sexta-feira, 29 de março de 2013

PAUL


           
 Sim, sei que escrevo com atraso de duas semanas, e que até o Joaquim já tenha mandado, muito bem por sinal, e como sempre, uma crônica de primeiríssima qualidade sobre a importância de Paul McCartney no cenário pop-rock-sentimental da humanidade nas últimas décadas e em muitas vindouras. Assino embaixo: Paul era o cara dos Beatles!
            Havia John, o beatle de oclinho, que fazia bonito no silk das camisetas e nos refrões das canções de protesto, mesmo achando que a felicidade é uma arma quente e imaginando um mundo sem fronteiras. Havia George e seus mantras indianos, além da guitarra afiada e precisa, encoberta por longos cabelos pendentes. Havia Ringo e toda uma aura de ingenuidade que seu jeito clown emprestava aos modismos da banda, enquanto os mágicos anos 60 comiam solto, entre bombas e revoluções. Entre tantas coisas, Paul costurava uma carreira que iria além dos Beatles, embora deles nunca mais se separasse. Rabiscava canções românticas, trancado num quarto de hotel, ao passo que os outros – e nestes outros incluo o resto do mundo – vislumbravam um amanhecer avermelhado pelo cogumelo gigante da explosão de alguma bomba atômica. Tudo isso fazia parte do show, mas o filho de Mary não se angustiava demais e acreditava em campos de morangos sempiternos. Por isso, e mais, torno a afirmar, com todas as letras: Paul era o cara dos Beatles!
            Pois foi ele quem compôs Yesterday e The Long and Winding Road, e isso já bastaria para que fosse lembrado por gerações e gerações de gente que se rende ao amor. Foi ele quem namorou Jane Asher, se apaixonou por Linda Eastman, se casou com Heather Mills e voltou a namorar, agora, Nancy Shevell. Para todas, tocou a delicada Maybe I’m Amazed, sem mentir que a havia feito para Linda, juntamente com outra pérola, My Love. Ninguém reclamou. Paul era o cara!
            Não satisfeito, gravou um par de hits com Michel Jackson e valorizou a comida vegetariana, sem se importar de ser apenas um tolo na colina. Defendeu os animais em Hope of Deliverance e provou, junto com Stevie Wonder, que as teclas brancas e pretas do piano são a mais perfeita metáfora da harmonia entre os homens. Não mais noites solitárias ou pássaros negros cantando de madrugada: viva e deixe morrer, pois, talvez, eu esteja surpreso. Paul é o cara!
            McCartney seria, numa comparação psicodélica como convém aos sixties, o contrário de um capitão Nascimento da tropa de elite do rock: sensível, suave, romântico, engraçado. Pede para entrar. Deixa que dirijam seu carro e é solidário com os membros da banda do clube dos corações solitários. Sempre com a pequena ajuda dos amigos e tudo em nome do bom e velho rock’n’roll.
            Ninguém mais nos Beatles tinha aquela mania de fazer canções solares, getting better all the time, e de gostar das mulheres mais bonitas, todas “se querendo” ao ouvir os metais de Got to Get You into My Life. Assim como ninguém compõe In My Life impunemente e sai andando por aí, sem virar ícone eterno de avós, pais, filhos e netos. Sim, pois eu vi, naquele domingo inesquecível, após o show em São Paulo, milhares de pessoas de todas as idades, credos e clubes de futebol, que pareciam não acreditar que estiveram no mesmo lugar que ele, a poucos metros de distância, considerando as milhas náuticas, aéreas e nostálgicas que separam o Brasil da Inglaterra e o comecinho da segunda década do segundo milênio daqueles jurássicos anos 60. Não há como negar: Paul ainda é o cara!  
            Pois, para muitos, o Natal deste ano veio em novembro, e sem essa de bom velhinho: Paul ainda é o jovem de Liverpool que resolveu escrever tolas canções de amor e cantá-las num palco mais próximo de sua casa, sem se importar com idolatrias ou montanhas de dinheiro, embora usufrua dos dois, sem culpa. Mesmo correndo o risco de não ficar bem na foto do politicamente correto, mas junto com algumas centenas de milhões, vivos, mortos ou ainda por nascer, repito sem temer cansá-los: Paul será sempre o cara!

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