quinta-feira, 25 de novembro de 2010

LAVÍNIA

O título se refere a Lavínia, a Lavínia longilínea, oligopiônica, linda, que aparece na calçada e, mais tarde, nos meus sonhos, sem pedir muita licença, só entrando, devagar, mas com tudo, lânguida Lavínia, a que sorri com olhos de gata e nem pede licença – vai logo aboletando as longas coxas no lado quente da cama e enfia os pés delicados entre as mãos ossudas numa sem-cerimônia que emociona e leva às lágrimas este seu fiel servo, este adorador primitivo que, assim como Althemar, sentimental eu sou demais.
O problema, se há-o, é mesmo falar com ela. Ela precisa saber que uma lavínia assim pode muito bem acabar com a guerra na Rocinha e o conflito que se arrasta no Iraque, pois nada pode continuar como está depois que ela chega e sorri seu sorriso de 380 graus, deixando qualquer um desarmado e pronto para refazer seus conceitos, bélicos ou não, seus planos, profissionais ou não, seus sonhos, amoráveis ou não. Mas como falar com ela?
O que me falta na Terra? Muita coisa. Mas, nestas noites tépidas do outono mascarado dos trópicos, o que me falta mesmo é Lavínia e seu sobrenome quase impronunciável; faltava não só escutá-la de novo, mas sentir como seria a temperatura de sua mão ossuda... Seria úmida como a minha agora? E o cheiro da sua boca? O cheiro bom de pantera, eu pensava, como seria este gosto? De pantera também? E os seus pés, tão bem formados, devem ser macios e a sensação que tenho, esta sensação absurda de moço velho, é que nunca haverei de ser docemente pisado por um pé assim, nunca haverei de dar um abraço apertado nela, um abraço que tendesse à eternidade...
Assim como o regime militar provocou um imenso atraso na evolução da cultura política brasileira, com seus casuísmos e interesses mesquinhos, esta mulher e seu biquíni, à beira da piscina, é capaz de me deixar mais sem sono do que o costume e me levar à elucubração de estratégias mirabolantes para atingi-la com minhas palavras, até me dar conta que, diante deste problema sem solução, assim como ao poeta, só me resta tocar um tango argentino.
Mas Lavínia, mais do que Itabira, é muito mais do que um retrato na parede – quando fala, e fala bastante, e contempla um pôr do sol ou uma orquídea, ela não está apenas olhando: ela está sendo tudo isso em que se concentra. Ela é o pôr do sol, o próprio sol, a orquídea, todas as flores, o vento, o besouro, o silêncio. É disso que ela precisa saber, pois esta consciência é um dos aspectos da felicidade, aquela placa de sinalização à beira da estrada, que diz: vire à esquerda e mantenha-se à direita, seguindo em frente. Sorria, você está na felicidade. Falo, portanto, para ela.
Como ela saberá que, se for verdade que um minuto antes da morte desfilam todos os personagens e acontecimentos importantes da nossa vida, é possível que no instante prévio à paixão, como num flash, passe o trailer da história de amor que vamos protagonizar? Ela deve entender que minha situação é delicada, preciso falar-lhe, pois se ela é mesmo a moça que passa e fica que Vinicius versejou, estou a manquitolar entre o picaresco e o sublime destas landas literárias até encontrá-la.
A Lavínia precisa saber que há coisas que não são claras mesmo e que devemos adotar a postura zen-budista de não entender nem desistir para continuar a montar este quebra-cabeça chamado vida, cujas peças estão espalhadas desde que, canhestramente, chutamos o tabuleiro no primeiro tropicão que demos na tentativa de andar de pé. Pois você não vai entender, Lavínia, se eu não te contar, baixinho, na sua orelha fria, que nada se renova, inova, expande e se faz de verdade sem um momento de silêncio e reflexão. A solução existe, para quase tudo, se soubermos procurá-la e, sobretudo, reconhecê-la, neste torvelinho de inconsciências que fazemos da vida. Preciso, por algum motivo imponderável, te dizer que, passado o primeiro horror da perda grave, na treva da impotência e inconformidade, a gente começa a vislumbrar vestígios de uma sensação feliz que ainda não se acabou. Por isso, quero falar com ela, pois o amor que dialoga é um hábito a ser exercido diariamente, sob pena de não mais nos encontrar.
Da primeira vez que a vi, andava carregada de flores no cabelo e parecia ter pernas mais longas, sem ter idade para saber que poderia muito bem ter sido uma das certinhas do Lalau – não o juiz, mas o Stanislaw – ou mesmo um verso vivo da fase mística de Vinicius. Ser-lhe-ia uma definição perfeita, um dístico do poeta, de par com suas pernas longas, seus olhos amendoados, suas finas mãos ossudas. Não haveria de charlar em sua presença coisas pretensamente culturais, mas não me furtaria de sugerir que fizesse, numa próxima montagem, a Desdêmona, de Othelo, em função dos meus futuros ciúmes quando, ao querer falar com ela novamente, e pela nonagésima vez naquele mesmo dia, o celular estivesse fora de área.
Não haveria de acontecer mais um 11 de setembro para que ela se desse conta que não perdemos os grandes amores de nossas vida – nós é os roubamos de nós mesmo. Por inveja. Por cobiça. Por não entender mesmo. Por isso, aproveito este tempo que tenho, meu tempo agora, para falar que ela talvez seja um bom motivo para se sair do recolhimento amoroso, depois de um luto num período sensato. Cansei que me pedissem alegria sem trégua, coisa que interferia na minha dor, esse corpo estranho a uma sociedade que não permite fracassos de nenhuma natureza, embora seja, neste cipoal de paradoxos, tramada pelos desencontros mais inexplicáveis, mais inesperados, com os quais não nos conformamos até que esbarramos no imponderável e, finalmente, voltamos a ter direito a uma vida razoavelmente normal, com altos e baixos, dor e prazer, perdas e descobertas.
Lavínia, é sobremodo pertinaz que você me ouça, agora. Largue o que estiver fazendo e admita para si própria que só há um bom motivo para eu continuar vivendo: um minuto de sua atenção já!, sem medo, imediatamente, assim com chutzpah, essa palavrinha importada do iídiche, que tem o sentido de cara-de-pau, pois te quero, Lavínia lânguida, latílabra, lassa, lasciva, lanugenta, lariforme, latejante e todas as aliterações possíveis, para descobrirmos, juntos, algo que nem as pesquisas com células-tronco, nem aquelas que levaram ao descobrimento de um planeta extra na via-láctea conseguiram: que não podemos mesmo, em nenhuma hipótese, viver longe um do outro.
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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A SUPERMULHER

Pois é, o ano ainda está longe de terminar e ela já é considerada a mulher do mesmo, com toda a razão, diga-se a bem da verdade. Entendo que isso é homenagem que a põe num patamar bem mais alto do outras que fazem sua existência modesta acontecer sob os mesmos auspícios desses 365 dias. A vida, concordo, deu projeção, mas ela é muito mais do que um personagem descoberto pelo Autor. Ela dá corpo – se me permitem a expressão um tanto óbvia no caso – ao que se pode chamar de “beleza inteligente”, pois basta olhar com um pouco de atenção para ver que ela resolve fácil a antiquíssima divisão entre o físico e o imaterial. Se os filósofos especulam sobre a beleza, enquanto os cientistas afirmam que ela é resultado de um aumento de fluxo sanguíneo na base do lobo frontal, não vou bater de frente com ninguém.

Assim como o cérebro é esculpido pela música, as áreas mais sensíveis à beleza são formadas a partir da visão que temos dela. Explico: quando alguém observa uma obra de arte, diversas áreas do cérebro se ativam em sincronia. Chamam isso de neuroestética, palavra meio feia para o que ela representa, eu sei, e acredito que Vinicius de Moraes não a teria acolhido sob as barbas brancas. Mas teimo. Esses seres femininos que habitam o mundo e o imaginário dos homens têm seus mistérios e suas ilogicidades. Querem, não querem. Sabem, não sabem. Chegam, indo. Fazem-se profundamente ausentes na mais sólida presença. Por isso, ela persiste em todas as capas de revistas, nos programas de televisão, nas conversas com cheiro de esmalte dos salões cheios de mulheres que parecem ter só pés e mãos, nas esquinas, nos bares, na alma. A melhor de todas as tropas de elite pode ser explicada pela cor da pele, ou o formato sonoro do sorriso. Mas é mais. Tem aquilo que meu avô chamava de borogodó, sem cortes, mantendo a unidade espacial e temporal. Tem também, certamente, mais de um milhão de citações numa busca simples por seu nome no Google dos sonhos. É o exemplo perfeito de que são as imagens que nos captam. Lacan, sempre ele, dizia que antes de olhar, somos olhados. Ela nos olhava diariamente, sem nos ver, sabendo que estávamos de olho nela. Agora, a temos queimada, como a imagem eterna e sem jaça de um blu-ray idem, na memória daquilo que consideramos lindo. Vai descansar a beleza longe dos que a absorviam, nem sempre com bons olhos.

A existência humana requer uma dose de anonimato. Clark Kent tem a segurança de seus óculos, exatamente quando vê sem querer ser visto. Como Super-Homem, ele está sendo olhado sempre por todos e por tudo. Não pode ser assim o tempo todo, nem para o filho de Jor-El. Destarte, ela também precisa sair do foco, descansar no backstage, pendurar por uns tempos os saltos altos. Chega de ser a Supermulher, demiurgo que a exposição exacerbada da mídia tornou quase que obrigatório ao nosso cotidiano mortal. Missão dada é missão cumprida. Há de existir, alhures, sua fortaleza de gelo, onde, sem ninguém do showbiz por perto, poderá dizer: “Sou feliz!”.

Ela sabe que, sem compromissos firmes e sem sacrifício pessoal, o amor verdadeiro é inimaginável. A esperança para quem desiste das relações estáveis é a de que a quantidade substitua a qualidade. Toda relação amorosa é frágil, então é melhor ter muitas relações amorosas, porque assim sempre haverá alguém em algum lugar que estará disponível para lhe dar a mão, para compreendê-la e para com ela simpatizar. Eis porque muitas pessoas tentam, hoje, reprimir seus sentimentos. Mas os sentimentos são teimosos, eles não são fáceis de apagar como, por exemplo, os contratos jurídicos.

Em sua viagem pela vida, esta mulher absorveu glórias e tragédias, representadas pelo êxtase e pela saudade insuportável. Por isso, quando a vejo assim, de longe, distraída diante da vitrine de uma loja no Cadima Shopping, percebo que ela traz consigo alguma coisa infinitamente sensível e unânime, simples e natural, que se esvai ao ser tocada. Alguma coisa infinitamente acima da compreensão dos homens.


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

NOSSA LÍNGUA

Durante um colóquio sobre Língua Portuguesa, reunindo professores da rede estadual, discutiu-se, entre outras coisas, a atual situação do nosso idioma. As conclusões, que agora, parcialmente, apresento aqui, foram estarrecedoras. Isso porque, a educação em geral já é precária, e a imprensa ajuda a deseducar, pois basta uma olhada nos principais veículos de comunicação escrita do país, para encontrar os mais absurdos disparates em relação ao idioma de Camões.

O curioso é observar que só no Brasil a língua se esfacela. Em Portugal, o bom-senso continua prevalecendo, e os países africanos continentais e insulares de língua portuguesa seguem seu exemplo. Vale lembrar que não só Portugal, mas todos os países de língua culta do mundo há séculos mantêm critérios ortográficos coerentes. Infelizmente, parece ser apenas no nosso país que se brinca com esta irresponsável história de dupla ortografia: uma oficial e outra para os jornais. Desta forma, o Brasil caminha solitária e celeremente para deixar, pela porta de trás, o clube dos países civilizados de línguas de cultura.

Agora, no final da primeira década do século XXI, o português do Brasil está irremediavelmente comprometido como língua de cultura, porque não é língua de cultura com bagunça ortográfica. Não se pode pensar em termos culturais, sem a preocupação de preservar a etimologia e o contexto histórico que formou as palavras que usamos. Sintomaticamente, na atual campanha eleitoral, por exemplo, não encontramos nada muito concreto a respeito da cultura e da valorização do idioma que falamos. Pelo contrário: o que mais se vê são candidatos falando e escrevendo errado. Triste, mas real.

Um outro monstrengo que assombra a Língua Portuguesa é o mau uso do verbo repercutir. Aí, a imprensa da TV e do rádio são insuperáveis: teimam em dizer que seus repórteres “repercutem” a notícia, quando, claro, é a notícia que repercute e não o repórter, que apenas a reporta, como se pode deduzir pela palavra. O impressionante é que isso acaba “colando” no ouvido e virando lei, com respaldo daqueles que deveriam saber português para exercer uma atividade tão nobre.

As línguas não se fazem por decreto. As únicas leis que as regem são as da linguística – por isso existem as leis fonéticas, por exemplo. Como fato social que é a língua evolui com a sociedade que representa. Contudo, a observação do registro correto das palavras objetiva apenas a preservação da linguagem e de suas potencialidades. Se não, teremos, cada vez mais, o incorreto “queiroz” no lugar do escorreito “queirós”, plural de “queiró”, planta muito comum numa região de Portugal. Exemplo clássico de um sobrenome de origem geográfica, como tantos em nosso idioma. Vale dizer que Portugal, em matéria de ortografia, é um país cientificamente atualizado, diametralmente oposto ao que acontece no Brasil.

Devo dizer que o correto na língua é aquilo que é exigido pela comunidade linguística a que pertence. Existe um comportamento social regulado por normas em todos os campos, e a língua não pode ser excluída disto. Ninguém é a favor de uma linguagem monolítica, que não se assenta em uma realidade, mas sim de flexibilidade que não se perca em balbúrdia geral ou naquela teoria que os mais preguiçosos amam, a de “se todo mundo fala/escreve errado, por que vou falar/escrever de outra forma?”. Pela aceitação passiva de desvios degradantes como estes, a realidade da língua portuguesa e muito dramática hoje em dia.

Há sempre a melhor solução: ler e escrever, sempre e muito. Só há um jeito de começar a escrever: é começar agora. O conselho, mesmo que ninguém o peça embora o devesse, abre um livro excelente sobre a atividade escrita, “Oficina de Escritores” (Martins Fontes, 2008), de Stephen Koch. Cada escritor tem ao menos uma grande lição digna de nota. Em língua portuguesa, podemos aprender muito sobre como elaborar e apreciar bons textos se aproveitarmos a lição que a leitura dos mestres oferece.

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DVD: TOP HAT (USA, 1935): neste filme, Fred Astaire usa e abusa do direito de ser o melhor dançarino do cinema, como também um ótimo ator. Seus diálogos musicais com Ginger Rogers são belíssimos! Tudo é feito com muita elegância, ao som perfeito de Irwin Berlin. Confira!

Quer dançar de rosto colado? Aprenda, pois!

http://www.youtube.com/watch?v=HYHZh-xnqhE

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

GULLAR


Em 10 de setembro de 1930, Ferreira Gullar nasce em São Luiz do Maranhão, batizado José Ribamar Ferreira, é o quarto dos 11 filhos de Alzira e Newton. Treze anos depois, na escola e apaixonado por uma menina, decide escrever versos. E o faz com paixão, sangue e febre, sem deixar de acreditar que era mesmo através da poesia que se transformaria na figura literária que é hoje, para todos e, especialmente, para mim.
A figura literária se expande: o grande homem também é um ser aristotelicamente político. Em 1962, ingressa no Centro Popular de Cultura e na União Nacional dos Estudantes. Publica cordéis políticos e trabalha ativamente como jornalista. É um dos grandes amigos de outro grande - Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, com quem escreve a peça ”Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. A história desta dupla pode - e deve - ser conhecida, por isso, favor ler a excelente biografia escrita por Dênis de Moraes, “Vianinha, Cúmplice da Paixão”.
Gullar continua sendo isso tudo e muito mais. A figura magra e elegante, os longos cabelos brancos e o ar compenetrado, frequentemente interrompido por uma gargalhada, lhe dão um ar de mago Gandalf, de O Senhor dos Anéis. Diz o mago que a literatura tem que mudar a vida, ela não pode ser gratuita, não pode ser à toa. É deste assombro que se conclui que a poesia não pode apenas versos bem feitos. Há de se procurar uma nova linguagem, sempre, mesmo que ela seja uma reinvenção da antiga, e esta da mais antiga ainda. Pois a poesia pode nascer do espanto, pois não é algo que se decide fazer. A poesia faz parte de algo que te surpreende, que te espanta e que te leva a escrever um poema. É uma aventura em que o acaso e o inesperado determinam o processo.
Uma das melhores traduções de Gullar é o poema “Traduzir-se”. Nele, o poeta nos dá voz: “Uma parte de mim pesa e pondera; outra parte delira...”. Esta dicotomia embala o leitor mais atento numa reflexão sobre os (dês) caminhos da vida. Não se pode apenas ser racional, aponta o poeta, pois a vida não é linear, mas sim um ziguezague entre a realidade e o sonho, um conduzir-se para o outro lado. É deste trânsito que o poema se ocupa, implicando o próprio sujeito, através do “se” reflexivo do título.
O movimento pendular do coração, metáfora da vida, é uma das muitas sinalizações polissêmicas que encontramos na obra de Gullar. Num universo poético tão multifacetado, é fácil se perder, o que, no fundo, é encontrar-se. É este amor pelo belo que também se manifesta no artista através da crítica de arte que interpreta as vanguardas e questiona o que se diz contemporâneo. Sabe que é mais adequado investigar o mundo com reflexão e com os espantos gullarianos, sejam os metafísicos, os políticos e os existenciais. Refere-se ao vínculo existente entre a poesia e a emoção com uma naturalidade impressionante, quando diz: “A poesia é, na verdade, uma fala ao revés da fala...”. A linguagem, assim, o instrumento pelo qual o artífice transforma as experiências existenciais no conteúdo poético que atinge as mais diversas searas cognitivas.
Costuma dizer que escrever não é doloroso. Dolorosa é a lembrança. Quando você a transforma em poema, está transformando dor em alegria. Em beleza estética. Gullar não acredita no que certos poetas dizem, que escrevem sofrendo. Uma coisa é o sofrimento que o leva a escrever, mas a escrita não é dolorosa. Escrever é alquimia. É transformar a dor em alegria estética. Tem prazer em escrever. Acontece no curso do poema, mas não tem nada a ver com dor. São descobertas em função do que ele vive. Uma noite, quando sai da casa de sua companheira, atravessa o jardim e é agredido pelo cheiro do jasmim. Daí nasce o poema. Quando vai escrever, passa a refletir sobre o que lhe aconteceu naquela noite. E descobre que o cheiro são moléculas, que voam desordenadamente no ar, como uma nuvem. O cheiro é uma desordem e é seu olfato que dá ordem àquilo. Como vocês veem, são coisas que vão nascendo umas das outras e que alteram sua forma de escrever e, naturalmente, a nossa forma de perceber o mundo, as pessoas, os sentimentos.
Parabéns pelos 80 anos de fina poesia.
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DVD: TEMPOS DE PAZ (BRASIL, 2009) – a adaptação da peça de Bosco Brasil para a tela grande funciona, sobretudo, na força do diálogo entre seus dois protagonistas, Dan Stulbach e Tony Ramos. Veja: http://www.youtube.com/watch?v=zkFF9VltBOc

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

THE AMERICAN WAY


I like movies and I have the habit of wrinting about them. This has made me think of how these stories we have seen on screen for all over our lives have influenced our percepition of the world around. I witnessed here in Brazil, based on my own experience as a kid in front of the TV, how movies and TV shows display a pattern to be followed and, sometimes, copied, without any critical thinking. After all, we still have faced a brutal invasion of the pop culture mad by and for Americans.
NEARLY 160 years ago, Alexis De Tocqueville observed that Americans lacked an appreciation for what he called the ''pleasures of mind.'' Instead, he wrote, they ''prefer books which may be easily procured, quickly read, and which require no learned researches to be understood. They ask for beauties self-proffered and easily enjoyed. . . . They require strong and rapid emotions, startling passages, truths or errors brilliant enough to rouse them up and to plunge them at once, as if by violence, into the midst of the subject.''
Those words remain, in fact, a pretty good description of the impulses that drive American popular culture, what one might call a constant quest for ever greater sensationalism. But the characteristics Tocqueville ascribed to our books, poetry and theater are now no longer confined to amusements; they have leached into almost every aspect of American life, and, why not to say, world life. Any putative Tocqueville looking at America today would see a whole Republic of Entertainment in which strong and rapid emotions, startling passages and rousing truths pervade journalism, politics, education, religion, art and even crime. Indeed, ours seems to be a world molded in the image of the movies and intended for our viewing pleasure.
To most of us, this has been obvious for some time in the country's public life. However serious their subtexts may be, news events like the O. J. Simpson trials and Lewinskygate are vastly entertaining spectacles that are promoted, packaged and presented very much like the latest Hollywood blockbusters, only these stories happen to be written in the medium of life. Not to mention Michael Jackson’ life and death and others magnetic plots that would appeal to any kind of taste.I wondered if the tragedy that is about to fall onto my Flamengo would be of interest to the producers in Hollywood.
What has been less evident than the transformation of public events into entertainment, however, is something arguably much more important: the extent to which entertainment has gradually infested our own personal lives, converting them into ''movies'' too. It is not just that audiences may find daily life as entertaining as fictionalized stories, as ''The Truman Show'' and some comedies that portrait the routine of Americans. “American Beauty” is another example that crosses my mind. Just yesterday, I was rewatching “O Assalto ao trem Pagador”, by Roberto Farias, and started to think how these common stories tend to stir on people’s minds.
It is that over the years our moviegoing and television watching has been impregnating the American consciousness with the conventions and esthetics of entertainment, until we have become performers ourselves, performing our own lives out of the shards of movies. One might even think of American life, including quotidian American life, as a vast production in which virtually every object is a prop, every space is a set, every person is an actor and every experience is a scene in a continuing narrative. What Joe would say about that?
It has been a long process that has brought us to this point -- a process that may have been set in motion by the country's very active sense of democracy. In Europe, where the class hierarchy was rigid and class distinctions obvious, any sort of personal theatricality, aside from that of self-conscious, rebellious Bohemians, was limited to the upperclasses, which could afford flamboyant display. But in Brazil, where class boundaries should be more porous and distinctions less apparent, citizens quickly learned that how one looked and behaved largely determined how one was perceived, prompting Walt Whitman to lament the ''terrible doubt of appearances.''
This emphasis on class by style infused 19th century American life with a kind of subtle theatricality as the middle class and later the working class imitated the affectations of the gentry in hopes of being regarded as gentry themselves. By the early 20th century, though, these old models of gentility had yielded to new models in the mass media, especially the movies, and the change ushered in a marked difference in aspiration. What had begun in the 19th century as a way of appropriating class became in the 20th a way of making one's life more closely approximate the glamorous visions one read about in novels and picture magazines or saw on the screen.
Today, with the burgeoning of mass culture, this everyday performance art may be America's most ubiquitous art. Though obviously not everyone is willing to concede that he or she is becoming a performer, there are telltale signs everywhere that ordinary life is cinematic. Take fashion. There was a time when fashion was, as Tom Wolfe once put it, the ''code language of status,'' a way to express where one stood in the social order. Nowadays, when nearly everyone has access to designer clothes, even if it is only a pair of jeans, fashion is less expressive than imaginative. What one wears doesn't necessarily convey who one is; it projects who one wants to be -- which makes clothing into costume.
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CD - Miles Davis - Time After Time: Amazing recordings of some classics, like "Time After Time", "Corcovado" and "Round Midnight". Davis is obligatory, no more than that. Two-CD pack, with charm and talent. Be careful: do not listen alone or you will be missing someone from your past. Look and listen: http://www.youtube.com/watch?v=tTf_d30Anzk

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

MORTE


Obs: o texto abaixo foi o resultado de um desafio, lançado pela professora Marina Higgins, de escrever um texto, tendo o terror como tema, sem usar a letra A.

Noite, pouco depois dos sinos mudos diluírem seu silêncio no bosque: um ruído escorre lento no escuro. O homem se detém. Seus olhos colhem indícios, riscos, perigos, porém, só existe um eco duvidoso em seu redor. Ele persiste no trecho entre o longo muro do mosteiro sombrio e o pútrido e fétido conjunto de troncos sem viço, esquecidos pelos guerreiros empós o conflito medonho e cruel, ocorrido num ontem terrível. O homem tem o intuito de descobrir onde seu destino, em milésimos de segundo, é fluidez ou vínculo sólido com o sensível.

De novo, o ruído o estremece. Quem? O quê? O perigo, proveniente do ser sozinho que ele é neste momento, perto do ser gótico escondido sob o silêncio noturno dos muros, lhe é desconhecido. De repente, o monstro incide sobre o homem que, sem tempo de fugir, só sente no pescoço o furo dos dentes finos do homem-morcego e o vermelho quente escorrendo-lhe pelo corpo semimorto. No frio intenso do momento, o homem tem o último gesto de repúdio e foge do monstro com o que existe nele de melhor e eterno: o sonho. Por isso, meio vivo, impele-se pelo terreno úmido, ferido, vertendo o viscoso e rubro líquido quente proveniente do ferimento imposto pelo disforme ser sedento de sumo movediço feito de glóbulos rubros e de cor de leite.

Persiste no esforço de fugir do imenso perigo e esconde-se num humilde e discreto tugúrio, onde vê seu sonho no feitio de um indivíduo do sexo feminino, jovem, esguio, belo, sorrindo com o se o éden fosse o comprimento do segmento existente entre os dois corpos. Sente-se sem riscos iminentes, seguro, percebe-se, e um frêmito divide-lhe o músculo dentro do peito.

Descobre que um sentimento novo surge nele como um tremor sísmico. O ferimento, súbito, detém-se como se fosse feitiço. Sem dor, é um novo homem que conhece, enfim, o que é ser feliz, no momento em que o corpo tenro lhe envolve com sutil e lírico poder de seduzir. Ele permite que o fluxo de vigor voluptuoso domine seus sentidos e entrevê deleites indizíveis. Reconhece o munificente e feérico torpor que os dedos femininos lhe promovem no toque no corpo redivivo e concede o ingresso do seu rosto febril no ninho feito de colo e perfume. O fôlego dos dois se insurge em torrente sem controle, como um tempestuoso ímpeto. Um beijo é um soneto de Proust; um suspiro - um pôr do sol de Renoir; o sorriso - um tesouro possível... os dois se prendem num vínculo sólido, compondo um momento sem defeitos ou deslustre. Dentro do cubículo, os dois se fundem em um número perfeito: um.
Longe, esquecido, o monstro percebe que perdeu o espólio de seu sustento e regride em rumo do esquife frio e terroso.

Livre do perigo, o homem se vê imerso no universo feminino do divertimento luxurioso sobre o móvel de dormir. O tempo corre e eles querem repouso. É noite, de novo. Ele se move em meio do sono e põe os olhos no externo cômodo, com rigor de um monge: tem que descobrir o puro evento que o põe em cerco. O sonho de contornos femininos sumiu. Só, ele se põe de pé. Com sede, bebe o líquido do copo sobre o móvel. Um gosto de fel interrompe o resto de luz que neste momento, sobrevive em seus olhos sem brilho, sem nitidez. O veneno estende-se pelo corpo mortiço, que rui, com um som brusco, defronte do vulto misterioso, vestido de luto e delírio de morte.
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LIVRO: O AMOR LÍQUIDO - A Fragilidade dos Laços Humanos. A modernidade líquida – um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível – em que vivemos traz consigo uma misteriosa fragilidade dos laços humanos, um amor líquido. Zygmunt Bauman, um dos mais originais e perspicazes sociólogos em atividade, investiga nesse livro de que forma nossas relações tornam-se cada vez mais "flexíveis", gerando níveis de insegurança sempre maiores. Veja e ouça Bauman: http://www.youtube.com/watch?v=X4YGdqgCWd8&feature=related

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A UNHA QUEBRADA


Foram Isabela e Priscila que me pediram, eu prometi e, agora, deito-lhes sobre as mãos finas e bem cuidadas, o texto sobre o desastre, a catástrofe e o horror de se ter uma unha lascada às vésperas de um final de semana, quando não há mais tempo para resolver, sanar, remendar, refazer as extremidades pelas quais elas, e milhões de outras mulheres, haverão de tecer planos e armadilhas amoráveis, seja pela caneta que escreverá um bilhete dando Total Access aos seus corações, seja pelo simples gesto de levar o indicador aos lábios, numa atitude que a gente nunca sabe se é de dúvida ou de certeza de que vai conseguir o que – e quem - se quer.
Sim, uma unha quebrada, depois de todo o trabalho de marcar hora, ir ao salão e ficar horas matutando a melhor estratégia para alcançar o “ficante” naquela festa im-per-dí-vel!, é o desespero de qualquer mulher moderna que sabe que o esmalte certo que lhe vai nas extremidades digitais pode ser o fator determinante para que o mundo se encaixe perfeitamente nas suas expectativas. Pois o esmalte da moda deixou de ser apenas um acessório e hoje faz parte da composição do look, assim como os sapatos, brincos, casacos e maquiagem.
O certo é que a vaidade feminina está cada vez mais intensa nas pontas dos dedos. Antigamente, a moda das mãos era mais discreta e padronizada, com tons mais leves para o verão e outros fechados para o inverno. Agora, observo com perplexidade, o mundo fashion permite cores mais ousadas, que passam por azul, verde e até neon, sem falar em todos os matizes possíveis. É só dar uma passadinha na web para se achar blogs e redes sociais nos quais meninas, mulheres e mulherões pegam um esmalte recém-lançado, testam, falam, discutem, se informam sobre tendências. Vejo-as, diante dos frascos, pensando que “este vai melhor com meu cabelo e meus sonhos; aquele combina mais com minhas expectativas e a sandália preta de salto que ele adora; este tem tudo a ver com a roupa e o amor que escolhi”. É um ritual solene, que só os escolhidos a dedo podem testemunhar.
Desta forma, Isabela e Priscila, sei que vocês, lindas e inteligentes que são, se preocupam com este drama da mulher moderna: a unha meticulosamente quebrada naquele lugar que todas as pessoas (especialmente as invejosas) vão ver e achar um horror, mesmo tendo à disposição mais nove unhas perfeitas e harmoniosas, pintadas com o esmero, a arte e a dedicação de um mestre Renascentista. Não, não se pode admitir que o verniz escolhido tão cuidadosamente trinque bem na hora em que todas as cartas do jogo amoroso estão na mesa, à vista de todos. Pois não se subestime o poder dos gestos femininos, delicados, mas firmes, com os quais vocês, mulheres, podem fazer o homem sorrir como um bobo ou chorar de dar dó. O esmalte equaliza a sinfonia regida pelas mãos da mulher que conduz, quando pensamos todos que ela é a conduzida. Assim, a unha bem desenhada, esculpida, delineada, depois de horas de lixa e paciência, deve estar perfeita para que o pincel macio espalhe um Risqué Damasco ou um Arezzo nails Forest Green sobre sua superfície que não pode e não deve se fragmentar, pois uma unha partida dói tanto quanto um coração idem, e as mulheres sensíveis como vocês deveriam ser poupadas de tal sofrimento, a todo custo.
Chega uma hora em que é preciso estar com as unhas afiadas – e pintadas – para agarrar a chance que só vai passar uma vez: a oportunidade de seduzir, através de leves arranhados no braço e no rosto do alvo amado, aquele ainda não foi, mas será, em muito breve. Há algo de felinamente selvagem, em vocês, nestas horas.
Por mais que eu simpatize com a causa, devo deixar registrado em cartório que sou a favor dos esmaltes claros, sempre, embora entenda o fervor com que vocês se jogam na procura de cores fortes para emoções também, como o tom mais escuro do cinza, preferido por Isabela, e um Orly cremoso que faz sucesso nas mãos de Priscila.
Confesso: sou um admirador dessas mulheres que têm certeza do esmalte que querem usar e com elas me solidarizo quando este tsunami de proporções cataclísmicas - que é quebrar a unha na última hora - põe sua sexta à noite em risco de não acontecer. Pior do que enxaqueca, pior do que TPM, pior do que ver o ex com outra, a unha lascada é o teste supremo para a imensa força feminina que lhes habita o coração. Portanto, saibam que eu as entendo neste esforço supremo de manter as unhas perfeitas, sem jaça, inconsúteis, mesmo que o mundo se aproxime do fim ou que qualquer tragédia anunciada se abata sobre seus caminhos. Reluzentes, luminosas, radiantes, sei-as todas, por inteiro. É assim que me sinto perto de vocês: um relâmpago diante de um grande sol.
E por fim, Isabela e Priscila, não percam de vista que, se há algo imprescindível na difícil conceituação de ser feliz, é o seu caráter de permanência. Uma unha quebrada se refaz com o tempo. Um coração também. A definição consciente exige colocar na balança a experiência passada, o estado presente e a expectativa futura do que é felicidade, e chegar à conclusão de que ela, de tão perto e óbvia, pode estar mesmo nas pontas dos dedos.
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DVD: Paul McCarney Good Evening New York - Paul volta ao Shea Stadium para uma belíssima apresentação de seus grandes sucessos. Destaque para a canção "Here Today", que ele compôs para John Lennon, cantada só ao violão, durante a qual Paul chora, emocionado. Os extras são ótimos, com entrevistas e curiosidades sobre a turnê. Veja um trecho do show: http://www.youtube.com/watch?v=co-yucte14Q&p=5E131D09E6C5968E&playnext=1&index=8

terça-feira, 10 de agosto de 2010

THE ROAD


Seven thirty in the morning. My winter heart is still beating slowly. I am getting ready to face the long walk, surrounded by silence. A backpack check is vital: I must have everything—or just about—that is needed to start my reading expedition. The hike across the literary town is supposed to be a comeback to some sort of roots, therefore I need to downgrade.
This is going to be a long day—there's a forty-kilometer hike out there waiting for my steps. The very last minute is dedicated to all that I must not have: no money, no mobile phone, no maps—all of this is resting on the wooden table that my dad built decades ago.
The only gear I furnish myself with is a personal camera and my notebook—and in my notebook I cherish a single public dream-like transport ticket for my return, later on tonight. For that is my only link with urban life—the only pass for I return after I reach the summit at the end of my long trip through a cold and sunny August day.
Daybreak today was beautiful; the frozen humidity piercing my bones was a reminder of my old self as a small-town boy, of days when urban life could be easily transformed into a faraway kind of adventure—away from everything and everyone, away from the creepy sense of pacing in a cage that later spurred me to come live in the mountains up Rio de Janeiro state.
This is all due to the fact that I used to enjoy the warmth rising from the streets in Friburgo, it all looked magnificent at the end of July, in the deep frozen winter with the sun so huge on the horizon and the sky as our road. As I crossed the main avenue and dived into the backstreets of the south side of town, that big yellow star exploded like a giant crashing stone, it danced on the tarmac leading to the apartment in the street, the long sentimental road that lead me to you.
There must be some hidden beauty down there, where I am heading right now, toward the fragments of the sun still dancing in the sky and through the haze: a Star, a world beyond a world that used to be. Something that might happen again. Or that might not.

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DVD: UM BOM ANO (A GOOD YEAR, USA 2006) - Max Skinner (Russell Crowe) é um investidor inglês, sem muitos escrúpulos, que vive somente para ganhar cada vez mais dinheiro. Quando seu tio Henry (Albert Finney), seu parente mais próximo, morre, ele herda sua vinícola na França. Quando viaja ao local para ajustar detalhes a fim de vendê-lo, Max acaba passando uma temporada no local, e encontra o caminho do coração. Veja o trailer: http://www.youtube.com/watch?v=k-B6FsAAvmM

domingo, 8 de agosto de 2010

A JANELA


Reparou pela primeira vez naquele apartamento quando passava de carro, indo em direção à praça. Pelas cortinas entreabertas, conseguia apenas ver uma parede, banhada pela luz indireta do abajur. Mas nessa parede havia uma estante, que me chamou a atenção pela solidez: estava repleta de livros. As lombadas coloridas davam vida ao ambiente silencioso que ele adivinhava lá de fora.
Não havia uma vez sequer que passasse por ali sem querer subir e conhecer por dentro o apartamento dos livros. Claro, uma mulher morava ali. Sabia disso pelo modo como as cortinas brancas estavam , a cada dia, ainda mais brancas; pelo vidro limpíssimo da janela; pela luz discreta e suave que iluminava as esquinas das paredes; até pelo silêncio que transbordava pela verticalidade das cortinas das janelas dos dois cômodos. A estante com livros estava na sala, cuja cortina estava sempre entreaberta no mesmo ângulo, o abajur aceso, o silêncio enorme que escorria sem manchar as paredes nem, talvez, o chão. Para ele, aquele apartamento era apenas isso: uma parede, uma estante e seus livros. Jamais conseguiu ver o resto da sala. Nunca viu, tampouco, alguém na janela. Contudo, a mulher continuou existindo, por muito tempo, em sua imaginação, com uma clareza quase sobrenatural. Começou a gostar dela, de sua solidão delicada, dos seus fins de tarde à meia-luz, na companhia dos livros. Porque, embora não a visse, sabia que estava ali. Não raro, quando dobrava a esquina, pressentia dois enormes olhos de vidro – as janelas – observando seus movimentos e as intenções que se lhe aconteciam no coração e na mente. Chegou a ficar encabulado.
Mas, desde então, sempre que passava por aquela rua ao cair da noite, mesmo em velocidade mais alta, aproveitava para espiar. Só dava certo se estivesse escuro. Apenas à noite pode-se observar coisas assim, pois é exatamente quando a luz agressiva do dia se dissolve e surgem, através das janelas, as salas e os quartos com sua iluminação própria, fragmento radiante das mãos de quem ali habita. Só então é possível observar, captar fragmentos, compor histórias e, aos poucos, penetrar suavemente nas vidas das pessoas, conhecê-las sem o isolamento das paredes.
Hoje, contudo, passou de novo pela rua e viu o apartamento fechado, às escuras, triste. As cortinas brancas tinham desaparecido. Teve o ímpeto de parar, subir as escadas e abrir a porta. Imaginou ver uma parede nua, onde restariam apenas cicatrizes das prateleiras, sobre as quais, por tanto tempo, viveram os únicos amores da mulher que havia partido e de cujo cabelo ele jamais sentiria o perfume.
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LIVRO: "Os Espiões", de Luiz Fernando Verissimo. Com Os espiões, pela primeira vez o escritor Luis Fernando Verissimo lança um romance que não foi escrito por encomenda. Até então – desde a sua estreia em narrativas longas, com a publicação de O Jardim do Diabo em 1988 –, o autor gaúcho só tinha enfrentado ao gênero por causa do convite das editoras para integrar coleções temáticas, onde o impulso inicial da criação já estava definido. Vale a pena, especialmente num domingo.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A COMMENT ABOUT “LOVE IN THE TIMES OF CHOLERA”


I saw a movie the other day, Love in the times of Cholera, by Mike Nell,in which I caught the following dialogue: “What’s wrong with love?”. Now I appreciate a piece of lyricism when I hear one, so if you’re interested in what makes a contemporary man interested in this kind of literature, you will have to turn to someone else. The original story, by Gabriel Garcia Marquez, mesmerized us in such a way that it is hard to describe it in one single language. All I can say is: it’s like this and it’s like that—there are traditionalists for whom the story is paramount and so they resort to a straightforward narrative style and technique (Graciliano Ramos, João Cabral de Mello Neto), and there are writers who, committed to a specific subject, return to it book after book, and whose writing is characterized by highly wrought, polished styles and a worldview, sometimes even a dramaturgy, that is distinctly their own (Cortázar, Borges). Then there are the intrepid modernists, some of whom seem not to give a hoot about storylines, or stories for that matter, not even traditional literary forms—what’s more, not even grammatical rules—and for whom the act of writing is equal to the act of creating a new universe that did not exist before they set pen to paper. For them, not thoughts, but words are the stuff of prose (or poetry), or as Marquez has said, “My stories are made of the raw flesh of language.” Also, a while back I asked Arthur da Távola why he put something in a certain way, and he gave his famous smiling shrug and said, “I have no idea. That’s what the sentence wanted.” All of which implies that these modernists and postmodernists (oh, how they hate being called that!) conceive of literature in a radically new way. Once you read their works, life will move to a different rhythm, it will take on a different tone and hue, and you will be enriched by a new type of reading experience which calls for an interaction with the text that is often quite intense, if at times baffling. It is from this group of writers that I have chosen nine, hoping that their works will provide readers with a sense of what one exciting face of contemporary literature is like, and that once they have read these pieces and proceed to read others like it, they will be able to cry out, “Ah, if this isn’t Marquez-like, I’ll eat my hat!” I am, in short, hoping to present one exciting face of contemporary Colombian literature by having chosen and translated pieces that will speak for themselves and, as you read, will reveal their nature, and divulge what it is they share. Where they come from, and why, mainly.
I claim no form or standard of objectivity, except for one, which I shall leave for last, for when all is said and done, almost nothing is really objective. Which, considering that we are human beings, is nothing to hang our heads about. Subjectivity is the noblest form of self-expression, and informed subjectivity is the surest guarantee that we are pursuing the right path. That’s how we should understand the love story between Florentino ariza and Fermina Daza and how Marquez interwoven the lines ins a such delicate way that, by the end of the book, for those who can feel, the best thing to do is to cry for having or for not having lived such a beautiful and sweet story.
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LIVRO: "O Amor nos Tempos do Cólera", de Gabriel Garcia Marquez. É o livro mais lindo que já li, além de excepcionalmente bem traduzido pelo mestre Antonio Callado. Para quem não tem medo do amor. Veja: http://www.youtube.com/watch?v=6diEygozpXk&feature=related

ROTEIRO


13h30min. A chuva fina cobria as árvores da praça com um véu quase imperceptível, como se um grande copo de leite aguado tivesse sido derramado sobre a paisagem. Éramos cinco. Contudo, os pensamentos se interligavam de maneira tão intensa, que, por vezes, parecíamos uma só mente somente. Cinco autores, àquela altura, à espera de uma idéia, de um personagem, de uma solução que deslindasse os desafios que havíamos levado para o almoço. Súbito, uma luminosidade solar corta as gotículas de chuva: Martha chega. “Martha, my dear...”, cantarola mentalmente um dos autores, fã dos Beatles. Ela abre a bolsa e escolhe cuidadosamente a chave apropriada. Gira com cuidado. O som seco do metal partido ressoa líquido na tarde chuvosa. De imediato, percebemos que não teríamos como continuar. Estávamos diante da impossibilidade concreta de uma porta que não se abria para o alinhamento das ideias que manipulamos durante toda a manhã. A longa estrada sinuosa apontava para outras landas. Naquele momento, a porta imóvel era o monolito que os astronautas de 2001 encontraram no espaço. Vencê-la – e isso também significava entendê-la – nos levaria às respostas que formulamos horas antes. Diante disso, cada um de nós, como se tomado por uma força inexplicável, começou a escrever na superfície plana daquela porta, o roteiro definitivo de uma história impossível.
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LIVRO: "Papéis Inesperados", de Julio Cortázar. O livro foi construído a partir de escritos nunca antes coligidos, encontradas por Aurora Bernárdez, viúva do escritor. Leiam o texto no qual a água deseja ser neve. É lindo!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

VINICIUS


Há 30 anos, morria Vinicius de Moraes. E durante 30 anos, eu procurei evitar escrever esta frase, porque sempre me recusei a acreditar que Vinicius havia mesmo morrido, sem que eu tivesse tido a chance de conhecê-lo pessoalmente. Era uma vontade infantil de quem havia acordado para a literatura exatamente com um livro de Vinicius, Para Viver um Grande Amor; mais exatamente uma crônica, O Amor por entre o Verde, na qual o poeta se deliciava em observar um casal de jovens namorados numa praça. Escrevia o poeta: “Não é sem freqüência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque”. Ainda hoje, o impacto destas palavras ainda me emociona.
Não raro, fico imaginando como Vinicius se posicionaria diante de um mundo como o de hoje. Que poemas sairiam de seu laptop, o que escreveria no seu blog, o que diria do 11 de setembro, qual sua opinião sobre Lula e Obama, se chutaria uma jabulani no campo de pelada de Chico Buarque, se teria assistido a Avatar e também se deslumbrado. O que me diria o poeta, nesta quadra da vida, quando fica difícil acreditar que o amor que ele tanto entendeu e sentiu já não é tão simples de achar? Assim como o Castello, venho mantendo longos diálogos com Vinicius. Trocamos muitas ideias sobre sua vida, tivemos algumas discussões ríspidas, na maior parte das vezes sua presença silenciosa me consolou. Não acredito em fantasmas, nestas figuras sombrias cuja presença medonha se redimensiona nas noites frias de inverno, mas conheço o poder da imaginação. Para Vinicius, a poesia se derramava para fora dos livros, se espalhava pelo mundo e se impregnava no real. Aprendi com ele que a literatura, como um fato que não se pode negar, tem um poder que ultrapassa os gêneros, as convenções e a própria linguagem. Que a literatura ultrapassa a literatura.
Há 30 anos não morria Vinicius de Moraes. Enquanto relia sua obra, me lembrava de como fui arremessado no campo dos sonhos da Literatura por aquelas palavras que me enlaçavam e me perpassavam por dentro, como um alinhave perfeito, como um manto inconsútil de lirismo. E de grandes contradições também. Numa dessas conversas, aprendo com ele que a poesia é a arte da não-razão. Ele cita como exemplo a letra de “Se todos fossem iguais a você” e comenta, rindo: “Já pensou como seria chato se no mundo todos fossem iguais? A poesia não tem razão alguma. Quer uma prova? Você diz um absurdo como este e comove todo mundo”.
Outro dia mesmo, aqui em Friburgo, numa mesa com José Castello, ele mesmo autor de bela biografia de Vinicius, e de Italo Moriconi, falávamos sobre o poeta e de como o tempo se encarregou de solidificar a sua figura mítica e o tornou um autor cult. Italo, como sempre, foi preciso: mostrou que a ideia de um autor cult se define, antes de tudo, pela presença de um culto. De alguma forma, cultuamos os escritores que amamos. Isso é bom? É ruim? É humano. Precisamos desses fantasmas que nos consolam e amparam. Vinicius é um fantasma camarada, aquele que nos socorre quando a noite já vai alta, e os medos e as saudades assumem contornos dramáticos. Ele chega, de mansinho, e sussurra “O amor por entre o verde” ou “O Mergulhador”. Recupera-se a paz, e achamos, de imediato, o caminho para a esperança perdida. Recomendo: doses maciças de Vinicius de Moraes, em tempos de paz, em horas desesperadas, ao longo de interregnos amorosos, em plena saudade, na dor, na mais irresponsável alegria e, sobretudo, quando estiver amando a vida e a mulher, os dois únicos cenários nos quais, segundo Vinicius, a felicidade até existe.

Ouça Vinicius declamando o soneto da Fidelidade: http://www.youtube.com/watch?v=PMZ10B82ZZg

terça-feira, 27 de julho de 2010

VINHO


A mulher observa a taça que tem entre as mãos. A delicadeza da haste facetada, abrindo-se em seguida para formar o bojo de matéria finíssima, sulcada de pequenos arabescos. Contra a luz das velas, o vinho cor de sangue só faz realçar a delicadeza dos desenhos escavados na substância transparente.
Sabe que o cristal, com sua beleza quase divina, nada mais é do que a mistura de chumbo, músculos, suor, ferro e fogo. Todos esses elementos brutais unidos, entre fogo e treva, para que apenas um sopro suave desse, em definitivo, a forma mais delicada que se conhece do vidro.
Põe a taça sobre a mesa. Levanta-se. Alcança, sobre a estante, o livro de capa azul que lia devagar, degustando cada página como se fosse um gole de um vinho raro, esquecido numa adega. Abre na página que descreve o amor dos protagonistas. Imediatamente, deixa-se cair novamente no sofá, o livro entre as mãos e estas sobre os joelhos. O fino louro cabelo cai-lhe sobre o rosto como uma cortina que a separasse do mundo, escondendo-a, isolando-o. Sente as lágrimas formarem um volume no canto dos claros olhos e, por um instante, se dá conta que essas gotas frágeis, salgadas, sofridas podem ser como o chumbo no vidro, a criar uma nova matéria, mais forte, mais bela, suave e poderosa como o cristal das taças de todos os vinhos que amou.
Debruça-se sobre a mesa e recolhe a taça, ainda com algumas lágrimas de vinho. Volta a admirar a translucidez do cristal, a concavidade que dava suporte ao líquido vital, como o oco de duas mãos que oferecem algo valioso e raro, o amor. In vino veritas. As taças de vinho traem, revelam. Em sua superfície refletem marcas de antigas paixões e seu conteúdo vermelho cintila muitas vezes nos olhos de quem as empunha, pois é exatamente ali, nos olhos, que os desejos cavam sua última fronteira.
Agora, de olhos fechados, sente nas costas correr um relaxamento intenso e, na pele do rosto, um calor extremo de sol. Com os sentidos em alerta, percebe a mínima variação da brisa da noite trazendo os murmúrios da rua, os choros contidos dos bares, o riso infeliz que decreta o fim de um amor, e as lembranças que começam a formar um mosaico incômodo porque repleto de dúvidas - onde estará aquele que, num dia distante, escreveu no guardanapo do restaurante onde também tomavam vinho: “com as asas do amor eu ultrapassei essas muralhas, porque elas não podem manter longe o amor...”.
Virou de uma vez o último gole e recomeçou a ler o livro a partir daquela página que, agora, estava marcada com gotas de vinho e lágrima, para sempre, indistintamente.

terça-feira, 13 de julho de 2010

A ADMIRÁVEL MÁQUINA DO NOVO TEMPO


Ao considerarmos a Literatura como espelho multifacetado do seu tempo, podemos seguir um caminho fascinante, que é a conexão das histórias escritas com o mundo vivo, dinâmico, paradoxal que as cercam. Lembro de Admirável Mundo Novo (Brave New World), de Aldous Huxley, uma obra cujo título é uma luzinha renitente na vasta área das minhas lembranças de infância: ainda consigo sentir a sensação inebriante de repetir em voz alta aquele título mágico que me levava a pensar num lugar totalmente novo e fascinante. Li, primeiramente, com os olhos da intuição para, anos depois, começar a folhear página por página e entender o que Huxley pretendia.
O título em inglês, Brave New World, é uma citação de Shakespeare, da peça A Tempestade. Lá, a menina Miranda, que cresceu numa ilha deserta e nunca viu outro rosto além do de seu pai, Próspero, exclama ao ver um grupo de náufragos europeus: “Ó admirável mundo novo em que vivem tais pessoas!”. Nesta altura da peça, os espectadores sabem que, entre os europeus, há também pessoas altamente corruptas. Já na época de Shakespeare, as palavras de Miranda sobre o admirável novo, velho mundo, vinham carregadas de uma indisfarçável crítica à civilização. Uma adaptação livre de A Tempestade pode ser vista no filme O Planeta Proibido (1956), dirigido por Fred Wilcox, estrelado por ninguém menos do que o então sério Leslie Nielsen, que só anos mais tarde viria a descobrir o seu talentoso lado histriônico em comédias como Police Squad.
Huxley tocava num conceito que aparecera, anos antes, num texto curto de Thomas More, humanista e estadista inglês, intitulado Utopia (1516). Escrito em latim, a composição falava sobre a ordenação ideal de uma entidade comunitária: uma ilha distante, de difícil acesso, no meio do mar. Utopia significa, literalmente, “não-lugar”. O termo é composto por ou e topos (não e lugar em grego, respectivamente), com o sufixo latino ia. More estava pensando em mais de um significado com seu neologismo, pois em inglês os prefixos ou e eu têm a mesma pronúncia e, então, utopia soa como a palavra grega eutopia, “bom lugar”.
Se as utopias dos séculos XVI e XVII eram ilhas distantes, alcançadas por navios, as que têm início nos séculos XIX e XX não se situam mais em lugares inexplorados da Terra, mas no futuro, e são alcançadas pelo caminho do progresso. Na euforia do progresso da era industrial, catalisada pela teoria da evolução de Darwin, os projetos de alternativas utópicas não ficavam mais na ficção. Começava-se a concretizar as utopias, movidas pela crença nas possibilidades infinitas da técnica, da ciência e das reformas sociais.
A Literatura, entendida aqui como força e percepção, produz, por outro lado, as antiutopias, como é o caso de “A Máquina do Tempo”, de H.G. Wells, sobre duas espécies de homens, uma de crianças e outra de canibais, como uma reação de Darwin deixava a impressão de que o desenvolvimento da humanidade criaria seres cada vez mais perfeitos, física e moralmente. Wells criou um mundo contrário, sem esperança. As pessoas do futuro seriam os elois subdesenvolvidos física e espiritualmente, e os morlocks moralmente degenerados. A visão de Wells sobre os dois grupos trazia ainda uma ácida crítica social. Sua imagem impiedosa de uma camada social inferior que devora a superior era sua contrapartida corrosiva sobre a teoria da população do teórico vitoriano Malthus, que defendia o controle de natalidade nas camadas sociais inferiores. O livro de Wells é soberbamente retratado no filme homônimo de 1960, dirigido por George Pal, com Rod Taylor no papel do viajante do tempo que testemunha as futuras e desagradáveis mudanças por que passaria o nosso planeta.
Tanto em A Máquina do Tempo, quanto em Admirável Mundo Novo, as utopias colidem com o limite humano de suportar a ilusão da perfeição. A humanidade feliz, na obra de Huxley, é o resultado de manipulações genéticas e psíquicas. O suposto mundo sem defeitos descrito por Wells serve apenas como cenário de lutas sem fim. Essas duas obras literárias traduzem um sentimento que se reforça quando pensamos nos vários sentidos da existência: que a felicidade até existe, mas vive em contínua refrega com elementos antitéticos que a condicionam.