quarta-feira, 16 de abril de 2008

REDESCOBERTA

E, de repente,

No trigésimo sétimo ano da minha história confusa e melancólica,

Quando tanta coisa passou,

Sofrimentos e alegrias,

Quando tantas amarguras foram esquecidas diante do pôr do sol,

Depois de ter me achado sábio e irremediavelmente ignorante, perdido,

Às vezes, entre sonhos e lembranças,

Tons sutis de dores entre doçuras persistentes,

Depois de desistir e voltar à luta,

De chamar sem ser ouvido,

De querer sem ser atendido,

De buscar sem encontrar,

Quando a mão fria da saudade tocou de leve meu rosto

E as lágrimas vieram incontidas e salgadas

Como a onda do mar que mora em nós,

Depois de tanto esperar sem saber,

De tanto se comprometer sem necessidade,

De tanto tentar entender quando nãomais esperança de renascer o amor

Na poeira que vertem os telhados,

Caindo imperceptível no beijo de ir e vir,

No coração que dilata e quebra,

Quando nos damos conta de que somos aquilo que escolhemos

E que, muita vez, desistimos das pessoas,

Dos sonhos, da vida enfim,

Porque custamos a aceitar nossos limites nos outros;

, então, você aparece

E muda tudo...

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COMPARAÇÕES

Depois de tanta coisa ter acontecido, as mudanças, as angústias, a solidão batendo à porta, à noite, querendo entrar na alma; depois de tanto amor, de tanto amar, que mais poderia ter dizer? Tento escrever mas as palavras são incapazes de revelar o que se me passa por dentro. Nem sei que caminho seguir. É muito mais do que consigo dizer ou ousar escrever com minhas acanhadas formas de expressão.

Por exemplo, ocorre-me que você pode ser comparada às estrelas: porque brilha sempre; e pode ser comparada à primavera: porque volta todos os anos com renovado esplendor; e pode ser comparada aos colibris: porque é suave e distribui doçuras; mas pode ser também comparada a uma loja de departamentos porque tem sempre dois de cada coisa, e a um terremoto de 9 pontos na escala Richter quando fica zangada…

Por outro lado, pode ser comparada com um guarda sol: porque é de se abrir; pode ser comparada com a chuva: porque rega as pessoas que a amam com amor; pode ser comparada à uma torre: porque vive em castelos e tem ar de princesa; pode ser comparada aos fusos horários: porque seu tempo é sempre diferente, mas pode ser comparada com o pôr do sol: por ser terna e fazer suspirar; pode ser comparada ao poema: por ter ritmo e rima nas palavras; mas pode também ser comparada às batalhas medievais: por ter força e nome de princesa…

E quando pára, distraída, os olhos azuis perdidos no horizonte, pode ser comparada a uma bailarina que flutua no ar e carrega o peso do mundo sem esforço; pode ser comparada a um quadro de Matisse porque combina as cores com harmonia fora do comum; e pode ser comparada, sem favor algum, a uma estátua de Rodin, por ter mãos e pés perfeitos

E pode ser comparada às ondas do mar: por esta forma completa de abraçar; pode ser comparada às orquídeas: porque floresce o ano inteiro, e pode ser comparada a um travesseiro macio: porquepara abraçar e chorar de noite; pode também ser comparada a um engarrafamento: porque faz pensar; pode ser comparada a uma cesta de fruta: por ser cheirosa e boa de morder; pode ser perfeitamente comparada ao beijo: porque estala no rosto e faz tremer; pode ser comparada a uma taça cheia de morangos com chantilli: porqueágua na boca; pode ser comparada a um livro querido: porque guarda verdades; e pode ser comparada a uma foca: porque possui equilíbrio for a do comum

Pensando bem, pode ser comparada com a lua: porque tem fases; pode ser comparada a uma sábia moderna: porque tem um ar de entendida quando olha para cima, mordendo o lábio; pode ser comparada a uma feijoada no verão: porquecalor; é igual a um liqüidificador quando sorri: porque seu sorriso é uma mistura de mel com doce de leite; e pode ser comparada a um amor súbito: porque fabrica nuvens e abre precipícios

Pode, sem exagero, ser comparada ao céu: porque provoca sonhos românticos; pode ser comparada a um monumento: porque não se pode levá-la para casa; pode ser comparada à notícia de casamento: porque causa alvoroço; pode ser comparada a um balão: porque voa sem fazer barulho; pode ser comparada a um verso de Drummond: porque é exata e subjetiva; pode ser comparada a uma rainha, por ser mãe de uma princesinha; pode ser comparada a uma enciclopédia: por saber uma porção de coisas; e pode ser comparada às roseiras de outono: por espalhar pétalas quando seca o cabelo

Pode ser comparada a um cronômetro: por fazer o tempo parar; e pode ser comparada a uma carta de amor: porque a gente quer ver toda hora; pode ser comparada aos espelhos: porque sabe guardar segredos; pode ser comparada a um problema de matemática: porque tem números e equações complicadas; mas, da mesma forma, pode ser comparada a um sonho bom: porque custa a acordar; e pode ser comparada a um bebê: porque atrai sorrisos e dorme sem roncar, mas também pode ser comparada ao primeiro dia de férias: porque transmite uma sensação de frisson

Pode ser comparada ao cinema, por ser reflexão e reflexo; e pode ser comparada ao lirismo, por saber que o melhor poeta não está nem na mão que serpenteia nem na fala que seduz, mas em alguma coisa inefável que sustenta a poesia...

Pode ser comparada a uma loja de perfumes: porque perfuma imediatamente o mundo a sua volta; é muito parecida com um museu de arte: porque suas mãos são jóias em permanente exposição; pode ser comparada ao minuto de silêncio: porque todos respeitam; e porque não comparar você ao coletivo das flores ? : porque é linda e mais linda e salpica insônias na madrugada...

Sem dificuldades, pode ser comparada aos anjos: porque tem asinhas nas costas; e é como manchete de jornal: porque é a primeira que todo mundo ; pode ser comparada a um relógio de sol: porque tem tempo de dia; pode ser comparada a um capítulo de novela: porque surpreende sempre e todo mundo quer ver; pode ser comparada ao Natal: porque é presente; pode ser comparada com óculos de lentes cor-de-rosa: porque faz o mundo melhor; pode ser comparada ao disque-denúncia porque logo o que não está no lugar, pode recordar um soneto de Vinicius: porque é leve e intensa, simples e natural; e pode ser comparada ao momento do gol: porque dá a impressão de que valeu a pena esperar

Ainda pode ser comparada a um porto deserto no fim da tarde porque sabe que muitos sonhos são como pontos desfeitos na colcha de retalhos de nossa história, e que há de se estar atento, pois o mundo, tal como o conhecemos, pode mudar quando uma pessoa especial entra, pela primeira vez, na moldura de nossos olhos...

Mas pode ser comparada a um telefonema depois de uma briga: por ser ansiosamente esperada; e não seria demais compará-la às luzes difusas do crepúsculo: por denunciar saudades; pode ser comparada à Sinfonia número 22 de Mozart quando fala no celular, por ter a voz em adágio e alegro, e por fazer sonhar acordado quando conta que gostaria de passar um final de semana num hotel-fazenda bem longe de tudo e de todos

É como quermesse em cidade do interior: cheia de alegria, cores, música, doces e suspiro. É como banco 24 horas: por ser (quase) sempre disponível. Por estar sempre ao alcance do coração. Por mostrar o lado bom da vida. Por ser o lado bom da vida. Porque faz o coração disparar. Por ser um amor

E porque você tem a delicadeza e a transparência dos cristais e espirra sem fazer barulho; e se delicia com sorvete de chocolate e Bis com Coca Cola; e por fazer ver que, na vida, existem muitos caminhos e que alguns são os caminhos do coração, e porque eu preferiria, sem dúvida alguma, se fosse o caso, ter tido apenas, em toda minha vida, uma chance de ter um leve contato com seu cabelo, de ter um beijo da sua boca, de ter um toque da sua mão do que uma eternidade sem nada disso; e por todas estas razões, e muito mais que não sei dizer, é que nada neste mundo, por mais que eu tente, se compara a você


020301


JOE

Acabo de receber sua carta repleta de delicadezas e, prontamente, ponho-me a respondê-la. Ela me pega num final de tarde, entre provas e exercícios a preparar, e me faz indizivelmente feliz, como um meninoaquele que fui/fomos – há tanto tempo, num lugar perdido na memória.

Gostei do conceito da caixa que constróis. Acho que é isso mesmo: a gente guarda as nossas recordações em caixas, gavetas e potes que se abrem cada vez menos, e que deveriam ser mais revisitados. Precisamos deste tesouro, deste ouro que é a matéria de que fomos feitos. Aprendi que, antes de sair do esconderijo existencial, onde mantemos nossas caixas, temos que viver a solidão essencial do ser humano e ver que ela pode ser até boa quando nos deixa mais lúcidos. É ali, naquela solidão úmida de lágrimas, que aprendemos a ser merecedores do sofrimento. É, há de se merecer a dor, Joe, por mais paradoxal que isso pareça. O lugar-comum ainda vale: é dela que tiramos as melhores lições, as que realmente valem a pena. Eu que sempre lutei contra esta idéia, tenho que admitir – é assim mesmo. Rir é bom, mas não nos faz repensar os tantos fragmentos de vida que nos envolvem desde o primeiro click na fechadura que aparece no coração à medida que vamos crescendo e perdendo a inocência, achando que não fomos mesmo convidados para a grande festa.

Matemática se aprende. Até alemão se aprende, mas um sentimental nunca fica alheio ao outro. Mesmo que o outro seja, sartrianamente, seu imenso inferno. Sabemos bem disso, não é? Não tivemos medo quando o melhor seria a prudência e ninguém nos deu uma medalha por isso. Pelo contrário. Fomos execrados. Sofremos, nos autopunimos, achamos pouca a culpa que carregávamos nos braços, como um filho morto, em direção ao nada. Para quê? Não sei, jamais saberei e talvez por isso, atualmente, me ponha, dia após dia, como um Michelangelo sem arte e sem brilho, a desconstruir a estrutural tristeza de mármore que acabou por turvar a leveza que persigo. Afinal, temos o dom de entrar em contato com os astros e com os amplos silêncios que cingem os deuses, tal como fazem, sistematicamente, os monges profissionais. Porém nos quedamos em ambas as fímbrias, apegados à fragilidade do homem e solidários com sua capacidade de errar ao odiar o destino. Contudo, por mais que se mutile o ser, ele se recompõe, Joe. Quando julgamos que agoniza, na verdade está renascendo. Como se a valente determinação constituísse, em si mesma, uma cirurgia eficaz - o espelho quebrado se organiza na sua forma antiga, e nele o rosto se revela novamente na sua exatidão sem mácula.

Voltando à caixa: acho que a projetaria de outra forma. Ao invés de quadrada, fá-la-ia redonda, sem esquinas, pois é assim que penso que nossas lembranças fluem – líquidas, constantes, espraiando-se na parede côncava de um coração superestimado na sua capacidade vital de dar e tomar a vida, de viver e morrer, por amor. É um comentário, Joe, que faço reconhecendo minhas grandes limitações na seara artística da qual você é mestre (Joe, Joe! Você é Mestre, Joe!!!!!).

Em relação ao natimorto Clube dos Fracassados, do qual eu seria membro notável, só posso dizer que discordo quando falas que há pessoas bem sucedidas mais dedicadas e envolvidas do que você. Você é uma das pessoas mais devotadas à sua arte que conheço e essa admiração por você é longa e sólida (oops!) como o amor que nos une. Gostaria de ser tão abnegado como você em relação à minha vida, aos meus projetos. Sou, sempre fui e sempre serei um modesto aprendiz de Joe e sua integridade como ser humano e sua dimensão como artista verdadeiro que conheço desde os verdes anos.

Joe, não acho que você tenha perdido o fio da meada. Pelo contrário, sinto, na distância, que você está se encontrando cada vez mais. Está mais em contato com você mesmo, com o joe que sobrevive apesar do brutal efeito deletério dos jat-lags sentimentais que se abateram sobre sua nobre cabeça. Acho-o mais aprumado em direção à felicidade que tanto mereces. Não mais um navio adernando. Não mais um avião em vôo cego. Mas sim um homem completo, em suas dores, sofrimentos, alegrias e conquistas.

Espero que possamos voltar a caminhar peripateticamente pelas trilhas do alto das Braunes, como fazíamos tempos atrás. Também sinto falta disso. Talvez, lá do alto, possamos vislumbrar um raio de felicidade entre as luzes difusas do pôr-do-sol que tanto conhecemos e aprendemos a amar com os olhos da infância.

Claro que faço a revisão do texto do projeto da exposição em Londres. Espero poder ser útil de alguma forma. Não conheço ninguém que possa fazer em espanhol, mas vou tentar descobrir.

Estou enviando dois textos. O primeiro foi feito para uma linda mulher que trabalha numa loja de celulares. O segundo é parte das minhas observações sobre o mundo, a vida, e a saudade inelutável de uma pessoa que, ao entrar na minha história, me fez perceber que, até então, eu não havia vivido uma vida de verdade.

Beijo grande e saudades horríveis também.

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JULIANA

Acho que sei porque colocam a Juliana Paes de roupas íntimas na novela das 9: pode ser para desestabilizar as pessoas de bem que, àquela hora sacra da noite, se sentam diante do computador para produzir seus textos, sejam eles profissionais ou acadêmicos, não faz mal. O que faz mal – e olhe que digo mal no melhor sentido do termo – é ver a Juliana, assim, digamos, quase sem roupa, sem poder, digamos também, perguntar pessoalmente as horas, entre outras coisas. Fico pensando: como se concentrar na coerência textual, como encontrar as palavras exatas, como aplicar um hiperbatozinho aqui, uma antonímia inesperada, ou uma elipse para descansar os olhos fatigados do leitor? Tenho uma vaga idéia do que deve ter sido dar de cara com a tsunami que devastou a Indonésia, mas deve ser algo bem parecido com a sensação de ver a Juliana se agigantando à nossa frente, aquele sorriso que mistura mel com doce de leite em proporções descomunais, aquela pele de cor de cutia, se mo permite o Braguinha a mão grande numa de suas mais felizes comparações.

Vai por mim: presta atenção nela, rapaz! Não esta atenção machista, consumidora, sem tato. Ela precisa – o sei – de um entendimento de um homem de verdade, que não precisa de chapéu de vaqueiro para corroborar a virilidade ou os bons sentimentos. Quem é proprietária de coxas tão sérias e um bumbum tão meritório, como ela o é há muito, necessita de um homem que use adjetivos inesperados e que cultive o saudável hábito de resenhar todos os filmes a que assiste, entre outras líricas estranhezas. Salvo em situações tópicas, Juliana vai encontrar a felicidade nos braços não malhados de alguém que saiba de cor aquele poema de Florbela Espanca que começa assim: “Se tu viesses ver-me hoje à tardinha...”.

Bom, acontecia que eu estava prestes a cometer mais uma tentativa de crônica e mal havia começado a batucar estas mal digitadas quando ela, na televisão ao lado, tirou o vestido evangélico e injetou em nossos olhos, sem anestesia, algo parecido com uma coxa bem definida, seguida de outra quase irmã, enquanto semicerrava os olhos, assim ó, fazendo biquinho, tingindo de vermelho, meio a meio, o redondo dos olhos negros que fitavam não sei quem. Olhei sério para a garina (dicionário rápido!) e vi logo que aquela cena industriava-me sutilmente para a inação típica dos que desejam sem esperança. Deixei-me ficar aboletado na cadeira, convencido, como o Lula, que só mesmo um certo viés masoquista poderia explicar este castigo para quem está do lado de cá deste peep show sem direito à cabine vip. Interrompeu-se a concentração, o texto, a respiração, as funções vitais só para ver, fatiada pela edição pudica, a personagem sapeca que, no seu discurso corporal simplista (o discurso, não o corpo), atesta que há sempre um vulcãozinho dentro da mais convicta carola.

Bem que tentei fugir. Fiz de tudo para não me expor aos raios gama de Juliana, que transformam os mais incautos em hulks ao contrário: sem força, mas ainda verdes de ciúmes de quem se assenhoreou do músculo cardíaco da garota do momento, tão linda e espontânea que até deixou o Jô babando no programa de ontem, quando, sem a menor cerimônia, ela cantou a belíssima canção do Frejat, Pra Toda a Vida, meio à capela, na frente do auditório mesmerizado com aquele sorriso que, se taxado pela Receita Federal, pagaria algumas vezes a dívida externa com folga.

Tudo bem que a explicação para esta epifania chamada Juliana foi só um pretexto para escrever a crônica da semana e justificar o infame trocadilho do título, mas sabe que até valeu a pena? Escrevendo se exorciza os fantasmas que, à noite, saem de suas tocas e nos rondam a fim de granjear simpatia de incréus como eu. Pero que los hay, los hay, admito com um frio na espinha e em claudicante espanhol, mas sempre com respeitosa atitude diante de coisas que não se pode explicar. Contudo, tentamos entender as pessoas e seus gestos mais surpreendentes, rindo ou chorando, igualzinho como neste filme mais recente do Woody Allen em que ele mostra que drama e comédia se visitam e têm o mesmo nascedouro – a infinita capacidade do ser humano de ferir a si mesmo e aos outros. Sacou? “Naum tow intndndu nd”, diria o adolescente num chat com aquela amiga que ficou com o namorado da outra e confessou o crime no fotoblog irado, sem ligar para vogais que só atrapalham o bom andamento da vida, dos ficares e dos quase-amores, cuja eternidade têm o mesmo sentido do permanente no cabelo de outrora. Melhor pegar a espada samurai encostada num canto do armário e praticar o kenjutsu com o travesseiro encharcado de lágrimas antes de tramar uma vingaçazinha tarantiniana, sempre com os pés descalços no chão, é claro.

Ah, os pés descalços de Juliana... agora num estábulo, deitada sobre o feno, personificação túrgida dos versos de Murilo Mendes – “Repousam formas nebulosas, na penumbra do quarto entre dois sonos” – que queima na tela azul de todas as televisões de todas as casas de todas as cidades. Pois, declaro e dou fé, e que todos saibam que as formas das pernas de Juliana não são humanas. Pertencem a estas deusas desenhadas pela ficção científica, que viajam nas costas de estranhos animais alados para terras exóticas onde os homens são meros escravos. Os músculos da perna se contraem quando ela caminha e descontraem-se quando se deita. É igual em gente feia e em gente bonita, mas nela é diferente. Provoca tremores, tira o fôlego e nos faz ter vontade de fazer dela nosso lugar de repouso. Ou parar de escrever e cantar baixinho e desafinado na fria orelha perfeita de Juliana: “E a paixão é loucura que passa como um terremoto, com o tempo acalma, mas onde você está, onde você está? O que eu sinto não é de mentira e agora tenho certeza - você é para toda a vida, para toda a vida, pra toda a vida...”. E que se ela risse de mim, do meu romantismo sem sentido, das minhas tentativas vãs de alcançá-la eu diria, teimoso ainda, que quem vive assim consagrando-se (no sentido de dedicar-se afetuosamente) e consagrando (no sentido de tornar sagrado) um sentimento que a gente acha que perdeu para sempre, vá me desculpar e nem me leve a mal, mas só pode ser a matéria-prima rara de que são feitos todos os sonhos mais belos.

050529

terça-feira, 1 de abril de 2008

ORQUÍDEA

Luciana morava perto da casa dele. Ele, quando saía para trabalhar de manhã, não podia deixar de perceber a moça que varria a frente da casa (estamos numa cidade do interior), vestida modestamente, atenta ao que fazia. Com o passar do tempo, tentou se aproximar, com sucesso. Conversavam todas as manhãs, ele desejando um bom dia, e ela sorrindo com timidez. Um dia, ele lhe trouxe uma orquídea, lindíssima, comprada no centro da cidade, numa floricultura cara. Mas ela merecia, pensou ele. Chamou-a do portão e lhe deu o presente. Ela, que nunca havia visto uma orquídea, ainda mais uma tão especialmente bela como aquela, se extasiou. Sorriu um sorriso diferente, sem tanta timidez, mas com uma certa confiança que o deixou desconcertado. Ela perguntou que flor era aquela.

_ É uma flor chamada Luciana..., disse, tímido.

Ela sorriu de novo o novo sorriso e entrou. Na manhã seguinte, estranhamente, não apareceu, nem nos outros dias. Resolveu chamá-la do portão, como fizera dias antes. Uma senhora apareceu meio desconfiada e perguntou o que ele queria. Não, ela não conhecia nenhuma Luciana. Morava , ali, havia mais de trinta anos, desde a morte do marido que ela conhecera quando ainda era muito jovem. Ela nunca mais esquecera daquele homem, tão cavalheiro, tão romântico, que havia lhe dado, no início do namoro, uma orquídea de beleza incomparável, que ela guardava entre as páginas de um livro.

020215