quarta-feira, 25 de março de 2009

PERFEIÇÃO


A frase me veio no fim da tarde, quando o sol resiste bravamente ao manto da noite, traduzindo sua luta silenciosa num imenso crepúsculo de sangue, como se um grande deus se houvesse suicidado. “Este é um momento de perfeição”, pensei com um sorriso.
A cena foi simples e ao mesmo tempo grandiosa. Mas sua beleza incomparável ficou ressoando em mim e me fez lembrar de todos os momentos de perfeição que vivemos juntos.
Isso foi ontem. Eu estava em Niterói, ao lado dos meus fraternos amigos Miranda e Bruno, esperando que você ligasse a qualquer momento e tentando controlar a natural ansiedade que sempre me acontece quando eu aguardo para ouvir sua voz. Não deixei de repartir com eles o que sentia e, com a mão trêmula, apontei-lhes o horizonte e repeti, agora em alto e bom som: “Este é um momento de perfeição!”.
A primeira sensação depois disso é que desperdiçamos os momentos de perfeição ao não percebê-los. Ou melhor, ao fingirmos que não os percebemos. É absolutamente necessário aprumar a antena da sensibilidade para captar esses momentos de forma plena, inteira, por completo. Sem falha ou defeito, explodindo em novos significados; plenos, porque se revestem de brilhos inconsúteis; inteiriços, porque nenhuma das partes que compõem o todo parecem desvinculadas e sem sentido.
Mas, conforme eu já lhe falei, pode ser que essa percepção venha, via de regra, de uma simples cena, na sua casa, no seu próprio quarto ou na sua sala de sua casa. As canetas, os CDs, os papéis sobre a mesa. As fotos e os recortes na cortiça. Os livros, os objetos pessoais e uma súbita sensação de que tudo está em seu lugar, e que, enfim, se vive um momento de intensa, enorme, paz.
Pode-se questionar que tal perfeição, emoldurada num desses momentos, seja apenas uma ilusão, um modo peculiar de ver o mundo. Esta concepção interna e pessoal varia de acordo com o cenário em que se vive: o orvalho sobre a relva da fazenda, os vales e as montanhas represando a neblina a manhã, um jardim, um avião decolando ou aterrissando diante do casal de namorados sentados num dos bancos do Museu de Arte Moderna no Rio.
Por exemplo, um jantar a dois num terraço, à luz de velas. O vinho na pequena mesa, junto à comida refinada. As árvores serenas em torno. As estrelas sobre as montanhas. E ao fundo um concerto barroco. Este é um momento de perfeição. Longe ficaram o ruído insano da cidade, a violência que nos rouba tempo de vida, os horários desumanos, as dores do mundo.
Há momentos de perfeição espalhados por aí. Mesmo em tempos difíceis. Nas horas mais improváveis. Uma vez, no meio do torvelinho da cidade de pedra, vi uma batida entre dois carros em plena Avenida Rio Branco, rush hour. No carro da frente, uma moça assustada. No detrás, um homem que, certamente, ao se dirigir a ela, faria valer do autoritarismo primitivo dos machos. Mas não. Para minha surpresa, ele se dirigiu ao carro da moça, abriu a porta com cavalheirismo e, com um sorriso sincero, perguntou-lhe se estava tudo bem com ela. Isso tudo em meio a uma sinfonia desagradável de buzinas e vozes que, ao fundo, vociferavam contra a interrupção do trânsito. E ali, diante de mim, rápido e inesquecível, um momento de perfeição acontecia.
No meio de uma aula, podem – e devem – ocorrer vários momentos de perfeição. É quando a comunicação aluno-professor, de repente acontece, sinalizada pelo brilho nos olhos de ambos. No frio das montanhas, um abraço, um olhar cálido, e sensação e calor na alma. Na praia, sol a pino, um picolé de limão. Chegar à casa exatamente na hora que o telefonema tão esperado vem. Ler o jornal num domingo de manhã junto à mulher amada. Achar o que – e quem – se procura. A menina na praia que mergulha o balde no mar e retira-o a escorrer luz por todos os lados. Uma joaninha passeando na lombada de um livro. A mulher que emerge do mar, após o mergulho, recolhendo o cabelo molhado como uma cauda, que aperta, acaricia, eqüestre e eqüinamente. O esplendor da rosa ao desabrochar plena e fugazmente. A chuva rápida que desaba no final da tarde, revelando um céu de azul tão claro, sem o capuz das nuvens, tão infinito, como os olhos da Mona Lisa. São instantes onde não há excessos, perfeitos.
Em relação à concepção externa, existem os pequenos momentos de perfeição que cada um vive consigo mesmo. É claro que a percepção do que é perfeito ou não depende do olhar poético do admirador. Assim, o que é perfeição para uns pode não ser para outros. Ar condicionado em dia de grande calor é o paraíso para nós, homens, primitivos e neanderthais, mas impõe o desconforto dos gélidos píncaros às lindas mulheres de pele macia e clara que nunca transpiram mais do que líquidas gotas de doçura.
Torna-se, então, crucial que se desenvolva a sensibilidade para certos momentos de perfeição menos óbvia. Curiosamente, muitos andam distraídos por aí e, com uma indiferença irritante, nem notam as perfeições que se oferecem. Parecem passear num jardim pisando nas flores ou contemplar o pôr do sol de costas para o crepúsculo. Não estão, nem nunca estarão, preparados para a perfeição.
As pessoas, também, têm seus momentos de perfeição e nem sabem. É o açougueiro que fatia a carne com destreza e rapidez, alternando movimentos tão suaves que parece estar modelando uma escultura. Ou a moça que abre a carteira com seus dedos longos e unhas alvas e assina o cheque com a atitude de quem pode comprar o mundo. Nem sempre estes momentos se caracterizam pelo glamour da ribalta – muitas vezes, ele acontece no longo silêncio da madrugada, quando, repletos de lirismo, pomos de lado o livro amado e passamos a existir em poesia.
Vivemos, com menor ou maior grau, num mundo selvagem. Faltam gentileza, entendimento, flexibilidade e gestos sensíveis que furem defesas e criem alianças para a eternidade. Estamos, pouco a pouco, nos distanciando do próximo que, assim, se transforma, sem a mínima cerimônia, no longínquo. Daí, a extrema importância, que se faz ainda mais urgente neste começo de século, de treinar o olho e o coração para testemunharmos, com mais e mais freqüência, dentro e fora de nós, os delicados e raros momentos de perfeição que nos dão essa sensação de unidade que só têm as coisas quando estão repousadas em si mesmas...

BLINDNESS



The old blind man lived in the mountains in an old Swiss cottage. He lived alone and despite his blindness he used to lead a very normal life. The only relative he had was his beautiful niece, who came to visit him twice a week.
The old blind man used to play the piano. He was commonly heard during the spring afternoons and the music that came from his delicate performance on the piano was often mixed with the spontaneous songs of nature: the birds on the trees, the falling of a leaf, water flowing in the river. He considered himself a happy man.
One day, somebody knocked on the door. He answered it and heard a young man’s voice asking for some food. As it was raining, the old man invited the young man to come in and take a seat while he prepared a hot meal.
The young man sat down and they started to talk.
_ My name is Malcolm, said the lad.
Curiously, they didn’t talk about the past events of their lives. The blind man didn’t ask where the young man had come from or what he did alone in those mountains, hungry and wet. After a while, the lad noticed that he was talking to a blind man though until then the old man seemed to be able to see better than anybody he has know before. Even so, he was glad that the old man wasn’t able to see the handcuffs he had around his wrists.
Suddenly, a noise of a car.
_ It’s my darling niece, the old man said without altering any of his calm gestures. _ I think I’d better be going, muttered the young man making his way to the back door.
The old blind man smiled. “Please, wait. She won’t do any harm”, he said opening the front door.
Malcolm was mystified. He couldn’t understand why the blind man had said that. Anyway, he decided to stay, after having hidden the handcuffs under the sleeves of his leather coat.
The old man introduced his niece to him. Malcolm didn’t get up and kept his hands under the table. She sat down calmly and in a very charming way but couldn’t help looking at the man’s chained hands. They stared at each other but didn’t say a word. The old man came back from the kitchen bringing her a hot cup of coffee.
_ Are you scared of his handcuffs, sweetie? Don’t worry. He is a nice man. I don’t believe that this gentleman is guilty of any crime.
They were both astounded to hear the old blind man. How did he know about the handcuffs? And why did he believe that that man wasn’t a criminal?
_ Uncle, said the girl anxiously, this man must be a refugee. I don’t know of any honest and pacific person going around with handcuffs like bracelets just for fun. We shall call the police right now!
The old man grinned and started to talk in a low and firm voice.
_ There is nothing wrong with this man. He has been accused of committing a crime he isn’t responsible for. He is afraid and it’s quite natural in the state he is in. I heard the news on the radio this morning. The police are looking for a man called Barry Kane who is accused of having sabotaged a factory in Los Angeles. Is that all right, Mr. Kane?
The young man said nothing. He was wearing such an expression of surprise upon his face that no word would be effective.
_ Well, Mr. Kane, I knew from the start that your name wasn’t Malcolm. But this is not of very much importance. On the other hand, names can be a very tough burden. Sometimes we become their property. Don’t you think that if we paid less attention to people’s names we would be able to know exactly who exactly who they are inside? I am an old man with old habits, Mr. Kane. Everything is sharp to the senses at my age, especially if you are not able to see properly. Your voice is innocent, Mr. Kane, and so are you. My world has an apparent aspect of darkness. But there is something beyond this endless darkness. Life is stronger than any kind of blindness. Everything is alive and talks around us through a life and a voice that are not human but can be felt if we open our hearts. This secret language helps us to clarify our own mystery, so why not love the rumor of the waters, the sound of the wind, and the warmth on a summer morning? Haven’t you ever heard the piano? Certainly, yes. However, sometimes it’s necessary to understand and feel what the sound conveys to you. If you only knew how to hear in a deeper way, you wouldn’t have to disguise your behavior. As you may know “beauty lies in the eye of the beholder” and so does truth.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

BRINCOS


Ela é a mulher-brinco, a única que sai daquela loja do shopping mais chique da cidade sem comprar nada, mas com a certeza de que já tem tudo, e que o se lhe vai nas orelhas já basta para ser a criatura mais olhada, mais admirada, mais invejada do seu círculo de amigas e inimigas de infância, as que se aproximam com a pergunta já na marca do pênalti, sem paradinha: “Onde você comprou?”. A mulher-brinco não se abala. Sabe que mexeu nas estruturas mais íntimas da mulher moderna, aquela que ostenta vários cartões de crédito na carteira, que tem mais sucesso profissional do que os valetes da empresa, que decide qual carro, qual mesa, qual vinho, qual apartamento, mas que não ousa por o pezinho bem cuidado fora de casa sem gastar horas decidindo o brinco certo a ir com a roupa, com o cabelo, com o esmalte, com o namorado, com o coração, com a alma. Sabe que será alvo de olhares cobiçosos. Numa conversa, causará desvio do eixo dos olhos da interlocutora mais próxima. Pendendo dos lóbulos macios, os brincos farão a diferença. Como pesos numa balança imaginária, deixarão todas desequilibradas de desejo. Com brincos não se brinca. São mortais a ambos os sexos. Podem fazer a diferença na abordagem. Engana-se quem acha que os homens não ficam, da mesma forma, fascinados com o apêndice auricular. Mas não como as mulheres – eles, por sua vez, têm com o brinco a mesma relação que o peixe tem com a isca; ao morder o macio lóbulo, podem engolir junto o anzol da moda, e aí, não tem mais jeito, já sabemos. A mulher-brinco tem plena consciência de que o detalhe pode fazer a diferença. Não adianta o vestido mais caro, a sandália salto agulha zero quilômetro, o sorriso matador exclusivo das forças armadas, o perfume capitoso no cangote, sem que o acessório descolado combine com o conjunto da obra, que seja a liga extraordinária que enfeixa todos os esforços da sedução num único e poderoso exocet a bombardear cirurgicamente o território cardíaco inimigo quase íntimo. Pena daqueles que não entendem que a sustentação da civilização tal qual a conhecemos está na satisfação da mulher-brinco ao sair com o adorno certo exatamente no dia em que o homem-alvo, pombamente, cisca na calçada por onde ela vai derramar encantos, cheiros e pétalas. Ele vai sucumbir, ela, perversamente, sabe. Os brincos dar-lhe-ão sustentação no vôo de reconhecimento, sem ruído, sem blip no radar das frentes inimigas, sem perder a tramontana. Nosso mundo é um tecido roto, carcomido pela força de eventos imprevisíveis. Através de fendas, o real, com sua desordem ardente, escorre. A mulher-brinco procura arrumar esta caótica cena ao acenar com a possibilidade do minimalismo: os segredos de liquidificador, despejados na sua orelha fria, terão um guardião, um sinalizador totêmico, um graal fashion que dará vida eterna a quem o aceitar como verdade suprema, um dogma de fé. Pois, creiam: quando a mulher os tira, na hora mágica da entrega do corpo e da alma, ela não apenas se prepara para conquistar, mas, sobretudo, sinaliza que é exatamente aí que você pode começar a entendê-la.

090226