quinta-feira, 6 de setembro de 2007

TÚNEL DO TEMPO



Eu entendi a frase interrogativa desde a primeira vez que ela, a mulher de olhos de cristal, sorriu dizendo aquelas palavras que ainda ardem na alma de quem as ouviu. Mas, modesto, achei que não era comigo. Ora, veja só, será que eu não me enxergava?
Há muito tempo que eu não entendo mais nada. Talvez tenha sido, sem saber, o primeiro membro do movimento “Cansei!”. Por isso, preferi ficar distante, fingir que estava prestando atenção a outra coisa, sair de fininho. Não deu. Ela estava ali, hierática, esperando a resposta, séria e compenetrada como uma Ellen Gracie antes de uma votação do Supremo, só que muito, muito mais bonita. O que a levava crer que eu sabia a resposta me era desconhecido. Já era tarde. Chovia. O mundo estava em paz - à exceção do Oriente Médio, claro - e não haveria motivo aparente para se levantar questões desta ordem, tão profundas, tão desconfortavelmente atormentadoras. Há coisas terríveis para as quais não se tem uma explicação satisfatória. Paciência, fazer o quê? São várias: receber uma ligação de uma antiga namorada depois de anos, por exemplo. Ser capturado por uma melancolia inesperada no final da tarde. Não conseguir dormir e queimar-se de saudade. Amar sem poder ser amado. Ser amado sem saber amar. Absurdamente, teimosamente, desesperadamente, olhar para o celular à espera de uma ligação ou torpedo que nunca vem. Receber uma mensagem no Dia do Amigo exatamente daquela pessoa que dorme de camiseta branca no seu coração. Essas coisas doem. Doem para sempre. Injetam na corrente sangüínea uma dose considerável de raiva e angústia. Perde-se, então, a vontade de sonhar. A ruptura com a felicidade se instala sem trégua. E não há analgésico que dê jeito – todo o corpo parece dilacerar-se em ondas de febril sofrimento. Por isso, a frase da tal mulher de olhos de cristal (fazia-se assim) bateu na trave do campo de futebol que tenho no coração - onde jogo mal e quase sempre perco - e entrou no fundo das redes, sem chance de defesa. Mal pude perceber que a sentença da quase-Gracie era uma pergunta, pois a moça disfarçou o suposto tom interrogativo com um drible de língua, daqueles que deixam os fonemas oclusivos no chão e os bilabiais da arquibancada de boca aberta. Numa imagem de esgrima, foi uma estocada verbal, com a classe de um florete levíssimo. Sangrei pouco, por timidez. Uma vez disparada, a frase-míssil executou uma parábola perfeita e fez piscarem as luzes que suponho existirem no córtex cerebral que me recheia o crânio. Assim como Tony Newman e Doug Phillips, me perdi num torvelinho de um túnel do tempo particular e fui jogado num mundo antigo, escondido num daqueles escaninhos empoeirados da memória. Súbito, uma mulher corre no jardim da minha infância, despenteando flores e desmontando o tempo; o sol vermelho, dardejante, encontra, enfim, morada nos seus olhos de fogo que, um dia, viram Seabiscuit e que, de tão sensíveis, notavam, sem dificuldade, a rotação da Terra. Vá entender os caminhos de rato da memória. A quase pergunta – pois era mais um pedido de socorro – reverberava ainda na capilaridade auditiva de meus tímpanos cansados de ouvir tanta explicação para nada, tanta distração para a angústia, tantas promessas que se perderam no tempo, como lágrimas na chuva. Entendi perfeitamente as 19 palavras que ela proferiu numa voz firme, mas com manchas de sangue coagulado. Cada um dos 19 vocábulos veio-me cinzelado pelo Escultor Divino, a quem sempre recorremos na hora do aperto. Por isso, pensei: “Meu Deus! O que digo?”. Sou tímido no lidar com as pessoas. Prefiro o eyekissing. Gostaria de ter respostas prontas. Sábias, de preferência. Na hora, não tinha nada, não sabia nada, não entendia nada, com toda a ênfase niilista que essas duplas negativas me proporcionavam. Perdi o chão. Desliguei o reverso das duas turbinas que me movem as engrenagens atrás dos olhos míopes e fiquei em silêncio, mesmo depois da terceira vez que ela usou o chicote de Indiana Jones para eu dizer alguma coisa:
- Fernando, como amar alguém que em vez de se afirmar pela presença, se eterniza em nossa vida pela ausência?
Não tenho a mínima idéia do que pensei na hora. Digitei mentalmente a palavra “help” no Google da alma e esperei a salvação. Que responder à moça de olhos de cristal que, agora, me fitava aflita com os mesmos? Só o fato de não ter sido acometido por uma fulminante catatonia já me enche de orgulho. Procurei emular Drummond, que dizia que um mundo confuso pede também um método confuso. Não me seria difícil. Quis lhe dizer - mas não soube como - que não há instrumento, não há força, nada que adiante. Resta a delicadeza. E, sobretudo, a atitude que justifica tanto sofrimento: a paciência de esperar.

070905

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