
Elvis não morreu. Sei que não conto uma novidade, mas sou levado a repetir: o cara está ainda por aí. Pode estar escondido no Havaí ou isolado numa ilha perdida no pacífico. Graceland é para despistar. Pode ter comprado um castelo na Mongóvia, cercado de lagos sobre cujas superfícies ele apara as costeletas encanecidas, logo depois de acordar, lá pelas cinco da tarde, cercado de coelhinhas da Playboy (tem um acordo vitalício com o velho Hefner). Elvis está vivinho da silva, posso ver no recém lançado DVD com um showzaço em Las Vegas, chamado, com toda propriedade de “That’s the way it is”, dirigido por Denis Sanders. O cara era e ainda é isso mesmo. O cara. The Pelvis. Em plena forma física e vocal, como na famosa cena em que canta Love Me Tender enquanto beija as fãs ao lado do palco. Delírio. 1970 era o ano. O Brasil ganhava a Copa e ele mexia as franjas do macacão branco, com golas altíssimas, cheio de strass e lantejoulas que, nele, pasmem, ficava muito bem. As luzes da cidade cintilavam mais porque ele chegara. Fechou cinco andares do hotel, chamou as meninas boas com as quais fazia coisas ainda melhores e confessou, antes do show, que estava nervoso, ajeitando os enormes óculos de lentes azuis. Durante os ensaios, brincava com os músicos, fazendo piadinhas com a tensão pré-estréia. No show, não vacilou em saltar do palco e dar uma volta no meio da platéia. Os fãs, incrédulos, se amontoavam ao seu redor e o agarravam com o que permitia a ousadia da época. Tudo isso restauradinho no DVD duplo como a dupla vida do filho de Gladys, que venceu a data fatídica e, para muitos, fictícia, de 16 de agosto de 1977. Morreu? Que nada. Elvis deve estar conectado na grande rede, lendo sobre as comemorações de 30 anos de sua morte. “Caramba! Quanto tempo!”, exclama baixinho enquanto faz um download da versão beat de Heartbreak Hotel. Ele sabe que os sapatos de camurça azul combinam ainda com uma ponte sobre águas turbulentas. É agora ou nunca. Está livre. Não mais prisioneiro do rock. Tom Parker, o coronel, não mais lhe controla os passos e os gingados. Priscilla só entra com crachá, e Lisa Marie só aparece no Dia de Ação de Graças para pedir um reforço na mesada, aquela ingrata. Ainda grava num estúdio no porão do castelo e treina karatê uma vez por semana. Um dia, ainda deixa fazerem um documentário igualzinho ao que Patrícia Pillar fez agora sobre Waldick Soriano, e ficaremos sabendo que ele teve glaucoma, passou por uma rinoplastia e viveu, em 1962, um romance com a feiticeira Elizabeth Montgomery. Pode ser. Não duvido. Tudo bem, mama, cantarola sem perceber que a velha turma chegou para uma jam session. “Entraí, mermão!”, a voz do ídolo ecoa pela clarabóia da sala de jogos. Elvis continua. Era como ele era e ainda é. Basta ver a imagem digital do show. Lá vem ele. Entra no palco. A galera vibra. Já faz trinta e sete anos e parece que foi ontem.
070829
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