Sim, ele falou e
escreveu, e ela falou e escreveu melhor ainda, dando de 10 a 0 nele, deixando-o
vendo estrelas, então e agora, botando-o no lugar dele, deixando-o zonzo, como depois de um cruzado de
Tyson; em xeque-mate de Karpov; dando uma cortada da linha de três metros que
só Giba consegue; ultrapassando na primeira curva ao estilo de Senna, driblando
o goleiro igual a Zico, sem humildade em gol, como Fio Maravilha, com a
precisão de uma tacada de Tiger Woods. Mas eu já esperava por isso, desde que a
vi pela primeira vez, e aquela cena ficou colada na cortiça do meu cerebelo,
uma linda mulher que entrou pela menina dos meus olhos e que cisma em não sair,
um cisco de luz que chega a minha orelha fria e carente de segredos e
confissões amoráveis. Sei lá se é um bilhete para Pasárgada, Strawberry Fields
Forever, a Ilha Misteriosa, Além do Horizonte, a Tonga da Mironga do Kabuletê, ou
qualquer desses paraísos fiscais da felicidade que os poetas de tempos em
tempos sugerem. Que ela venha toda de branco, toda molhada e despenteada, como
bem disse Ben Jor, e disse-o bem, e sopre seus lirismos para dentro de meus
pulmões cansados, desparagone a página certinha quando algum tsunami literário vier
bater em sua janela, sofistique o vocabulário e me obrigue a suar a camisa para
escrever alguma coisa que preste, alguma coisa que esteja à sua altura
sentimental e que seja capaz de mudar o rumo das nuvens, além de trazê-la para
mais perto. Alguma coisa que fale também em beijinhos trôpegos, em doces
vampiros, em chás que não acontecem, em articulações braquiais com a cintura
escapular, em pontos de diversa natureza, sejam eles de interrogação, exclamação,
finais; do ponto a até o b, incluindo o g (ai...). E que a isso se aduzisse
algo como toalhas molhadas, sanduíches de presunto com queijo, poemas
vinicianos, sapatos lilases com a ilusão de salto, unhas brancas and forgotten glasses, numa viagem em
que há de se juntar lábios para beijinhos sem ter fim, trôpegos ou não,
selvagens ou não, mas permanentemente molhados de desejo e suor. Eu, genuflexo,
boquiaberto sem chances de me boquifechar diante desta capacidade de reinventar
cheiros, toques e as tão íntimas palavras que dizem tudo, essas que andam sem
calcinha pelos corredores da alma, e que deixam claro o que sente o mergulhador
imerso em mar e na bela mulher, em cujos ouvidos o velvet da língua inglesa se intromete molhado, nervoso, elétrico. E
a língua que se transforma em palavras, que se transformam em cartas escritas
sobre o corpo amoroso, usado como apoio definitivo; cartas que se escrevem na
cama sobre o corpo amado, com a ambígua pena que fere de amor a superfície da
pele/papel do corpo que se ama, deixando nele o gozo da escrita amoravelmente
literária. Se somente as rádios FM podem transmitir ondas assim, surfo-as,
curto-as e emulo um tal poeta que também versejou sobre os mesmos braços
líquidos que me cercavam num abraçar completo das águas femininas. Sobe a
temperatura. Cai o queixo. Quedo-me em admiração. No papiro da pele desta
mulher, o Calígrafo Supremo parece ter rabiscado os primeiros versos que eu
gostaria de ter escrito, se não me faltassem engenho e arte para tal nobre
tarefa. Na falta de incenso e mirra, balanço em sua honra meu turíbulo de
maravilhas semânticas. Sempiterno. Frêmito. Orquídea. Farpela. Bruma. Uma
mulher assim está pronta para algo definitivo. Merece as margens do Sena e um
pôr do sol em Paris. Merece jazz com sorvete de chocolate. Fellini com
Hitchcock. Perrier com trufas. Star Wars com Enterprise. Se ela finalmente se
deu conta de caber tantas coincidências numa estante, num instante, como posso
discordar? Se fica a marca no seio e no coração, por proximidade, por paixão,
abstenho-me de teorias psicanalíticas para explicar o que não pode ser
entendido, e apenas aceito o que me acontece como dogma de fé, pois é melhor
que coisas aconteçam assim, antes à tarde do que nunca, do que ficar tomando
chá de cadeira no grande baile dos desencontros e, sem esperança, desistir da
vida. Se esta mulher sentiu um arrepio a lhe percorrer o corpo, se ela sentiu
crescer em seu interior sensações de nervoso e desejo, e se ela se sentiu
linda, então está tudo certo, como dois e dois são (de) quatro e não se fala
mais nisso; então todos os astros se alinham, então todo o universo conspira a seu
favor, com a bênção de todos os jargões de autoajuda que ora recebo nestas
correntes que devo mandar para vinte pessoas, com a alma completamente aberta e
humilde. Se há tantas coisas que acontecem quando menos se espera, pois aro a
minha h(a)orta particular com simplicidade e com a sabedoria tirada dos versos
de Vinicius de Moraes e dos boleros de Anísio Silva, como ter vivido plenamente
antes, sem o que se supõe ter agora? Se a gente pode ler histórias amoráveis no
corpo amado e se o mundo continua assombrado, sem saber para aonde vão as
canetas Bic perdidas, durma-se com mais este mistério: para onde vai esta
mulher, depois que esquece, distraída, suas doçuras e sonhos dentro de mim?

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