sábado, 30 de março de 2013

A CARTA SECRETA


Eu não deveria contar, mas alguém me disse, não fui eu que inventei: há lugares específicos para que se faça o que é proibido, inconfessável, porém devido, quando se permite que ponhamos a mão lá, sem rodeios, direto aos finalmentes, deixando de lado os emboramentes, como dizia Odorico, e o faço agora, sem pudores e com alguns pedires, vascularizando o que me é de direito. Bem, este intróito de duplo sentido me serve também para destilar sonhos, consentidos ou não, pudicos ou não, insensatos ou não, que se me ocorrem no momento em que escrevo para esses olhos redondos e negros, como duas xícaras de café, sem nenhuma necessidade de adoçante, devo dizer: imagino você agora, aqui, em silêncio, se aproximando de mim por trás, enquanto escrevo estas mal digitadas, suas mãos descendo pelo meu pescoço abaixo, como as cobras que se enroscavam no cangote de Indiana Jones... isso me leva a instâncias outras, literárias ou quase, dessas que acontecem debaixo dos panos, onde o pau come e ninguém vê, entre dois nefelibatas que tateiam o terreno alheio com o cuidado dos puros de coração. Pois assim é, e assim entendo esta situação: dois mundos que se tangenciam pelo amor comum aos livros, às palavras, aos que procuram e têm certo receio de achar. Como te disse, é tão simples e tão profundamente complexo, tão longe e tão perto, como em Asas do Desejo, do Wim Wenders: um dia frio, um bom lugar para ler um livro, enquanto o mundo lá fora acontece e, virando-me para você, dizer “olha que coisa linda que acabei de ler” e perpetrar, neste instante, uma conexão de vários gigabytes de entendimento, empatia, identificação, pois ser compreendido, sem ter que explicar muito, sem ter que pedir licença, sem temer ser intruso, é uma raridade num mundo barbárico como este em que ora vivemos, à falta de outro melhor. Isso de viver literariamente tem seus riscos, no entanto é exatamente para isso que existimos – para ir além do estratificado, do convencional, daquilo que permitimos a nós e aos outros, só porque é assim que deve ser. A Literatura, entre tantas coisas, presta este serviço de assistência social a quem perdeu tudo na enchente do desamor: é através dela que posso dizer que preciso de você, sem que ninguém perceba, embora não tenha feito isso agora. É utilizando a Literatura que posso tocar suas mãos, sem testemunhas, e visualizar todo este conjunto harmonioso de pernas, pés, boca, seios e ombros, que se organiza espontaneamente num cenário que faz todo o sentido e, sem o qual, nada parece valer realmente a pena. É com o auxílio luxuoso da Literatura que passo a mão e a língua portuguesa por tuas pernas, braços, pescoço, e sinto aquela discutível sensação ilusória de posse de que falei crônicas atrás, da qual não consigo me livrar, mesmo sabendo das impossibilidades, reais ou não. Teimoso, insisto. Ingênuo, acredito. Corajoso, escrevo. E continuo catando as melhores palavras, aquelas que me permitem ousar para usar, puxar o zíper para baixo e que me levam a sentir o cheiro de seu cabelo, esse fetiche olfativo que estimula meus instintos mais primitivos, pois são com as palavras cultivadas que tateio a superfície da sua alma, num escuro de cinema, até os dedos encontrarem a possibilidade de um botão entreaberto. Como já falei, não tenho a mínima necessidade de ter um “não sei quanto” de seguidores de Twitter. Bastar-me-ia um doce par de olhos, para me sentir que valeu, foi bom para você, vamos de novo? Já que a nação rubro-negra puxa o coro “Eh, eh, eh, que torcida é essa?”, entendo que você pergunte: “Que texto é esse? O que querem os homens?”, só para me cutucar com vara curta da manha feminina e me fazer confessar um amor impronunciável. Não conto. Adivinhe e, se for o caso, faça que nem é com você, pois eu ainda não cheguei à idade de dispensar qualquer tipo de beijo ou atenção, sob pena de ter a alma impedida de pegar os documentos com o carimbo “nada consta”, no já nem tão distante dia do Juízo Final. Você continua bolada: o que ele quer dizer com tudo isso? Bem, esclareço: não sei, ou sei, mas não devo me pronunciar agora, ou talvez mesmo já esteja declarando, sem dizer, num entra e sai semântico que convém à tepidez dos trópicos em tempos pré-carnavalescos. Você há de entender e curtir as frases curtas a la Verissimo, os mergulhos em Rubem Braga, na parte mais funda, a genuflexão diante de Vinicius, os modelitos de verão de Hemmingway, os cálculos imagéticos de João Cabral e a convocação para que toda esta turma que você bem conhece te deixe bem à vontade num sarau que ainda vai acontecer, num lugar e num tempo que não é aqui nem agora, mas devia ser. Todavia, acreditamos no milagre da Literatura. É um dogma de fé. Convido-te, pois dependendo do mood de quem flana em direção às utopias, tudo é possível, enquanto não acontecido. Desculpe o mau jeito, mas eu podia estar me drogando ou roubando no sinal e, no entanto, estou aqui, bem perto, mais do que você imagina, literalmente, literariamente. Com as artérias abertas, mas não conto para ninguém.    


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