quarta-feira, 29 de agosto de 2007

ELVIS NÃO MORREU



Elvis não morreu. Sei que não conto uma novidade, mas sou levado a repetir: o cara está ainda por aí. Pode estar escondido no Havaí ou isolado numa ilha perdida no pacífico. Graceland é para despistar. Pode ter comprado um castelo na Mongóvia, cercado de lagos sobre cujas superfícies ele apara as costeletas encanecidas, logo depois de acordar, lá pelas cinco da tarde, cercado de coelhinhas da Playboy (tem um acordo vitalício com o velho Hefner). Elvis está vivinho da silva, posso ver no recém lançado DVD com um showzaço em Las Vegas, chamado, com toda propriedade de “That’s the way it is”, dirigido por Denis Sanders. O cara era e ainda é isso mesmo. O cara. The Pelvis. Em plena forma física e vocal, como na famosa cena em que canta Love Me Tender enquanto beija as fãs ao lado do palco. Delírio. 1970 era o ano. O Brasil ganhava a Copa e ele mexia as franjas do macacão branco, com golas altíssimas, cheio de strass e lantejoulas que, nele, pasmem, ficava muito bem. As luzes da cidade cintilavam mais porque ele chegara. Fechou cinco andares do hotel, chamou as meninas boas com as quais fazia coisas ainda melhores e confessou, antes do show, que estava nervoso, ajeitando os enormes óculos de lentes azuis. Durante os ensaios, brincava com os músicos, fazendo piadinhas com a tensão pré-estréia. No show, não vacilou em saltar do palco e dar uma volta no meio da platéia. Os fãs, incrédulos, se amontoavam ao seu redor e o agarravam com o que permitia a ousadia da época. Tudo isso restauradinho no DVD duplo como a dupla vida do filho de Gladys, que venceu a data fatídica e, para muitos, fictícia, de 16 de agosto de 1977. Morreu? Que nada. Elvis deve estar conectado na grande rede, lendo sobre as comemorações de 30 anos de sua morte. “Caramba! Quanto tempo!”, exclama baixinho enquanto faz um download da versão beat de Heartbreak Hotel. Ele sabe que os sapatos de camurça azul combinam ainda com uma ponte sobre águas turbulentas. É agora ou nunca. Está livre. Não mais prisioneiro do rock. Tom Parker, o coronel, não mais lhe controla os passos e os gingados. Priscilla só entra com crachá, e Lisa Marie só aparece no Dia de Ação de Graças para pedir um reforço na mesada, aquela ingrata. Ainda grava num estúdio no porão do castelo e treina karatê uma vez por semana. Um dia, ainda deixa fazerem um documentário igualzinho ao que Patrícia Pillar fez agora sobre Waldick Soriano, e ficaremos sabendo que ele teve glaucoma, passou por uma rinoplastia e viveu, em 1962, um romance com a feiticeira Elizabeth Montgomery. Pode ser. Não duvido. Tudo bem, mama, cantarola sem perceber que a velha turma chegou para uma jam session. “Entraí, mermão!”, a voz do ídolo ecoa pela clarabóia da sala de jogos. Elvis continua. Era como ele era e ainda é. Basta ver a imagem digital do show. Lá vem ele. Entra no palco. A galera vibra. Já faz trinta e sete anos e parece que foi ontem.

070829

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

O QUE AS MULHERES PROCURAM NA BOLSA



Joaquim, me perdoe. Peguei mesmo, na mão grande, o título de uma de suas crônicas porque vi, ninguém me contou, olhos femininos cheios de curiosidade assim que se depararam com a frase na capa do livro em cuja página inicial você me escreveu uma das mais singelas e inesquecíveis dedicatórias que já me ocorreram nesse longo trajeto: “Para Fernando, companheiro de letras, uma olhada na bolsa dessas mulheres maravilhosas. Grande Abraço, Joaquim Ferreira dos Santos”. Os olhos a que me refiro quiseram mesmo saber o que contêm bolsas de todos os tamanhos e tipos, de mulheres de todos os tamanhos e tipos, nas horas em que essas mulheres estremecem achando que esqueceram o celular em casa e passam a procurá-lo, desesperadamente, mas com classe, em cada compartimento do acessório essencial. Os olhos femininos em questão se perguntaram se alguém sabia mesmo o que elas, TO-DAS as mulheres, procuram achando que vão achar. Pode ser um batom, pode ser uma edição de O Segredo, pode ser o borrifador com aquele perfume que ela considera infalível, pode ser a chave do carro. Pode ser tudo. Pode não ser nada também. Os olhos femininos sabem que a bolsa é a representação do universo delas, um mundo no qual ninguém pode entrar assim – só se elas deixarem. As mulheres procuram na bolsa os elementos componentes da cosmogonia, pois elas conhecem a natureza da dor e o rastro de vida que é deixado para trás quando a luta já é ontem. Elas têm plena consciência de que deixar um amor é tão difícil quando se entregar a ele, com a diferença que, na partida, abandona-se o melhor de nós calcinado, irreconhecível, sem recuperação, sem DNA afetivo para posterior reconhecimento no IML das lembranças noturnas. As mulheres estão atrás disso quando vasculham a Louis Vuitton que o camelô jurou ser “igualzinha” a da loja, com cuidado para não estragar o esmalte, claro, pois o homem moderno tem a obrigação de saber que uma unha lascada pode devastar todo um plano perfeito para o final de semana. Elas procuram - e não acham – o lugar exato onde os amores verdadeiros podem estar. Sabem que alguns os encontram virando a esquina, outros num chat, como Meg Ryan e Tom Hanks em You’ve got a Mail. Procuram na bolsa o espelho para conferir se têm mesmo a alma nos olhos, aquele olhar de ternura que humaniza a beleza. Sim, pois não basta ser bela – há de ser terna e eterna. Sabem que não lhes basta ser olhada. É preciso que olhem o mundo com olhos de quem realmente quer ver. Em geral, o olhar de uma mulher bonita se perde em vagas emanações de um nada remoto. De tanto ser olhada, esquece que tem olhos. Por isso, essas mulheres procuram na bolsa pedaços de certezas e vão em frente. No fundo, as mulheres buscam, lá no fundo, a confirmação que por mais que se mutile o ser, ele se recompõe. Quando agoniza, na verdade, está renascendo. Como se a inabalável determinação de outrora constituísse, em si mesma, numa cirurgia eficaz, um botox psicológico nas idéias e atitudes. Estão convictas de que a única plástica que funcionaria é a do olhar porque se pode esticar tudo, mas é o olhar que guarda arqueológicas certezas. Elas procuram sem encontrar porque precisam de muito mais informações do que o homem para se apaixonarem e avaliam seu objeto de amor a partir da delicadeza do trato, na firmeza das atitudes, no carinho do toque, no significado que ele, o homem limitado de hoje em dia, dá à relação de amor. Pela teoria einsteiniana, tudo no universo é relativo – com exceção da velocidade da luz, que é absoluta. A isso eu acrescentaria os olhares femininos, absolutíssimos. São esses olhares que perscrutam a bolsa e provam que entre o caos de cremes, batons, canetas, lenços de papel, documentos e fotografias há uma estrutura matemática. Elas sabem que até os sonhos têm uma disposição lógica e estão ligados a alguma coisa femininamente misteriosa. Por isso, procuram na bolsa o que perseguem na vida – alguém que as entenda, alguém que consiga enxergar mais do que elas deixam ver, alguém que, além de saber a diferença entre luzes e balaiage, lhes dê um forte e profundo abraço quando as encontram no fim do dia e as façam se sentir únicas e essenciais.


070815