
É
claro que os
olhos azuis de
Mel Lisboa, na
capa da
Playboy deste
mês que está
sobre a
minha mesa, desviam,
vez por outra,
minha atenção dos
afazeres profissionais e
me fazem
perder um tempo na
já batida discussão sobre os
olhares femininos,
alguns sibilinos,
outros de través,
capituzados mesmo, e os
que nos atingem
como um soco,
um direto do Tyson dos
velhos tempos. E,
caso me lançasse nesta
tentativa de
catalogar estes raios, perderia
um pouco mais de uma
vida inteira para separá-los didaticamente. E, no
fim, descobriria
que “há
porque há”
mistérios indecifráveis.
Não adianta. É
como se
cada mulher tivesse
este modo assim peculiar de
ver o
mundo e
seus homens,
suas coisas.
Quando se
acha que se tem a
explicação precisa,
aí aparece uma
dona de
olhar completamente inesperado, uma
luz diferente entre tantas
luzes que nos guiam.
Afinal,
já pensei – e
não fui o
único –
que não havia
algo mais definitivo do
que o
olhar oblíquo de Capitu,
um olhar tão universal que supus
redescobrir em tantos olhares femininos que observei
durante a
vida. Há-o,
sem dúvida.
Se há tanta coisa inesperada como, por exemplo, a descoberta, segundo alguns cientistas num artigo do American Journal of Physiology, de que os ritmos peculiares da poesia grega podem ajudar na sincronização de certos padrões cardiorrespiratórios - utilidade inusitada da literatura clássica - porque não esperar um novo matiz nos olhos seus? É, mas sem a pieguice da rima fácil que desmancha na boca, ou do molho agridoce do samba-canção de outrora que adultera o gosto simples do olhar e ser olhado. Que se desenvolva um novo Plano Marshall para auxiliar o olhar que empobreceu depois da guerra para conquistar o território cardíaco da moça que não quis, não pôde, não deu.
Olha, você tem todas as coisas que um dia sonhei para mim, mas cansa ficar esperando aquele estranho dia que nunca chega e que demora ainda mais porque está frio e você mal pode respirar. Você resfriada é como Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível, um Sinatra sem voz – só que pior. Sim, porque por muito menos, o Jerry-Lee Lewis já botava fogo no teclado do seu piano, produzindo great balls of fire. Não dá, não dá. Fique boa logo, porque seu belo nariz entupidinho por causa deste frio chato é como Garrincha sem o drible pela direita, Niemeyer proibido de traçar curvas – só que pior. Sou eu assim perdido, mais do que de costume, sem farol-guia, no mar das procelas sentimentais. É fazer TPM parecer pinto diante de tamanha angústia a atabalhoamento nervoso. Mas tento um norte seguro alinhando estas palavras que a distância e a modéstia me impedem de dizer na sua orelha fria que só eu que podia, meu bem, escrever coisas assim: segredos nossos que apenas você há de entender porque os pendurou no armário da memória, entre sachês de naftalina, deixando os outros com a sensação que estão lendo algo muito pessoal, intransferível, involuntariamente xeretando coisas alheias e sentimentais. E estão mesmo.
Mas comecei falando do olhar feminino que bate e queima na pele e não dá mais para segurar. Da primeira vez que vi você, era um conjunto harmonioso de cores. Era uma definição perfeita, o arco-íris, mas nunca o disse. Diante de sua presença matissada, calei-me, sempre em pasmo respeito. Não queria, assim, como diz a rapaziada, levar um perdido, esta expressão nova no grande baile do lugar-comum. Fiquei na minha que, mais do que a segurança de uma expressão conhecida, também me dava a mesma sensação de respeito que o alpinista deve ter diante da montanha impossível. Não, não ia dar esse mole, expressão que já me aproxima perigosamente dos anos 80, e dizer para mim mesmo: Bicho, o que é a natureza! Uma declaração assim denuncia fácil a década da qual você veio, sem ser salvo pelo gongo que tantas vezes livrou a cara de Ted Boy Marino no Telecatch da Tupy. No entanto, você estava lá, sorrindo com seu sorriso Kolynos com hexaclorofeno, e eu batendo a cara contra seu escudo invisível. Mas estamos em plena Olimpíada e eu quero mais é correr os cem metros e vencer qualquer brother parrudão americano, só para subir ao pódio e, lá de cima, ocupar um milésimo de segundo na sua pupila negra na hora de receber a medalha e ouvir o hino. Ora, se é mais difícil esconder os sentimentos que se tem do que fingir os que não se tem, porque não posso sonhar com a glória de ser docemente olhado por você com certo interesse e, diria, até com alguma concupiscência, pois é assim mesmo que você faz quando passa e olha sem piedade, sem piscar, sem medo, disparando mais de oitentas balaços por segundo, AR-15 óptica sem trava, dando um novo sentido ao verbo azarar, igualzinho como naquela música do Djavan.
Pode ser questão de gosto, mas esta tendência contemporânea de classificar tudo com um slogan de rápida digestão intelectual, o fast food lingüístico no balcão da lanchonete da esquina, me embrulha o estômago e me faz desacreditar, juntamente com Joe, na existência de um deus benevolente, mas vá lá: Você é show! Você é demais! Você é dez! Pronto, já disse, já passou e já voltei para os primeiros anos do milênio, este mesmo que começou com o esfarelamento das torres gêmeas, a instituição de uma nova ordem mundial e um completo e injustificável desprezo pelas cartas de amor, que estão sempre além do nosso controle, como dizia Valmont em Les Liaisons Dangereuses, naquele livrinho chinfrim de Pierre Chorderlos de Laclos, mas que deu um filme legal. As cartas funcionam ainda. É assim em Nova York, no Brooklin. É assim em Amman, na Jordânia. Numa cidadezinha perdida no sertão. Numa rua calma em Petrópolis. Depois do fim do mundo. Todos querem saber, por escrito, que alguém se importa, que alguém ainda quer, apesar de tudo, por causa de tudo. A palavra faz parte da nossa essência: com ela nos acercamos do outro, nos entregamos ou nos negamos, possibilitando uma ponte ou um abismo, dizendo um bem-vindo inesperado ou um adeus que nunca há de sarar. É ela, a palavra, que extingue as dores das saudades, reaproxima os que nunca deviam ter se afastado e é capaz de, com seu mágico poder, impedir a trajetória de uma pessoa querida rumo ao nada.
No último minuto olímpico, mais vale pegar o rebote no garrafão e te olhar na arquibancada, dar uma braçada a mais nos 500 metros que me separam de seus braços, pular os obstáculos e seguir na sua pista, aplicar um ippon inesperado no derradeiro momento, dar um duplo mortal para, enfim, viver duplamente, com você, sem paralelas, sobre o cavalo, no solo, para sempre. Entre danças, ventres, James & drinks, com todas as roupas pretas e saltos altos. Isso porque essa luz dos olhos seus está, agora, longe, o que não quer dizer que não exista em mim e, mesmo com estes tênues laivos de tristeza, esse olhar é uma das coisas mais bonitas, mais delicadas, mais doces, mais maravilhosas que já me aconteceram na vida...
040305
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