
Tudo ainda está muito quieto. Ainda é cedo. Lentamente, as pessoas começam a passar. Acho isso bom. Neste imenso e líquido silêncio escuro em que me encontro há tanto tempo, é sempre bom ver movimento através, que seja, desta visão vítrea, supostamente fria, asséptica. A manhã irrompe com o barulho frenético do trânsito, da força dos elementos, do toque, por vez suave, por vez duro, das solas dos sapatos na poeira sem nome das calçadas. Aqui dentro, ainda faz o frio úmido das águas já turvas que rodopiam nesta parede circular. A primeira dona de casa se aproxima, me vê com um olhar vazio e segue adiante. Está mal vestida e parece ruminar dores antigas. Sua blusa precariamente ajambrada lembra um pano sujo sobre o qual se derramaram lágrimas de raiva. O senhor que ora flana pelos corredores pensa na filha que finge não o abandonar com ligações a cobrar para seu celular. Sei disso porque escutei uma conversa que ele teve com um conferencista, que também simulou interesse e sequer o ouviu. Foi outro dia, mas pareço rever a cena várias vezes cada vez que ele passa procurando nada que possa ser encontrado ali. Surge uma moça de cabelos claros que também gosta deste recanto. Já reparei: não raro, pára de repente e o olhar se perde de uma forma tão desabrigada, tão desprotegida, que lembra a protagonista cega de Luzes da Cidade, de Chaplin. Tenho ímpetos de lhe adoçar a boca e o mundo, mas minha natureza sabe a um travo não deve combinar com sua existência destemperada. Pena. Crianças correm. Alguém pergunta as horas. O dia avança. Súbito, uma outra forma feminina se aproxima. É séria. Os cabelos longos ainda a fazem mais alta, como se, de fato, não andasse ali como o fazem o restante dos seres humanos. Não pretende comprar. Os aromas e as cores não a seduzem. Apenas veio àquele lugar como se acorresse a um chamado misterioso, ao qual ela não ousaria desobedecer. Do outro lado da rua, percebo que alguém atravessa depressa, não sem antes hesitar por angustiantes momentos. Ele também a viu e decidiu, num átimo, se aproximar, mesmo temendo que ela não soubesse lidar com a grande janela de tempo que se fechara sobre seu jardim. Espreita, por trás de uma prateleira de biscoitos, a mulher séria e alta, a que está prestes a descobrir o que veio fazer ali. Ela flutua em direção à bancada de maionese, e ele finge escolher uma marca de cream crackers. Ainda estão a certa distância, mas o destino já os conduz pela mão ao longo do setor dos enlatados. Vão se achar, finalmente, no mais prosaico dos lugares – um supermercado simples, repleto de gente distraída que nunca imaginaria que duas pessoas que há muito tempo não se viam, mas que evidentemente não deixaram de se amar, iram se reencontrar. Por trás do vidro gélido, eu tudo via e me sentia importante. O desfecho daquela história certamente ficaria comigo para sempre e eu sentiria que valera a pena o confinamento, o vidro redondo, a tampa entarraxada e selada de fábrica. Alguns passos os separavam. Meu coração vegetal pululava de ansiedade...
_ Mãe! Achei as azeitonas!
O grito me soou ainda mais pavoroso quando percebi os dedos gigantes eclipsarem a cena que tinha diante de mim. Fui jogado, juntamente com meus pares, num carrinho cheio de compras que, guiado pelas mãos inocentes de uma criança, virou rápido para a seção de frutas e me subtraiu a melhor cena que eu poderia ter visto em toda minha vida.
070919
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