
Foram Isabela e Priscila que me pediram, eu prometi e, agora, deito-lhes sobre as mãos finas e bem cuidadas, o texto sobre o desastre, a catástrofe e o horror de se ter uma unha lascada às vésperas de um final de semana, quando não há mais tempo para resolver, sanar, remendar, refazer as extremidades pelas quais elas, e milhões de outras mulheres, haverão de tecer planos e armadilhas amoráveis, seja pela caneta que escreverá um bilhete dando Total Access aos seus corações, seja pelo simples gesto de levar o indicador aos lábios, numa atitude que a gente nunca sabe se é de dúvida ou de certeza de que vai conseguir o que – e quem - se quer.
Sim, uma unha quebrada, depois de todo o trabalho de marcar hora, ir ao salão e ficar horas matutando a melhor estratégia para alcançar o “ficante” naquela festa im-per-dí-vel!, é o desespero de qualquer mulher moderna que sabe que o esmalte certo que lhe vai nas extremidades digitais pode ser o fator determinante para que o mundo se encaixe perfeitamente nas suas expectativas. Pois o esmalte da moda deixou de ser apenas um acessório e hoje faz parte da composição do look, assim como os sapatos, brincos, casacos e maquiagem.
O certo é que a vaidade feminina está cada vez mais intensa nas pontas dos dedos. Antigamente, a moda das mãos era mais discreta e padronizada, com tons mais leves para o verão e outros fechados para o inverno. Agora, observo com perplexidade, o mundo fashion permite cores mais ousadas, que passam por azul, verde e até neon, sem falar em todos os matizes possíveis. É só dar uma passadinha na web para se achar blogs e redes sociais nos quais meninas, mulheres e mulherões pegam um esmalte recém-lançado, testam, falam, discutem, se informam sobre tendências. Vejo-as, diante dos frascos, pensando que “este vai melhor com meu cabelo e meus sonhos; aquele combina mais com minhas expectativas e a sandália preta de salto que ele adora; este tem tudo a ver com a roupa e o amor que escolhi”. É um ritual solene, que só os escolhidos a dedo podem testemunhar.
Desta forma, Isabela e Priscila, sei que vocês, lindas e inteligentes que são, se preocupam com este drama da mulher moderna: a unha meticulosamente quebrada naquele lugar que todas as pessoas (especialmente as invejosas) vão ver e achar um horror, mesmo tendo à disposição mais nove unhas perfeitas e harmoniosas, pintadas com o esmero, a arte e a dedicação de um mestre Renascentista. Não, não se pode admitir que o verniz escolhido tão cuidadosamente trinque bem na hora em que todas as cartas do jogo amoroso estão na mesa, à vista de todos. Pois não se subestime o poder dos gestos femininos, delicados, mas firmes, com os quais vocês, mulheres, podem fazer o homem sorrir como um bobo ou chorar de dar dó. O esmalte equaliza a sinfonia regida pelas mãos da mulher que conduz, quando pensamos todos que ela é a conduzida. Assim, a unha bem desenhada, esculpida, delineada, depois de horas de lixa e paciência, deve estar perfeita para que o pincel macio espalhe um Risqué Damasco ou um Arezzo nails Forest Green sobre sua superfície que não pode e não deve se fragmentar, pois uma unha partida dói tanto quanto um coração idem, e as mulheres sensíveis como vocês deveriam ser poupadas de tal sofrimento, a todo custo.
Chega uma hora em que é preciso estar com as unhas afiadas – e pintadas – para agarrar a chance que só vai passar uma vez: a oportunidade de seduzir, através de leves arranhados no braço e no rosto do alvo amado, aquele ainda não foi, mas será, em muito breve. Há algo de felinamente selvagem, em vocês, nestas horas.
Por mais que eu simpatize com a causa, devo deixar registrado em cartório que sou a favor dos esmaltes claros, sempre, embora entenda o fervor com que vocês se jogam na procura de cores fortes para emoções também, como o tom mais escuro do cinza, preferido por Isabela, e um Orly cremoso que faz sucesso nas mãos de Priscila.
Confesso: sou um admirador dessas mulheres que têm certeza do esmalte que querem usar e com elas me solidarizo quando este tsunami de proporções cataclísmicas - que é quebrar a unha na última hora - põe sua sexta à noite em risco de não acontecer. Pior do que enxaqueca, pior do que TPM, pior do que ver o ex com outra, a unha lascada é o teste supremo para a imensa força feminina que lhes habita o coração. Portanto, saibam que eu as entendo neste esforço supremo de manter as unhas perfeitas, sem jaça, inconsúteis, mesmo que o mundo se aproxime do fim ou que qualquer tragédia anunciada se abata sobre seus caminhos. Reluzentes, luminosas, radiantes, sei-as todas, por inteiro. É assim que me sinto perto de vocês: um relâmpago diante de um grande sol.
E por fim, Isabela e Priscila, não percam de vista que, se há algo imprescindível na difícil conceituação de ser feliz, é o seu caráter de permanência. Uma unha quebrada se refaz com o tempo. Um coração também. A definição consciente exige colocar na balança a experiência passada, o estado presente e a expectativa futura do que é felicidade, e chegar à conclusão de que ela, de tão perto e óbvia, pode estar mesmo nas pontas dos dedos.
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DVD: Paul McCarney Good Evening New York - Paul volta ao Shea Stadium para uma belíssima apresentação de seus grandes sucessos. Destaque para a canção "Here Today", que ele compôs para John Lennon, cantada só ao violão, durante a qual Paul chora, emocionado. Os extras são ótimos, com entrevistas e curiosidades sobre a turnê. Veja um trecho do show: http://www.youtube.com/watch?v=co-yucte14Q&p=5E131D09E6C5968E&playnext=1&index=8
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