
Encontrei com uma amiga loura e linda na rua e ela mandou ver: “Pôôôxa! Escreve aí uma coisa bonita para eu mandar certa pessoa no Dia dos Namorados, vai...”. Fiquei pensando na coisa enquanto caminhava para casa, agora incumbido de escrever o texto urgente. Não bastava escrever apenas, tinha que ser esteticamente aceitável e urgia atingir o objetivo daquela mulher: conquistar certa pessoa, mesmo que, no final das contas sentimentais, não fosse a pessoa certa. O balaço tinha que atingir o alvo justamente no dia mais meloso do ano, quando os corações se enamoram muitas vezes apenas por causa da vontade, mesmo que o objeto deste desejo não exista como pessoa física. Uma espécie de liquidação sentimental, uma pechincha, com desconto, mas sem cartão de fidelidade. Im-per-dí-vel! Não parecia o caso da criteriosa escolha dela. Há um indivíduo incauto na sua mira telescópica que vai receber o semiótico projétil literário, bala dundum explodindo no peito em vários fragmentos do discurso amoroso. E eu fui o incumbido de fazer a coisa funcionar, de fazer o rapagão de academia entender que por debaixo da camiseta Hering ainda bate um coração básico. Afinal, para que servem alguns milhões de neurônios extras?
A loura pede, reitera, exige. Sento diante da tela. Sinto diante da tela. Dia dos Namorados, hein? Pois vá lá, seja feita a vontade soberana que fervilha sob os inúmeros fios dourados da cabeça de quem quer perder a própria no dia determinado pelos deuses do comércio para se apaixonar perdidamente. Imagino a loura sobrevoando o rapaz que, distraído, não se dá conta que vai sucumbir ao ataque perpetrado em várias frentes: o liso do cabelo dourado cheirando a xampu, boca vermelha sem dar sinal para parar, olhos verdes permitindo que se pise fundo no acelerador, blusa apertada como a calça jeans, e a sandália preta com salto fino, preste a pisar quem se interpuser entre ela, a dona da história, e ele, mero coadjuvante do romance chique e caríssimo, sonho de consumo comprado à vista e em euros no novo shopping Daslu dos sentimentos modernos. Ela se aproxima, cerca, encurrala, não dá chance. Olha sem olhar, fala sem dizer, se faz presente na mais absoluta ausência, finge que vai embora quando está apenas chegando, toma e não dá. Uma subversão total dos códigos, um jeito meio “derrida” de desconstruir o desejo que provoca em quem não lhe interessa. E o tal texto que ainda não escrevi? Não, ainda não, tá pensando o quê? Isso é para depois. Ela vai chegar poderosa em cima dos saltos, com aquele olhar de quem sabe o que havia antes do Big Bang, por dentro da técnica de Kegel, sabendo tabuada de cor, citando Shakespeare no original, apertando os olhos acitrinados como se visse tudo - Hubble sentimental capaz de imagens de alta definição mesmo a anos-luz de distância do objeto focalizado.
O rapaz não sabe, mas vai ganhar pontos com ela, mesmo que não conheça a diferença entre luzes e balaiage, mesmo que não lhe ocorra mandar flores depois da briga, mesmo que incrivelmente não lembre do dia em que começaram a namorar, mesmo que tussa apenas um “manero” depois de um filme do Almodóvar, mesmo que não tenha lido o livro da roteirista de Sex in The City - mesmo que não tenha lido livro nenhum - mesmo que não escreva cartas de amor, mesmo que, mau aluno da Linguagem das Paixões, não saiba compreender a sintaxe dos corpos na articulação com o mundo e desconheça a exegese dos olhares, o léxico dos sentimentos inexplicáveis, a semântica dos gestos – tudo isso que brota do discurso corporal que estão prestes a realizar. Ele não sabe, não imagina, nem cogita de, que ela vê enjambement para seus versos incompletos no braço musculoso dele, que entrou para vencer esta parada, que entendeu antes de todo mundo quando seu professor de literatura da faculdade disse que há de se ter uma experiência não-lingüística da saudade para saber, de fato, como ela é e o fundo que dói.
Aproxima-se. Como quem não está nem aí, deixa-se ficar no raio de visão dele, emite reichianamente sinais nada sutis: molha os lábios, queda a cabeça para os lados, mexe nos cabelos, o corpo se expande em prótons e íons. As mãos começam a falar, e o discurso silencioso é eloqüentemente taxativo – “Venha, permito sua abordagem e a ilusão de que está no comando das ações. Sou sua pelo tempo que eu quiser, pois não há nada mais livre do que escolher a própria prisão”.
Estou sentado em frente à tela. Tenho que escrever o torpedo. E que atenda às expectativas estético-literárias da moça apaixonada, olha lá! Mas será que ela vai precisar mesmo? Acho que não. Esta juventude feminina de hoje já tem a certeza monótona das conquistas seriais, não sofre tanto, sacode a poeira sem borrar o rímel e, se as coisas não saem exatamente como planejadas, diz friamente: “A fila anda!”. No entanto, com ou sem texto esteticamente aceitável, ela vai começar a namorar no dia marcado no fotoblog, apesar de insatisfeita com a baixa definição, tanto da câmera do celular quanto do amor preso entre bíceps e tríceps do filezinho escolhido. Terá crises, mas será feliz nos intervalos amorosos que ensinam mais que qualquer tratado sentimental já escrito.
Desligo o computador, aliviado. Vou tomar um café na esquina.
A loura pede, reitera, exige. Sento diante da tela. Sinto diante da tela. Dia dos Namorados, hein? Pois vá lá, seja feita a vontade soberana que fervilha sob os inúmeros fios dourados da cabeça de quem quer perder a própria no dia determinado pelos deuses do comércio para se apaixonar perdidamente. Imagino a loura sobrevoando o rapaz que, distraído, não se dá conta que vai sucumbir ao ataque perpetrado em várias frentes: o liso do cabelo dourado cheirando a xampu, boca vermelha sem dar sinal para parar, olhos verdes permitindo que se pise fundo no acelerador, blusa apertada como a calça jeans, e a sandália preta com salto fino, preste a pisar quem se interpuser entre ela, a dona da história, e ele, mero coadjuvante do romance chique e caríssimo, sonho de consumo comprado à vista e em euros no novo shopping Daslu dos sentimentos modernos. Ela se aproxima, cerca, encurrala, não dá chance. Olha sem olhar, fala sem dizer, se faz presente na mais absoluta ausência, finge que vai embora quando está apenas chegando, toma e não dá. Uma subversão total dos códigos, um jeito meio “derrida” de desconstruir o desejo que provoca em quem não lhe interessa. E o tal texto que ainda não escrevi? Não, ainda não, tá pensando o quê? Isso é para depois. Ela vai chegar poderosa em cima dos saltos, com aquele olhar de quem sabe o que havia antes do Big Bang, por dentro da técnica de Kegel, sabendo tabuada de cor, citando Shakespeare no original, apertando os olhos acitrinados como se visse tudo - Hubble sentimental capaz de imagens de alta definição mesmo a anos-luz de distância do objeto focalizado.
O rapaz não sabe, mas vai ganhar pontos com ela, mesmo que não conheça a diferença entre luzes e balaiage, mesmo que não lhe ocorra mandar flores depois da briga, mesmo que incrivelmente não lembre do dia em que começaram a namorar, mesmo que tussa apenas um “manero” depois de um filme do Almodóvar, mesmo que não tenha lido o livro da roteirista de Sex in The City - mesmo que não tenha lido livro nenhum - mesmo que não escreva cartas de amor, mesmo que, mau aluno da Linguagem das Paixões, não saiba compreender a sintaxe dos corpos na articulação com o mundo e desconheça a exegese dos olhares, o léxico dos sentimentos inexplicáveis, a semântica dos gestos – tudo isso que brota do discurso corporal que estão prestes a realizar. Ele não sabe, não imagina, nem cogita de, que ela vê enjambement para seus versos incompletos no braço musculoso dele, que entrou para vencer esta parada, que entendeu antes de todo mundo quando seu professor de literatura da faculdade disse que há de se ter uma experiência não-lingüística da saudade para saber, de fato, como ela é e o fundo que dói.
Aproxima-se. Como quem não está nem aí, deixa-se ficar no raio de visão dele, emite reichianamente sinais nada sutis: molha os lábios, queda a cabeça para os lados, mexe nos cabelos, o corpo se expande em prótons e íons. As mãos começam a falar, e o discurso silencioso é eloqüentemente taxativo – “Venha, permito sua abordagem e a ilusão de que está no comando das ações. Sou sua pelo tempo que eu quiser, pois não há nada mais livre do que escolher a própria prisão”.
Estou sentado em frente à tela. Tenho que escrever o torpedo. E que atenda às expectativas estético-literárias da moça apaixonada, olha lá! Mas será que ela vai precisar mesmo? Acho que não. Esta juventude feminina de hoje já tem a certeza monótona das conquistas seriais, não sofre tanto, sacode a poeira sem borrar o rímel e, se as coisas não saem exatamente como planejadas, diz friamente: “A fila anda!”. No entanto, com ou sem texto esteticamente aceitável, ela vai começar a namorar no dia marcado no fotoblog, apesar de insatisfeita com a baixa definição, tanto da câmera do celular quanto do amor preso entre bíceps e tríceps do filezinho escolhido. Terá crises, mas será feliz nos intervalos amorosos que ensinam mais que qualquer tratado sentimental já escrito.
Desligo o computador, aliviado. Vou tomar um café na esquina.
