quarta-feira, 16 de abril de 2008

JOE

Acabo de receber sua carta repleta de delicadezas e, prontamente, ponho-me a respondê-la. Ela me pega num final de tarde, entre provas e exercícios a preparar, e me faz indizivelmente feliz, como um meninoaquele que fui/fomos – há tanto tempo, num lugar perdido na memória.

Gostei do conceito da caixa que constróis. Acho que é isso mesmo: a gente guarda as nossas recordações em caixas, gavetas e potes que se abrem cada vez menos, e que deveriam ser mais revisitados. Precisamos deste tesouro, deste ouro que é a matéria de que fomos feitos. Aprendi que, antes de sair do esconderijo existencial, onde mantemos nossas caixas, temos que viver a solidão essencial do ser humano e ver que ela pode ser até boa quando nos deixa mais lúcidos. É ali, naquela solidão úmida de lágrimas, que aprendemos a ser merecedores do sofrimento. É, há de se merecer a dor, Joe, por mais paradoxal que isso pareça. O lugar-comum ainda vale: é dela que tiramos as melhores lições, as que realmente valem a pena. Eu que sempre lutei contra esta idéia, tenho que admitir – é assim mesmo. Rir é bom, mas não nos faz repensar os tantos fragmentos de vida que nos envolvem desde o primeiro click na fechadura que aparece no coração à medida que vamos crescendo e perdendo a inocência, achando que não fomos mesmo convidados para a grande festa.

Matemática se aprende. Até alemão se aprende, mas um sentimental nunca fica alheio ao outro. Mesmo que o outro seja, sartrianamente, seu imenso inferno. Sabemos bem disso, não é? Não tivemos medo quando o melhor seria a prudência e ninguém nos deu uma medalha por isso. Pelo contrário. Fomos execrados. Sofremos, nos autopunimos, achamos pouca a culpa que carregávamos nos braços, como um filho morto, em direção ao nada. Para quê? Não sei, jamais saberei e talvez por isso, atualmente, me ponha, dia após dia, como um Michelangelo sem arte e sem brilho, a desconstruir a estrutural tristeza de mármore que acabou por turvar a leveza que persigo. Afinal, temos o dom de entrar em contato com os astros e com os amplos silêncios que cingem os deuses, tal como fazem, sistematicamente, os monges profissionais. Porém nos quedamos em ambas as fímbrias, apegados à fragilidade do homem e solidários com sua capacidade de errar ao odiar o destino. Contudo, por mais que se mutile o ser, ele se recompõe, Joe. Quando julgamos que agoniza, na verdade está renascendo. Como se a valente determinação constituísse, em si mesma, uma cirurgia eficaz - o espelho quebrado se organiza na sua forma antiga, e nele o rosto se revela novamente na sua exatidão sem mácula.

Voltando à caixa: acho que a projetaria de outra forma. Ao invés de quadrada, fá-la-ia redonda, sem esquinas, pois é assim que penso que nossas lembranças fluem – líquidas, constantes, espraiando-se na parede côncava de um coração superestimado na sua capacidade vital de dar e tomar a vida, de viver e morrer, por amor. É um comentário, Joe, que faço reconhecendo minhas grandes limitações na seara artística da qual você é mestre (Joe, Joe! Você é Mestre, Joe!!!!!).

Em relação ao natimorto Clube dos Fracassados, do qual eu seria membro notável, só posso dizer que discordo quando falas que há pessoas bem sucedidas mais dedicadas e envolvidas do que você. Você é uma das pessoas mais devotadas à sua arte que conheço e essa admiração por você é longa e sólida (oops!) como o amor que nos une. Gostaria de ser tão abnegado como você em relação à minha vida, aos meus projetos. Sou, sempre fui e sempre serei um modesto aprendiz de Joe e sua integridade como ser humano e sua dimensão como artista verdadeiro que conheço desde os verdes anos.

Joe, não acho que você tenha perdido o fio da meada. Pelo contrário, sinto, na distância, que você está se encontrando cada vez mais. Está mais em contato com você mesmo, com o joe que sobrevive apesar do brutal efeito deletério dos jat-lags sentimentais que se abateram sobre sua nobre cabeça. Acho-o mais aprumado em direção à felicidade que tanto mereces. Não mais um navio adernando. Não mais um avião em vôo cego. Mas sim um homem completo, em suas dores, sofrimentos, alegrias e conquistas.

Espero que possamos voltar a caminhar peripateticamente pelas trilhas do alto das Braunes, como fazíamos tempos atrás. Também sinto falta disso. Talvez, lá do alto, possamos vislumbrar um raio de felicidade entre as luzes difusas do pôr-do-sol que tanto conhecemos e aprendemos a amar com os olhos da infância.

Claro que faço a revisão do texto do projeto da exposição em Londres. Espero poder ser útil de alguma forma. Não conheço ninguém que possa fazer em espanhol, mas vou tentar descobrir.

Estou enviando dois textos. O primeiro foi feito para uma linda mulher que trabalha numa loja de celulares. O segundo é parte das minhas observações sobre o mundo, a vida, e a saudade inelutável de uma pessoa que, ao entrar na minha história, me fez perceber que, até então, eu não havia vivido uma vida de verdade.

Beijo grande e saudades horríveis também.

050505

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