
A Rua da Assembléia era especialmente dolorosa para ele. Quando passava pelo centro da cidade, a caminho do trabalho, desviava como podia, buscava atalhos, cortava caminho, dava voltas por quarteirões inteiros, para não ter que chegar perto daquela rua então alçada ao patamar de tabu intransponível. Naquela rua, num prédio de esquina, ela trabalhava. Séria, loura, sobrecarregada de serviço e, ao mesmo tempo, distante, alta, inalcançável. Uma torre, um abismo.
Mas a rua estava lá, longa, retilínea, intumescida como uma cicatriz que não sarava. Estendida no meio da cidade, era o arranhão mais rubro no mapa vermelho do coração.
Ao mesmo tempo em que a evitava, sentia que seus passos o levavam para aquela rua, onde ela estava. Mas resistia bravamente, sem dar chance ao que chamam de saudade traiçoeira, aquela que, ao se tentar contemplar, acaba-se na mais profunda frustração. Já acontecera uma vez: havia ido, de surpresa, no local de trabalho dela, motivado apenas pela saudade. Achara injusto estar ali tão perto, com tanto desejo, depois de tanto esforço e sofrimento, e não poder vê-la, nem que fosse por um instante. É, mas a saudade pregou-lhe uma peça justamente por não consultar seu objeto e, então saiu de lá mais triste, mais sofrido, mais saudoso. Viver era mesmo rasgar-se, remendar-se.
A Rua da Assembléia, paradoxalmente, o desconstruía. Perto da Rua da Assembléia, sentia-se desconstruído, desarmonizado, desfigurado, desunido. Era como se, ao passar por ali, fosse deixando partes de si pelo chão, partes importantes, detalhes da sua história com ela. Ela. Estava lá, em algum andar alto de algum edifício triste, longe dele. Ela. Perfeitamente integrada ao ambiente e produzindo, íntegra, plena, senhora de si. Ele. Pedaço. Fragmento. Porção esquecida. Desfeito. Despedaçado. Quebrado. Partido. Rasgado. Uma terra deserta, árida, sem dona.
Aos pedaços, andava. Aos pedaços, resistia. Sentiu várias vezes a imensa tristeza de não poder caminhar livremente pela Rua da Assembléia, entrar no edifício escuro de esquina e encontrar com ela. Era um castigo diário, que, ao invés de perder força, se intensificava, mais e mais, com tempo. Seria tão fácil, estava tão perto.
Tentava se portar com dignidade. Ninguém, no torvelinho do centro, saberia que ali estava um homem que se desintegrava cada vez que passava perto da rua que deveria remontá-lo, torná-lo inteiro outra vez. Era apenas mais um que passava perto da Rua da Assembléia e que, aparentemente, nem se importava com a história que ali se escondia. Ninguém saberia que seu desejo era mesmo dar passos firmes em direção àquela rua e sentir no coração a certeza de que iria, em breve, reencontrar a mulher que amava, a mulher que trabalhava, que telefonava, que organizava, que enfeitava com sua delicada rotina uma sala, num andar triste de um prédio escuro da Rua da Assembléia. Aquela rua, percebia, guardava o grande motivo para continuar acreditando no que se lhe passava no coração, sem explicação. Ali, ela passava de manhã, indo para o trabalho e voltava à tarde, às vezes à noite, para casa. Um fato simples, mas que o emocionava.
Por dentro, doía-lhe a certeza cruel de que ela não alteraria, nem por um segundo, sua rotina diária para pensar nele. Essa era uma das certezas que a Rua da Assembléia lhe trazia. No entanto, parou numa banca, comprou jornal e até tomou uma coca cola num bar de esquina, sem que qualquer uma das milhares de pessoas que transitam por ali percebesse que ele era só metade.
Trincado, mas ainda de pé, foi se distanciando daquela rua que desunia, afastava, separava. A moça loira de olhos azuis viveria mais um dia sem saber desta história triste que passava ali perto, em forma de homem partido. No entanto, apesar de remendado, ainda era o mesmo que, um dia, passou por aquela área sem sentir a dor pesada desta saudade que não se resolvia através de equações práticas. Tudo, aparentemente, já fora dito, mas, ele, ali próximo da Rua da Assembléia, continuava a sofrer aquela desconstrução interminável. Descontruiu-se a história, descontruiram-se os vínculos, tentou-se desconstruir o amor. Constatava, contudo, que este, contudo, apesar de tudo, e por causa de tudo, permanecia. Íntegro. Inconsútil. Pleno. Sem o mínimo sinal de rachaduras; como uma casa que resiste milagrosamente, ao mais impiedoso vendaval.
Chegará a hora que este homem destroçado se convencerá que, por mais que ame, por mais que sinta falta, a Rua da Assembléia continuará sendo apenas mais uma rua do centro da cidade, onde existirá para sempre – pelo menos para ele – uma moça loura, de olhos azuis, que acenderá um cigarro, na janela, no meio da tarde, sem saber que a poucos metros dali foi motivo suficiente para o amor de um homem anônimo, agora sem lirismo, no meio da multidão.
00/02/18th
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