Ele saiu da festa com aquelas mulheres
na cabeça. Afinal, o que elas queriam? Essa era a pergunta da moda. Eram
lindas, sorriam seu melhor dente e suas unhas perfeitas e vermelhas refletiam
os flashes das câmeras digitais e as luzes do ambiente. Estavam, aparentemente,
felizes, sem nada a lhes ameaçar o momento de confraternização com os amigos.
Nesta época de Natal, elas é que são as festas, lindas, soltas, mas, ao mesmo
tempo, também são misteriosas, indecifráveis, esfingéticas, como se quisessem
que soubéssemos, sem perguntar, o que, por que, como e quando querem.
Com este desafio, já em casa, sentou-se diante do notebook, cuja tela era a única luz na sala, e começou a tentar descobrir o que uma mulher poderia querer:
“Agora, no momento em que escrevo, não sei o que ela quer, mas sei que está sorrindo umas orquídeas num jardim além do tempo. Afinal, o que querem as mulheres? E o que quer essa mulher em especial, em cuja alma todas as outras habitam? Ela pode querer saber que alguém se sentaria diante dela, num jantar à luz de velas e a ouviria a noite inteira, e me basta ter a consciência de que ela pode estar iluminando poeticamente, por alguns instantes, com um sorriso raro, meio triste - mas definitivo – a realidade dura que a envolve com dores ancestrais, como num tango trágico, mas belo e arrebatador.
Ela pode querer saber que a felicidade até existe, mas começa o dia concentrada nas suas atividades profissionais. Mesmo pegando o ônibus, vindo de carro, ou mesmo a pé, ela quer flutuar nos sonhos que seus olhos não escondem. As obrigações do ofício não lhe impedem de se entregar ao imponderável, às suas dúvidas e temores. Sem falar nas saudades que doem, queimam e estão aprisionadas na distância. O que, de fato, querem as mulheres?
Essa mulher, em especial, pode querer que entendamos que certos encontros podem não ser em linha reta e nos tempos cronológicos. E uma história de amor, às vezes, está escrita fora de ordem, possivelmente para pôr à prova o sentido da transcendência de sua própria ordem. E, sobretudo, para testar se somos capazes de refazê-la no verdadeiro sentido - e, aí sim, para sempre. Deve ser isso, sem dúvida, entre tantas outras coisas, o que elas querem.
Um dia, confesso, vi-lhe as aspirações de uma nova vida, de uma felicidade incerta e intensamente desejada, transbordando de um olhar melancólico, numa cena indefinidamente inesperada: na entrada do colégio, ela se deixava olhar para lugar nenhum, o rabo-de-cavalo graciosamente se mexendo ao menor movimento da cabeça, a mão direita levemente içada à altura do rosto, como se quisesse se esquivar de algum pensamento ruim. O que queria essa mulher?
Passei várias vezes por ela, sempre com a intenção de trocar uma ou outra impressão e dela receber um olhar daqueles. Arranjei desculpas. Arquitetei pretextos. Mas por mais que já estivesse curioso para saber o que ela queria, resolvi conservar intactos a distância, os sonhos e, claro, o coração. Tentei, cirurgicamente, esquecê-la por alguns dias. Contudo, a vida tem suas inesperadas reviravoltas e, numa tarde, vi-a na rua, andando rumo a seu destino de mulher séria, contida, com um pedaço grande visivelmente faltando tanto na alma como no coração. Detive-me nos olhos dela, sem que ela me visse e percebi naquela mulher um olhar para além da eternidade. Que fazer? O que ela poderia querer? Voltei então a pensar literariamente naquele rosto, mesmo achando que este seria um pensamento especial, um pensamento desses que a gente reserva egoisticamente para aliviar a dureza da vida, a desesperança, o desamor, e que não revela para ninguém, com receio que nos roubem. Se pudesse falar com ela naquele momento, recomendar-lhe-ia a leitura da poesia de Murilo Mendes, ou um soneto de Vinicius, mesmo que ela já conhecesse. E por que não, juntamente com os versos, o Concerto para Nota em Sol, de Bach?
Mas ela, passando por mim, teimava em não passar para mim. O que ela quer, afinal? Pus-me em alerta: temi que fosse somente onda, uma nuvem sob a qual ficaria tentado a depositar minha vida. Se isso fosse verdade, seria como no poema de Cecília – ficaria sem poder chorar quando caísse. Lutei. Relutei. Preferi, enfim, banhar-me na luz de sua vontade indecifrável. Até que cheguei à conclusão de que valeria a pena correr o risco de me aproximar de uma pessoa tão iluminada, mesmo que tão desconhecida, mas, ao mesmo tempo, tão familiar como um caminho que se percorre todos os dias em direção ao próprio destino.
Ela talvez queira que saibamos, sem que ela precise dizer, que bons amores resultam do acerto de grandes e pequenos detalhes: um olhar, um sorriso, uma frase oportuna, um silêncio inesperado. Ela possivelmente quer aquele precioso e delicado equilíbrio entre o ser e o sentir, sem falar na certeza da possibilidade dos encontros inesperados, daquilo que não estava escrito nem cogitado. Com os olhos diafragmáticos que tem, essa mulher seria capaz de encarar o sol – e sustentar este olhar. Era assim e continua sendo. Percebi esta capacidade quando a vi na rua, o dia radiante, os olhos suaves, inevitavelmente transbordantes de ternura misturada com uma dor que ainda não consegui definir, embora a identifique claramente. Ela tornava-se, assim, figura solar.
Mas o que, de fato, quer uma mulher assim? Os gestos certos, profissionais, o cabelo negros, as mãos definidas por dedos finos e unhas brancas– tudo isso compunha um instantâneo sentimental que se assemelhava ao retrato do amor perdido num dos desvãos da minha vida. Mas aquela era uma harmonia meio que arranhada por algo que se havia se quebrado na vida dela. Um sentimento? Uma saudade? Uma dor? Fixei o olhar em suas mãos. É como se, com os cristais ainda partidos ou estilhaçados, ela contrariasse, com seus ademanes de mulher decidida, uma perda que escorrera dramaticamente no último e aflito contato com uma história do passado. Foi o que senti quando falei com ela e sua voz iluminou, com dez palavras, a sala onde estávamos. Naquele momento, conheci a mulher querente, cuja doçura persiste, apesar de tudo. Se fosse descrevê-la, se tivesse engenho e arte para tanto, diria que ela corre riscos, acumula conquistas, dribla reveses e não aceita a submissão e o enquadramento que tanto limitam a vida dos comuns. Não, isso, definitivamente, ela não quer.
Olho-a de longe, mas ainda não sei o que essa mulher quer, todavia diria que ela não foge dos desafios que tornam a existência menos monótona e previsível; que sabe que é preciso avançar na direção das utopias, das verdadeiras utopias, pois elas são absolutamente necessárias aos nossos espíritos. Ela lutou batalhas que não lhe pertenciam. Mas como falar isso para ela, sem parecer estar invadindo uma vida tão intensa, tão frágil e, ao mesmo tempo, tão forte? Como dizer estas coisas sem parecer um tolo ingênuo, portador de um romantismo para lá de inatual, perdido num mundo tão árido de sentimento? Como dizer que ela tem os olhos de quem há muito vive profundamente marcado pela ausência e que esta ausência, para mim, tem seis letras e a luminosidade apaixonante do entardecer em Paris e das praias de Neruda? Como dizer?
Afinal, o que querem as mulheres? O que essa mulher quer? E eu, que nem sei de mim, posso dizer que há algo de premonitório no embaraço de dor e saudade que nos habitam a existência, a minha e a dela. Posso dizer, por mais estranho que pareça, que das muitas coisas que me faltam na vida, faltava não só saber o que ela realmente quer, mas vê-la de perto - e por dentro - e constatar que uma mulher é feita de sutilezas, detalhes, complexidades nem sempre percebidas, e que o sentido delas está muito, mas muito além da humilde e precária compreensão do limitado universo masculino. Mas se me fosse possível ter a chance de querer alguma coisa, gostaria de saber simplesmente o que ela quer, e que talvez nunca saiba, e lhe sussurrar, na orelha fria, que repeti esta pergunta 11 vezes neste texto, e milhares de vezes diariamente, sem cansar, e que é possível que ela queira mesmo é saber que alguém sinceramente se preocupa com ela, e que, num inolvidável momento de minha vida, ao conhecê-la melhor, fui atingido por um raio de vida – e tudo isso é tanto que jamais se apagará de minha pequena alma...”.
Com este desafio, já em casa, sentou-se diante do notebook, cuja tela era a única luz na sala, e começou a tentar descobrir o que uma mulher poderia querer:
“Agora, no momento em que escrevo, não sei o que ela quer, mas sei que está sorrindo umas orquídeas num jardim além do tempo. Afinal, o que querem as mulheres? E o que quer essa mulher em especial, em cuja alma todas as outras habitam? Ela pode querer saber que alguém se sentaria diante dela, num jantar à luz de velas e a ouviria a noite inteira, e me basta ter a consciência de que ela pode estar iluminando poeticamente, por alguns instantes, com um sorriso raro, meio triste - mas definitivo – a realidade dura que a envolve com dores ancestrais, como num tango trágico, mas belo e arrebatador.
Ela pode querer saber que a felicidade até existe, mas começa o dia concentrada nas suas atividades profissionais. Mesmo pegando o ônibus, vindo de carro, ou mesmo a pé, ela quer flutuar nos sonhos que seus olhos não escondem. As obrigações do ofício não lhe impedem de se entregar ao imponderável, às suas dúvidas e temores. Sem falar nas saudades que doem, queimam e estão aprisionadas na distância. O que, de fato, querem as mulheres?
Essa mulher, em especial, pode querer que entendamos que certos encontros podem não ser em linha reta e nos tempos cronológicos. E uma história de amor, às vezes, está escrita fora de ordem, possivelmente para pôr à prova o sentido da transcendência de sua própria ordem. E, sobretudo, para testar se somos capazes de refazê-la no verdadeiro sentido - e, aí sim, para sempre. Deve ser isso, sem dúvida, entre tantas outras coisas, o que elas querem.
Um dia, confesso, vi-lhe as aspirações de uma nova vida, de uma felicidade incerta e intensamente desejada, transbordando de um olhar melancólico, numa cena indefinidamente inesperada: na entrada do colégio, ela se deixava olhar para lugar nenhum, o rabo-de-cavalo graciosamente se mexendo ao menor movimento da cabeça, a mão direita levemente içada à altura do rosto, como se quisesse se esquivar de algum pensamento ruim. O que queria essa mulher?
Passei várias vezes por ela, sempre com a intenção de trocar uma ou outra impressão e dela receber um olhar daqueles. Arranjei desculpas. Arquitetei pretextos. Mas por mais que já estivesse curioso para saber o que ela queria, resolvi conservar intactos a distância, os sonhos e, claro, o coração. Tentei, cirurgicamente, esquecê-la por alguns dias. Contudo, a vida tem suas inesperadas reviravoltas e, numa tarde, vi-a na rua, andando rumo a seu destino de mulher séria, contida, com um pedaço grande visivelmente faltando tanto na alma como no coração. Detive-me nos olhos dela, sem que ela me visse e percebi naquela mulher um olhar para além da eternidade. Que fazer? O que ela poderia querer? Voltei então a pensar literariamente naquele rosto, mesmo achando que este seria um pensamento especial, um pensamento desses que a gente reserva egoisticamente para aliviar a dureza da vida, a desesperança, o desamor, e que não revela para ninguém, com receio que nos roubem. Se pudesse falar com ela naquele momento, recomendar-lhe-ia a leitura da poesia de Murilo Mendes, ou um soneto de Vinicius, mesmo que ela já conhecesse. E por que não, juntamente com os versos, o Concerto para Nota em Sol, de Bach?
Mas ela, passando por mim, teimava em não passar para mim. O que ela quer, afinal? Pus-me em alerta: temi que fosse somente onda, uma nuvem sob a qual ficaria tentado a depositar minha vida. Se isso fosse verdade, seria como no poema de Cecília – ficaria sem poder chorar quando caísse. Lutei. Relutei. Preferi, enfim, banhar-me na luz de sua vontade indecifrável. Até que cheguei à conclusão de que valeria a pena correr o risco de me aproximar de uma pessoa tão iluminada, mesmo que tão desconhecida, mas, ao mesmo tempo, tão familiar como um caminho que se percorre todos os dias em direção ao próprio destino.
Ela talvez queira que saibamos, sem que ela precise dizer, que bons amores resultam do acerto de grandes e pequenos detalhes: um olhar, um sorriso, uma frase oportuna, um silêncio inesperado. Ela possivelmente quer aquele precioso e delicado equilíbrio entre o ser e o sentir, sem falar na certeza da possibilidade dos encontros inesperados, daquilo que não estava escrito nem cogitado. Com os olhos diafragmáticos que tem, essa mulher seria capaz de encarar o sol – e sustentar este olhar. Era assim e continua sendo. Percebi esta capacidade quando a vi na rua, o dia radiante, os olhos suaves, inevitavelmente transbordantes de ternura misturada com uma dor que ainda não consegui definir, embora a identifique claramente. Ela tornava-se, assim, figura solar.
Mas o que, de fato, quer uma mulher assim? Os gestos certos, profissionais, o cabelo negros, as mãos definidas por dedos finos e unhas brancas– tudo isso compunha um instantâneo sentimental que se assemelhava ao retrato do amor perdido num dos desvãos da minha vida. Mas aquela era uma harmonia meio que arranhada por algo que se havia se quebrado na vida dela. Um sentimento? Uma saudade? Uma dor? Fixei o olhar em suas mãos. É como se, com os cristais ainda partidos ou estilhaçados, ela contrariasse, com seus ademanes de mulher decidida, uma perda que escorrera dramaticamente no último e aflito contato com uma história do passado. Foi o que senti quando falei com ela e sua voz iluminou, com dez palavras, a sala onde estávamos. Naquele momento, conheci a mulher querente, cuja doçura persiste, apesar de tudo. Se fosse descrevê-la, se tivesse engenho e arte para tanto, diria que ela corre riscos, acumula conquistas, dribla reveses e não aceita a submissão e o enquadramento que tanto limitam a vida dos comuns. Não, isso, definitivamente, ela não quer.
Olho-a de longe, mas ainda não sei o que essa mulher quer, todavia diria que ela não foge dos desafios que tornam a existência menos monótona e previsível; que sabe que é preciso avançar na direção das utopias, das verdadeiras utopias, pois elas são absolutamente necessárias aos nossos espíritos. Ela lutou batalhas que não lhe pertenciam. Mas como falar isso para ela, sem parecer estar invadindo uma vida tão intensa, tão frágil e, ao mesmo tempo, tão forte? Como dizer estas coisas sem parecer um tolo ingênuo, portador de um romantismo para lá de inatual, perdido num mundo tão árido de sentimento? Como dizer que ela tem os olhos de quem há muito vive profundamente marcado pela ausência e que esta ausência, para mim, tem seis letras e a luminosidade apaixonante do entardecer em Paris e das praias de Neruda? Como dizer?
Afinal, o que querem as mulheres? O que essa mulher quer? E eu, que nem sei de mim, posso dizer que há algo de premonitório no embaraço de dor e saudade que nos habitam a existência, a minha e a dela. Posso dizer, por mais estranho que pareça, que das muitas coisas que me faltam na vida, faltava não só saber o que ela realmente quer, mas vê-la de perto - e por dentro - e constatar que uma mulher é feita de sutilezas, detalhes, complexidades nem sempre percebidas, e que o sentido delas está muito, mas muito além da humilde e precária compreensão do limitado universo masculino. Mas se me fosse possível ter a chance de querer alguma coisa, gostaria de saber simplesmente o que ela quer, e que talvez nunca saiba, e lhe sussurrar, na orelha fria, que repeti esta pergunta 11 vezes neste texto, e milhares de vezes diariamente, sem cansar, e que é possível que ela queira mesmo é saber que alguém sinceramente se preocupa com ela, e que, num inolvidável momento de minha vida, ao conhecê-la melhor, fui atingido por um raio de vida – e tudo isso é tanto que jamais se apagará de minha pequena alma...”.

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