domingo, 31 de março de 2013

ELE, ELA E O CAMINHO DAS LETRAS


Sim, ele falou e escreveu, e ela falou e escreveu melhor ainda, dando de 10 a 0 nele, deixando-o vendo estrelas, então e agora, botando-o no lugar dele,  deixando-o zonzo, como depois de um cruzado de Tyson; em xeque-mate de Karpov; dando uma cortada da linha de três metros que só Giba consegue; ultrapassando na primeira curva ao estilo de Senna, driblando o goleiro igual a Zico, sem humildade em gol, como Fio Maravilha, com a precisão de uma tacada de Tiger Woods. Mas eu já esperava por isso, desde que a vi pela primeira vez, e aquela cena ficou colada na cortiça do meu cerebelo, uma linda mulher que entrou pela menina dos meus olhos e que cisma em não sair, um cisco de luz que chega a minha orelha fria e carente de segredos e confissões amoráveis. Sei lá se é um bilhete para Pasárgada, Strawberry Fields Forever, a Ilha Misteriosa, Além do Horizonte, a Tonga da Mironga do Kabuletê, ou qualquer desses paraísos fiscais da felicidade que os poetas de tempos em tempos sugerem. Que ela venha toda de branco, toda molhada e despenteada, como bem disse Ben Jor, e disse-o bem, e sopre seus lirismos para dentro de meus pulmões cansados, desparagone a página certinha quando algum tsunami literário vier bater em sua janela, sofistique o vocabulário e me obrigue a suar a camisa para escrever alguma coisa que preste, alguma coisa que esteja à sua altura sentimental e que seja capaz de mudar o rumo das nuvens, além de trazê-la para mais perto. Alguma coisa que fale também em beijinhos trôpegos, em doces vampiros, em chás que não acontecem, em articulações braquiais com a cintura escapular, em pontos de diversa natureza, sejam eles de interrogação, exclamação, finais; do ponto a até o b, incluindo o g (ai...). E que a isso se aduzisse algo como toalhas molhadas, sanduíches de presunto com queijo, poemas vinicianos, sapatos lilases com a ilusão de salto, unhas brancas and forgotten glasses, numa viagem em que há de se juntar lábios para beijinhos sem ter fim, trôpegos ou não, selvagens ou não, mas permanentemente molhados de desejo e suor. Eu, genuflexo, boquiaberto sem chances de me boquifechar diante desta capacidade de reinventar cheiros, toques e as tão íntimas palavras que dizem tudo, essas que andam sem calcinha pelos corredores da alma, e que deixam claro o que sente o mergulhador imerso em mar e na bela mulher, em cujos ouvidos o velvet da língua inglesa se intromete molhado, nervoso, elétrico. E a língua que se transforma em palavras, que se transformam em cartas escritas sobre o corpo amoroso, usado como apoio definitivo; cartas que se escrevem na cama sobre o corpo amado, com a ambígua pena que fere de amor a superfície da pele/papel do corpo que se ama, deixando nele o gozo da escrita amoravelmente literária. Se somente as rádios FM podem transmitir ondas assim, surfo-as, curto-as e emulo um tal poeta que também versejou sobre os mesmos braços líquidos que me cercavam num abraçar completo das águas femininas. Sobe a temperatura. Cai o queixo. Quedo-me em admiração. No papiro da pele desta mulher, o Calígrafo Supremo parece ter rabiscado os primeiros versos que eu gostaria de ter escrito, se não me faltassem engenho e arte para tal nobre tarefa. Na falta de incenso e mirra, balanço em sua honra meu turíbulo de maravilhas semânticas. Sempiterno. Frêmito. Orquídea. Farpela. Bruma. Uma mulher assim está pronta para algo definitivo. Merece as margens do Sena e um pôr do sol em Paris. Merece jazz com sorvete de chocolate. Fellini com Hitchcock. Perrier com trufas. Star Wars com Enterprise. Se ela finalmente se deu conta de caber tantas coincidências numa estante, num instante, como posso discordar? Se fica a marca no seio e no coração, por proximidade, por paixão, abstenho-me de teorias psicanalíticas para explicar o que não pode ser entendido, e apenas aceito o que me acontece como dogma de fé, pois é melhor que coisas aconteçam assim, antes à tarde do que nunca, do que ficar tomando chá de cadeira no grande baile dos desencontros e, sem esperança, desistir da vida. Se esta mulher sentiu um arrepio a lhe percorrer o corpo, se ela sentiu crescer em seu interior sensações de nervoso e desejo, e se ela se sentiu linda, então está tudo certo, como dois e dois são (de) quatro e não se fala mais nisso; então todos os astros se alinham, então todo o universo conspira a seu favor, com a bênção de todos os jargões de autoajuda que ora recebo nestas correntes que devo mandar para vinte pessoas, com a alma completamente aberta e humilde. Se há tantas coisas que acontecem quando menos se espera, pois aro a minha h(a)orta particular com simplicidade e com a sabedoria tirada dos versos de Vinicius de Moraes e dos boleros de Anísio Silva, como ter vivido plenamente antes, sem o que se supõe ter agora? Se a gente pode ler histórias amoráveis no corpo amado e se o mundo continua assombrado, sem saber para aonde vão as canetas Bic perdidas, durma-se com mais este mistério: para onde vai esta mulher, depois que esquece, distraída, suas doçuras e sonhos dentro de mim?   

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