domingo, 31 de março de 2013

SIM, ELE FALOU...

Sim, ele falou e escreveu, e ela falou e escreveu melhor ainda, dando de 10 a 0 nele, deixando-o vendo estrelas, então e agora,  o deixando zonzo, como depois de um cruzado de Tyson; em xeque-mate; dando uma cortada da linha de três metros; ultrapassando na primeira curva, driblando o goleiro, sem humildade em gol. Mas eu já esperava por isso, desde que a vi pela primeira vez, e aquela cena ficou colada na cortiça do meu cerebelo, uma linda mulher que entrou pela menina dos meus olhos e que cisma em não sair, um cisco de luz que chega a minha orelha. Sei lá se é um bilhete para Passárgada, Strawberry Fields Forever, ou qualquer desses paraísos fiscais da felicidade que os poetas de tempos em tempos sugerem. Que ela venha toda de branco, toda molhada e despenteada, como disse bem Ben Jor, e sopre seus lirismos para dentro de meus pulmões cansados, desparagone a página certinha quando algum tsunami vier bater em sua janela, sofistique o vocabulário e me obrigue a suar a camisa para escrever alguma coisa que preste, alguma coisa que esteja à sua altura sentimental e que seja capaz de mudar o rumo das nuvens. Alguma coisa que fale também em beijinhos trôpegos, em doces vampiros, em chás que – ai...! - não acontecem, em articulações braquiais com a cintura escapular, em pontos de interrogação, finais e gês. E que a isso se aduzisse algo como toalhas molhadas, sanduíches de presunto com queijo, poemas vinicianos, sapatos com a ilusão de salto, unhas brancas and forgotten glasses, numa viagem em que juntamos lábios para beijinhos sem ter fim, trôpegos ou não, selvagens ou não, mas permanentemente molhados de desejo e suor. Eu, genuflexo, boquiaberto sem chances de me boquifechar diante desta capacidade de reinventar cheiros, toques e as tão íntimas palavras que dizem tudo, essas que andam sem calcinha pelos corredores da alma, e que deixam claro o que sente o mergulhador imerso em mar e na bela mulher, em cujos ouvidos o velvet da língua inglesa se intromete molhado, nervoso, elétrico. Se somente as rádios FM podem transmitir ondas assim, surfo-as, curto-as e emulo um tal poeta que também versejou sobre os mesmos braços líquidos que me cercavam num abraçar completo das águas femininas. Cai a temperatura. Ai o queixo. Quedo-me em admiração. No papiro da pele desta mulher, o Calígrafo Supremo parece ter rabiscado os primeiros versos que eu gostaria de ter escrito. Na falta de incenso e mirra, balanço em sua honra meu turíbulo de maravilhas semânticas. Sempiterno. Frêmito. Orquídea.   

ELE, ELA E O CAMINHO DAS LETRAS


Sim, ele falou e escreveu, e ela falou e escreveu melhor ainda, dando de 10 a 0 nele, deixando-o vendo estrelas, então e agora, botando-o no lugar dele,  deixando-o zonzo, como depois de um cruzado de Tyson; em xeque-mate de Karpov; dando uma cortada da linha de três metros que só Giba consegue; ultrapassando na primeira curva ao estilo de Senna, driblando o goleiro igual a Zico, sem humildade em gol, como Fio Maravilha, com a precisão de uma tacada de Tiger Woods. Mas eu já esperava por isso, desde que a vi pela primeira vez, e aquela cena ficou colada na cortiça do meu cerebelo, uma linda mulher que entrou pela menina dos meus olhos e que cisma em não sair, um cisco de luz que chega a minha orelha fria e carente de segredos e confissões amoráveis. Sei lá se é um bilhete para Pasárgada, Strawberry Fields Forever, a Ilha Misteriosa, Além do Horizonte, a Tonga da Mironga do Kabuletê, ou qualquer desses paraísos fiscais da felicidade que os poetas de tempos em tempos sugerem. Que ela venha toda de branco, toda molhada e despenteada, como bem disse Ben Jor, e disse-o bem, e sopre seus lirismos para dentro de meus pulmões cansados, desparagone a página certinha quando algum tsunami literário vier bater em sua janela, sofistique o vocabulário e me obrigue a suar a camisa para escrever alguma coisa que preste, alguma coisa que esteja à sua altura sentimental e que seja capaz de mudar o rumo das nuvens, além de trazê-la para mais perto. Alguma coisa que fale também em beijinhos trôpegos, em doces vampiros, em chás que não acontecem, em articulações braquiais com a cintura escapular, em pontos de diversa natureza, sejam eles de interrogação, exclamação, finais; do ponto a até o b, incluindo o g (ai...). E que a isso se aduzisse algo como toalhas molhadas, sanduíches de presunto com queijo, poemas vinicianos, sapatos lilases com a ilusão de salto, unhas brancas and forgotten glasses, numa viagem em que há de se juntar lábios para beijinhos sem ter fim, trôpegos ou não, selvagens ou não, mas permanentemente molhados de desejo e suor. Eu, genuflexo, boquiaberto sem chances de me boquifechar diante desta capacidade de reinventar cheiros, toques e as tão íntimas palavras que dizem tudo, essas que andam sem calcinha pelos corredores da alma, e que deixam claro o que sente o mergulhador imerso em mar e na bela mulher, em cujos ouvidos o velvet da língua inglesa se intromete molhado, nervoso, elétrico. E a língua que se transforma em palavras, que se transformam em cartas escritas sobre o corpo amoroso, usado como apoio definitivo; cartas que se escrevem na cama sobre o corpo amado, com a ambígua pena que fere de amor a superfície da pele/papel do corpo que se ama, deixando nele o gozo da escrita amoravelmente literária. Se somente as rádios FM podem transmitir ondas assim, surfo-as, curto-as e emulo um tal poeta que também versejou sobre os mesmos braços líquidos que me cercavam num abraçar completo das águas femininas. Sobe a temperatura. Cai o queixo. Quedo-me em admiração. No papiro da pele desta mulher, o Calígrafo Supremo parece ter rabiscado os primeiros versos que eu gostaria de ter escrito, se não me faltassem engenho e arte para tal nobre tarefa. Na falta de incenso e mirra, balanço em sua honra meu turíbulo de maravilhas semânticas. Sempiterno. Frêmito. Orquídea. Farpela. Bruma. Uma mulher assim está pronta para algo definitivo. Merece as margens do Sena e um pôr do sol em Paris. Merece jazz com sorvete de chocolate. Fellini com Hitchcock. Perrier com trufas. Star Wars com Enterprise. Se ela finalmente se deu conta de caber tantas coincidências numa estante, num instante, como posso discordar? Se fica a marca no seio e no coração, por proximidade, por paixão, abstenho-me de teorias psicanalíticas para explicar o que não pode ser entendido, e apenas aceito o que me acontece como dogma de fé, pois é melhor que coisas aconteçam assim, antes à tarde do que nunca, do que ficar tomando chá de cadeira no grande baile dos desencontros e, sem esperança, desistir da vida. Se esta mulher sentiu um arrepio a lhe percorrer o corpo, se ela sentiu crescer em seu interior sensações de nervoso e desejo, e se ela se sentiu linda, então está tudo certo, como dois e dois são (de) quatro e não se fala mais nisso; então todos os astros se alinham, então todo o universo conspira a seu favor, com a bênção de todos os jargões de autoajuda que ora recebo nestas correntes que devo mandar para vinte pessoas, com a alma completamente aberta e humilde. Se há tantas coisas que acontecem quando menos se espera, pois aro a minha h(a)orta particular com simplicidade e com a sabedoria tirada dos versos de Vinicius de Moraes e dos boleros de Anísio Silva, como ter vivido plenamente antes, sem o que se supõe ter agora? Se a gente pode ler histórias amoráveis no corpo amado e se o mundo continua assombrado, sem saber para aonde vão as canetas Bic perdidas, durma-se com mais este mistério: para onde vai esta mulher, depois que esquece, distraída, suas doçuras e sonhos dentro de mim?   

sábado, 30 de março de 2013

AQUELE HOMEM


Aquele homem anda rápido em direção a lugar nenhum. Carrega consigo um bornal cheio de recordações, e há cartas de amor no bolso da calça jeans desbotada, igualzinha àquela de Detalhes. Poder-se-ia dizer que é um homem de sentimentos, que quase chora ao se dar conta da saudade daqueles momentos em que, distraído, tropeçou na felicidade e se deu conta de que ela até existe.  Há os que se entregam à bebida, ou que preferem levantar peso com alteres improvisados, só para esgarçar a manga da camiseta Hering, quando fazem um L com o braço musculoso e o antebraço de Popeye, ao segurar a “long neck” que é a chave do paraíso dos comerciais de TV. Há os que se escondem em casa, num auto-exílio de cortar o coração em fatias isométricas como com aquelas facas guinzo 2000, e ficam horas em um silêncio mais profundo do que certos decotes em cujos interiores muita vida já se perdeu. Aquele homem está nas ruas, nas estradas brancas de nevoeiro, nas esquinas dos sofrimentos sem sentido e consentidos, pois não se pode ter uma vida completa sem uma dose exata de dor trincando sonhos e planos. Talvez já tenha aprendido que sábado costuma ser o mais cruel dos dias para quem tem a solidão no DNA ─ sobretudo para quem gosta de Clarice Lispector e Rubem Braga e que acha possível substituir o beijo molhado e a língua atrevida por uma página ou duas de puro lirismo. Até dá, mas não por muito tempo.
  

O CÉU


Me desculpem começar assim, logo com um pronome oblíquo abrindo as alas do desrespeito à norma culta da última flor, ir logo metendo os pés pelas mãos, sem desviar do paralelepípedo semântico que me inchou o dedão, logo depois de chutar, sem mais, sem menos, uma resposta certa neste Enem existencial, quando se vê, sem o filtro do distanciamento, se os meninos viraram mesmo homens. Preferi buscar palavras no bornal que escondo debaixo da cama e ao qual recorro sempre que quero um termo mais exato, uma palavrinha mais ensaborrilhada, dessas que encaixam perfeito, como o clique das mãos dos namorados, diante dos perigos do mundo. O fato é que não adiantou o domingo estar completamente azul, se havia nele uma ausência que era maior que todos os azuis tristes que conotam o “blue” em língua inglesa, maior que todos os poemas de saudade, maior que a maior das medidas. Preferi passar por morto, que era mais ou menos próximo do que eu era mesmo então. Vítima de uma queda de pressão súbita e incontornável, achei melhor deitar-me nas esperanças que me serviam de maca naquele momento. Esperei que uma ambulância vermelha dos bombeiros viesse me recolher, o recém quase defunto, para longe daqueles olhos perfeitos, para algum lugar aonde não chegassem cartas ou e-mails, uma sala ampla e clara. No local, perpassar-me-iam tubos translúcidos, em meio ao bip nervoso de alguma máquina que desse suporte à vida que ainda me restava, líquida, na tubulação venosa. Achei que estava num daqueles espaços intermediários que algumas religiões decantam: a porta entreaberta entre a vida e a não-vida, esta sim pior que a morte propriamente dita, que deve ser uma ausência de tudo, creio. O processo já se iniciava, e ainda pude ver, de relance, alguns rostos conhecidos me olhando com preocupação no corredor do que me parecia um enorme hospital: Rachel, Ross, Will, Morgan, Clint... de onde estava, pude perceber que uma enfermeira colocava meus pertences numa espécie de bolsa plástica e, entre eles, vislumbrei meu celular, tão mudo, tão sem função... para quem ligaria? Para ela - uma fotografia na parede da memória que, como naquele poema de Drummond, dói. Era ela, rindo e dizendo “até parece...”, depois de qualquer bobagem romântica de minha parte, e que são muitas. Era ela, entre tic-tacs e um celular com barulho d’água, entre letras e bytes, livros e Elvis. A meu favor, havia a surpresa de minha quase morte súbita, cuja notícia, entreouvida, não raro, num lugar inesperado, fatiariam o coração da referida em alguns mil pedaços que boiariam no molho quente da incredulidade e do susto. Porém, se assim fosse, eu nem saberia sequer se ela sentiria a minha falta, se o órgão propulsor de seus sentimentos bateria um tambor movido à mais poderosa Duracell, ou seria apenas um som fraco, abafado, quase inexistente, como uma tosse no meio da noite. Esta dúvida era pior do que a sensação de ausência de vida, eu lhes garanto. Tudo ia mal, muito mal, quando, de inopino, ela me surge dobrando a esquina da memória e mudando o rumo das nuvens. Eu não tinha mais como dar a volta. Eu avançava pela calçada no passo acelerado de quem segue movido por “Every breath you take”. Ela ajeitava os óculos. Eu sentia o vermelho do sangue se evaporar de minhas veias. Ela era uma festa de brincos e sarais retrôs. Eu ia me dissolvendo como um homem de areia, de joelhos, num ciclone. Ela parecia flutuar, como uma fada faria. Logo, eu estava a quatro passos de entrar numa cena de felicidade em que já estivera por longo tempo. Passei a provocar o coração para que ele decidisse rápido – faltavam apenas dois passos, e ela já se cansara de procurar o celular na bolsa, e eu temia que o mundo acabasse se ela me olhasse nos olhos e não me reconhecesse, se eu sorrisse e recebesse de volta apenas aquele olhar que damos quando vemos um bêbado caído na sarjeta, um olhar de que gostaria-de-fazer-alguma-coisa-mas-não-posso; e então ouvi a voz de um anjo bom me dizendo no ouvido para que acreditasse no amor, pois a distância tem dessas coisas. A imaginação funciona numa direção, mas a realidade pode ser muito diferente, até oposta. Por isso, quase sempre optamos pelo drama. O copo d’água ganha, então, sua tempestade. Tornamo-nos romeus aos pés de julietas, lindas e perfeitas, mas distantes, altas e inatingíveis como torres. Todos os sucos de pêssego do mundo seriam insuficientes para edulcorar o enredo. No entanto, o anjo insistia, deve haver, bem lá dentro da alma, alguma coisa essencial que não pode se perder e que só tem sentido com aquele outro que agora não está..., mas deveria.

TALVEZ TENHA SIDO VOCÊ


Talvez tenha sido você, não sei. Eu estava do outro lado da rua e, de repente, no meio de um torvelinho de pessoas que andavam freneticamente de um lado para outro, vi  um sorriso que poderia ser seu. Alguém se virou, falou alguma coisa em voz alta, e a dona do sorriso apenas riu mais um pouco, só para terminar o assunto, como se prescindisse das palavras. Uma outra onda de seres robotizados se precipitou sobre a minha linha de visão e perdi o sorriso de vista; e aí devo ter me sentido como um náufrago antigo que, de um momento para o outro, no meio de um oceano gelado, como aquele que engoliu o Titanic, se perde dos botes salva vidas para ficar abandonado no meio do nada, o coração adormecido, sem entender a morte surgindo tão perto da vida. Mas, para certas coisas da vida não há mesmo explicação.

            Parei numa banca de jornal e fingi que lia as notícias do dia. Era um subterfúgio. Queria apenas me apoiar na realidade jornalística e esquecer o sonho que me atingira, há pouco, em plena via pública. Essas epifanias deviam ser proibidas por alguma lei sensata. Ninguém deveria ter sua vida alterada pela simples visão alucinatória de uma parte qualquer do corpo da mulher amada, num dia de semana, num dia comum de trabalho que deveria ser calmo e tranqüilo, sem estas excitações que só confrangem e debilitam os corações. Eu, portanto, assim no meio de estranhos e da poluição do centro da cidade, não deveria lembrar, sem o pronto pagamento de uma multa elevadíssima, que um dia aquela mulher entrou definitivamente na minha vida sorrindo desta mesma maneira e se instalou no meu coração da mesma forma leve e suave com que sentava sobre as pernas, na poltrona da sala, descalça, sorrindo, usando a única peça de roupa disponível depois do embate amoroso: minha camisa desabotoada. Foi, então, que percebi que nenhum sonho é autêntico; realizá-lo é que é.

            Sim, talvez tenha sido aquela mulher que procuro, no meio daquelas pessoas, naquele burburinho incessante do centro da cidade. E, de nós dois, talvez tenha sido eu o de mais sorte, pois vi alguém que achei que era você e, de repente, me dei conta do belo reino que recuperei. Imediatamente, fiquei rico de você e tive mesmo a impressão que as pessoas que passavam por mim me observavam com inveja e espanto de ver alguém tão simples e comum ostentar nos olhos o brilho inequívoco e raro de quem reencontrou, mesmo que por um breve instante, o futuro amor de sua vida...


AFINAL, O QUE QUEREM AS MULHERES?


Ele saiu da festa com aquelas mulheres na cabeça. Afinal, o que elas queriam? Essa era a pergunta da moda. Eram lindas, sorriam seu melhor dente e suas unhas perfeitas e vermelhas refletiam os flashes das câmeras digitais e as luzes do ambiente. Estavam, aparentemente, felizes, sem nada a lhes ameaçar o momento de confraternização com os amigos. Nesta época de Natal, elas é que são as festas, lindas, soltas, mas, ao mesmo tempo, também são misteriosas, indecifráveis, esfingéticas, como se quisessem que soubéssemos, sem perguntar, o que, por que, como e quando querem.
Com este desafio, já em casa, sentou-se diante do notebook, cuja tela era a única luz na sala, e começou a tentar descobrir o que uma mulher poderia querer:
“Agora, no momento em que escrevo, não sei o que ela quer, mas sei que está sorrindo umas orquídeas num jardim além do tempo. Afinal, o que querem as mulheres? E o que quer essa mulher em especial, em cuja alma todas as outras habitam? Ela pode querer saber que alguém se sentaria diante dela, num jantar à luz de velas e a ouviria a noite inteira, e me basta ter a consciência de que ela pode estar iluminando poeticamente, por alguns instantes, com um sorriso raro, meio triste - mas definitivo – a realidade dura que a envolve com dores ancestrais, como num tango trágico, mas belo e arrebatador.
Ela pode querer saber que a felicidade até existe, mas começa o dia concentrada nas suas atividades profissionais. Mesmo pegando o ônibus, vindo de carro, ou mesmo a pé, ela quer flutuar nos sonhos que seus olhos não escondem. As obrigações do ofício não lhe impedem de se entregar ao imponderável, às suas dúvidas e temores. Sem falar nas saudades que doem, queimam e estão aprisionadas na distância. O que, de fato, querem as mulheres?
Essa mulher, em especial, pode querer que entendamos que certos encontros podem não ser em linha reta e nos tempos cronológicos. E uma história de amor, às vezes, está escrita fora de ordem, possivelmente para pôr à prova o sentido da transcendência de sua própria ordem. E, sobretudo, para testar se somos capazes de refazê-la no verdadeiro sentido - e, aí sim, para sempre. Deve ser isso, sem dúvida, entre tantas outras coisas, o que elas querem.
Um dia, confesso, vi-lhe as aspirações de uma nova vida, de uma felicidade incerta e intensamente desejada, transbordando de um olhar melancólico, numa cena indefinidamente inesperada: na entrada do colégio, ela se deixava olhar para lugar nenhum, o rabo-de-cavalo graciosamente se mexendo ao menor movimento da cabeça, a mão direita levemente içada à altura do rosto, como se quisesse se esquivar de algum pensamento ruim. O que queria essa mulher?
Passei várias vezes por ela, sempre com a intenção de trocar uma ou outra impressão e dela receber um olhar daqueles. Arranjei desculpas. Arquitetei pretextos. Mas por mais que já estivesse curioso para saber o que ela queria, resolvi conservar intactos a distância, os sonhos e, claro, o coração. Tentei, cirurgicamente, esquecê-la por alguns dias. Contudo, a vida tem suas inesperadas reviravoltas e, numa tarde, vi-a na rua, andando rumo a seu destino de mulher séria, contida, com um pedaço grande visivelmente faltando tanto na alma como no coração. Detive-me nos olhos dela, sem que ela me visse e percebi naquela mulher um olhar para além da eternidade. Que fazer? O que ela poderia querer? Voltei então a pensar literariamente naquele rosto, mesmo achando que este seria um pensamento especial, um pensamento desses que a gente reserva egoisticamente para aliviar a dureza da vida, a desesperança, o desamor, e que não revela para ninguém, com receio que nos roubem. Se pudesse falar com ela naquele momento, recomendar-lhe-ia a leitura da poesia de Murilo Mendes, ou um soneto de Vinicius, mesmo que ela já conhecesse. E por que não, juntamente com os versos, o Concerto para Nota em Sol, de Bach?
Mas ela, passando por mim, teimava em não passar para mim. O que ela quer, afinal? Pus-me em alerta: temi que fosse somente onda, uma nuvem sob a qual ficaria tentado a depositar minha vida. Se isso fosse verdade, seria como no poema de Cecília – ficaria sem poder chorar quando caísse. Lutei. Relutei. Preferi, enfim, banhar-me na luz de sua vontade indecifrável. Até que cheguei à conclusão de que valeria a pena correr o risco de me aproximar de uma pessoa tão iluminada, mesmo que tão desconhecida, mas, ao mesmo tempo, tão familiar como um caminho que se percorre todos os dias em direção ao próprio destino.
Ela talvez queira que saibamos, sem que ela precise dizer, que bons amores resultam do acerto de grandes e pequenos detalhes: um olhar, um sorriso, uma frase oportuna, um silêncio inesperado. Ela possivelmente quer aquele precioso e delicado equilíbrio entre o ser e o sentir, sem falar na certeza da possibilidade dos encontros inesperados, daquilo que não estava escrito nem cogitado. Com os olhos diafragmáticos que tem, essa mulher seria capaz de encarar o sol – e sustentar este olhar. Era assim e continua sendo. Percebi esta capacidade quando a vi na rua, o dia radiante, os olhos suaves, inevitavelmente transbordantes de ternura misturada com uma dor que ainda não consegui definir, embora a identifique claramente. Ela tornava-se, assim, figura solar.
Mas o que, de fato, quer uma mulher assim? Os gestos certos, profissionais, o cabelo negros, as mãos definidas por dedos finos e unhas brancas– tudo isso compunha um instantâneo sentimental que se assemelhava ao retrato do amor perdido num dos desvãos da minha vida. Mas aquela era uma harmonia meio que arranhada por algo que se havia se quebrado na vida dela. Um sentimento? Uma saudade? Uma dor? Fixei o olhar em suas mãos. É como se, com os cristais ainda partidos ou estilhaçados, ela contrariasse, com seus ademanes de mulher decidida, uma perda que escorrera dramaticamente no último e aflito contato com uma história do passado. Foi o que senti quando falei com ela e sua voz iluminou, com dez palavras, a sala onde estávamos. Naquele momento, conheci a mulher querente, cuja doçura persiste, apesar de tudo. Se fosse descrevê-la, se tivesse engenho e arte para tanto, diria que ela corre riscos, acumula conquistas, dribla reveses e não aceita a submissão e o enquadramento que tanto limitam a vida dos comuns. Não, isso, definitivamente, ela não quer.
Olho-a de longe, mas ainda não sei o que essa mulher quer, todavia diria que ela não foge dos desafios que tornam a existência menos monótona e previsível; que sabe que é preciso avançar na direção das utopias, das verdadeiras utopias, pois elas são absolutamente necessárias aos nossos espíritos. Ela lutou batalhas que não lhe pertenciam. Mas como falar isso para ela, sem parecer estar invadindo uma vida tão intensa, tão frágil e, ao mesmo tempo, tão forte? Como dizer estas coisas sem parecer um tolo ingênuo, portador de um romantismo para lá de inatual, perdido num mundo tão árido de sentimento? Como dizer que ela tem os olhos de quem há muito vive profundamente marcado pela ausência e que esta ausência, para mim, tem seis letras e a luminosidade apaixonante do entardecer em Paris e das praias de Neruda? Como dizer?
Afinal, o que querem as mulheres? O que essa mulher quer? E eu, que nem sei de mim, posso dizer que há algo de premonitório no embaraço de dor e saudade que nos habitam a existência, a minha e a dela. Posso dizer, por mais estranho que pareça, que das muitas coisas que me faltam na vida, faltava não só saber o que ela realmente quer, mas vê-la de perto - e por dentro - e constatar que uma mulher é feita de sutilezas, detalhes, complexidades nem sempre percebidas, e que o sentido delas está muito, mas muito além da humilde e precária compreensão do limitado universo masculino. Mas se me fosse possível ter a chance de querer alguma coisa, gostaria de saber simplesmente o que ela quer, e que talvez nunca saiba, e lhe sussurrar, na orelha fria, que repeti esta pergunta 11 vezes neste texto, e milhares de vezes diariamente, sem cansar, e que é possível que ela queira mesmo é saber que alguém sinceramente se preocupa com ela, e que, num inolvidável momento de minha vida, ao conhecê-la melhor, fui atingido por um raio de vida – e tudo isso é tanto que jamais se apagará de minha pequena alma...”.

A CARTA SECRETA


Eu não deveria contar, mas alguém me disse, não fui eu que inventei: há lugares específicos para que se faça o que é proibido, inconfessável, porém devido, quando se permite que ponhamos a mão lá, sem rodeios, direto aos finalmentes, deixando de lado os emboramentes, como dizia Odorico, e o faço agora, sem pudores e com alguns pedires, vascularizando o que me é de direito. Bem, este intróito de duplo sentido me serve também para destilar sonhos, consentidos ou não, pudicos ou não, insensatos ou não, que se me ocorrem no momento em que escrevo para esses olhos redondos e negros, como duas xícaras de café, sem nenhuma necessidade de adoçante, devo dizer: imagino você agora, aqui, em silêncio, se aproximando de mim por trás, enquanto escrevo estas mal digitadas, suas mãos descendo pelo meu pescoço abaixo, como as cobras que se enroscavam no cangote de Indiana Jones... isso me leva a instâncias outras, literárias ou quase, dessas que acontecem debaixo dos panos, onde o pau come e ninguém vê, entre dois nefelibatas que tateiam o terreno alheio com o cuidado dos puros de coração. Pois assim é, e assim entendo esta situação: dois mundos que se tangenciam pelo amor comum aos livros, às palavras, aos que procuram e têm certo receio de achar. Como te disse, é tão simples e tão profundamente complexo, tão longe e tão perto, como em Asas do Desejo, do Wim Wenders: um dia frio, um bom lugar para ler um livro, enquanto o mundo lá fora acontece e, virando-me para você, dizer “olha que coisa linda que acabei de ler” e perpetrar, neste instante, uma conexão de vários gigabytes de entendimento, empatia, identificação, pois ser compreendido, sem ter que explicar muito, sem ter que pedir licença, sem temer ser intruso, é uma raridade num mundo barbárico como este em que ora vivemos, à falta de outro melhor. Isso de viver literariamente tem seus riscos, no entanto é exatamente para isso que existimos – para ir além do estratificado, do convencional, daquilo que permitimos a nós e aos outros, só porque é assim que deve ser. A Literatura, entre tantas coisas, presta este serviço de assistência social a quem perdeu tudo na enchente do desamor: é através dela que posso dizer que preciso de você, sem que ninguém perceba, embora não tenha feito isso agora. É utilizando a Literatura que posso tocar suas mãos, sem testemunhas, e visualizar todo este conjunto harmonioso de pernas, pés, boca, seios e ombros, que se organiza espontaneamente num cenário que faz todo o sentido e, sem o qual, nada parece valer realmente a pena. É com o auxílio luxuoso da Literatura que passo a mão e a língua portuguesa por tuas pernas, braços, pescoço, e sinto aquela discutível sensação ilusória de posse de que falei crônicas atrás, da qual não consigo me livrar, mesmo sabendo das impossibilidades, reais ou não. Teimoso, insisto. Ingênuo, acredito. Corajoso, escrevo. E continuo catando as melhores palavras, aquelas que me permitem ousar para usar, puxar o zíper para baixo e que me levam a sentir o cheiro de seu cabelo, esse fetiche olfativo que estimula meus instintos mais primitivos, pois são com as palavras cultivadas que tateio a superfície da sua alma, num escuro de cinema, até os dedos encontrarem a possibilidade de um botão entreaberto. Como já falei, não tenho a mínima necessidade de ter um “não sei quanto” de seguidores de Twitter. Bastar-me-ia um doce par de olhos, para me sentir que valeu, foi bom para você, vamos de novo? Já que a nação rubro-negra puxa o coro “Eh, eh, eh, que torcida é essa?”, entendo que você pergunte: “Que texto é esse? O que querem os homens?”, só para me cutucar com vara curta da manha feminina e me fazer confessar um amor impronunciável. Não conto. Adivinhe e, se for o caso, faça que nem é com você, pois eu ainda não cheguei à idade de dispensar qualquer tipo de beijo ou atenção, sob pena de ter a alma impedida de pegar os documentos com o carimbo “nada consta”, no já nem tão distante dia do Juízo Final. Você continua bolada: o que ele quer dizer com tudo isso? Bem, esclareço: não sei, ou sei, mas não devo me pronunciar agora, ou talvez mesmo já esteja declarando, sem dizer, num entra e sai semântico que convém à tepidez dos trópicos em tempos pré-carnavalescos. Você há de entender e curtir as frases curtas a la Verissimo, os mergulhos em Rubem Braga, na parte mais funda, a genuflexão diante de Vinicius, os modelitos de verão de Hemmingway, os cálculos imagéticos de João Cabral e a convocação para que toda esta turma que você bem conhece te deixe bem à vontade num sarau que ainda vai acontecer, num lugar e num tempo que não é aqui nem agora, mas devia ser. Todavia, acreditamos no milagre da Literatura. É um dogma de fé. Convido-te, pois dependendo do mood de quem flana em direção às utopias, tudo é possível, enquanto não acontecido. Desculpe o mau jeito, mas eu podia estar me drogando ou roubando no sinal e, no entanto, estou aqui, bem perto, mais do que você imagina, literalmente, literariamente. Com as artérias abertas, mas não conto para ninguém.    


sexta-feira, 29 de março de 2013

PRETERIÇÃO


Não vou escrever que me sinto triste, pois não quero que você saiba disso, embora este sentimento meio down espreite, com seus olhos pouco felizes, por trás das palavras que pululam, em pixels e sistemas binários, na luminosidade quadrangular da tela em minha frente. Não é isso que vou escrever, porque não quero que se torne público que me sinto tão pequeno diante de meus limites como ser humano. Como ser? Como não ser? Nunca revelarei que a noite me dá medo de perder minhas poucas certezas, minhas esperanças, o meu amor. Negra e fria, ela me engole com sua saliva ácida de abandono. E nada posso fazer, a não ser esconder que, por motivos que aqui não importam, eu de modo algum devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Culpo-me tão violentamente por tantas coisas que fiz e deixei de fazer, que ninguém poderia sequer desconfiar desta minha insegurança, que se divide em muitas outras subcategorias, como a covardia, o desespero, a inabilidade e o terrível medo de ferir tocando. O que eu queria e não posso é, por exemplo, que tudo o que me acontecesse de bom e azul, dentro de mim, eu pudesse dar àquilo e a alguém que eu pertencesse. Mas não falarei, nem adianta insistir. Mesmo que você considere esta confissão pública demais, aberta demais, despudorada demais, continuarei em silêncio, sem dar uma pista. Nada, nem os mais grossos muros, tampouco os vidros blindados, me protege com tanta segurança como este silêncio por escrito. Na verdade, o silêncio não está na escrita que me brota nos poros, mas no ato de debruçar sobre o que não quero dizer. Ou escrever. Ou falar. Ou pensar. Como escapar do medo de não amar ou de não ser amado, bem como o temor seja fútil ou mal compreendido. Este dissentir é um paradoxo que me permito, posto que está frio lá fora e aqui dentro. Não lhe chamo a atenção para a pergunta para a qual não há resposta imediata: quem poderá calcular o calor e a violência de um coração de poeta, quando preso no corpo de uma mulher? E respondo, mentido: não tenho ideia, não sei, não posso... É desnecessário dizer que gostaria de encontrar uma palavra que exprimisse mais que sozinho. Inútil repetir que não acho a definição do que sinto por dentro quando sei que uma quantidade inimaginável de pessoas experimenta a felicidade num bar, onde só se ouvem risadas e tilintares de copos e garrafas alegres. Longe de mim querer achar-me certo diante do mundo. Apenas sobrevivo. Contudo, nem direi que não se sobrevive por inteiro, e a parte de nós que sobra estiola-se num não-saber o que fazer do tempo, que não flui, e da aridez de uma existência que estanca quando os sonhos e fragmentam em pequeníssimas fagulhas de esperança. É um não saber o que fazer de si mesmo, creia, sem me dar muito crédito. Não vou me deter no aspecto da existência do mundo que me fascina – o literário, o lírico, o leve – aliterando-se conforme a vida me acontece sem ensaio, sem preparação, sem avisos de cuidado. Não serei barthesiano ao me dar conta que saber que as coisas que vou escrever não me farão nunca mais amado por aquela que amo, que a Literatura não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente aí onde você não está, isso tudo é o começo, é o destampar o garrafão da escritura e beber até que as artérias se rompam sob a pressão do alto teor vocabular nelas injetado. Por que dizer que quanto mais toco na ferida, mais ela sangra? Em tempo algum lhe direi que são muito mais numerosas as horas em que não sei o caminho, que me perco, que me firo, firo e me refiro pedestremente, como se tomado pela mais baixa frequência de mediocridade, mas tudo com a mais impiedosa consciência dos meus limites humanos. É inconfessável: como gostaria de não ser humano. Ser, apenas, pois a humanidade carreia um sem número de defeitos aos atos do ser, aquele que existe com o outro, para o outro, com uma única e nobre finalidade: amar. Por isso, não falo sequer da minha frustração de existir defeituosamente no mundo, pois no mundo há as pessoas e elas podem se ferir em função do mau andamento de minha existência sartriana que tanto me assusta e fascina. Custa-me informar a todos que possam estar interessados que os argumentos da razão são infelizes e insuficientes quando se trata de captar a lógica do itinerário do coração, e ainda mais insatisfatórios quando tentam alterar seu curso. Por isso, e mais que a poesia não ousa, não te direi que meu tesouro és tu, eternamente tu, e que não há passos divergentes para quem quer, enfim, se encontrar...     


A CAMISA

Domingo à tarde. Saiu para o jogo, com a confiança de quem, no final, ia ser o vencedor. Desceu a ladeira enlameada da favela, com o coração cheio de esperança e o bolso nem tanto – só havia a conta exata para o ônibus e para a entrada no Maracanã. Deixaria a cerveja para outro dia, com os amigos do morro, só para esticar mais um pouco o deleite pela vitória do Flamengo. Faria hora-extra, se fosse o caso, e assim teria uma grana para comemorar a vitória do rubro-negro. Bem, isso se tivesse emprego fixo – mas, o que uma conquista do Mengão não faria por ele? Era bem capaz de arranjar um bom emprego logo na segunda-feira cedinho, sem esforço. Só tinha uma coisa faltando e não era de hoje: nunca havia conseguido comprar uma camisa do seu time de coração. Isso era uma frustração apenas amenizada por tantos gols de Zico que ele testemunhara ali bem de pertinho, da geral do Mário Filho. Mas, tudo bem. Hoje, fazia um calorão dos diabos, e ele logo providenciou seu traje de torcedor: sandália de dedo, um bermuda surrada, que já fora uma calça jeans um dia, e uma camiseta de propaganda política, com um furo aqui e ali, que ele enrolou na cabeça, para se proteger do sol de fevereiro. Porém, faltava a camisa do Flamengo, né? É, faltava, e a falta se fazia maior quando chegou ao asfalto, entrou no ônibus e, da janela, ficou vendo seus futuros companheiros de torcida, mais abastados, vergando o Manto Sagrado e seguindo na mesma direção. Aí, até que ele entendia: a maior torcida do Brasil tem representantes em todas as classes sociais. Até ele - pobre, negro, sem emprego, mas orgulhoso da honestidade e dos valores que pregava, em casa, para a prole que não parava de crescer, diabos! Sua alegria, fora a família, era ver o Flamengo jogar. Era ver o Flamengo vencer. Era ter, um dia, uma camisa dez rubro-negra, para sair por aí e dizer ao mundo que naquele homem morava uma paixão em preto e vermelho. No trajeto para o estádio, viu o que lhe parecia uma vertigem nas duas cores amadas: torcedores devidamente uniformizados com a camisa do Flamengo pareciam brotar de todos os lugares, carregando bandeiras e um orgulho de fazer parte de uma nação maior que o próprio país. Os carros passavam lotados: todos vestiam o Manto. Era tal festival flamenguista pela cidade, que parecia que não ia haver jogo – apenas o Flamengo entrando em campo e saudando os torcedores emocionados a gritar: Flamengo, eu te amo! Preto e vermelho, preto e vermelho, preto e vermelho, o mundo era assim, rubro-negro, de corpo e alma. Então, sentiu, com certa amargura, que, apesar de amar o clube até morrer, talvez não fizesse mesmo parte daquela torcida que, devidamente encamisada, parecia enfrentar o mundo sem medo de nada, pois nada lhe faria mal desde que estivesse dentro daquele círculo magnético que pulsava em preto e vermelho. Este momento de tristeza e frustração foi interrompido com um tumulto dentro do ônibus – alguém que não gostava da vida, não gostava de mulher, não gostava nem de futebol, sacou uma arma e anunciou um assalto e que lhe dessem já o que tinham de valor. O que faria ele, se não tinha nem o que considerava seu bem mais precioso – uma camisa listrada em preto e vermelho, para lhe salvar a vida? Sentiu o cano frio do revolver a lhe cutucar a nuca suada. Como não tinha nada? Não adiantou balbuciar algumas desculpas – o assaltante disparou quatro tiros no seu peito descamisado, o mesmo peito que abrigava o maior amor do mundo que, com ele caído no chão do 763, jorrava, na cor vermelha, listas que misteriosamente se harmonizavam, em fios paralelos, com sua pele negra. Finalmente, o manto sagrado lhe cobria o corpo.    

PAUL


           
 Sim, sei que escrevo com atraso de duas semanas, e que até o Joaquim já tenha mandado, muito bem por sinal, e como sempre, uma crônica de primeiríssima qualidade sobre a importância de Paul McCartney no cenário pop-rock-sentimental da humanidade nas últimas décadas e em muitas vindouras. Assino embaixo: Paul era o cara dos Beatles!
            Havia John, o beatle de oclinho, que fazia bonito no silk das camisetas e nos refrões das canções de protesto, mesmo achando que a felicidade é uma arma quente e imaginando um mundo sem fronteiras. Havia George e seus mantras indianos, além da guitarra afiada e precisa, encoberta por longos cabelos pendentes. Havia Ringo e toda uma aura de ingenuidade que seu jeito clown emprestava aos modismos da banda, enquanto os mágicos anos 60 comiam solto, entre bombas e revoluções. Entre tantas coisas, Paul costurava uma carreira que iria além dos Beatles, embora deles nunca mais se separasse. Rabiscava canções românticas, trancado num quarto de hotel, ao passo que os outros – e nestes outros incluo o resto do mundo – vislumbravam um amanhecer avermelhado pelo cogumelo gigante da explosão de alguma bomba atômica. Tudo isso fazia parte do show, mas o filho de Mary não se angustiava demais e acreditava em campos de morangos sempiternos. Por isso, e mais, torno a afirmar, com todas as letras: Paul era o cara dos Beatles!
            Pois foi ele quem compôs Yesterday e The Long and Winding Road, e isso já bastaria para que fosse lembrado por gerações e gerações de gente que se rende ao amor. Foi ele quem namorou Jane Asher, se apaixonou por Linda Eastman, se casou com Heather Mills e voltou a namorar, agora, Nancy Shevell. Para todas, tocou a delicada Maybe I’m Amazed, sem mentir que a havia feito para Linda, juntamente com outra pérola, My Love. Ninguém reclamou. Paul era o cara!
            Não satisfeito, gravou um par de hits com Michel Jackson e valorizou a comida vegetariana, sem se importar de ser apenas um tolo na colina. Defendeu os animais em Hope of Deliverance e provou, junto com Stevie Wonder, que as teclas brancas e pretas do piano são a mais perfeita metáfora da harmonia entre os homens. Não mais noites solitárias ou pássaros negros cantando de madrugada: viva e deixe morrer, pois, talvez, eu esteja surpreso. Paul é o cara!
            McCartney seria, numa comparação psicodélica como convém aos sixties, o contrário de um capitão Nascimento da tropa de elite do rock: sensível, suave, romântico, engraçado. Pede para entrar. Deixa que dirijam seu carro e é solidário com os membros da banda do clube dos corações solitários. Sempre com a pequena ajuda dos amigos e tudo em nome do bom e velho rock’n’roll.
            Ninguém mais nos Beatles tinha aquela mania de fazer canções solares, getting better all the time, e de gostar das mulheres mais bonitas, todas “se querendo” ao ouvir os metais de Got to Get You into My Life. Assim como ninguém compõe In My Life impunemente e sai andando por aí, sem virar ícone eterno de avós, pais, filhos e netos. Sim, pois eu vi, naquele domingo inesquecível, após o show em São Paulo, milhares de pessoas de todas as idades, credos e clubes de futebol, que pareciam não acreditar que estiveram no mesmo lugar que ele, a poucos metros de distância, considerando as milhas náuticas, aéreas e nostálgicas que separam o Brasil da Inglaterra e o comecinho da segunda década do segundo milênio daqueles jurássicos anos 60. Não há como negar: Paul ainda é o cara!  
            Pois, para muitos, o Natal deste ano veio em novembro, e sem essa de bom velhinho: Paul ainda é o jovem de Liverpool que resolveu escrever tolas canções de amor e cantá-las num palco mais próximo de sua casa, sem se importar com idolatrias ou montanhas de dinheiro, embora usufrua dos dois, sem culpa. Mesmo correndo o risco de não ficar bem na foto do politicamente correto, mas junto com algumas centenas de milhões, vivos, mortos ou ainda por nascer, repito sem temer cansá-los: Paul será sempre o cara!