terça-feira, 27 de novembro de 2012

MINHAS AMIGAS - 3

Eu tenho uma amiga que vive brincando de esconder comigo e que sempre que chega o final de ano, me pede para escrever uma coisinha para ela poder usar na véspera de Natal, entre o peru com farofa, vinhos e rabanadas. Eu nunca faço, mas resolvi tentar alguma coisa que aplaque este espírito inquieto e cravar a pergunta certa que me ajudará a chegar a seus pés e curar as chagas de tantas buscas vãs. Onde se escondeu tamanha especiaria do gênero feminino? Em que edição de antologia poética se aninhou esta mulher que a todas as outras tornaria desnecessárias, pois traria em si não o pó, mas o pé compacto da felicidade e o esmalte com o brilho e a cor certos para o homem se mesmerizar, sinalizando casa ocupada, cama arrumada, felicidade conjugada em todos os verbos terminados em ar, er, ir e or? O que a torna merecedora de tamanha glória, se caminha com as mesmas duas pernas como todas as outras mulheres, se trabalha inspirando e expirando o mesmo ar com o mesmo conjunto trivial de brônquios e pulmões? Onde está aquela mulher que se anunciou simplesmente a tal, mas não apareceu no momento em que era mais precisa e essencial? Será ela a fulana com sorriso 24 horas e toda compreensão para as fraquezas masculinas, aquela com a pulsação perfeita dos desejos propulsores da máquina da felicidade dos homens? Investigo, com olho clínico, aquela que se queda sobre uma bancada de livraria, as mãos céleres percorrendo páginas de thrillers policiais e de suspense, certo que ela um dia pressentirá o esforço e, generosa que é e com pena de minhas extensas e consabidas limitações sobre o entendimento da alma com saias e salto alto, sinalizará – ei, aqui, sou eu – na direção deste que expôs em público a esperança de realizar o encontro com que todos sonham, mas que poucos admitem. Ela chegará com as festas de fim de ano, embrulhada no mais brilhante papel de presente e sem a notinha para trocar em no máximo 15 dias? Travestiu-se de anjo? Virou uma cor? Fez-se invisível em meio a algum fim de tarde e, atrás do meu coração, se escondeu para nunca mais? Em que pergunta ela se fará afirmativa e presente? Não sou o único a procurá-la – outros olhos masculinos a perseguem sem, no entanto, entendê-la na sua infinita complexidade que, ao mesmo tempo, fascina e assusta. Como encontrá-la, em meio a tantas que flanam pelas ruas, olhando vitrines, experimentando sapatos, tomando café no Grão? Paga-se bem, na moeda em que uma bênção dessas estabelecer como a justa. Apesar de tudo, creio na sua existência – onde se pôs esta que querem me convencer como uma impossibilidade entre os homens? E se ela se deixar achar, como um Graal numa caverna de Indiana Jones? Ou melhor, se ela quiser me encontrar e decida sair do esconderijo das fadas vitoriosas e fazer um desfile provocador para todas as rivais, uma cena que no futebol equivale à volta olímpica, quando o vencedor passa na frente da torcida adversária exibindo o troféu conquistado? Aí, meu irmão, só me resta passar Perfex na alma e lustrar o sorriso com um Veja Multiuso e cair matando, evitando as pedras que Drummond espalhou para a língua ser justa e sem amaciante Confort – por mais que em algum momento achasse ter chegado a essa mulher que usará este texto meu como brincos reluzentes na noite de Natal, custar-me-ia achar-me merecedor desta ceia de prazeres calórico-amoráveis quando, depois de um estalar diferente de um beijo, de um sorriso eternamente justaposto entre lábios, eu me der conta que ela havia atirado a flecha e que eu abrira a jaqueta jeans para me deixar flechar. .  

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