contra o vento, sem saber que, para mim, o vento é a favor, pois descortina, em átimos, aquilo que ela tanto esconde.
Num próximo e inesperado gesto, desenrola a longa echarpe azul e liberta o pescoço da prisão. Parece cansada de tanta roupa e chego a pensar, pela expressão que agora apresenta, que chegaria até à ousadia de se despir tudo que a impede de se mostrar na sua totalidade. Mas eu sei, e ela também, que o frio aqui não é brincadeira e logo se recompõe prendendo os cabelos e se enforcando, charmosamente por sinal, com a echarpe que lhe aquece o longo e alvo pescoço.
Some do meu raio de visão, mas não do meu desejo literário de transformá-la num ícone misterioso, numa mulher americana que nunca achará que alguém bem estrangeiro, de uma janela próxima, a observou docemente e, docemente também, adivinhou seus sonhos há muito congelados, e que, caso não encontre o verdadeiro amor de sua vida bem rápido, permanecerão assim, mesmo nos dias quentes dos próximos verões americanos.
Nova York, 04/01/12
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