domingo, 31 de março de 2013
SIM, ELE FALOU...
Sim, ele falou e
escreveu, e ela falou e escreveu melhor ainda, dando de 10 a 0 nele, deixando-o
vendo estrelas, então e agora, o deixando
zonzo, como depois de um cruzado de Tyson; em xeque-mate; dando uma cortada da
linha de três metros; ultrapassando na primeira curva, driblando o goleiro, sem
humildade em gol. Mas eu já esperava por isso, desde que a vi pela primeira
vez, e aquela cena ficou colada na cortiça do meu cerebelo, uma linda mulher
que entrou pela menina dos meus olhos e que cisma em não sair, um cisco de luz
que chega a minha orelha. Sei lá se é um bilhete para Passárgada, Strawberry
Fields Forever, ou qualquer desses paraísos fiscais da felicidade que os poetas
de tempos em tempos sugerem. Que ela venha toda de branco, toda molhada e
despenteada, como disse bem Ben Jor, e sopre seus lirismos para dentro de meus
pulmões cansados, desparagone a página certinha quando algum tsunami vier bater
em sua janela, sofistique o vocabulário e me obrigue a suar a camisa para
escrever alguma coisa que preste, alguma coisa que esteja à sua altura
sentimental e que seja capaz de mudar o rumo das nuvens. Alguma coisa que fale
também em beijinhos trôpegos, em doces vampiros, em chás que – ai...! - não
acontecem, em articulações braquiais com a cintura escapular, em pontos de
interrogação, finais e gês. E que a isso se aduzisse algo como toalhas
molhadas, sanduíches de presunto com queijo, poemas vinicianos, sapatos com a
ilusão de salto, unhas brancas and
forgotten glasses, numa viagem em que juntamos lábios para beijinhos sem
ter fim, trôpegos ou não, selvagens ou não, mas permanentemente molhados de
desejo e suor. Eu, genuflexo, boquiaberto sem chances de me boquifechar diante
desta capacidade de reinventar cheiros, toques e as tão íntimas palavras que
dizem tudo, essas que andam sem calcinha pelos corredores da alma, e que deixam
claro o que sente o mergulhador imerso em mar e na bela mulher, em cujos
ouvidos o velvet da língua inglesa se intromete molhado, nervoso, elétrico. Se
somente as rádios FM podem transmitir ondas assim, surfo-as, curto-as e emulo
um tal poeta que também versejou sobre os mesmos braços líquidos que me
cercavam num abraçar completo das águas femininas. Cai a temperatura. Ai o
queixo. Quedo-me em admiração. No papiro da pele desta mulher, o Calígrafo
Supremo parece ter rabiscado os primeiros versos que eu gostaria de ter
escrito. Na falta de incenso e mirra, balanço em sua honra meu turíbulo de
maravilhas semânticas. Sempiterno. Frêmito. Orquídea.
ELE, ELA E O CAMINHO DAS LETRAS
Sim, ele falou e
escreveu, e ela falou e escreveu melhor ainda, dando de 10 a 0 nele, deixando-o
vendo estrelas, então e agora, botando-o no lugar dele, deixando-o zonzo, como depois de um cruzado de
Tyson; em xeque-mate de Karpov; dando uma cortada da linha de três metros que
só Giba consegue; ultrapassando na primeira curva ao estilo de Senna, driblando
o goleiro igual a Zico, sem humildade em gol, como Fio Maravilha, com a
precisão de uma tacada de Tiger Woods. Mas eu já esperava por isso, desde que a
vi pela primeira vez, e aquela cena ficou colada na cortiça do meu cerebelo,
uma linda mulher que entrou pela menina dos meus olhos e que cisma em não sair,
um cisco de luz que chega a minha orelha fria e carente de segredos e
confissões amoráveis. Sei lá se é um bilhete para Pasárgada, Strawberry Fields
Forever, a Ilha Misteriosa, Além do Horizonte, a Tonga da Mironga do Kabuletê, ou
qualquer desses paraísos fiscais da felicidade que os poetas de tempos em
tempos sugerem. Que ela venha toda de branco, toda molhada e despenteada, como
bem disse Ben Jor, e disse-o bem, e sopre seus lirismos para dentro de meus
pulmões cansados, desparagone a página certinha quando algum tsunami literário vier
bater em sua janela, sofistique o vocabulário e me obrigue a suar a camisa para
escrever alguma coisa que preste, alguma coisa que esteja à sua altura
sentimental e que seja capaz de mudar o rumo das nuvens, além de trazê-la para
mais perto. Alguma coisa que fale também em beijinhos trôpegos, em doces
vampiros, em chás que não acontecem, em articulações braquiais com a cintura
escapular, em pontos de diversa natureza, sejam eles de interrogação, exclamação,
finais; do ponto a até o b, incluindo o g (ai...). E que a isso se aduzisse
algo como toalhas molhadas, sanduíches de presunto com queijo, poemas
vinicianos, sapatos lilases com a ilusão de salto, unhas brancas and forgotten glasses, numa viagem em
que há de se juntar lábios para beijinhos sem ter fim, trôpegos ou não,
selvagens ou não, mas permanentemente molhados de desejo e suor. Eu, genuflexo,
boquiaberto sem chances de me boquifechar diante desta capacidade de reinventar
cheiros, toques e as tão íntimas palavras que dizem tudo, essas que andam sem
calcinha pelos corredores da alma, e que deixam claro o que sente o mergulhador
imerso em mar e na bela mulher, em cujos ouvidos o velvet da língua inglesa se intromete molhado, nervoso, elétrico. E
a língua que se transforma em palavras, que se transformam em cartas escritas
sobre o corpo amoroso, usado como apoio definitivo; cartas que se escrevem na
cama sobre o corpo amado, com a ambígua pena que fere de amor a superfície da
pele/papel do corpo que se ama, deixando nele o gozo da escrita amoravelmente
literária. Se somente as rádios FM podem transmitir ondas assim, surfo-as,
curto-as e emulo um tal poeta que também versejou sobre os mesmos braços
líquidos que me cercavam num abraçar completo das águas femininas. Sobe a
temperatura. Cai o queixo. Quedo-me em admiração. No papiro da pele desta
mulher, o Calígrafo Supremo parece ter rabiscado os primeiros versos que eu
gostaria de ter escrito, se não me faltassem engenho e arte para tal nobre
tarefa. Na falta de incenso e mirra, balanço em sua honra meu turíbulo de
maravilhas semânticas. Sempiterno. Frêmito. Orquídea. Farpela. Bruma. Uma
mulher assim está pronta para algo definitivo. Merece as margens do Sena e um
pôr do sol em Paris. Merece jazz com sorvete de chocolate. Fellini com
Hitchcock. Perrier com trufas. Star Wars com Enterprise. Se ela finalmente se
deu conta de caber tantas coincidências numa estante, num instante, como posso
discordar? Se fica a marca no seio e no coração, por proximidade, por paixão,
abstenho-me de teorias psicanalíticas para explicar o que não pode ser
entendido, e apenas aceito o que me acontece como dogma de fé, pois é melhor
que coisas aconteçam assim, antes à tarde do que nunca, do que ficar tomando
chá de cadeira no grande baile dos desencontros e, sem esperança, desistir da
vida. Se esta mulher sentiu um arrepio a lhe percorrer o corpo, se ela sentiu
crescer em seu interior sensações de nervoso e desejo, e se ela se sentiu
linda, então está tudo certo, como dois e dois são (de) quatro e não se fala
mais nisso; então todos os astros se alinham, então todo o universo conspira a seu
favor, com a bênção de todos os jargões de autoajuda que ora recebo nestas
correntes que devo mandar para vinte pessoas, com a alma completamente aberta e
humilde. Se há tantas coisas que acontecem quando menos se espera, pois aro a
minha h(a)orta particular com simplicidade e com a sabedoria tirada dos versos
de Vinicius de Moraes e dos boleros de Anísio Silva, como ter vivido plenamente
antes, sem o que se supõe ter agora? Se a gente pode ler histórias amoráveis no
corpo amado e se o mundo continua assombrado, sem saber para aonde vão as
canetas Bic perdidas, durma-se com mais este mistério: para onde vai esta
mulher, depois que esquece, distraída, suas doçuras e sonhos dentro de mim?
sábado, 30 de março de 2013
AQUELE HOMEM
Aquele homem anda rápido em
direção a lugar nenhum. Carrega consigo um bornal cheio de recordações, e há
cartas de amor no bolso da calça jeans desbotada, igualzinha àquela de
Detalhes. Poder-se-ia dizer que é um homem de sentimentos, que quase chora ao
se dar conta da saudade daqueles momentos em que, distraído, tropeçou na
felicidade e se deu conta de que ela até existe. Há os que se entregam à bebida, ou que
preferem levantar peso com alteres improvisados, só para esgarçar a manga da
camiseta Hering, quando fazem um L com o braço musculoso e o antebraço de
Popeye, ao segurar a “long neck” que é a chave do paraíso dos comerciais de TV.
Há os que se escondem em casa, num auto-exílio de cortar o coração em fatias
isométricas como com aquelas facas guinzo 2000, e ficam horas em um silêncio
mais profundo do que certos decotes em cujos interiores muita vida já se
perdeu. Aquele homem está nas ruas, nas estradas brancas de nevoeiro, nas
esquinas dos sofrimentos sem sentido e consentidos, pois não se pode ter uma
vida completa sem uma dose exata de dor trincando sonhos e planos. Talvez
já tenha aprendido que sábado costuma ser o mais cruel dos dias para quem tem a
solidão no DNA ─ sobretudo para quem gosta de Clarice Lispector e Rubem Braga e
que acha possível substituir o beijo molhado e a língua atrevida por uma página
ou duas de puro lirismo. Até dá, mas não por muito tempo.
O CÉU
Me desculpem começar
assim, logo com um pronome oblíquo abrindo as alas do desrespeito à norma culta
da última flor, ir logo metendo os pés pelas mãos, sem desviar do
paralelepípedo semântico que me inchou o dedão, logo depois de chutar, sem
mais, sem menos, uma resposta certa neste Enem existencial, quando se vê, sem o
filtro do distanciamento, se os meninos viraram mesmo homens. Preferi buscar
palavras no bornal que escondo debaixo da cama e ao qual recorro sempre que
quero um termo mais exato, uma palavrinha mais ensaborrilhada, dessas que
encaixam perfeito, como o clique das mãos dos namorados, diante dos perigos do
mundo. O fato é que não adiantou o domingo estar completamente azul, se havia
nele uma ausência que era maior que todos os azuis tristes que conotam o “blue”
em língua inglesa, maior que todos os poemas de saudade, maior que a maior das
medidas. Preferi passar por morto, que era mais ou menos próximo do que eu era
mesmo então. Vítima de uma queda de pressão súbita e incontornável, achei
melhor deitar-me nas esperanças que me serviam de maca naquele momento. Esperei
que uma ambulância vermelha dos bombeiros viesse me recolher, o recém quase defunto,
para longe daqueles olhos perfeitos, para algum lugar aonde não chegassem
cartas ou e-mails, uma sala ampla e clara. No local, perpassar-me-iam tubos
translúcidos, em meio ao bip nervoso de alguma máquina que desse suporte à vida
que ainda me restava, líquida, na tubulação venosa. Achei que estava num
daqueles espaços intermediários que algumas religiões decantam: a porta
entreaberta entre a vida e a não-vida, esta sim pior que a morte propriamente
dita, que deve ser uma ausência de tudo, creio. O processo já se iniciava, e
ainda pude ver, de relance, alguns rostos conhecidos me olhando com preocupação
no corredor do que me parecia um enorme hospital: Rachel, Ross, Will, Morgan,
Clint... de onde estava, pude perceber que uma enfermeira colocava meus
pertences numa espécie de bolsa plástica e, entre eles, vislumbrei meu celular,
tão mudo, tão sem função... para quem ligaria? Para ela - uma fotografia na
parede da memória que, como naquele poema de Drummond, dói. Era ela, rindo e
dizendo “até parece...”, depois de qualquer bobagem romântica de minha parte, e
que são muitas. Era ela, entre tic-tacs e um celular com barulho d’água, entre
letras e bytes, livros e Elvis. A meu favor, havia a surpresa de minha quase
morte súbita, cuja notícia, entreouvida, não raro, num lugar inesperado, fatiariam
o coração da referida em alguns mil pedaços que boiariam no molho quente da incredulidade
e do susto. Porém, se assim fosse, eu nem saberia sequer se ela sentiria a
minha falta, se o órgão propulsor de seus sentimentos bateria um tambor movido
à mais poderosa Duracell, ou seria apenas um som fraco, abafado, quase
inexistente, como uma tosse no meio da noite. Esta dúvida era pior do que a
sensação de ausência de vida, eu lhes garanto. Tudo ia mal, muito mal, quando,
de inopino, ela me surge dobrando a esquina da memória e mudando o rumo das
nuvens. Eu não tinha mais como dar a volta. Eu avançava pela calçada no passo
acelerado de quem segue movido por “Every breath you take”. Ela ajeitava os
óculos. Eu sentia o vermelho do sangue se evaporar de minhas veias. Ela era uma
festa de brincos e sarais retrôs. Eu ia me dissolvendo como um homem de areia,
de joelhos, num ciclone. Ela parecia flutuar, como uma fada faria. Logo, eu estava
a quatro passos de entrar numa cena de felicidade em que já estivera por longo
tempo. Passei a provocar o coração para que ele decidisse rápido – faltavam
apenas dois passos, e ela já se cansara de procurar o celular na bolsa, e eu
temia que o mundo acabasse se ela me olhasse nos olhos e não me reconhecesse,
se eu sorrisse e recebesse de volta apenas aquele olhar que damos quando vemos
um bêbado caído na sarjeta, um olhar de que
gostaria-de-fazer-alguma-coisa-mas-não-posso; e então ouvi a voz de um anjo bom
me dizendo no ouvido para que acreditasse no amor, pois a distância tem dessas
coisas. A imaginação funciona numa direção, mas a realidade pode ser muito diferente,
até oposta. Por isso, quase sempre optamos pelo drama. O copo d’água ganha,
então, sua tempestade. Tornamo-nos romeus aos pés de julietas, lindas e
perfeitas, mas distantes, altas e inatingíveis como torres. Todos os sucos de
pêssego do mundo seriam insuficientes para edulcorar o enredo. No entanto, o
anjo insistia, deve haver, bem lá dentro da alma, alguma coisa essencial que
não pode se perder e que só tem sentido com aquele outro que agora não está...,
mas deveria.
TALVEZ TENHA SIDO VOCÊ
Talvez
tenha sido você, não sei. Eu estava do outro lado da rua e, de repente, no meio
de um torvelinho de pessoas que andavam freneticamente de um lado para outro,
vi um sorriso que poderia ser seu.
Alguém se virou, falou alguma coisa em voz alta, e a dona do sorriso apenas riu
mais um pouco, só para terminar o assunto, como se prescindisse das palavras.
Uma outra onda de seres robotizados se precipitou sobre a minha linha de visão
e perdi o sorriso de vista; e aí devo ter me sentido como um náufrago antigo
que, de um momento para o outro, no meio de um oceano gelado, como aquele que
engoliu o Titanic, se perde dos botes salva vidas para ficar abandonado no meio
do nada, o coração adormecido, sem entender a morte surgindo tão perto da vida.
Mas, para certas coisas da vida não há mesmo explicação.
Parei numa banca de jornal e fingi
que lia as notícias do dia. Era um subterfúgio. Queria apenas me apoiar na
realidade jornalística e esquecer o sonho que me atingira, há pouco, em plena
via pública. Essas epifanias deviam ser proibidas por alguma lei sensata.
Ninguém deveria ter sua vida alterada pela simples visão alucinatória de uma
parte qualquer do corpo da mulher amada, num dia de semana, num dia comum de
trabalho que deveria ser calmo e tranqüilo, sem estas excitações que só
confrangem e debilitam os corações. Eu, portanto, assim no meio de estranhos e
da poluição do centro da cidade, não deveria lembrar, sem o pronto pagamento de
uma multa elevadíssima, que um dia aquela mulher entrou definitivamente na
minha vida sorrindo desta mesma maneira e se instalou no meu coração da mesma
forma leve e suave com que sentava sobre as pernas, na poltrona da sala,
descalça, sorrindo, usando a única peça de roupa disponível depois do embate amoroso:
minha camisa desabotoada. Foi, então, que percebi que nenhum sonho é autêntico;
realizá-lo é que é.
Sim, talvez tenha sido aquela mulher
que procuro, no meio daquelas pessoas, naquele burburinho incessante do centro
da cidade. E, de nós dois, talvez tenha sido eu o de mais sorte, pois vi alguém
que achei que era você e, de repente, me dei conta do belo reino que recuperei.
Imediatamente, fiquei rico de você e tive mesmo a impressão que as pessoas que
passavam por mim me observavam com inveja e espanto de ver alguém tão simples e
comum ostentar nos olhos o brilho inequívoco e raro de quem reencontrou, mesmo
que por um breve instante, o futuro amor de sua vida...
AFINAL, O QUE QUEREM AS MULHERES?
Ele saiu da festa com aquelas mulheres
na cabeça. Afinal, o que elas queriam? Essa era a pergunta da moda. Eram
lindas, sorriam seu melhor dente e suas unhas perfeitas e vermelhas refletiam
os flashes das câmeras digitais e as luzes do ambiente. Estavam, aparentemente,
felizes, sem nada a lhes ameaçar o momento de confraternização com os amigos.
Nesta época de Natal, elas é que são as festas, lindas, soltas, mas, ao mesmo
tempo, também são misteriosas, indecifráveis, esfingéticas, como se quisessem
que soubéssemos, sem perguntar, o que, por que, como e quando querem.
Com este desafio, já em casa, sentou-se diante do notebook, cuja tela era a única luz na sala, e começou a tentar descobrir o que uma mulher poderia querer:
“Agora, no momento em que escrevo, não sei o que ela quer, mas sei que está sorrindo umas orquídeas num jardim além do tempo. Afinal, o que querem as mulheres? E o que quer essa mulher em especial, em cuja alma todas as outras habitam? Ela pode querer saber que alguém se sentaria diante dela, num jantar à luz de velas e a ouviria a noite inteira, e me basta ter a consciência de que ela pode estar iluminando poeticamente, por alguns instantes, com um sorriso raro, meio triste - mas definitivo – a realidade dura que a envolve com dores ancestrais, como num tango trágico, mas belo e arrebatador.
Ela pode querer saber que a felicidade até existe, mas começa o dia concentrada nas suas atividades profissionais. Mesmo pegando o ônibus, vindo de carro, ou mesmo a pé, ela quer flutuar nos sonhos que seus olhos não escondem. As obrigações do ofício não lhe impedem de se entregar ao imponderável, às suas dúvidas e temores. Sem falar nas saudades que doem, queimam e estão aprisionadas na distância. O que, de fato, querem as mulheres?
Essa mulher, em especial, pode querer que entendamos que certos encontros podem não ser em linha reta e nos tempos cronológicos. E uma história de amor, às vezes, está escrita fora de ordem, possivelmente para pôr à prova o sentido da transcendência de sua própria ordem. E, sobretudo, para testar se somos capazes de refazê-la no verdadeiro sentido - e, aí sim, para sempre. Deve ser isso, sem dúvida, entre tantas outras coisas, o que elas querem.
Um dia, confesso, vi-lhe as aspirações de uma nova vida, de uma felicidade incerta e intensamente desejada, transbordando de um olhar melancólico, numa cena indefinidamente inesperada: na entrada do colégio, ela se deixava olhar para lugar nenhum, o rabo-de-cavalo graciosamente se mexendo ao menor movimento da cabeça, a mão direita levemente içada à altura do rosto, como se quisesse se esquivar de algum pensamento ruim. O que queria essa mulher?
Passei várias vezes por ela, sempre com a intenção de trocar uma ou outra impressão e dela receber um olhar daqueles. Arranjei desculpas. Arquitetei pretextos. Mas por mais que já estivesse curioso para saber o que ela queria, resolvi conservar intactos a distância, os sonhos e, claro, o coração. Tentei, cirurgicamente, esquecê-la por alguns dias. Contudo, a vida tem suas inesperadas reviravoltas e, numa tarde, vi-a na rua, andando rumo a seu destino de mulher séria, contida, com um pedaço grande visivelmente faltando tanto na alma como no coração. Detive-me nos olhos dela, sem que ela me visse e percebi naquela mulher um olhar para além da eternidade. Que fazer? O que ela poderia querer? Voltei então a pensar literariamente naquele rosto, mesmo achando que este seria um pensamento especial, um pensamento desses que a gente reserva egoisticamente para aliviar a dureza da vida, a desesperança, o desamor, e que não revela para ninguém, com receio que nos roubem. Se pudesse falar com ela naquele momento, recomendar-lhe-ia a leitura da poesia de Murilo Mendes, ou um soneto de Vinicius, mesmo que ela já conhecesse. E por que não, juntamente com os versos, o Concerto para Nota em Sol, de Bach?
Mas ela, passando por mim, teimava em não passar para mim. O que ela quer, afinal? Pus-me em alerta: temi que fosse somente onda, uma nuvem sob a qual ficaria tentado a depositar minha vida. Se isso fosse verdade, seria como no poema de Cecília – ficaria sem poder chorar quando caísse. Lutei. Relutei. Preferi, enfim, banhar-me na luz de sua vontade indecifrável. Até que cheguei à conclusão de que valeria a pena correr o risco de me aproximar de uma pessoa tão iluminada, mesmo que tão desconhecida, mas, ao mesmo tempo, tão familiar como um caminho que se percorre todos os dias em direção ao próprio destino.
Ela talvez queira que saibamos, sem que ela precise dizer, que bons amores resultam do acerto de grandes e pequenos detalhes: um olhar, um sorriso, uma frase oportuna, um silêncio inesperado. Ela possivelmente quer aquele precioso e delicado equilíbrio entre o ser e o sentir, sem falar na certeza da possibilidade dos encontros inesperados, daquilo que não estava escrito nem cogitado. Com os olhos diafragmáticos que tem, essa mulher seria capaz de encarar o sol – e sustentar este olhar. Era assim e continua sendo. Percebi esta capacidade quando a vi na rua, o dia radiante, os olhos suaves, inevitavelmente transbordantes de ternura misturada com uma dor que ainda não consegui definir, embora a identifique claramente. Ela tornava-se, assim, figura solar.
Mas o que, de fato, quer uma mulher assim? Os gestos certos, profissionais, o cabelo negros, as mãos definidas por dedos finos e unhas brancas– tudo isso compunha um instantâneo sentimental que se assemelhava ao retrato do amor perdido num dos desvãos da minha vida. Mas aquela era uma harmonia meio que arranhada por algo que se havia se quebrado na vida dela. Um sentimento? Uma saudade? Uma dor? Fixei o olhar em suas mãos. É como se, com os cristais ainda partidos ou estilhaçados, ela contrariasse, com seus ademanes de mulher decidida, uma perda que escorrera dramaticamente no último e aflito contato com uma história do passado. Foi o que senti quando falei com ela e sua voz iluminou, com dez palavras, a sala onde estávamos. Naquele momento, conheci a mulher querente, cuja doçura persiste, apesar de tudo. Se fosse descrevê-la, se tivesse engenho e arte para tanto, diria que ela corre riscos, acumula conquistas, dribla reveses e não aceita a submissão e o enquadramento que tanto limitam a vida dos comuns. Não, isso, definitivamente, ela não quer.
Olho-a de longe, mas ainda não sei o que essa mulher quer, todavia diria que ela não foge dos desafios que tornam a existência menos monótona e previsível; que sabe que é preciso avançar na direção das utopias, das verdadeiras utopias, pois elas são absolutamente necessárias aos nossos espíritos. Ela lutou batalhas que não lhe pertenciam. Mas como falar isso para ela, sem parecer estar invadindo uma vida tão intensa, tão frágil e, ao mesmo tempo, tão forte? Como dizer estas coisas sem parecer um tolo ingênuo, portador de um romantismo para lá de inatual, perdido num mundo tão árido de sentimento? Como dizer que ela tem os olhos de quem há muito vive profundamente marcado pela ausência e que esta ausência, para mim, tem seis letras e a luminosidade apaixonante do entardecer em Paris e das praias de Neruda? Como dizer?
Afinal, o que querem as mulheres? O que essa mulher quer? E eu, que nem sei de mim, posso dizer que há algo de premonitório no embaraço de dor e saudade que nos habitam a existência, a minha e a dela. Posso dizer, por mais estranho que pareça, que das muitas coisas que me faltam na vida, faltava não só saber o que ela realmente quer, mas vê-la de perto - e por dentro - e constatar que uma mulher é feita de sutilezas, detalhes, complexidades nem sempre percebidas, e que o sentido delas está muito, mas muito além da humilde e precária compreensão do limitado universo masculino. Mas se me fosse possível ter a chance de querer alguma coisa, gostaria de saber simplesmente o que ela quer, e que talvez nunca saiba, e lhe sussurrar, na orelha fria, que repeti esta pergunta 11 vezes neste texto, e milhares de vezes diariamente, sem cansar, e que é possível que ela queira mesmo é saber que alguém sinceramente se preocupa com ela, e que, num inolvidável momento de minha vida, ao conhecê-la melhor, fui atingido por um raio de vida – e tudo isso é tanto que jamais se apagará de minha pequena alma...”.
Com este desafio, já em casa, sentou-se diante do notebook, cuja tela era a única luz na sala, e começou a tentar descobrir o que uma mulher poderia querer:
“Agora, no momento em que escrevo, não sei o que ela quer, mas sei que está sorrindo umas orquídeas num jardim além do tempo. Afinal, o que querem as mulheres? E o que quer essa mulher em especial, em cuja alma todas as outras habitam? Ela pode querer saber que alguém se sentaria diante dela, num jantar à luz de velas e a ouviria a noite inteira, e me basta ter a consciência de que ela pode estar iluminando poeticamente, por alguns instantes, com um sorriso raro, meio triste - mas definitivo – a realidade dura que a envolve com dores ancestrais, como num tango trágico, mas belo e arrebatador.
Ela pode querer saber que a felicidade até existe, mas começa o dia concentrada nas suas atividades profissionais. Mesmo pegando o ônibus, vindo de carro, ou mesmo a pé, ela quer flutuar nos sonhos que seus olhos não escondem. As obrigações do ofício não lhe impedem de se entregar ao imponderável, às suas dúvidas e temores. Sem falar nas saudades que doem, queimam e estão aprisionadas na distância. O que, de fato, querem as mulheres?
Essa mulher, em especial, pode querer que entendamos que certos encontros podem não ser em linha reta e nos tempos cronológicos. E uma história de amor, às vezes, está escrita fora de ordem, possivelmente para pôr à prova o sentido da transcendência de sua própria ordem. E, sobretudo, para testar se somos capazes de refazê-la no verdadeiro sentido - e, aí sim, para sempre. Deve ser isso, sem dúvida, entre tantas outras coisas, o que elas querem.
Um dia, confesso, vi-lhe as aspirações de uma nova vida, de uma felicidade incerta e intensamente desejada, transbordando de um olhar melancólico, numa cena indefinidamente inesperada: na entrada do colégio, ela se deixava olhar para lugar nenhum, o rabo-de-cavalo graciosamente se mexendo ao menor movimento da cabeça, a mão direita levemente içada à altura do rosto, como se quisesse se esquivar de algum pensamento ruim. O que queria essa mulher?
Passei várias vezes por ela, sempre com a intenção de trocar uma ou outra impressão e dela receber um olhar daqueles. Arranjei desculpas. Arquitetei pretextos. Mas por mais que já estivesse curioso para saber o que ela queria, resolvi conservar intactos a distância, os sonhos e, claro, o coração. Tentei, cirurgicamente, esquecê-la por alguns dias. Contudo, a vida tem suas inesperadas reviravoltas e, numa tarde, vi-a na rua, andando rumo a seu destino de mulher séria, contida, com um pedaço grande visivelmente faltando tanto na alma como no coração. Detive-me nos olhos dela, sem que ela me visse e percebi naquela mulher um olhar para além da eternidade. Que fazer? O que ela poderia querer? Voltei então a pensar literariamente naquele rosto, mesmo achando que este seria um pensamento especial, um pensamento desses que a gente reserva egoisticamente para aliviar a dureza da vida, a desesperança, o desamor, e que não revela para ninguém, com receio que nos roubem. Se pudesse falar com ela naquele momento, recomendar-lhe-ia a leitura da poesia de Murilo Mendes, ou um soneto de Vinicius, mesmo que ela já conhecesse. E por que não, juntamente com os versos, o Concerto para Nota em Sol, de Bach?
Mas ela, passando por mim, teimava em não passar para mim. O que ela quer, afinal? Pus-me em alerta: temi que fosse somente onda, uma nuvem sob a qual ficaria tentado a depositar minha vida. Se isso fosse verdade, seria como no poema de Cecília – ficaria sem poder chorar quando caísse. Lutei. Relutei. Preferi, enfim, banhar-me na luz de sua vontade indecifrável. Até que cheguei à conclusão de que valeria a pena correr o risco de me aproximar de uma pessoa tão iluminada, mesmo que tão desconhecida, mas, ao mesmo tempo, tão familiar como um caminho que se percorre todos os dias em direção ao próprio destino.
Ela talvez queira que saibamos, sem que ela precise dizer, que bons amores resultam do acerto de grandes e pequenos detalhes: um olhar, um sorriso, uma frase oportuna, um silêncio inesperado. Ela possivelmente quer aquele precioso e delicado equilíbrio entre o ser e o sentir, sem falar na certeza da possibilidade dos encontros inesperados, daquilo que não estava escrito nem cogitado. Com os olhos diafragmáticos que tem, essa mulher seria capaz de encarar o sol – e sustentar este olhar. Era assim e continua sendo. Percebi esta capacidade quando a vi na rua, o dia radiante, os olhos suaves, inevitavelmente transbordantes de ternura misturada com uma dor que ainda não consegui definir, embora a identifique claramente. Ela tornava-se, assim, figura solar.
Mas o que, de fato, quer uma mulher assim? Os gestos certos, profissionais, o cabelo negros, as mãos definidas por dedos finos e unhas brancas– tudo isso compunha um instantâneo sentimental que se assemelhava ao retrato do amor perdido num dos desvãos da minha vida. Mas aquela era uma harmonia meio que arranhada por algo que se havia se quebrado na vida dela. Um sentimento? Uma saudade? Uma dor? Fixei o olhar em suas mãos. É como se, com os cristais ainda partidos ou estilhaçados, ela contrariasse, com seus ademanes de mulher decidida, uma perda que escorrera dramaticamente no último e aflito contato com uma história do passado. Foi o que senti quando falei com ela e sua voz iluminou, com dez palavras, a sala onde estávamos. Naquele momento, conheci a mulher querente, cuja doçura persiste, apesar de tudo. Se fosse descrevê-la, se tivesse engenho e arte para tanto, diria que ela corre riscos, acumula conquistas, dribla reveses e não aceita a submissão e o enquadramento que tanto limitam a vida dos comuns. Não, isso, definitivamente, ela não quer.
Olho-a de longe, mas ainda não sei o que essa mulher quer, todavia diria que ela não foge dos desafios que tornam a existência menos monótona e previsível; que sabe que é preciso avançar na direção das utopias, das verdadeiras utopias, pois elas são absolutamente necessárias aos nossos espíritos. Ela lutou batalhas que não lhe pertenciam. Mas como falar isso para ela, sem parecer estar invadindo uma vida tão intensa, tão frágil e, ao mesmo tempo, tão forte? Como dizer estas coisas sem parecer um tolo ingênuo, portador de um romantismo para lá de inatual, perdido num mundo tão árido de sentimento? Como dizer que ela tem os olhos de quem há muito vive profundamente marcado pela ausência e que esta ausência, para mim, tem seis letras e a luminosidade apaixonante do entardecer em Paris e das praias de Neruda? Como dizer?
Afinal, o que querem as mulheres? O que essa mulher quer? E eu, que nem sei de mim, posso dizer que há algo de premonitório no embaraço de dor e saudade que nos habitam a existência, a minha e a dela. Posso dizer, por mais estranho que pareça, que das muitas coisas que me faltam na vida, faltava não só saber o que ela realmente quer, mas vê-la de perto - e por dentro - e constatar que uma mulher é feita de sutilezas, detalhes, complexidades nem sempre percebidas, e que o sentido delas está muito, mas muito além da humilde e precária compreensão do limitado universo masculino. Mas se me fosse possível ter a chance de querer alguma coisa, gostaria de saber simplesmente o que ela quer, e que talvez nunca saiba, e lhe sussurrar, na orelha fria, que repeti esta pergunta 11 vezes neste texto, e milhares de vezes diariamente, sem cansar, e que é possível que ela queira mesmo é saber que alguém sinceramente se preocupa com ela, e que, num inolvidável momento de minha vida, ao conhecê-la melhor, fui atingido por um raio de vida – e tudo isso é tanto que jamais se apagará de minha pequena alma...”.
A CARTA SECRETA
Eu não deveria contar, mas alguém
me disse, não fui eu que inventei: há lugares específicos para que se faça o
que é proibido, inconfessável, porém devido, quando se permite que ponhamos a
mão lá, sem rodeios, direto aos finalmentes,
deixando de lado os emboramentes,
como dizia Odorico, e o faço agora, sem pudores e com alguns pedires,
vascularizando o que me é de direito. Bem, este intróito de duplo sentido me
serve também para destilar sonhos, consentidos ou não, pudicos ou não,
insensatos ou não, que se me ocorrem no momento em que escrevo para esses olhos
redondos e negros, como duas xícaras de café, sem nenhuma necessidade de
adoçante, devo dizer: imagino você agora, aqui, em silêncio, se aproximando de
mim por trás, enquanto escrevo estas mal digitadas, suas mãos descendo pelo meu
pescoço abaixo, como as cobras que se enroscavam no cangote de Indiana Jones...
isso me leva a instâncias outras, literárias ou quase, dessas que acontecem
debaixo dos panos, onde o pau come e ninguém vê, entre dois nefelibatas que
tateiam o terreno alheio com o cuidado dos puros de coração. Pois assim é, e
assim entendo esta situação: dois mundos que se tangenciam pelo amor comum aos
livros, às palavras, aos que procuram e têm certo receio de achar. Como te
disse, é tão simples e tão profundamente complexo, tão longe e tão perto, como
em Asas do Desejo, do Wim Wenders: um
dia frio, um bom lugar para ler um livro, enquanto o mundo lá fora acontece e,
virando-me para você, dizer “olha que coisa linda que acabei de ler” e
perpetrar, neste instante, uma conexão de vários gigabytes de entendimento, empatia, identificação, pois ser compreendido,
sem ter que explicar muito, sem ter que pedir licença, sem temer ser intruso, é
uma raridade num mundo barbárico como este em que ora vivemos, à falta de outro
melhor. Isso de viver literariamente tem seus riscos, no entanto é exatamente
para isso que existimos – para ir além do estratificado, do convencional,
daquilo que permitimos a nós e aos outros, só porque é assim que deve ser. A
Literatura, entre tantas coisas, presta este serviço de assistência social a
quem perdeu tudo na enchente do desamor: é através dela que posso dizer que
preciso de você, sem que ninguém perceba, embora não tenha feito isso agora. É
utilizando a Literatura que posso tocar suas mãos, sem testemunhas, e
visualizar todo este conjunto harmonioso de pernas, pés, boca, seios e ombros,
que se organiza espontaneamente num cenário que faz todo o sentido e, sem o qual,
nada parece valer realmente a pena. É com o auxílio luxuoso da Literatura que
passo a mão e a língua portuguesa por tuas pernas, braços, pescoço, e sinto
aquela discutível sensação ilusória de posse de que falei crônicas atrás, da
qual não consigo me livrar, mesmo sabendo das impossibilidades, reais ou não.
Teimoso, insisto. Ingênuo, acredito. Corajoso, escrevo. E continuo catando as
melhores palavras, aquelas que me permitem ousar para usar, puxar o zíper para
baixo e que me levam a sentir o cheiro de seu cabelo, esse fetiche olfativo que
estimula meus instintos mais primitivos, pois são com as palavras cultivadas
que tateio a superfície da sua alma, num escuro de cinema, até os dedos
encontrarem a possibilidade de um botão entreaberto. Como já falei, não tenho a
mínima necessidade de ter um “não sei quanto” de seguidores de Twitter. Bastar-me-ia
um doce par de olhos, para me sentir que valeu, foi bom para você, vamos de
novo? Já que a nação rubro-negra puxa o coro “Eh, eh, eh, que torcida é essa?”,
entendo que você pergunte: “Que texto é esse? O que querem os homens?”, só para
me cutucar com vara curta da manha feminina e me fazer confessar um amor
impronunciável. Não conto. Adivinhe e, se for o caso, faça que nem é com você,
pois eu ainda não cheguei à idade de dispensar qualquer tipo de beijo ou
atenção, sob pena de ter a alma impedida de pegar os documentos com o carimbo
“nada consta”, no já nem tão distante dia do Juízo Final. Você continua bolada:
o que ele quer dizer com tudo isso? Bem, esclareço: não sei, ou sei, mas não
devo me pronunciar agora, ou talvez mesmo já esteja declarando, sem dizer, num
entra e sai semântico que convém à tepidez dos trópicos em tempos
pré-carnavalescos. Você há de entender e curtir as frases curtas a la Verissimo, os mergulhos em Rubem
Braga, na parte mais funda, a genuflexão diante de Vinicius, os modelitos de
verão de Hemmingway, os cálculos imagéticos de João Cabral e a convocação para
que toda esta turma que você bem conhece te deixe bem à vontade num sarau que
ainda vai acontecer, num lugar e num tempo que não é aqui nem agora, mas devia
ser. Todavia, acreditamos no milagre da Literatura. É um dogma de fé. Convido-te,
pois dependendo do mood de quem flana
em direção às utopias, tudo é possível, enquanto não acontecido. Desculpe o mau
jeito, mas eu podia estar me drogando ou roubando no sinal e, no entanto, estou
aqui, bem perto, mais do que você imagina, literalmente, literariamente. Com as
artérias abertas, mas não conto para ninguém.
sexta-feira, 29 de março de 2013
PRETERIÇÃO
Não
vou escrever que me sinto triste, pois não quero que você saiba disso, embora
este sentimento meio down espreite, com seus olhos pouco felizes, por trás das
palavras que pululam, em pixels e sistemas binários, na luminosidade
quadrangular da tela em minha frente. Não é isso que vou escrever, porque não
quero que se torne público que me sinto tão pequeno diante de meus limites como
ser humano. Como ser? Como não ser? Nunca revelarei que a noite me dá medo de
perder minhas poucas certezas, minhas esperanças, o meu amor. Negra e fria, ela
me engole com sua saliva ácida de abandono. E nada posso fazer, a não ser
esconder que, por motivos que aqui não importam, eu de modo algum devia estar
sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Culpo-me tão violentamente por
tantas coisas que fiz e deixei de fazer, que ninguém poderia sequer desconfiar
desta minha insegurança, que se divide em muitas outras subcategorias, como a
covardia, o desespero, a inabilidade e o terrível medo de ferir tocando. O que
eu queria e não posso é, por exemplo, que tudo o que me acontecesse de bom e
azul, dentro de mim, eu pudesse dar àquilo e a alguém que eu pertencesse. Mas
não falarei, nem adianta insistir. Mesmo que você considere esta confissão
pública demais, aberta demais, despudorada demais, continuarei em silêncio, sem
dar uma pista. Nada, nem os mais grossos muros, tampouco os vidros blindados,
me protege com tanta segurança como este silêncio por escrito. Na verdade, o
silêncio não está na escrita que me brota nos poros, mas no ato de debruçar
sobre o que não quero dizer. Ou escrever. Ou falar. Ou pensar. Como escapar do
medo de não amar ou de não ser amado, bem como o temor seja fútil ou mal
compreendido. Este dissentir é um paradoxo que me permito, posto que está frio
lá fora e aqui dentro. Não lhe chamo a atenção para a pergunta para a qual não
há resposta imediata: quem poderá calcular o calor e a violência de um coração
de poeta, quando preso no corpo de uma mulher? E respondo, mentido: não tenho
ideia, não sei, não posso... É desnecessário dizer que gostaria de encontrar
uma palavra que exprimisse mais que sozinho. Inútil repetir que não acho a
definição do que sinto por dentro quando sei que uma quantidade inimaginável de
pessoas experimenta a felicidade num bar, onde só se ouvem risadas e tilintares
de copos e garrafas alegres. Longe de mim querer achar-me certo diante do
mundo. Apenas sobrevivo. Contudo, nem direi que não se sobrevive por inteiro, e
a parte de nós que sobra estiola-se num não-saber o que fazer do tempo, que não
flui, e da aridez de uma existência que estanca quando os sonhos e fragmentam
em pequeníssimas fagulhas de esperança. É um não saber o que fazer de si mesmo,
creia, sem me dar muito crédito. Não vou me deter no aspecto da existência do
mundo que me fascina – o literário, o lírico, o leve – aliterando-se conforme a
vida me acontece sem ensaio, sem preparação, sem avisos de cuidado. Não serei
barthesiano ao me dar conta que saber que as coisas que vou escrever não me
farão nunca mais amado por aquela que amo, que a Literatura não compensa nada,
não sublima nada, que ela está precisamente aí onde você não está, isso tudo é
o começo, é o destampar o garrafão da escritura e beber até que as artérias se
rompam sob a pressão do alto teor vocabular nelas injetado. Por que dizer que
quanto mais toco na ferida, mais ela sangra? Em tempo algum lhe direi que são
muito mais numerosas as horas em que não sei o caminho, que me perco, que me firo,
firo e me refiro pedestremente, como se tomado pela mais baixa frequência de
mediocridade, mas tudo com a mais impiedosa consciência dos meus limites
humanos. É inconfessável: como gostaria de não ser humano. Ser, apenas, pois a
humanidade carreia um sem número de defeitos aos atos do ser, aquele que existe
com o outro, para o outro, com uma única e nobre finalidade: amar. Por isso,
não falo sequer da minha frustração de existir defeituosamente no mundo, pois
no mundo há as pessoas e elas podem se ferir em função do mau andamento de
minha existência sartriana que tanto me assusta e fascina. Custa-me informar a
todos que possam estar interessados que os argumentos da razão são infelizes e
insuficientes quando se trata de captar a lógica do itinerário do coração, e
ainda mais insatisfatórios quando tentam alterar seu curso. Por isso, e mais
que a poesia não ousa, não te direi que meu tesouro és tu, eternamente tu, e
que não há passos divergentes para quem quer, enfim, se encontrar...
A CAMISA
Domingo
à tarde. Saiu para o jogo, com a confiança de quem, no final, ia ser o
vencedor. Desceu a ladeira enlameada da favela, com o coração cheio de
esperança e o bolso nem tanto – só havia a conta exata para o ônibus e para a
entrada no Maracanã. Deixaria a cerveja para outro dia, com os amigos do morro,
só para esticar mais um pouco o deleite pela vitória do Flamengo. Faria
hora-extra, se fosse o caso, e assim teria uma grana para comemorar a vitória
do rubro-negro. Bem, isso se tivesse emprego fixo – mas, o que uma conquista do
Mengão não faria por ele? Era bem capaz de arranjar um bom emprego logo na
segunda-feira cedinho, sem esforço. Só tinha uma coisa faltando e não era de
hoje: nunca havia conseguido comprar uma camisa do seu time de coração. Isso
era uma frustração apenas amenizada por tantos gols de Zico que ele
testemunhara ali bem de pertinho, da geral do Mário Filho. Mas, tudo bem. Hoje,
fazia um calorão dos diabos, e ele logo providenciou seu traje de torcedor:
sandália de dedo, um bermuda surrada, que já fora uma calça jeans um dia, e uma
camiseta de propaganda política, com um furo aqui e ali, que ele enrolou na
cabeça, para se proteger do sol de fevereiro. Porém, faltava a camisa do
Flamengo, né? É, faltava, e a falta se fazia maior quando chegou ao asfalto,
entrou no ônibus e, da janela, ficou vendo seus futuros companheiros de
torcida, mais abastados, vergando o Manto Sagrado e seguindo na mesma direção.
Aí, até que ele entendia: a maior torcida do Brasil tem representantes em todas
as classes sociais. Até ele - pobre, negro, sem emprego, mas orgulhoso da
honestidade e dos valores que pregava, em casa, para a prole que não parava de
crescer, diabos! Sua alegria, fora a família, era ver o Flamengo jogar. Era ver
o Flamengo vencer. Era ter, um dia, uma camisa dez rubro-negra, para sair por
aí e dizer ao mundo que naquele homem morava uma paixão em preto e vermelho. No
trajeto para o estádio, viu o que lhe parecia uma vertigem nas duas cores
amadas: torcedores devidamente uniformizados com a camisa do Flamengo pareciam
brotar de todos os lugares, carregando bandeiras e um orgulho de fazer parte de
uma nação maior que o próprio país. Os carros passavam lotados: todos vestiam o
Manto. Era tal festival flamenguista pela cidade, que parecia que não ia haver
jogo – apenas o Flamengo entrando em campo e saudando os torcedores emocionados
a gritar: Flamengo, eu te amo! Preto e vermelho, preto e vermelho, preto e
vermelho, o mundo era assim, rubro-negro, de corpo e alma. Então, sentiu, com
certa amargura, que, apesar de amar o clube até morrer, talvez não fizesse
mesmo parte daquela torcida que, devidamente encamisada, parecia enfrentar o
mundo sem medo de nada, pois nada lhe faria mal desde que estivesse dentro
daquele círculo magnético que pulsava em preto e vermelho. Este momento de
tristeza e frustração foi interrompido com um tumulto dentro do ônibus – alguém
que não gostava da vida, não gostava de mulher, não gostava nem de futebol,
sacou uma arma e anunciou um assalto e que lhe dessem já o que tinham de valor.
O que faria ele, se não tinha nem o que considerava seu bem mais precioso – uma
camisa listrada em preto e vermelho, para lhe salvar a vida? Sentiu o cano frio
do revolver a lhe cutucar a nuca suada. Como não tinha nada? Não adiantou balbuciar
algumas desculpas – o assaltante disparou quatro tiros no seu peito
descamisado, o mesmo peito que abrigava o maior amor do mundo que, com ele
caído no chão do 763, jorrava, na cor vermelha, listas que misteriosamente se
harmonizavam, em fios paralelos, com sua pele negra. Finalmente, o manto
sagrado lhe cobria o corpo.
PAUL
Havia John, o beatle de oclinho, que fazia bonito no silk
das camisetas e nos refrões das canções de protesto, mesmo achando que a
felicidade é uma arma quente e imaginando um mundo sem fronteiras. Havia George
e seus mantras indianos, além da guitarra afiada e precisa, encoberta por
longos cabelos pendentes. Havia Ringo e toda uma aura de ingenuidade que seu
jeito clown emprestava aos modismos
da banda, enquanto os mágicos anos 60 comiam solto, entre bombas e revoluções. Entre
tantas coisas, Paul costurava uma carreira que iria além dos Beatles, embora
deles nunca mais se separasse. Rabiscava canções românticas, trancado num
quarto de hotel, ao passo que os outros – e nestes outros incluo o resto do
mundo – vislumbravam um amanhecer avermelhado pelo cogumelo gigante da explosão
de alguma bomba atômica. Tudo isso fazia parte do show, mas o filho de Mary não
se angustiava demais e acreditava em campos de morangos sempiternos. Por isso,
e mais, torno a afirmar, com todas as letras: Paul era o cara dos Beatles!
Pois foi ele quem compôs Yesterday e The Long and
Winding Road, e isso já bastaria para que fosse lembrado por gerações e
gerações de gente que se rende ao amor. Foi ele quem namorou Jane Asher, se
apaixonou por Linda Eastman, se casou com Heather Mills e voltou a namorar,
agora, Nancy Shevell. Para todas, tocou a delicada Maybe I’m Amazed, sem mentir que a havia feito para Linda, juntamente
com outra pérola, My Love. Ninguém
reclamou. Paul era o cara!
Não satisfeito, gravou um par de hits com Michel Jackson
e valorizou a comida vegetariana, sem se importar de ser apenas um tolo na
colina. Defendeu os animais em Hope of
Deliverance e provou, junto com Stevie Wonder, que as teclas brancas e
pretas do piano são a mais perfeita metáfora da harmonia entre os homens. Não
mais noites solitárias ou pássaros negros cantando de madrugada: viva e deixe
morrer, pois, talvez, eu esteja surpreso. Paul é o cara!
McCartney seria, numa comparação psicodélica como convém
aos sixties, o contrário de um
capitão Nascimento da tropa de elite do rock: sensível, suave, romântico,
engraçado. Pede para entrar. Deixa que dirijam seu carro e é solidário com os
membros da banda do clube dos corações solitários. Sempre com a pequena ajuda
dos amigos e tudo em nome do bom e velho rock’n’roll.
Ninguém mais nos Beatles tinha aquela mania de fazer
canções solares, getting better all the
time, e de gostar das mulheres mais bonitas, todas “se querendo” ao ouvir
os metais de Got to Get You into My Life.
Assim como ninguém compõe In My Life
impunemente e sai andando por aí, sem virar ícone eterno de avós, pais, filhos
e netos. Sim, pois eu vi, naquele domingo inesquecível, após o show em São
Paulo, milhares de pessoas de todas as idades, credos e clubes de futebol, que pareciam
não acreditar que estiveram no mesmo lugar que ele, a poucos metros de
distância, considerando as milhas náuticas, aéreas e nostálgicas que separam o
Brasil da Inglaterra e o comecinho da segunda década do segundo milênio daqueles
jurássicos anos 60. Não há como negar: Paul ainda é o cara!
Pois, para muitos, o Natal deste ano veio em novembro, e
sem essa de bom velhinho: Paul ainda é o jovem de Liverpool que resolveu
escrever tolas canções de amor e cantá-las num palco mais próximo de sua casa,
sem se importar com idolatrias ou montanhas de dinheiro, embora usufrua dos
dois, sem culpa. Mesmo correndo o risco de não ficar bem na foto do politicamente
correto, mas junto com algumas centenas de milhões, vivos, mortos ou ainda por
nascer, repito sem temer cansá-los: Paul será sempre o cara!
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