sábado, 5 de maio de 2007

FALE COM ELA



Este filme de Almodóvar trata, entre outras coisas, da necessidade que o ser humano tem de se comunicar. A história da profunda amizade entre dois homens, cujas mulheres amadas estão em coma, é emocionante e particularmente sensível porque coloca a questão da palavra como sustentáculo das relações humanas.
A obstinação de Benigno (Javier Câmara) em conversar com Alicia diariamente, nestes quatro anos em que está em coma, denota não apenas o desdobramento da descoberta que este fez ao vê-la dançar numa academia vizinha a sua casa. Ele alimenta este amor com conversas constantes, um monólogo contínuo, no qual ele procura alcançá-la no seu mundo de silêncio. Sabe que se parar de falar não mais terá nenhuma relação com aquele corpo, que voltaria, assim, a ser apenas um corpo sobre uma cama de hospital. A palavra, deste modo, representa aí um papel vital, tanto para ele, como para ela. Nos seus papos com Alicia, Benigno (sim, o nome não é apenas uma feliz coincidência) reconstrói o mundo dela e, de certa forma, o dele também. Sua vida igualmente pode ser entendida como uma espécie de coma social, no qual ele se isolou, quase sem contato com a vida lá fora. Sua relação mais forte era a mãe, que logo morre e o deixa a procura de outro contraponto com quem estabelecer seu diálogo de mão única. Assim como a mãe, Alicia o permite ser o que é, sem questioná-lo o exercer alguma pressão para que viva uma vida independente. Psicanaliticamente, Benigno permanece em simbiose com mãe, mesmo depois da morte dela. Transfere para Alicia seus cuidados, sua atenção, seu afeto, e consolida com ela – numa cena sutil e significativa porque sugerida num filme mudo, sem palavras, silencioso, como o mundo de Alicia – o desejo sexual reprimido e que, não por acaso, é punido posteriormente em função de suas conseqüências.
Há em Benigno um pouco da característica chapliniana de alguns anti-heróis do cinema contemporâneo. Sua inocência e pureza sofrem a condenação dos intolerantes, dos preconceituosos, numa Europa que se diz avançada e bem resolvida, apesar de a Comunidade Européia ter, no momento, um líder trapalhão como Berlusconi. Tanto é que ele fica como o herói incompreendido que, apesar de boa vontade, não sobrevive à insensibilidade da jungle modernosa e civilizada que ainda cultiva espetáculos primitivos e discutíveis como a tourada. A presença de Geraldine Chaplin como a professora de dança de Alicia parece que é uma brincadeira do diretor e, ao mesmo tempo, uma homenagem a filha e ao pai.
Todos estes dramas podem ser abordados pela necessidade imperiosa que temos de nos comunicar com alguém, sobretudo com quem se ama. Fale com ela é um drama sobre a capacidade do amor para produzir monólogos que, de tão plenos, equivalem aos diálogos mais estreitos.

Friburgo, 03/07/11

Nenhum comentário:

Postar um comentário