
13h30min. A chuva fina cobria as árvores da praça com um véu quase imperceptível, como se um grande copo de leite aguado tivesse sido derramado sobre a paisagem. Éramos cinco. Contudo, os pensamentos se interligavam de maneira tão intensa, que, por vezes, parecíamos uma só mente somente. Cinco autores, àquela altura, à espera de uma idéia, de um personagem, de uma solução que deslindasse os desafios que havíamos levado para o almoço. Súbito, uma luminosidade solar corta as gotículas de chuva: Martha chega. “Martha, my dear...”, cantarola mentalmente um dos autores, fã dos Beatles. Ela abre a bolsa e escolhe cuidadosamente a chave apropriada. Gira com cuidado. O som seco do metal partido ressoa líquido na tarde chuvosa. De imediato, percebemos que não teríamos como continuar. Estávamos diante da impossibilidade concreta de uma porta que não se abria para o alinhamento das ideias que manipulamos durante toda a manhã. A longa estrada sinuosa apontava para outras landas. Naquele momento, a porta imóvel era o monolito que os astronautas de 2001 encontraram no espaço. Vencê-la – e isso também significava entendê-la – nos levaria às respostas que formulamos horas antes. Diante disso, cada um de nós, como se tomado por uma força inexplicável, começou a escrever na superfície plana daquela porta, o roteiro definitivo de uma história impossível.
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LIVRO: "Papéis Inesperados", de Julio Cortázar. O livro foi construído a partir de escritos nunca antes coligidos, encontradas por Aurora Bernárdez, viúva do escritor. Leiam o texto no qual a água deseja ser neve. É lindo!
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