Eu tenho uma amiga que me
ligou hoje cedinho para me dizer que passou o Natal assistindo à Maratona The
Big Bang Theory, na Warner. Disse que não poderia haver grupo melhor para
passar as festas do que o composto por Leonard, Sheldon, Howard e Raj. Eles,
pelo menos, não me abandonam nunca, acrescentou com certo sarcasmo que, claro,
Sheldon teria dificuldade para entender. Eu, melhor que ninguém, entendi e assim lho
disse, sem ser sarcástico, mas com inevitável melancolia. Ela ficou mais de trinta horas
diante da TV, sozinha, sem se preocupar que em outros lugares festas aconteciam entre
risos, champanhes e excesso de comida e gente gordurosa. Melhor ficar com os nerds. Falou,
com a voz calma, meio sonolenta que, enquanto estivesse entre estes amigos,
deixaria de tentar entender como as pessoas tiram tão facilmente as outras da tomada e as
desligam para sempre das suas vidas. Havia terminado o ano assim, unpplugged,
meio descrente dos sentimentos amoráveis, meio sem querer arriscar de novo,
meio medrosa, admitiu. Preferiu ficar torcendo para que Leonard e Penny
reatassem de vez, para que as esperanças fossem restabelecidas nos devidos
parâmetros de sua vida e que ela pudesse estender seus sonhos para além de dois
homens e meio. Claro que cada episódio a remetia a compartimentos perigosos da
memória, mas ela queria estar acima disso, das reminiscências e, por vezes,
conseguia. Nem por isso este estendal de recordações a incomodava menos. Sim,
pois The Big Bang, assim como tantas outras coisas importantes, lhe havia sido
depositado na vida por uma mão delicada e sensível que não mais havia sentido em sua
rotina existencial. Eu a ouvia falar dos meninos como se fossem parte de sua família, e eu
achei bonito e puro de ver alguém se relacionando assim com pessoas (ou
personagens?) que ela nem conhecia pessoalmente e que foram escolhidos para
passar o Natal com ela, por ela, juntos, como família. Claro, havia ali uma mistura sutil de
saudade e de dor ácida que lhe corroía a aparentemente frágil existência. Se
The Big Bang a ajudava a construir novos potes afetivos, ao invés de ficar admirando os cacos,
que fosse assim. Se nem Sheldon é capaz de entender as intricadas engrenagens
do comportamento humano, eu é que nem ia tentar achar qualquer outra explicação coerente. Não
é fácil lidar com os sentimentos, sem transformá-los em pesadas placas de
prensa e reduzi-los à máscara lamentável dos clichês, eu retruquei, sem querer
ser inconvenientemente acadêmico. Sentimentos têm, quase sempre, uma aparência frágil: brotam
espontaneamente, às golfadas, e escorrem molhados pelos olhos. Difícil é
enfrentá-los a seco. Mais difícil ainda é observá-los como travas que, em vez
de expressar, bloqueiam a experiência. A Literatura ajuda muito neste processo.
Mas quando ela não se apresenta como ferramenta principal, as séries de TV
também se prestam ao escoamento da certeza de que pode não haver nem nunca ter havido um big
bang na gênese do mundo dos sentimento e tudo tenha sempre sido metamorfoses de metamorfoses, a ilusão necessária dos
começos, a transformação esfuziante dos quereres, e que não podemos nada além
desta constatação, como um personagem pintado em um quadro que,
doriangraymente, não se pode olhar. Minha amiga, assim como Penny, não entendeu nada, mas estava
feliz da vida com seu Natal na Warner.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
MINHAS AMIGAS - 8
Eu tenho uma amiga que ficou
um pouco desconcertada com o fim do mundo que não veio no dia 21 e tentou não
deixar que ninguém percebesse tal decepção repetindo que não acreditaria nunca
em crendices apocalípticas ou coisas do gênero. Na verdade, eu sei – porque a
conheço a fundo – que ela não queria mesmo era passar as festas de final de ano com
a cabeça em outro lugar, pensando coisas que nem às paredes confessaria.
Ecoando em suas paredes internas, havia um desejo sem objeto, uma vontade de
desejar e o temor de querer que a torturavam. Como ela é chegada a uma onda retrô,
eu poderia descrever-lhe a dor imprecisa como um disco falhado que repete
infinitamente uma frase musical, que de bela se torna odiosa pela simples e
inexplicável repetição. Dez, cem vezes, as mesmas notas se sucedem, se
entrelaçam, se confundem, e delas fica um som único, obsedante, terrível,
implacável. Sente-se que um minuto só dessa obsessão será a loucura, mas o
minuto passa, a obsessão continua e a loucura não vem. Em vez disso, a lucidez
redobra, multiplica-se. Abandoná-la, quebrando o som, esmagá-lo sob o silêncio,
seria a tranquilidade e a paz que não se compram em farmácias. Mas as palavras,
as frases, os gestos erguem-se embaixo do silêncio e giram silenciosamente sem
fim. No suposto fatídico dia 21, minha amiga, vendo mesmo que nada de mais ia
acontecer com o mundo, foi às compras, fez as unhas, calibrou o corte do cabelo
castanho e resolveu ocupar os compartimentos da memória não com o que havia
passado, mas com o que ainda haveria de acontecer, conforme me disse entre um e
outro gole de água mineral. Aí, então, eu lhe disse que ela estava se transformando
para mim numa personificação da Literatura, pois o seu coração parecia estar
sempre em outro lugar. Na zona de silêncio que a constitui e sustenta, a
Literatura tem um centro vazio. É como uma rosca de alguma padaria fashion, um
donuts semântico, cujas bordas saboreamos. A minha amiga me olhava com um jeito
doce, sem dizer nada. A Literatura em mim se alimentava desse silêncio. Ou
melhor: ela era a face visível deste silêncio. Se ela, linda e radiante, tinha
desejado que o fim do mundo realmente acontecesse, tudo era possível. Todos
carregamos um ruído incompreensível no peito. Não chegamos a ouvi-lo e nem
temos certeza de onde exatamente ele vem. Muitas vezes, não passa de um
murmúrio. Talvez seja o vestígio do silêncio, de que a Literatura se alimenta e
que agora fazia minha amiga se integrar na minha vida, inevitavelmente.
sábado, 22 de dezembro de 2012
MINHAS AMIGAS - 7
Eu tenho uma amiga que acha
que pode vivenciar uma paz fabricada.Para tal, toma alguns cuidados, além dos
que já tem com a pele e os cabelos: não assiste mais a qualquer episódio de
Friends, emoldura o espelho do banheiro com notas adesivas que a lembram que
ela é maravilhosa e não tem por que sofrer, evita um nome próprio bem comum e
qualquer outro que lhe possa remeter a ele, não passa em algumas ruas e se
esforça (como confessou) para esquecer certas pessoas, certas atitudes, alguns
dias do calendário de sua vida. Ela me disse que pode, sim, construir esta paz
tão sonhada à sua volta, até mesmo dentro dela, por uma simples razão de
sobrevivência emocional. Ou constrói este bunker de tranquilidade ou a vida se
complica de vez. Simples assim. Perguntei-lhe se uma paz assim não seria o
resultado de um esquecimento que só viria com o tempo. Ela riu e olhou para
cima (faz parte do processo) e respondeu que, claro, não sabia se viria a
esquecer o que devia. Ninguém sabe se esquece antes de esquecer. Se fosse
possível sabê-lo antes, muitas coisas de solução difícil a teriam fácil.
Cutuquei a onça com vara curta: e se ela não conseguisse fabricar esta paz
perfeita, sem prazo de validade e seguro contra roubo? Percebi que minha amiga
se alterou: suas mãos se moveram, com algum nervosismo, em direção à bolsa,
onde guardava coisas. A meio do movimento, porém, retraíram-se, perderam-se –
como se esqueceram do que iam fazer. E não só as mãos denunciavam perplexidade.
Com meus olhos tristes, vi perfeitamente a imagem do rosto de alguém que chegou
a uma encruzilhada onde não há indicações ou onde os letreiros estão escritos
numa língua desconhecida. Ao redor, o deserto, ninguém que lhe dissesse “por
aqui...”. Minha amiga certamente tinha medo de não atingir a paz que
idealizara, pois dela dependem o amor e o desamor. Ambos apostam num roteiro de
premissas analíticas. Ambos têm frases calcadas numa relação de causa e efeito.
Ambos sugerem que o esquecimento é uma equação de improbabilidades, na qual o
valor de X a ser descoberto é a possibilidade de um final feliz para uma
história nem tanto. Esta minha amiga, na realidade, não tem motivo para se
preocupar. Terá a sua paz desejada, em breve, muito breve, pois transita
íntima entre as deusas gregas e em qualquer concurso apaixonado, terá dez no
decote, dez no contorno dos quadris e dez sobre os atrativos físicos e intelectuais
de uma das mais belas e perspicazes fêmeas da cidade. quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
MINHAS AMIGAS - 6
Eu tenho uma amiga que faz
aniversário no dia 19 de dezembro. No entanto, o tempo, para ela, está sempre à
frente, nunca no mesmo dia em que ela está, tornando-a quase impossível de
tocar e só quase possível de ver, como as estrelas, mesmo aquelas que já morreram há
bilhões de anos, mas que ainda mantêm o brilho que nos engana e encanta viajando através
do universo tão longo quanto este período que acabei de escrever. Esta minha
amiga é um enigma. Faz-se presente na mais completa ausência e agudamente
ausente na mais onipresente presença. Dentro da sua órbita magnética, ri muito,
toma os melhores vinhos, aglutina as pessoas, mas também poderia fazer parte do
grupo de Elliot Ness, Os Intocáveis. É sofisticadamente simples e, no confronto
com o sexo masculino, vez por outra, solta uma daquelas frases habilmente
orquestradas para demolir a vaidade de um homem: “Para de me mandar estes
torpedos eróticos, hein?”, logo na lata, cobra semântica que sufoca antes da
mordida real. Para quem a escreve/descreve, o que pensa a dor de não tê-la, nesta busca de contato
com este outro mundo, com esta outra história onde ninguém entra sem licença da dona, esta minha
amiga se apresenta com um álibi (literalmente, em Latim, “estar em outro lugar”)
existencial, que pode ser lido deste modo: “Eu não sou aquela que é
atualmente...”. Usuária de interjeições, aqueles blocos femininos que vêm com
entonação especial e fazem a mulher também rebolar também na língua, ela
apresenta um discurso lógico e, ao mesmo tempo, contraditório, deixando o
interlocutor – geralmente eu – tendo que apelar para os neurônios no banco de
reserva e dar novos tratos à bola. Sim, pois tudo é um jogo, ou se parece como
tal, mas com regras que só ela sabe e que só confessou a quem desconfiava o que
se lhe passava no coração. Faz-nos ver, delicadamente, esta minha amiga, que
amar uma leoa é não poder amá-la – é aceitar o gozo da distância. Gosta de
sentar-se no sofá, cruzar as longas pernas, intercalar vinho tinto com goles d’água,
falar de cinema, de livros e ouvir quieta enquanto ouve um poema de Vinicius e faz planos para ver a árvore de Natal da Lagoa. No fim
da noite, costuma deixar claro que já não há mais lugar para as grandes
ilusões, mas ainda existe um espaço para os pequenos sonhos, que talvez sejam
muito mais devastadores e, por isso mesmo, devam ser manipulados com extremo
cuidado, como quem lida com orquídeas. Esta minha amiga sabe o poder que tem e
também sabe estabelecer limites no território do seu corpo e na vastidão de sua
alma. Seus blindados a protegem, seu radar a avisa, seus agentes secretos a
previnem de qualquer plano de penetrá-la – a segurança total é uma quimera
feminina constituinte de uma boa dose de experiência e desconfiança. É imperativo,
portanto, resguardar as partes boas, prezando o prazer da vida e a posse das
rédeas da mesma, embora sem deixar de observar, nas eventuais fraturas desta
grande muralha existencial, os riscos de um grande amor acontecer.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
MINHAS AMIGAS - 5
Eu tenho uma amiga que me
disse quase chorando que esteve muito doente este ano e que a doença tinha
nome, sobrenome, CPF, RG e endereço certo e consabido. Ela disse que sofreu,
pois não sabia se havia remédio que a curasse nem esperança que a aliviasse da
dor de achar que tudo aquilo não ia mais acabar. Essa minha amiga é muito
bonita. Tirou as sandálias como se fosse a coisa mais natural do mundo e destampou
o garrafão da narrativa. Olhei-a, à medida que escandia as sílabas. Feição por
feição, a análise concluiria por aquele tipo de fisionomia que está tão perto
da beleza como da felicidade. Uma coisa. Ela chorava um pouco e, neste momento,
não a prejudicava estar pintada. Tinha o rosto luzidio, típico das pessoas que
sofreram silentemente, um olhar que mirou batalhas que ela não tinha que lutar.
Mas de toda ela se desprendia uma sedução absorvente que se misturava ao
castanho-escuro dos olhos, os cabelos pretos, presos, num coque, por uma caneta
(ela nunca saberá como eu achava isso lindo...). O rosto tinha, em momentos de
cansaço, uma dureza que não combinava com ela, especialmente ao redor da boca e
no contorno dos olhos, mas que ela sabia, com uma ligeira transformação,
torná-lo acariciante e sedutor. Segurei-a com os braços esticados, afastando-a
um pouco – minha amiga pertencia ao tipo de mulheres que atraem pelas formas do
corpo e, da cabeça aos pés, irradiava sensualidade. Era bastante hábil para
provocar em si própria um frêmito que deixava-nos, nós, os homens, sem
raciocínio, impossibilitados de nos defender daquilo que supúnhamos ser
natural, daquela onda dissimulada em que nos afogávamos, julgando-a verdadeira.
Minha amiga sabia. Tudo eram cartas de seu jogo – e seu corpo, trêmulo e
arfante, delgado como um junco e vibrante como uma vara de aço, o seu maior
trunfo, juntamente com a inteligência rápida, meio desconcertante. Mas havia
ainda o vestígio da dor imensa que 2012 lhe proporcionou em doses generosas e,
convenhamos, injustas. A doença que não ousava dizer seu nome a castigou a
ponto de perder as referências mais caras, as inesquecíveis. Deixou-a sozinha,
descrente, perdida. Não raro, sentia o coração como um sorvete de sangue amargo
derretendo-se dentro de si mesma, enquanto, para o mundo exterior, se via
obrigada a espargir palavras doces, que chegavam a provocar filetes de mel
que se lhe escorriam pela boca perfeita. Minha amiga tomou todos os remédios
disponíveis para debelar a doença que tinha nome e sobrenome que lhe consumia
os dias e, principalmente, as noites, quando os fantasmas se redimensionam e os
medos nos engolem com suas bocarras banguelas. Mesmo assim, essa minha amiga me
contou tudinho, todos esses detalhes tão pequenos que são coisas muito grandes
de esquecer, enquanto contemplava, sorrindo sutilmente, os pés descalços (e
perfeitos), assentes no tapete.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
MINHAS AMIGAS - 4
Eu tenho uma amiga que me
disse querer ter uma máquina de apagar memórias de amor (e também memórias de
toda natureza), sem saber que ela já está instalada na mente de cada um de nós,
e que somos senhores de seu funcionamento, seja num âmbito racional, seja por
forças das maquinações do inconsciente sob o abalo das emoções. Essa minha
amiga ainda não sabe que, durante a vida, há momentos que decidimos, mais ou
menos lucidamente, esquecer o outro. Ela ainda não sabe, mas o trabalho mais
efetivo é o que se faz a partir da decisão de expulsar, na forma de sublimação,
aquilo que de mais doloroso existe numa relação, e também o que há de mais
belo, até o ponto de se matar a existência do amado algoz que, ao fim do
processo (quando se consegue encontrar um fim), torna-se uma não pessoa. Ela
virá a saber, em breve, muito breve, que os sonhos simplesmente acabam por
falta de verba ou cacife emocional, que os momentos de profunda emoção sofrem
erosão progressiva; um rosto que foge, transfigura-se, derrete-se como cera; um
corpo que foge do alcance, que escorrega por rochas e é limado do cardápio
afetivo, que corre através de labirintos ora alcançáveis, ora diabólicos, num
jogo intermitente que nos faz acordar com o peito pesado de angústia e de medo
de esvaziar-se o próprio alimento da alma. Até que um dia, acorda-se com uma
estranha paz, uma paz de anestesia, que acusa a existência da ferida, sem que
se saiba a sua localização. Como uma pontada numa cicatriz que não mais existe. A ferida, contudo, jamais cessa por completo, o que
nos expõe (ela deve ser informada disso também) ao assalto da materialização
espectro-quântica em pleno dia ou, pior, no meio da noite, dos fantasmas
afetivos de seu passado. Isto é um alerta para o maior dos riscos: o de
replicarmos, involuntariamente, o amor que demonizamos e exorcizamos, para o
recebermos de volta vertido em monstro, reconfigurando todo o drama que se
acreditou sepultado em algum lugar dentro de nós mesmos. Assim, há o risco de
ampliar-se o drama, repetido indefinidamente como eco polifônico de culpas e
humilhações, num teatro que sabe à eternidade. Essa minha amiga que agora sofre
há de se dar conta que, se por um lado somos senhores do processo de perda da
memória, ou das distorções que tornam o passado mais ou menos doloroso, por
outro, não somos senhores de nada, pois a memória acaba voltando na
arrebentação do mar da saudade, mas sob a forma liliputiana de uma pequena vaga
ecoando a dor outrora vivida. Ela, que gosta de dormir com uma camisola de
seda, sentirá na pele a maciez do tecido como também as travas perfurocortantes
do mistério que não explica como iniciamos o apagamento que sublima uma dor, ao
mesmo tempo que nos transformamos em mestres de seu retorno, os senhores do
solitário masoquismo que termina por nos isolar da realidade para nos lançar
nas profundezas do real indizível, do horripilante fosso vazio da existência,
ali onde nada se explica e tudo faz sentido, no esforço sobre-humano de
entender que a dor pode terminar se, paradoxalmente, celebrarmos o alívio de
nos vermos livres de um amor que também nos maltratou injustamente.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
MINHAS AMIGAS - 3
Eu tenho uma amiga que vive
brincando de esconder comigo e que sempre que chega o final de ano, me pede
para escrever uma coisinha para ela poder usar na véspera de Natal, entre o
peru com farofa, vinhos e rabanadas. Eu nunca faço, mas resolvi tentar alguma
coisa que aplaque este espírito inquieto e cravar a pergunta certa que me ajudará
a chegar a seus pés e curar as chagas de tantas buscas vãs. Onde se escondeu
tamanha especiaria do gênero feminino? Em que edição de antologia poética se
aninhou esta mulher que a todas as outras tornaria desnecessárias, pois traria
em si não o pó, mas o pé compacto da felicidade e o esmalte com o brilho e a cor certos para
o homem se mesmerizar, sinalizando casa ocupada, cama arrumada, felicidade
conjugada em todos os verbos terminados em ar, er, ir e or? O que a torna
merecedora de tamanha glória, se caminha com as mesmas duas pernas como todas as
outras mulheres, se trabalha inspirando e expirando o mesmo ar com o mesmo
conjunto trivial de brônquios e pulmões? Onde está aquela mulher que se
anunciou simplesmente a tal, mas não apareceu no momento em que era mais
precisa e essencial? Será ela a fulana com sorriso 24 horas e toda compreensão
para as fraquezas masculinas, aquela com a pulsação perfeita dos desejos
propulsores da máquina da felicidade dos homens? Investigo, com olho clínico,
aquela que se queda sobre uma bancada de livraria, as mãos céleres percorrendo
páginas de thrillers policiais e de suspense, certo que ela um dia pressentirá
o esforço e, generosa que é e com pena de minhas extensas e consabidas limitações sobre o
entendimento da alma com saias e salto alto, sinalizará – ei, aqui, sou eu – na
direção deste que expôs em público a esperança de realizar o encontro com que
todos sonham, mas que poucos admitem. Ela chegará com as festas de fim de ano,
embrulhada no mais brilhante papel de presente e sem a notinha para trocar em
no máximo 15 dias? Travestiu-se de anjo? Virou uma cor? Fez-se invisível em
meio a algum fim de tarde e, atrás do meu coração, se escondeu para nunca mais?
Em que pergunta ela se fará afirmativa e presente? Não sou o único a procurá-la
– outros olhos masculinos a perseguem sem, no entanto, entendê-la na sua
infinita complexidade que, ao mesmo tempo, fascina e assusta. Como encontrá-la,
em meio a tantas que flanam pelas ruas, olhando vitrines, experimentando
sapatos, tomando café no Grão? Paga-se bem, na moeda em que uma bênção dessas
estabelecer como a justa. Apesar de tudo, creio na sua existência – onde se pôs
esta que querem me convencer como uma impossibilidade entre os homens? E se ela
se deixar achar, como um Graal numa caverna de Indiana Jones? Ou melhor, se ela
quiser me encontrar e decida sair do esconderijo das fadas vitoriosas e fazer um
desfile provocador para todas as rivais, uma cena que no futebol equivale à
volta olímpica, quando o vencedor passa na frente da torcida adversária
exibindo o troféu conquistado? Aí, meu irmão, só me resta passar Perfex na alma
e lustrar o sorriso com um Veja Multiuso e cair matando, evitando as pedras que
Drummond espalhou para a língua ser justa e sem amaciante Confort – por mais que
em algum momento achasse ter chegado a essa mulher que usará este texto meu
como brincos reluzentes na noite de Natal, custar-me-ia achar-me merecedor
desta ceia de prazeres calórico-amoráveis quando, depois de um estalar
diferente de um beijo, de um sorriso eternamente justaposto entre lábios, eu me
der conta que ela havia atirado a flecha e que eu abrira a jaqueta jeans para
me deixar flechar. . segunda-feira, 26 de novembro de 2012
MINHAS AMIGAS - 2

sexta-feira, 23 de novembro de 2012
MINHAS AMIGAS
Assim como o Joaquim, eu tenho
uma amiga que resolveu construir um novo self para si mesma e se trancou em casa
por semanas até chegar a conclusões do tipo viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado,
errado e errado, para depois, reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais
uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos: estamos
errados. Ela se reconhece como uma mulher"vazia de si". Reconhece a
eterna luta humana para chegar a seu centro. Reconhece, ao mesmo tempo, o
fracasso dessa luta. Por fim, é capaz de reconhecer que esse fracasso, em vez
de improdutivo, é produtivo. É dele, e da teimosia em resolver o que não se
resolve, que tiramos alguma coisa. É assim, ela me diz, ao pé da minha orelha
esquerda, que continuamos vivos. Acreditei. Não se duvida da palavra de uma
mulher, assim, tão decidida, tão segura de suas convicções, ainda mais quando te mira com tais olhos de cristais. Sempre tento
transmitir isso em minhas tentativas literárias: que não devemos acreditar em nossas
certezas. A literatura não é feita de certezas, mas de incertezas. A escrita é
uma espécie de cola (inoperante) com que tentamos vedar o desacordo entre o que
pensamos ser e o que somos. Conseguimos isso? Não. Mas o esforço nos move e nos
leva a escrever. A viver. É o que importa. Escrever não é encher-se (de si),
mas esvaziar-se. Como eu, esta mulher também escreve para viver mais
duplamente; por isso, estamos acostumados a falar a respeito do esgotamento
infernal _ como o sugar de um vampiro _ que o trabalho da escrita nos provoca. É
a rotina da escrita que nos descobre o duplo: há um desgaste, e mais outro, e
ainda outro. O que interessa, talvez, não seja o texto, mas o processo. O
caminho. O texto é um resto do que se tentou dizer e não se conseguiu dizer.
Uma ficção é, sempre, outra coisa. Como uma fotografia, que nunca consegue
expressar a experiência de uma viagem. Mas tentamos. E ela então me falou de um
texto, escrito para um amor que ela supunha esquecido, expurgado, exilado,
alguém que ela não queria mais em sua vida. "Isso não é meu", ela
insistia. "Mas foi
você quem escreveu", eu respondi, na minha profunda ignorância sobre a
alma feminina. "Não importa, não é meu, não me pertence", retrucou. Disse
que, se aceitasse a ideia de que fora a autora de uma carta tão amorável,
passaria a acreditar em fantasmas, em vozes do além e em extra-terrestres. Estaria,
então, empenhada em contactar a origem longínqua das palavras, seus mistérios,
suas infinitas possibilidades de transmitir o indizível – um amor que se perdeu
no tempo, como lágrimas na chuva. Não precisava ir tão longe, hoje eu consigo
pensar. Bastaria que se debruçasse sobre o mundo dos sentimentos, o grande rio
que nos arrasta para longe de nós. Esse arrastar - essa flutuação inexorável,
mas bela - é a aceitação da existência paradoxal de tudo o que poderia ter sido
e não foi.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
A FOTO
Olho uma foto minha, não muito
antiga, na qual me vejo feliz, cercados de amigos, numa festa, já nem me lembro
direito. Súbito, me dou a consciência de
que você não existia em minha vida quando alguém clicou aquele momento feliz;
eu não sabia quem você era, o que fazia, como pensava, o cheiro bom dos seus
cabelos. Parece incrível, mas houve um momento, vários, aliás, em que você era
apenas meu futuro, então não existia para mim, e não provocava meu sorriso nem punha lenha na caldeira das
minhas vontades. Até ver aquela foto, não tinha me dado conta de que houve uma
vida, muito boa por sinal, antes de você acontecer como um big bang de risos, beijos, pernas,
mãos e pés entrelaçados. Naquele momento da foto, eu tinha bons motivos para ficar
alegre – uma piada, uma brincadeira, uma emoção que tem a ver com a lua e as
estrelas – e, de fato, eu estava feliz e alguém fez questão de preservar este
instante na retina que me observava, tão incrédulo como eu, agora, ao constatar
que já houve um outro eu, íntegro, radiante, sem saber que você já existia no
mundo e que, talvez, estivesse à distância de uma porta, de uma parede, e que
nem nos demos conta disso, como naquela cena de Amarcord, em que duas pessoas
que se amam, ou que se amarão, não me lembro bem, acabam por se desencontrar
por um átimo; ele passou pela porta segundos antes de ela entrar e o encontro
não aconteceu, e eles não sabiam da existência do outro e nem por isso foram
menos felizes. Mas foi preciso uma foto tirada numa data incerta, para eu ter
certeza de que já fui por inteiro e posso voltar a sê-lo, independentemente da
agora consciência de que você existiu um dia, na minha vida, pois, então, eu não sabia, e era
plenamente feliz, sem ao menos desconfiar de que, num futuro nem tão longe dali, sentiria como se
minha própria alma me faltasse. Abateu-se sobre mim a certeza de que posso
entrar novamente naquela foto nem tão antiga assim e sentir a imensa satisfação
de estar completo, sem lutar para me convencer do contrário. Posso, novamente,
reencontrar a sensação de pertencimento que pareci perder no torvelinho dos
fatos mais recentes e ser profundamente, imensamente, incontrolavelmente feliz
como naquele dia, num retângulo 15X10, dentro do qual não havia o menor indício
de que você já andava pelo mundo a ponto de não me afetar em absolutamente nada nem me impedir de derramar um ponto final numa história que já não existe mais.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
TORVELINHO
Na difícil procura do amor, a
gente se machuca, chora, chama pela mãe, bate o telefone, procura o melhor
amigo e depois briga com ele porque ele não entendeu nada, faz terapia, escreve
o dia na agenda e depois rabisca, liga a televisão e não vê, deixa de estudar
para a prova, conta piada para fingir que está tudo bem, chora por qualquer
coisa, se desespera, espera o telefone tocar e quando ele toca não atende ou
demora para atender, toma coca com vodka, relê cartas antigas e as queima,
escreve novas e não as manda, compra roupa, inventa um passatempo sem graça – porque a
vida está sem graça – come cebola com beterraba e acha ótimo, rói as unhas,
implica com o irmão mais novo (quando o tem), fala mais que devia e se arrepende depois, arruma o
armário, dá vexame no restaurante, perde o sonho, desaprende a sonhar, vende o
almoço para comprar a janta, não tá nem aí para nada, tá aí para tudo, pega chuva, toma
sorvete, fica gripado, tira poeira da capa do Batman, marca e não vai, acha
tudo errado, faz fofoca, ri na cara, briga com a tia, bate a porta, chuta os
livros, ouve James Taylor o dia inteiro, tenta fazer arroz e queima (e come
assim mesmo), gasta dinheiro, recorta jornal, fala em código, manda um torpedo
inesperado, recebe uma resposta mais inesperada ainda, escreve um texto imenso
e então deleta tudo, usa óculos escuros mesmo dentro do elevador, sente raiva
de lembrar de tanta coisa inútil, fica na dúvida sobre a dosimetria da saudade específica, revê pela
enésima vez Um Lugar Chamado Notting Hill, vibra com a reeleição de Obama, toma
água com bolinha, come nuggets com molho barbecue, joga papel pedra tesoura Spock, acha que não dá e perde as esperanças para, depois, enfim, as redescobrir num canto
inesperado do coração, subitamente vago por algum aluguel vencido no ultimate fighting de a manter na morada, e entende finalmente que o sofrimento só existe porque teimamos a não aceitar os fatos...
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