Havia John, o beatle de oclinho, que fazia bonito no silk
das camisetas e nos refrões das canções de protesto, mesmo achando que a
felicidade é uma arma quente e imaginando um mundo sem fronteiras. Havia George
e seus mantras indianos, além da guitarra afiada e precisa, encoberta por
longos cabelos pendentes. Havia Ringo e toda uma aura de ingenuidade que seu
jeito clown emprestava aos modismos
da banda, enquanto os mágicos anos 60 comiam solto, entre bombas e revoluções. Entre
tantas coisas, Paul costurava uma carreira que iria além dos Beatles, embora
deles nunca mais se separasse. Rabiscava canções românticas, trancado num
quarto de hotel, ao passo que os outros – e nestes outros incluo o resto do
mundo – vislumbravam um amanhecer avermelhado pelo cogumelo gigante da explosão
de alguma bomba atômica. Tudo isso fazia parte do show, mas o filho de Mary não
se angustiava demais e acreditava em campos de morangos sempiternos. Por isso,
e mais, torno a afirmar, com todas as letras: Paul era o cara dos Beatles!
Pois foi ele quem compôs Yesterday e The Long and
Winding Road, e isso já bastaria para que fosse lembrado por gerações e
gerações de gente que se rende ao amor. Foi ele quem namorou Jane Asher, se
apaixonou por Linda Eastman, se casou com Heather Mills e voltou a namorar,
agora, Nancy Shevell. Para todas, tocou a delicada Maybe I’m Amazed, sem mentir que a havia feito para Linda, juntamente
com outra pérola, My Love. Ninguém
reclamou. Paul era o cara!
Não satisfeito, gravou um par de hits com Michel Jackson
e valorizou a comida vegetariana, sem se importar de ser apenas um tolo na
colina. Defendeu os animais em Hope of
Deliverance e provou, junto com Stevie Wonder, que as teclas brancas e
pretas do piano são a mais perfeita metáfora da harmonia entre os homens. Não
mais noites solitárias ou pássaros negros cantando de madrugada: viva e deixe
morrer, pois, talvez, eu esteja surpreso. Paul é o cara!
McCartney seria, numa comparação psicodélica como convém
aos sixties, o contrário de um
capitão Nascimento da tropa de elite do rock: sensível, suave, romântico,
engraçado. Pede para entrar. Deixa que dirijam seu carro e é solidário com os
membros da banda do clube dos corações solitários. Sempre com a pequena ajuda
dos amigos e tudo em nome do bom e velho rock’n’roll.
Ninguém mais nos Beatles tinha aquela mania de fazer
canções solares, getting better all the
time, e de gostar das mulheres mais bonitas, todas “se querendo” ao ouvir
os metais de Got to Get You into My Life.
Assim como ninguém compõe In My Life
impunemente e sai andando por aí, sem virar ícone eterno de avós, pais, filhos
e netos. Sim, pois eu vi, naquele domingo inesquecível, após o show em São
Paulo, milhares de pessoas de todas as idades, credos e clubes de futebol, que pareciam
não acreditar que estiveram no mesmo lugar que ele, a poucos metros de
distância, considerando as milhas náuticas, aéreas e nostálgicas que separam o
Brasil da Inglaterra e o comecinho da segunda década do segundo milênio daqueles
jurássicos anos 60. Não há como negar: Paul ainda é o cara!
Pois, para muitos, o Natal deste ano veio em novembro, e
sem essa de bom velhinho: Paul ainda é o jovem de Liverpool que resolveu
escrever tolas canções de amor e cantá-las num palco mais próximo de sua casa,
sem se importar com idolatrias ou montanhas de dinheiro, embora usufrua dos
dois, sem culpa. Mesmo correndo o risco de não ficar bem na foto do politicamente
correto, mas junto com algumas centenas de milhões, vivos, mortos ou ainda por
nascer, repito sem temer cansá-los: Paul será sempre o cara!

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