terça-feira, 1 de abril de 2008

MEL

É claro que os olhos azuis de Mel Lisboa, na capa da Playboy deste mês que está sobre a minha mesa, desviam, vez por outra, minha atenção dos afazeres profissionais e me fazem perder um tempo na batida discussão sobre os olhares femininos, alguns sibilinos, outros de través, capituzados mesmo, e os que nos atingem como um soco, um direto do Tyson dos velhos tempos. E, caso me lançasse nesta tentativa de catalogar estes raios, perderia um pouco mais de uma vida inteira para separá-los didaticamente. E, no fim, descobriria que “há porque há” mistérios indecifráveis. Não adianta. É como se cada mulher tivesse este modo assim peculiar de ver o mundo e seus homens, suas coisas. Quando se acha que se tem a explicação precisa, aparece uma dona de olhar completamente inesperado, uma luz diferente entre tantas luzes que nos guiam. Afinal, pensei – e não fui o únicoque não havia algo mais definitivo do que o olhar oblíquo de Capitu, um olhar tão universal que supus redescobrir em tantos olhares femininos que observei durante a vida. Há-o, sem dúvida.

Se há tanta coisa inesperada como, por exemplo, a descoberta, segundo alguns cientistas num artigo do American Journal of Physiology, de que os ritmos peculiares da poesia grega podem ajudar na sincronização de certos padrões cardiorrespiratórios - utilidade inusitada da literatura clássica - porque não esperar um novo matiz nos olhos seus? É, mas sem a pieguice da rima fácil que desmancha na boca, ou do molho agridoce do samba-canção de outrora que adultera o gosto simples do olhar e ser olhado. Que se desenvolva um novo Plano Marshall para auxiliar o olhar que empobreceu depois da guerra para conquistar o território cardíaco da moça que não quis, não pôde, não deu.

Olha, você tem todas as coisas que um dia sonhei para mim, mas cansa ficar esperando aquele estranho dia que nunca chega e que demora ainda mais porque está frio e você mal pode respirar. Você resfriada é como Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível, um Sinatra sem voz que pior. Sim, porque por muito menos, o Jerry-Lee Lewis botava fogo no teclado do seu piano, produzindo great balls of fire. Não dá, não dá. Fique boa logo, porque seu belo nariz entupidinho por causa deste frio chato é como Garrincha sem o drible pela direita, Niemeyer proibido de traçar curvas que pior. Sou eu assim perdido, mais do que de costume, sem farol-guia, no mar das procelas sentimentais. É fazer TPM parecer pinto diante de tamanha angústia a atabalhoamento nervoso. Mas tento um norte seguro alinhando estas palavras que a distância e a modéstia me impedem de dizer na sua orelha fria que eu que podia, meu bem, escrever coisas assim: segredos nossos que apenas você há de entender porque os pendurou no armário da memória, entre sachês de naftalina, deixando os outros com a sensação que estão lendo algo muito pessoal, intransferível, involuntariamente xeretando coisas alheias e sentimentais. E estão mesmo.

Mas comecei falando do olhar feminino que bate e queima na pele e nãomais para segurar. Da primeira vez que vi você, era um conjunto harmonioso de cores. Era uma definição perfeita, o arco-íris, mas nunca o disse. Diante de sua presença matissada, calei-me, sempre em pasmo respeito. Não queria, assim, como diz a rapaziada, levar um perdido, esta expressão nova no grande baile do lugar-comum. Fiquei na minha que, mais do que a segurança de uma expressão conhecida, também me dava a mesma sensação de respeito que o alpinista deve ter diante da montanha impossível. Não, não ia dar esse mole, expressão que me aproxima perigosamente dos anos 80, e dizer para mim mesmo: Bicho, o que é a natureza! Uma declaração assim denuncia fácil a década da qual você veio, sem ser salvo pelo gongo que tantas vezes livrou a cara de Ted Boy Marino no Telecatch da Tupy. No entanto, você estava , sorrindo com seu sorriso Kolynos com hexaclorofeno, e eu batendo a cara contra seu escudo invisível. Mas estamos em plena Olimpíada e eu quero mais é correr os cem metros e vencer qualquer brother parrudão americano, para subir ao pódio e, de cima, ocupar um milésimo de segundo na sua pupila negra na hora de receber a medalha e ouvir o hino. Ora, se é mais difícil esconder os sentimentos que se tem do que fingir os que não se tem, porque não posso sonhar com a glória de ser docemente olhado por você com certo interesse e, diria, até com alguma concupiscência, pois é assim mesmo que você faz quando passa e olha sem piedade, sem piscar, sem medo, disparando mais de oitentas balaços por segundo, AR-15 óptica sem trava, dando um novo sentido ao verbo azarar, igualzinho como naquela música do Djavan.

Pode ser questão de gosto, mas esta tendência contemporânea de classificar tudo com um slogan de rápida digestão intelectual, o fast food lingüístico no balcão da lanchonete da esquina, me embrulha o estômago e me faz desacreditar, juntamente com Joe, na existência de um deus benevolente, mas: Você é show! Você é demais! Você é dez! Pronto, disse, passou e voltei para os primeiros anos do milênio, este mesmo que começou com o esfarelamento das torres gêmeas, a instituição de uma nova ordem mundial e um completo e injustificável desprezo pelas cartas de amor, que estão sempre além do nosso controle, como dizia Valmont em Les Liaisons Dangereuses, naquele livrinho chinfrim de Pierre Chorderlos de Laclos, mas que deu um filme legal. As cartas funcionam ainda. É assim em Nova York, no Brooklin. É assim em Amman, na Jordânia. Numa cidadezinha perdida no sertão. Numa rua calma em Petrópolis. Depois do fim do mundo. Todos querem saber, por escrito, que alguém se importa, que alguém ainda quer, apesar de tudo, por causa de tudo. A palavra faz parte da nossa essência: com ela nos acercamos do outro, nos entregamos ou nos negamos, possibilitando uma ponte ou um abismo, dizendo um bem-vindo inesperado ou um adeus que nunca há de sarar. É ela, a palavra, que extingue as dores das saudades, reaproxima os que nunca deviam ter se afastado e é capaz de, com seu mágico poder, impedir a trajetória de uma pessoa querida rumo ao nada.

No último minuto olímpico, mais vale pegar o rebote no garrafão e te olhar na arquibancada, dar uma braçada a mais nos 500 metros que me separam de seus braços, pular os obstáculos e seguir na sua pista, aplicar um ippon inesperado no derradeiro momento, dar um duplo mortal para, enfim, viver duplamente, com você, sem paralelas, sobre o cavalo, no solo, para sempre. Entre danças, ventres, James & drinks, com todas as roupas pretas e saltos altos. Isso porque essa luz dos olhos seus está, agora, longe, o que não quer dizer que não exista em mim e, mesmo com estes tênues laivos de tristeza, esse olhar é uma das coisas mais bonitas, mais delicadas, mais doces, mais maravilhosas que me aconteceram na vida...


040305


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