sábado, 19 de maio de 2007

NOVEMBRO



Não, não fui ao casamento da Angélica, o que seria uma boa desculpa para ter ficado tanto tempo sem escrever neste retângulo semanal. Já adianto: ninguém reclamou. Mas volto à labuta numa noite chuvosa, meio que custando a acreditar que já é novembro, aquele mês em que temos que correr para fazer tudo que ainda urge antes de acabar o ano. É também um mês que traz muitas recordações, algumas das quais persistem, ano após ano e se já duvidei do slogan que dizia “Cole com Tenaz e descole se for capaz”, não deixo de acreditar que ponho os pés (dois, quatro?) num mês cercado de mistérios e símbolos que se abatem sobre mim como uma tsunami gigantesca.
Talvez a explicação para esta imprecisa aura mística esteja no Dia de Finados, logo assim no começo, um dia que me assusta desde pequeno, só pela tentativa de entender como podia haver um dia especial para quem já havia morrido. Havia algo que não batia bem, além das engrenagens encefálicas. Mais coerente seria uma Noite de Finados, concluía minha implacável lógica infantil. Achava meio despropositado, sem sentido, um feriado que era para ninguém sair de casa para se divertir, sob pena de aborrecer quem já partiu dessa para melhor.
Mas isso passou rápido e aproveito sempre o penúltimo mês do ano para rever Sweet November, um filme com Charlize Theron no início de carreira, linda como sempre, com cabelinho curto e roupa meio riponga, no qual ela encontra o amor da vida dela, justamente quando não pode se entregar a ele. Sintomático, não? Assisto à noite, na madruga, sem a luminosidade do horário de verão, este fenômeno temporal que acontece no meio da primavera, para chorar e ninguém ver. São coisas só entre mim e Charlize e recuso-me a dar maiores detalhes. Aliás, o horário de verão, com seu efeito rolo de macarrão, espichando a tarde noite adentro, causa muitas polêmicas – tem gente que gosta e tem gente que o-dei-a – mas não há muito que fazer. Decide-se que o horário muda neste esfingético mês de novembro e temos que aceitar, gostando ou não. Não perco tempo com isso, como também não perderei entrando num grupo de discussão sobre o Código Da Vinci, a moda da hora, primeiro porque não li, segundo, porque sou totalmente contrário a essas teorias conspiratórias e prefiro ficar torcendo por Kerry e sua turma de artistas bacanas a tentar achar soluções para enigmas esotéricos e picuinhas que envolvam a Ordem dos Templários ou a natureza do Santo Graal. Tenho mais o que fazer e o dia continua a ter as mesmas 24 horas de sempre, mesmo com o novo horário, não tem jeito.
Só para não dizer que não acredito no sobrenatural, encontrei, por acaso, outro dia, no fundo de uma gaveta, um texto antigo, da minha humilde lavra, em que eu me cobrava escrever todos os dias para, digamos, burilar o estilo. Achei que era um toque. Apesar dos hiatos meio longos de ultimamente, tenho me pegado pelo colarinho e escrito até o cérebro explodir (a expressão existe em inglês, sorry!) só para ver se melhoro um pouquinho. Sei, sei, você vai dizer que não adiantou muito. Mas insisto. Claro que não tenho a inteligência lingüística de um James Joyce ou um Guimarães Rosa. Porém, não possuo também a burrice literária de alguns escritores famosos que, em função do marketing maciço das editoras ou da absoluta falta de critério crítico dos leitores - ou a provável combinação dos dois - se consideram no patamar da literariedade.
Não quero Ritalina para esta hiperatividade da escrita que se me acomete neste mês dos aniversários de Cecília Meireles e Joe. Alguma coisa diferente pode acontecer na tela do computador sem ser um spam. Ler e escrever costumam resultar numa combinação mais poderosa do que todas as bombas já deflagradas na estúpida guerra no Iraque e, se bem conjuminadas, podem se transformar num hubble cultural capaz de nos tirar o pé da lama da mediocridade, cuja liga uniforme e resiliente costuma deixar as pessoas, democraticamente, imobilizadas sob o pesado guante da ignorância. Por isso não deixo de registrar, nestas mal digitadas, o que penso e, assim, chegar a novas conclusões, a diferentes ângulos da realidade que nem o intricado roteiro de Matrix Reloaded conseguiu deslindar. Não tenho a pretensão de ser um polímata (dicionário, rápido!), mas num mundo dito globalizado de hoje, com tantas fontes de informação sobejamente jorrando em cada esquina do caminho árduo daqueles que têm curiosidade acadêmica, não dá para entender porque tanta gente simplesmente se recusa a dar um passo para fora da caverna platônica. Coisas assim me deixam mais apreensivo do que um alerta laranja em plena Times Square e, mesmo lidando com alunos há tanto tempo, ainda não consegui entender porque as pessoas, em geral, se satisfazem com tão pouca informação, estimulam ao mínimo a rede de neurônios que lhes deve ocupar a cabeça e se mostram, via de regra, desinteressadíssimas em qualquer novidade que abra uma picada que seja no denso matagal da falta de saber. Mas vou dar uma colher de chá aos preguiçosos: quanto mais se estuda, mais ciente ficamos do pouco que conhecemos e do quanto ainda há para ser descoberto. E que prazer perceber, a cada momento, que ainda há muito que aprender e que uma vida só é insuficiente para se chegar a um mínimo aceitável. Assim como o amor, viver dura mesmo o tempo da descoberta.
É esse tipo de curiosidade que me faz entrar em novembro com o respeito e a cerimônia de quem visita um templo. Hei de me deparar com o novo, com o desconhecido ou mesmo me curvar humildemente e pegar a ponta do novelo de algum trauma que anda emperrando minha história neste vale de lágrimas. Talvez descubra que a Charlize mora ao lado, que é a famosa girl next door, esta fantasia ianque que Ms Monroe tão bem personificou com sua pele alva e cabelos louros, por sinal os mesmos de Charlize em Sweet November, e introduziu, sem xilocaína, o culto às louras no imaginário masculino de uma nação onde quem manda bem mesmo são as morenas. Talvez me dê conta que o horário de verão sirva mesmo para promover estes encontros no final da tarde prolongada, com a loura, a morena, comigo mesmo se tiver sorte. Verei tudo com o olhar maravilhado que deve ter quem vê um disco voador e serei, enfim, dono absoluto dos enigmas de novembro. Especialmente este novembro, mês em que sinto que vou embarcar na definitiva viagem literária, mês que pode sacramentar, na Casa Branca, mais quatro anos de Bush e seu fanatismo religioso, aleijamento de uma política feita de soberba e arrogância que vem, lentamente, dissolvendo a esperança que temos um mundo melhor. Se isto acontecer, podemos tomar um uísque e acender um cigarro triste, como Humphrey Bogart em Casablanca diante da certeza cruel de que Ilsa se foi para sempre.
02 de novembro de 2004.

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