
Reparou pela primeira vez naquele apartamento quando passava de carro, indo em direção à praça. Pelas cortinas entreabertas, conseguia apenas ver uma parede, banhada pela luz indireta do abajur. Mas nessa parede havia uma estante, que me chamou a atenção pela solidez: estava repleta de livros. As lombadas coloridas davam vida ao ambiente silencioso que ele adivinhava lá de fora.
Não havia uma vez sequer que passasse por ali sem querer subir e conhecer por dentro o apartamento dos livros. Claro, uma mulher morava ali. Sabia disso pelo modo como as cortinas brancas estavam , a cada dia, ainda mais brancas; pelo vidro limpíssimo da janela; pela luz discreta e suave que iluminava as esquinas das paredes; até pelo silêncio que transbordava pela verticalidade das cortinas das janelas dos dois cômodos. A estante com livros estava na sala, cuja cortina estava sempre entreaberta no mesmo ângulo, o abajur aceso, o silêncio enorme que escorria sem manchar as paredes nem, talvez, o chão. Para ele, aquele apartamento era apenas isso: uma parede, uma estante e seus livros. Jamais conseguiu ver o resto da sala. Nunca viu, tampouco, alguém na janela. Contudo, a mulher continuou existindo, por muito tempo, em sua imaginação, com uma clareza quase sobrenatural. Começou a gostar dela, de sua solidão delicada, dos seus fins de tarde à meia-luz, na companhia dos livros. Porque, embora não a visse, sabia que estava ali. Não raro, quando dobrava a esquina, pressentia dois enormes olhos de vidro – as janelas – observando seus movimentos e as intenções que se lhe aconteciam no coração e na mente. Chegou a ficar encabulado.
Mas, desde então, sempre que passava por aquela rua ao cair da noite, mesmo em velocidade mais alta, aproveitava para espiar. Só dava certo se estivesse escuro. Apenas à noite pode-se observar coisas assim, pois é exatamente quando a luz agressiva do dia se dissolve e surgem, através das janelas, as salas e os quartos com sua iluminação própria, fragmento radiante das mãos de quem ali habita. Só então é possível observar, captar fragmentos, compor histórias e, aos poucos, penetrar suavemente nas vidas das pessoas, conhecê-las sem o isolamento das paredes.
Hoje, contudo, passou de novo pela rua e viu o apartamento fechado, às escuras, triste. As cortinas brancas tinham desaparecido. Teve o ímpeto de parar, subir as escadas e abrir a porta. Imaginou ver uma parede nua, onde restariam apenas cicatrizes das prateleiras, sobre as quais, por tanto tempo, viveram os únicos amores da mulher que havia partido e de cujo cabelo ele jamais sentiria o perfume.
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LIVRO: "Os Espiões", de Luiz Fernando Verissimo. Com Os espiões, pela primeira vez o escritor Luis Fernando Verissimo lança um romance que não foi escrito por encomenda. Até então – desde a sua estreia em narrativas longas, com a publicação de O Jardim do Diabo em 1988 –, o autor gaúcho só tinha enfrentado ao gênero por causa do convite das editoras para integrar coleções temáticas, onde o impulso inicial da criação já estava definido. Vale a pena, especialmente num domingo.
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