quarta-feira, 28 de julho de 2010

VINICIUS


Há 30 anos, morria Vinicius de Moraes. E durante 30 anos, eu procurei evitar escrever esta frase, porque sempre me recusei a acreditar que Vinicius havia mesmo morrido, sem que eu tivesse tido a chance de conhecê-lo pessoalmente. Era uma vontade infantil de quem havia acordado para a literatura exatamente com um livro de Vinicius, Para Viver um Grande Amor; mais exatamente uma crônica, O Amor por entre o Verde, na qual o poeta se deliciava em observar um casal de jovens namorados numa praça. Escrevia o poeta: “Não é sem freqüência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque”. Ainda hoje, o impacto destas palavras ainda me emociona.
Não raro, fico imaginando como Vinicius se posicionaria diante de um mundo como o de hoje. Que poemas sairiam de seu laptop, o que escreveria no seu blog, o que diria do 11 de setembro, qual sua opinião sobre Lula e Obama, se chutaria uma jabulani no campo de pelada de Chico Buarque, se teria assistido a Avatar e também se deslumbrado. O que me diria o poeta, nesta quadra da vida, quando fica difícil acreditar que o amor que ele tanto entendeu e sentiu já não é tão simples de achar? Assim como o Castello, venho mantendo longos diálogos com Vinicius. Trocamos muitas ideias sobre sua vida, tivemos algumas discussões ríspidas, na maior parte das vezes sua presença silenciosa me consolou. Não acredito em fantasmas, nestas figuras sombrias cuja presença medonha se redimensiona nas noites frias de inverno, mas conheço o poder da imaginação. Para Vinicius, a poesia se derramava para fora dos livros, se espalhava pelo mundo e se impregnava no real. Aprendi com ele que a literatura, como um fato que não se pode negar, tem um poder que ultrapassa os gêneros, as convenções e a própria linguagem. Que a literatura ultrapassa a literatura.
Há 30 anos não morria Vinicius de Moraes. Enquanto relia sua obra, me lembrava de como fui arremessado no campo dos sonhos da Literatura por aquelas palavras que me enlaçavam e me perpassavam por dentro, como um alinhave perfeito, como um manto inconsútil de lirismo. E de grandes contradições também. Numa dessas conversas, aprendo com ele que a poesia é a arte da não-razão. Ele cita como exemplo a letra de “Se todos fossem iguais a você” e comenta, rindo: “Já pensou como seria chato se no mundo todos fossem iguais? A poesia não tem razão alguma. Quer uma prova? Você diz um absurdo como este e comove todo mundo”.
Outro dia mesmo, aqui em Friburgo, numa mesa com José Castello, ele mesmo autor de bela biografia de Vinicius, e de Italo Moriconi, falávamos sobre o poeta e de como o tempo se encarregou de solidificar a sua figura mítica e o tornou um autor cult. Italo, como sempre, foi preciso: mostrou que a ideia de um autor cult se define, antes de tudo, pela presença de um culto. De alguma forma, cultuamos os escritores que amamos. Isso é bom? É ruim? É humano. Precisamos desses fantasmas que nos consolam e amparam. Vinicius é um fantasma camarada, aquele que nos socorre quando a noite já vai alta, e os medos e as saudades assumem contornos dramáticos. Ele chega, de mansinho, e sussurra “O amor por entre o verde” ou “O Mergulhador”. Recupera-se a paz, e achamos, de imediato, o caminho para a esperança perdida. Recomendo: doses maciças de Vinicius de Moraes, em tempos de paz, em horas desesperadas, ao longo de interregnos amorosos, em plena saudade, na dor, na mais irresponsável alegria e, sobretudo, quando estiver amando a vida e a mulher, os dois únicos cenários nos quais, segundo Vinicius, a felicidade até existe.

Ouça Vinicius declamando o soneto da Fidelidade: http://www.youtube.com/watch?v=PMZ10B82ZZg

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