terça-feira, 1 de abril de 2008

BATMAN


É irresistível: vendo o Coringa desfilar em carro aberto em plena Gothan City distribuindo dinheiro para a população, nãocomo deixar de ver ali uma versão bobkaniana de Silvio Santos perguntando quem quer dinheiro? Dinheiro é muito bom! Você quer dinheiro? Apesar de toda a grana, gente, o Coringa, encarapitado num carro alegórico, jogando notas de cem dólares para a plebe ignara que o segue, como a um deus, é impagável! Convenhamos, aquele sorriso do Coringa de Jack Nicholson é a cara, o jeito e os dentes do Siiiiilvio!!!!

Este Batman de Tim Burton, além de inaugurar uma estética gótica-escrachada, é um filme injustiçado. É claro que os fãs reclamaram de Michael Keaton no papel de Bruce Wayne – afinal de contas, que é reclama mesmo e nada o satisfaz plenamente. Mas, meus amigos, podia ter sido pior: quem andou enchendo o saco dos produtores, na época, foi o meu, o seu, o nosso Adam West, com capa de gordura e tudo, querendo fazer novamente o morcegão, cuja paternidade reivindicava desde a série psicodélica dos anos 60. Santa ingenuidade.

Tim Burton queria mesmo um Batman sombrio, cenários propositalmente exagerados, cheios de sombras, tendo como contraponto a gaiatice colorida do Coringa e seus cabelos verdes, papel sob medida para Nicholson, um especialista em tipos estranhos, diga-se de passagem. Sua composição lembra o Joker de César Romero, o Coringa da TV, mas a história, desta vez, envereda pelas searas psicanalíticas e mistura vingança de Wayne, que teve os pais mortos pelo Coringa, e este querendo acertar as contas com o homem-morcego, que o jogara num tanque de ácido, colocando para sempre o sorriso perverso no seu rosto.

Por isso, pode-se fazer duas leituras bem distintas do filme. Na primeira, temos um Bruce Wayne solitário, recluso na sua mansão, fazendo pose de bom moço filantropo. Sendo um sujeito arredio, Wayne pode esconder do mundo sua identidade secreta de paladino da justiça sem que ninguém o questione, muito embora todo mundo saiba que ele é Batman, menos o povo de Gothan City. Mas o mesmo aconteceu com Clark Kent e ninguém desconfiava. O pior cego é mesmo aquele que não enxerga a identidade secreta do seu herói.

Para Wayne, basta combater o crime para mitigar sua fome de vingança. Sem Robin, conta com o auxílio luxuoso do seu mordomo Alfred (figura parental, arriscaria dizer?), que o obedece cegamente e, aparentemente, é o único empregado de uma mansão de duzentos quartos, o que me faz perguntar quem é o super herói de verdade nesta história.

Mesmo com todo o dinheiro que possui, Wayne passa longe do divã do psicanalista. Ter uma segunda personalidade, para ele, não é nada demais, mesmo que esta personalidade saia por de noite vestida num traje emborrachado e envergando uma capa de cetim. Afinal de contas, ele deve pensar, por que mexer neste pântano profundo de angústias e traumas. Melhor é deixar pra .

A segunda leitura é feita do ponto de vista do Coringa e seu jeito meio corcunda-de- notre-dame de ser, o patinho feio que é condenado a rir sardonicamente do seu próprio destino deformado, e que se em confronto com Batman, outro que não se dá conta que também é uma deformação quiróptero-humana, cujo sexual drive é alimentado pela vingança a qualquer custo. Ambos se escondem de si próprios nos extremos do eixo maniqueísta que preside o universo dos comics desde que eles passaram das paredes das cavernas primitivas para os hebdomadários de todo o mundo. Neste aspecto, o Coringa e Batman não apenas se assemelham, mas se complementam.

Mas , aparece a Vicki Vale (Kim Basinger, inteirona, no filme), uma repórter que quer porque quer entender as razões que levam Bruce Wayne a ter morceguinhos no sótão. É claro que todo o arcabouço de super-herói desaba diante da persistência da moça, também cobiçada pelo Coringa. Tem hora que o roteiro se perde um pouco e fica parecendo que os dois brigam por ela. Fazer o quê? Pelo visto, há muito pouca mulher disponível em Gothan City.

Wayne não resiste por muito tempo e logo a moça descobre sua identidade secreta e, se não é o Alfred, ela , ia dar um jeitinho na bat-caverna que, pelo menos no filme, não via vassouraséculos. Mas Alfred não deixa que tal ingerência se efetue e trata logo de botar a menina no seu lugar. Afinal de contas, antiguidade é posto, principalmente em Gothan City.

Mas voltemos ao nosso vilão favorito, o “Silvio Santos dos quadrinhos” – o Coringa! para o meio do filme, ele atrai Batman para uma cilada e a batalha final acontece no alto de uma catedral abandonada, das muitas que existem em Gothan. Há algo simbólico : é a primeira vez que um sinal religioso aparece no filme, mesmo assim de forma desoladora. A igreja está em ruínas e parece não ser freqüentada há muito tempo, como se a população tivesse, em algum momento, desistido da . Isso talvez explique a dimensão que Batman assume na comunidade, que, sutilmente, se reveste de características não religiosas: o traje preto, o ar soturno, a aversão ao convívio, os símbolos pagãos, a reivindicação de ser o salvador de uma sociedade, aparentemente, sem líderes espirituais. Há, inclusive, uma fala do Coringa, que aparece na versão em DVD, em que ele diz a Batman:“O que você quer, afinal? Nem Cristo agradou a todo mundo!”.

Claro que é forçar a barra querer dar uma interpretação transcendental-religiosa para Batman, pois ela nunca existiu na prancheta de Bob Kane. Batman surgiu assim como surgiu Super Homem e outros do mesmo jaez. Uma geração espontânea que veio suprir o mundo de fantasias de poder e superioridade do império ianque, numa era pré Bush. O que é diferente em Batman é que ele é um herói angustiado, o primeiro de uma série que se seguiu: Homem Aranha, X-Men, Hulk, etc, todos meio pirados em função da guerra fria e das neuroses do baby boom, mas guardiões de valores que reconhecemos até hoje nos mano da geração que cresceu diante da telefunken preto-e-branco, o maior tesouro dos sixties. Tutto buona gente e, apesar das neuras, vencedores e mais politicamente corretos, impossível. Ninguém questionava essa patota (palavra jurássica que descrevia as tribos da nossa pré-puberdade). Afinal de contas, de boas intenções, o inferno, Gothan City e Metropolis estavam cheias.

031107

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