Atenção,
gerúndio! Mexam-se os tempos compostos. Sentido! Ela está lendo. Ponham-se aos
lugares, não deixem a vírgula para que o sujeito tropece nela. Cuidado com as
crases, neologismos e, caraca!, estas palavras-fashion que desfilam nas bocas
dos mais descolados. Levante cedo, lá pelas seis, pois Deus ajuda quem da
gramática cuida, e trate de revisar o trabalho de uma vida inteira dedicada a
perfilar palavrinhas rebeldes, com cabelo caído na franja umas, com piercings
em lugares inusitados, outras. Corrija seus verbos irregulares que não foram
correspondidos em sua regência e ligue para o 0800 do Instituto Fernando
Pessoa, para marcar uma aplicação de botox nos infinitivos mal flexionados.
Proteja-se das idiossincrasias adverbiais que fazem birra com a língua-mãe,
policie os cacófatos e os erros de digitação, pois num mundo pós-moderno
dominado pelos corretores de textos, alguns aproveitam a deixa e corrigem
também as emoções e, daí, o verbo quente e duro acaba não penetrando na menina
dos olhos da leitora. Não falte ao respeito com a morfologia dos adjetivos nem
chegue a trocas de carícias explícitas com os pronomes pessoais do caso reto.
Ela, no caso. Modere seu fetiche com o pezinho da letra M e seja tolerante com
a sujeita oculta, indeterminada, inexistente - far-lhe-á um bem enorme, pois
quem não teve uma mesóclise na vida que atire a primeira pedra no travessão.
Olhe os modos, menino! Ela está lendo. O subjuntivo deve ser usado com
comedimento, porque você, sabemos, é um poço de desejos e tudo é indicativo de
um amor grande. Não exagere e segure com rédeas curtas as orações e seus
predicados, imponha uma regra culta ao seu texto de bermudas e mantenha a coerência
e a coesão, custe o que custar. Nada dessas liberdades do ditongo crescente
chegar para cima das subordinadas na voz ativa. Domine os ímpetos das
comparações fáceis, escrevendo que, se você é um sujeito simples, ela é um
presente mais-que-perfeito. Disfarce seus vícios de linguagem, as regências transviadas,
as concordâncias desrespeitadas, as ideias confusas. Preste atenção na reforma
ortográfica, os acentos abolidos e trema apenas nas pernas, quando pensar nela.
Isso pode. Ela está lendo. Deixe de intimidades com a língua, essa coisa de dar
tapinhas na barriga do objeto direto, de passar a mão no joelho da primeira
pessoa. Passe uma vassoura nas negativas duplas na mesma frase para, em
seguida, fazer paciente relatório cheio de interjeições espantadas, a fim de
dar entradas nos papéis e viver no gozo das hipérboles de uma aposentadoria em Pasárgada.
Escreva no escuro, de madrugada, o rosto iluminado apenas pelo monitor e o
silêncio frio cortado, de tempos em tempos, por aquela voz passiva feminina
dizendo “as atualizações de vírus foram atualizadas”. Tenha extremo cuidado com
o estilo, respire fundo antes de usar o vocativo e não queira irritar aqueles
olhos serenos quando ela os passar por seus trôpegos adjuntos adverbiais de
tempo e lugar. A esferográfica indócil querendo cair de dente na parte carnuda
das palavras, e você, firme, sem delírios, sem muito romantismo. Limite-se ao
registro à risca da sua pulsação eletrocardiogramatical. Pertencem a ela as
mais belas bilabiais fricativas, todas adornadas com uma flor de açucena entre
os dentes que se materializarão em um sorriso perfeito que, espero, um dia ela lhe
mostre, ao contar como cultivou tal jardim de sintagmas nesses dias de
preposições tão dolorosas e adversativas. Por isso, passe o rodo em expressões
que contenham brigas, broncas e brioches. Não se atreva a expor qualquer relato
de intenção de suas conjunções carnais. Não falte às sessões de análise
sintática com seu terapeuta de confiança, que lhe dirá, num discurso direto,
que são as nossas emoções que podem nos afastar de nossos maiores objetivos. Ela
está lendo. Faça-se silêncio absoluto, o que pode incluir a supressão
definitiva destes textos virtuais, para sempre. Esteja preparado, pois. De nada
adianta a discurseira de improviso que escancara a retórica anêmica, os
escorregões gramaticais, as pausas hesitantes, a adjetivação gordurosa e,
sobretudo, a argumentação indigente. Não abuse das reminiscências por escrito,
pois tal qual na arte oriental da caligrafia, praticada sobre papel tão fino
que se rasga a qualquer pincelada mais brusca, elas provocam sensações
inesperadas e agudizam o silêncio e o abismo. Sim, as emoções, há-as. Lembre
que, se fosse um sinal de pontuação, você seria uma linha com pontinhos de
reticências... Não canse as retinas da leitora com um código de barras
desbotado. Confira, sem ferir, os dados, tire uns advérbios de modo, corte
vírgulas desnecessárias que apenas tocam o segundo violino para o concerto da
clareza, mesmo que você não consiga se ver livre de certos conteúdos que, sem a
forma adequada, se perdem no tempo que transforma todo amor em quase nada, como
na canção. Portanto, mantenha sob intensa vigilância o risco de uma opinião
pouco original, uma ideia inconsistente, uma tirada sem graça, pois poucas
coisas abrandam a desoladora aridez reiteradamente sublinhada pelas colisões
entre o sujeito e o predicado, pela falta de intimidade entre o começo e o fim
e pelo sumiço do raciocínio lógico. Por isso, trate de descrever o cenário
possível para o melhor desfecho: quando reencontrar aquela mulher, você vai
acessar o HD da memória - que não se presta a estas dores da saudade - e
vasculhará as polaroides de um vestido levantando, do corselete preto liberando
botões e dos tic-tacs se abrindo a cada puxão de cabelo. Uma cena que poderia
dar um episódio de “Friends” ou um suspense de Hitchcock, se a realidade não
lhe providenciar logo um tranco de bom senso e você cair em si, quebrando
apenas as regras sintáticas e o caco cardíaco que resta intacto. Você dirá “há
quanto tempo...”, como se fossem as últimas palavras de um condenado no
cadafalso, pedindo ao carrasco que acabe logo com o sofrimento e estique a
corda. E ela, psicodelicamente, sorrirá umas orquídeas e lhe cutucará o baixo
ventre com a pergunta “o que você tem feito?”. E você engolirá em seco, sentido
a madeira do cadafalso estalar sob seus pés. Então, será como um justiceiro que
começa a cumprir a sentença espalhada por alguma Vara Criminal do Amor nos
Tempos do Cólera. E durante o silêncio que se seguirá, você vai sentir a corda
encostando na garganta, até que seja executada ali, em praça pública, na frente
de todos, a indenização por danos vinicius de morais que a Lei da Gramática e
da Falta de Lirismo haverá autorizado cobrar a quem de direito.
Literatura
domingo, 16 de junho de 2013
ACEITAÇÃO
Na difícil procura do amor, a
gente se machuca, chora, chama pela mãe, bate o telefone, procura o melhor
amigo e depois briga com ele porque ele não entendeu nada, faz terapia, escreve
o dia na agenda e depois rabisca, liga a televisão e não vê, deixa de estudar
para a prova, conta piada para fingir que está tudo bem, chora por qualquer
coisa, se desespera, espera o telefone tocar e quando ele toca não atende ou
demora para atender, toma coca com vodka, relê cartas antigas e as queima,
escreve novas, compra roupa nova, inventa um passatempo sem graça – porque a
vida está sem graça – come cebola com beterraba e acha ótimo, rói as unhas,
implica com o irmão mais novo, corta o cabelo e se arrepende depois, arruma o
armário, dá vexame no restaurante, perde o sonho, desaprende a sonhar, vende o
almoço para comprar a janta, não tá nem aí, tá aí para tudo, pega chuva, toma
sorvete, fica gripado, tira poeira da capa do Batman, marca e não vai, acha
tudo errado, faz fofoca, ri na cara, briga com a tia, bate a porta, chuta os
livros, ouve James Taylor o dia inteiro, tenta fazer arroz e queima (e come
assim mesmo), gasta dinheiro, recorta jornal, fala em código, manda um torpedo
inesperado, recebe uma resposta mais inesperada ainda, escreve um texto imenso
e então deleta tudo, usa óculos escuros mesmo dentro do elevador, sente raiva
de lembrar de tanta coisa, fica na dúvida sobre a dosimetria da saudade, revê pela enésima
vez Um Lugar Chamado Notting Hill, vibra com a reeleição de Obama, toma água
com bolinha, perde as esperanças e, depois, enfim, as redescobre num canto
inesperado do coração, subitamente vago por algum aluguel vencido, e entende
que o sofrimento só existe porque não queremos aceitar os fatos...
sábado, 15 de junho de 2013
A CAMISA
Domingo à tarde. Saiu para o jogo,
com a confiança de quem, no final, ia ser o vencedor. Desceu a ladeira
enlameada da favela, com o coração cheio de esperança e o bolso nem tanto – só
havia a conta exata para o ônibus e para a entrada no Maracanã. Deixaria a
cerveja para outro dia, com os amigos do morro, só para esticar mais um pouco o
deleite pela vitória do Flamengo. Faria hora-extra, se fosse o caso, e assim
teria uma grana para comemorar a vitória do rubro-negro. Bem, isso se tivesse
emprego fixo – mas, o que uma conquista do Mengão não faria por ele? Era bem
capaz de arranjar um bom emprego logo na segunda-feira cedinho, sem esforço. Só
tinha uma coisa faltando e não era de hoje: nunca havia conseguido comprar uma
camisa do seu time de coração. Isso era uma frustração apenas amenizada por
tantos gols de Zico que ele testemunhara ali bem de pertinho, da geral do Mário
Filho. Mas, tudo bem. Hoje, fazia um calorão dos diabos, e ele logo
providenciou seu traje de torcedor: sandália de dedo, uma bermuda surrada - que
já fora uma calça jeans um dia - e uma camiseta de propaganda política, com um
furo aqui e ali, que ele enrolou na cabeça, para se proteger do sol de
fevereiro. Porém, faltava a camisa do Flamengo. É, faltava, e a falta se fazia
maior quando chegou ao asfalto, entrou no ônibus e, da janela, ficou vendo seus
futuros companheiros de torcida, mais abastados, vergando o Manto Sagrado e
seguindo na mesma direção. Aí, até que ele entendia: a maior torcida do Brasil
tem representantes em todas as classes sociais. Até ele - pobre, negro, sem
emprego, mas orgulhoso da honestidade e dos valores que pregava em casa para a
prole que não parava de crescer, diabos! Sua alegria, fora a família, era ver o
Flamengo jogar. Era ver o Flamengo vencer. Era ter, um dia, uma camisa dez
rubro-negra, para sair por aí e dizer ao mundo que naquele homem morava uma
paixão em preto e vermelho. No trajeto para o estádio, viu o que lhe parecia
uma vertigem nas duas cores amadas: torcedores devidamente uniformizados com a
camisa sonhada pareciam brotar de todos os lugares, carregando bandeiras e um
orgulho de fazer parte de uma nação maior que o próprio país. Os carros
passavam lotados: todos vestiam o Manto. Era tal festival flamenguista pela
cidade, que parecia que não ia haver jogo – apenas o Flamengo entrando em campo
e saudando os torcedores emocionados a gritar: Flamengo, eu te amo! Preto e
vermelho, preto e vermelho, preto e vermelho: o mundo era assim, rubro-negro,
de corpo e alma. Então, sentiu, com certa amargura, que, apesar de amar o clube
até morrer, talvez não fizesse mesmo parte daquela torcida que, devidamente encamisada,
parecia enfrentar o mundo sem medo de nada, pois nada lhe faria mal desde que
estivesse dentro daquele círculo magnético, em forma de manto, que pulsava em
preto e vermelho. Este momento de tristeza e frustração foi interrompido com um
tumulto dentro do ônibus – alguém que não gostava da vida, não gostava de
mulher, não gostava nem de futebol, sacou uma arma e anunciou um assalto e que
lhe dessem já o que tinham de valor. O que faria ele, se não tinha nem o que
considerava seu bem mais precioso – uma camisa listrada em preto e vermelho,
para lhe salvar a vida? Sentiu o cano frio do revolver a lhe cutucar a nuca
suada. Como não tinha nada? Não adiantou balbuciar algumas desculpas – o
assaltante disparou quatro tiros no seu peito descamisado, o mesmo peito que
abrigava o maior amor do mundo, de onde, com ele caído no chão do 763, jorravam
filetes de sangue que, em misterioso paralelismo pulsante, se harmonizavam com
sua pele negra.
Finalmente, o manto
sagrado lhe cobria o corpo.
_____________________________________________________________________
O CÉU DE AGOSTO
Me desculpem começar assim, logo com um pronome oblíquo abrindo as alas do desrespeito à norma culta da última flor, ir logo metendo os pés pelas mãos, sem desviar do paralelepípedo semântico que me inchou o dedão, logo depois de chutar, sem mais, sem menos, uma resposta certa neste Enem existencial, quando se vê, sem o filtro do distanciamento, se os meninos viraram mesmo homens. Preferi buscar palavras no bornal que escondo debaixo da cama e ao qual recorro sempre que quero um termo mais exato, uma palavrinha mais ensaborrilhada, dessas que encaixam perfeito, como o clique das mãos dos namorados, diante dos perigos do mundo. O fato é que não adiantou o domingo estar completamente azul, se havia nele uma ausência que era maior que todos os azuis tristes que conotam o “blue” em língua inglesa, maior que todos os poemas de saudade, maior que a maior das medidas. Preferi passar por morto, que era mais ou menos próximo do que eu era mesmo então. Vítima de uma queda de pressão súbita e incontornável, achei melhor deitar-me nas esperanças que me serviam de maca naquele momento. Esperei que uma ambulância vermelha dos bombeiros viesse me recolher, o recém quase defunto, para longe daqueles olhos perfeitos, para algum lugar aonde não chegassem cartas ou e-mails, uma sala ampla e clara. No local, perpassar-me-iam tubos translúcidos, em meio ao bip nervoso de alguma máquina que desse suporte à vida que ainda me restava, líquida, na tubulação venosa. Achei que estava num daqueles espaços intermediários que algumas religiões decantam: a porta entreaberta entre a vida e a não-vida, esta sim pior que a morte propriamente dita, que deve ser uma ausência de tudo, creio. O processo já se iniciava, e ainda pude ver, de relance, alguns rostos conhecidos me olhando com preocupação no corredor do que me parecia um enorme hospital: Rachel, Ross, Will, Morgan, Clint... de onde estava, pude perceber que uma enfermeira colocava meus pertences numa espécie de bolsa plástica e, entre eles, vislumbrei meu celular, tão mudo, tão sem função... para quem ligaria? Para ela - uma fotografia na parede da memória que, como naquele poema de Drummond, dói. Era ela, rindo e dizendo “até parece...”, depois de qualquer bobagem romântica de minha parte, e que são muitas. Era ela, entre tic-tacs e um celular com barulho d’água, entre letras e bytes, livros e Elvis. A meu favor, havia a surpresa de minha quase morte súbita, cuja notícia, entreouvida, não raro, num lugar inesperado, fatiariam o coração da referida em alguns mil pedaços que boiariam no molho quente da incredulidade e do susto. Porém, se assim fosse, eu nem saberia sequer se ela sentiria a minha falta, se o órgão propulsor de seus sentimentos bateria um tambor movido à mais poderosa Duracell, ou seria apenas um som fraco, abafado, quase inexistente, como uma tosse no meio da noite. Esta dúvida era pior do que a sensação de ausência de vida, eu lhes garanto. Tudo ia mal, muito mal, quando, de inopino, ela me surge dobrando a esquina da memória e mudando o rumo das nuvens. Eu não tinha mais como dar a volta. Eu avançava pela calçada no passo acelerado de quem segue movido por “Every breath you take”. Ela ajeitava os óculos. Eu sentia o vermelho do sangue se evaporar de minhas veias. Ela era uma festa de brincos e sarais retrôs. Eu ia me dissolvendo como um homem de areia, de joelhos, num ciclone. Ela parecia flutuar, como uma fada faria. Logo, eu estava a quatro passos de entrar numa cena de felicidade em que já estivera por longo tempo. Passei a provocar o coração para que ele decidisse rápido – faltavam apenas dois passos, e ela já se cansara de procurar o celular na bolsa, e eu temia que o mundo acabasse se ela me olhasse nos olhos e não me reconhecesse, se eu sorrisse e recebesse de volta apenas aquele olhar que damos quando vemos um bêbado caído na sarjeta, um olhar de que gostaria-de-fazer-alguma-coisa-mas-não-posso; e então ouvi a voz de um anjo bom me dizendo no ouvido para que acreditasse no amor, pois a distância tem dessas coisas. A imaginação funciona numa direção, mas a realidade pode ser muito diferente, até oposta. Por isso, quase sempre optamos pelo drama. O copo d’água ganha, então, sua tempestade. Tornamo-nos romeus aos pés de julietas, lindas e perfeitas, mas distantes, altas e inatingíveis como torres. Todos os sucos de pêssego do mundo seriam insuficientes para edulcorar o enredo. No entanto, o anjo insistia, deve haver, bem lá dentro da alma, alguma coisa essencial que não pode se perder e que só tem sentido com aquele outro que agora não está..., mas deveria.
IMPERDÍVEL
Ele vinha se preparando há meses. Além de reservar algum dinheiro extra, acompanhou todas as resenhas do Prosa & Verso e as entrevistas do Edney Silvestre na GloboNews, só para ficar por dentro dos lançamentos, dos novos autores. Achou bacana a participação de walter hugo mãe na Flip deste ano, repleta de referências sobre as mulheres brasileiras. Releu António Lobo Antunes e se convenceu de que pouquíssimos autores possuem metáforas tão incisivas. Continuou com os portugueses e aplicou mais Saramago na veia – afinal, tinha que estar preparado para qualquer impacto que porventura lhe atingisse durante uma leitura qualquer, em pleno universo literário da Bienal. Contudo, por que não voltar aos trechos marcados de amarelo nos livros do Rubem? Ainda havia muito que aprender sobre o lirismo da vida, sobre a consciência das pequenas delicadezas que nos atingem todos os dias, e que nem sempre percebemos, por tolos que somos e cegos que teimamos ser. Queria saber mais sobre os meandros da engenharia literária e leu, de cabo a rabo, “Como Funciona a Ficção”, de James Wood, e anotou algumas dicas, já que ousava algum conto, aqui e ali. E, claro, queria discutir com ela, a mulher de unhas vermelhas, a tese da possível influência da linguagem cinematográfica nos processos criativos literários, na construção dos personagens, enredo e estrutura de seus romances. Queria porque queria entender como isso funciona e qual seria a opinião que ela, a mulher a quem convidaria de surpresa para ir à Bienal, teria a respeito. Até porque imaginava sentar-se com ela num daqueles cafés literários do Riocentro, a mesa com uma pilha de livros recém comprados, apostando quem leria primeiro qual livro, e ela rindo e falando dos seus autores preferidos, das palavras de que mais gostava. E cruzariam informações sobre filmes que já tinham visto, até surgirem discussões acaloradas, mas afetuosas, sobre quem seria o melhor diretor de todos os tempos. E, daí, voltariam as conversas a respeito do melhor livro de Clarice, o poema mais pornográfico de Drummond, sem que deixássemos de detonar todos os livros de Paulo Coelho e as outras mediocridades do gênero. E seria uma felicidade, imagine. Um mundo perfeito feito de livros e filmes, uma bela mulher inteligente e culta, uma conversa com letras, sem números e equações, mas na qual só se somaria e multiplicaria. De longe, contemplaríamos os corredores da Bienal, sentindo no fundo a satisfação de ver tantos jovens interessados em ler alguma coisa, em descobrir uma novidade, em chegar perto de um autor querido, desses que, se pudéssemos, levaríamos para casa, junto com seus livros. E seria indizivelmente bom ter a sensação vívida da qual Quintana falava: tão importante quanto ler livros é viver entre eles. E lá estariam – estantes e mais estantes com lombadas coloridas, aquele cheiro indefinível de conhecimento e lirismo. Ela, a mulher com quem tomaria café, estaria ansiosa para continuar a peregrinação pelas alas das editoras e, com seu olho sábio, descobriria, onde menos se espera, graais de pura poesia. Os ingressos já lhe queimavam no bolso, antecipando a surpresa. Antevia-lhe o sorriso, o regozijo, o espanto diante da realização de um sonho supostamente comum e há muito aguardado. Passariam o dia entre os pavilhões do Riocentro. Comprar-lhe-ia uma antologia, um suspense do Garcia-Roza, um “nugget” literário qualquer garimpado num saldão da Companhia das Letras. Assistiram a palestras do Scott Turow, saboreando chocolate com Perrier. Faltava ainda uma semana, mas ele não se conteve e a procurou com as entradas para aquele universo de letras e derramamento líricos que a Bienal prometia. Subiu as escadas do prédio, tocou a companhia. Ela abriu a porta.
_ Meu amor, tenho uma surpresa para você..., disse docemente, sem perder um segundo daquele precioso tempo de amor às letras.
Sem parecer ouvi-lo, ela retrucou quase de imediato, num grito meio selvagem: “Eu também, querido! Venha, que quero lhe mostrar”. Puxando-o pela mão, levou-o à mesa da sala, sobre a qual repousavam, vermelhos, dois ingressos para o UFC Rio, para os quais ela apontou com um gesto largo: “Olha, a gente vai poder ver a luta do Anderson Silva e talvez até consigamos um autógrafo do Minotouro, já pensou? Dizem que a arena fica cheia de sangue ao final dos combates!!!! Imperdível, não?”
ELE, ELA E O CAMINHO DAS LETRAS SOBRE O CORPO
Sim, ele falou e escreveu, e ela falou e escreveu melhor ainda, dando de 10 a 0 nele, deixando-o vendo estrelas, então e agora, botando-o no lugar dele, deixando-o zonzo, como depois de um cruzado de Tyson; em xeque-mate de Karpov; dando uma cortada da linha de três metros que só Giba consegue; ultrapassando na primeira curva ao estilo de Senna, driblando o goleiro igual a Zico, sem humildade em gol, como Fio Maravilha, com a precisão de uma tacada de Tiger Woods. Mas eu já esperava por isso, desde que a vi pela primeira vez, e aquela cena ficou colada na cortiça do meu cerebelo, uma linda mulher que entrou pela menina dos meus olhos e que cisma em não sair, um cisco de luz que chega à minha orelha fria e carente de segredos e confissões amoráveis. Sei lá se é um bilhete para Pasárgada, Strawberry Fields Forever, a Ilha Misteriosa, Além do Horizonte, a Tonga da Mironga do Kabuletê, ou qualquer desses paraísos fiscais da felicidade que os poetas de tempos em tempos sugerem. Que ela venha toda de branco, toda molhada e despenteada, como bem disse Ben Jor, e disse-o bem, e sopre seus lirismos para dentro de meus pulmões cansados, desparagone a página certinha quando algum tsunami literário vier bater em sua janela, sofistique o vocabulário e me obrigue a suar a camisa para escrever alguma coisa que preste, alguma coisa que esteja à sua altura sentimental e que seja capaz de mudar o rumo das nuvens, além de trazê-la para mais perto. Alguma coisa que fale também em beijinhos trôpegos, em doces vampiros, em chás que não acontecem, em articulações braquiais com a cintura escapular, em pontos de diversa natureza, sejam eles de interrogação, exclamação, finais; do ponto a até o b, incluindo o g (ai...). E que a isso se aduzisse algo como toalhas molhadas, sanduíches de presunto com queijo, poemas vinicianos, sapatos lilases com a ilusão de salto, unhas brancas and forgotten glasses, numa viagem em que há de se juntar lábios para beijinhos sem ter fim, trôpegos ou não, selvagens ou não, mas permanentemente molhados de desejo e suor. Eu, genuflexo, boquiaberto sem chances de me boquifechar diante desta capacidade de reinventar cheiros, toques e as tão íntimas palavras que dizem tudo, essas que andam sem calcinha pelos corredores da alma, e que deixam claro o que sente o mergulhador imerso em mar e na bela mulher, em cujos ouvidos o velvet da língua inglesa se intromete molhado, nervoso, elétrico. E a língua que se transforma em palavras que se transformam em cartas escritas sobre o corpo amoroso, usado como apoio definitivo; cartas que se escrevem na cama sobre o corpo amado, com a ambígua pena que fere de amor a superfície da pele/papel do corpo que se ama, deixando nele o gozo da escrita amoravelmente literária. Se somente as rádios FM podem transmitir ondas assim, surfo-as, curto-as e emulo um tal poeta que também versejou sobre os mesmos braços líquidos que me cercavam num abraçar completo das águas femininas. Sobe a temperatura. Cai o queixo. Quedo-me em admiração. No papiro da pele desta mulher, o Calígrafo Supremo parece ter rabiscado os primeiros versos que eu gostaria de ter escrito, se não me faltassem engenho e arte para tal nobre tarefa. Na falta de incenso e mirra, balanço em sua honra meu turíbulo de maravilhas semânticas. Sempiterno. Frêmito. Orquídea. Farpela. Bruma. Uma mulher assim está pronta para algo definitivo. Merece as margens do Sena e um pôr do sol em Paris. Merece jazz com sorvete de chocolate. Fellini com Hitchcock. Perrier com trufas. Star Wars com Enterprise. Se ela finalmente se deu conta de caber tantas coincidências numa estante, num instante, como posso discordar? Se fica a marca no seio e no coração, por proximidade, por paixão, abstenho-me de teorias psicanalíticas para explicar o que não pode ser entendido, e apenas aceito o que me acontece como dogma de fé, pois é melhor que coisas aconteçam assim, antes à tarde do que nunca, do que ficar tomando chá de cadeira no grande baile dos desencontros e, sem esperança, desistir da vida. Se esta mulher sentiu um arrepio a lhe percorrer o corpo, se ela sentiu crescer em seu interior sensações de nervoso e desejo, e se ela se sentiu linda, então está tudo certo, como dois e dois são (de) quatro e não se fala mais nisso; então todos os astros se alinham, então todo o universo conspira a seu favor, com a bênção de todos os jargões de autoajuda que ora recebo nestas correntes que devo mandar para vinte pessoas, com a alma completamente aberta e humilde. Se há tantas coisas que acontecem quando menos se espera, pois aro a minha h(a)orta particular com simplicidade e com a sabedoria tirada dos versos de Vinicius de Moraes e dos boleros de Anísio Silva, como ter vivido plenamente antes, sem o que se supõe ter agora? Se a gente pode ler histórias amoráveis no corpo amado e se o mundo continua assombrado, sem saber para onde vão as canetas Bic perdidas, durma-se com mais este mistério: para onde vai esta mulher, depois que esquece, distraída, suas doçuras e sonhos dentro de mim?
quarta-feira, 12 de junho de 2013
CONTO RÁPIDO
Passou
pela casa onde ela morava e nem sequer ia olhar para cima, quando sentiu
novamente o perfume dos cabelos louros que, um dia, lhe chicotearam o rosto, em
câmera lenta, numa cena de uma série da Warner. Ela o fuzilou com o olhar.
Estavam, então, parados na mesma porta, e ela girou o pescoço longo, sem
perceber que o cabelo, o vento e o ângulo da cabeça dele se alinharam numa
configuração nunca vista antes, e as pontas restauradas pelo Advance Techniques
da Avon que ela usara de manhã se embrenharam, por segundos, na barba rente do
rosto dele. Achou tudo muito estranho, um começo assim, o vento da tarde, a
porta entreaberta, a desculpa soprada na orelha fria – “Perdoe-me, nem vi que
você estava aí...” – e as coisas não faziam sentido mesmo. Olhou-a de relance,
com medo de ser apanhado pelo olhar dela, mas a moça sorria, os olhos claros
fixos em algo, além dele, algo fixo do outro lado da alma, ainda que fosse um
pôr do sol, mas não ele, ainda que fosse uma cena cotidiana, mas não ele, ainda
que fosse um outro mundo, mas não ele... ainda que fosse cega, a moça, mas não
ele, cego há tanto tempo ou há tanta distância do coração. Agora, neste
relance, era como tivesse despertado para tudo o que ela um dia foi no instante
em que se conheceram, o mesmo momento da porta, do vento, do louro cabelo
marcando de vermelho o rosto já previamente ruborizado. Haviam caminhado uma
longa distância juntos, depois de terem trocado sorrisos e desculpas pela
invasão do espaço social, sem perceber que já haviam percorrido quase toda a
calçada, os ombros dele e dela roçando-se sem grandes intimidades, as mãos se
tocando naquele espaço vago entre as pontas dos dedos e a curvatura óssea que
se junta com o ombro onde haveriam de se cravar os dentes, tempos depois. Ficou
com medo, pensou em voltar, mas um aviso ecoou em seu corpo: siga, desta vez
siga, vá ao encontro dela, e ele foi, os passos decididos, sem medo que seus
olhos não fossem se cruzar de novo, como namorados que param de se falar
achando que o tempo vai restaurar tudo e, um dia, um morre no outro, morrem os
dois, e nada se restaurou. Melhor não ver, melhor evitar tudo isso? E como
controlar o grande medo da felicidade, aquele que nos faz colocar tudo a
perder, como se não nos víssemos merecedores de tal sentimento? Entre outras
razões, sobreviver a um encontro daqueles não era o melhor dos mundos com os
quais sonhara depois do Big Bang. Não se sobrevive por inteiro, e a parte de
nós que sobra estiola-se num não saber o que fazer do tempo, que não flui, e da
própria vida, que estanca. É um não saber o que fazer de si mesmo. Entendia
apenas que nada tinha muito sentido mesmo e que, naquela tarde, quando ela
disparou, sem querer, um sorriso de porte exclusivo das forças amadas, digo,
armadas, era para ele como se alguém finalmente lhe tivesse aberto uma porta e
sua vida estivesse toda do lado de lá...
PRETERIÇÃO
Não vou
escrever que me sinto triste, pois não quero que você saiba disso, embora este
sentimento meio down espreite, com seus olhos pouco felizes, por trás das
palavras que pululam, em pixels e sistemas binários, na luminosidade
quadrangular da tela em minha frente. Não é isso que vou escrever, porque não
quero que se torne público que me sinto tão pequeno diante de meus limites como
ser humano. Como ser? Como não ser? Nunca revelarei que a noite me dá medo de
perder minhas poucas certezas, minhas esperanças, o meu amor. Negra e fria, ela
me engole com sua saliva ácida de abandono. E nada posso fazer, a não ser
esconder que, por motivos que aqui não importam, eu de modo algum devia estar
sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Culpo-me tão violentamente por
tantas coisas que fiz e deixei de fazer, que ninguém poderia sequer desconfiar
desta minha insegurança, que se divide em muitas outras subcategorias, como a
covardia, o desespero, a inabilidade e o terrível medo de ferir tocando. O que
eu queria e não posso é, por exemplo, que tudo o que me acontecesse de bom e
azul, dentro de mim, eu pudesse dar àquilo e a alguém que eu pertencesse. Mas
não falarei, nem adianta insistir. Mesmo que você considere esta confissão
pública demais, aberta demais, despudorada demais, continuarei em silêncio, sem
dar uma pista. Nada, nem os mais grossos muros, tampouco os vidros blindados,
me protege com tanta segurança como este silêncio por escrito. Na verdade, o
silêncio não está na escrita que me brota nos poros, mas no ato de debruçar
sobre o que não quero dizer. Ou escrever. Ou falar. Ou pensar. Como escapar do
medo de não amar ou de não ser amado, bem como o temor seja fútil ou mal
compreendido. Este dissentir é um paradoxo que me permito, posto que está frio
lá fora e aqui dentro. Não lhe chamo a atenção para a pergunta para a qual não
há resposta imediata: quem poderá calcular o calor e a violência de um coração
de poeta, quando preso no corpo de uma mulher? E respondo, mentido: não tenho
ideia, não sei, não posso... É desnecessário dizer que gostaria de encontrar
uma palavra que exprimisse mais que sozinho. Inútil repetir que não acho a
definição do que sinto por dentro quando sei que uma quantidade inimaginável de
pessoas experimenta a felicidade, num bar, onde só se ouvem risadas e
tilintares de copos e garrafas alegres. Longe de mim querer achar-me certo
diante do mundo. Apenas sobrevivo. Contudo, nem direi que não se sobrevive por
inteiro, e a parte de nós que sobra estiola-se num não saber o que fazer do
tempo, que não flui, e da aridez de uma existência que estanca quando os sonhos
e fragmentam em pequeníssimas fagulhas de esperança. É um não saber o que fazer
de si mesmo, creia, sem me dar muito crédito. Não vou me deter no aspecto da
existência do mundo que me fascina – o literário, o lírico, o leve –
aliterando-se conforme a vida me acontece sem ensaio, sem preparação, sem
avisos de cuidado. Não serei barthesiano ao me dar conta que saber que as
coisas que vou escrever não me farão nunca mais amado por aquela que amo, que a
Literatura não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente aí
onde você não está, isso tudo é o começo, é o destampar o garrafão da escritura
e beber até que as artérias se rompam sob a pressão do alto teor vocabular
nelas injetado. Por que dizer que quanto mais toco na ferida, mais ela sangra?
Em tempo algum lhe direi que são muito mais numerosas as horas em que não sei o
caminho, que me perco, que me firo, firo e me refiro pedestremente, como se
tomado pela mais baixa frequência de mediocridade, mas tudo com a mais
impiedosa consciência dos meus limites humanos. É inconfessável: como gostaria
de não ser humano. Ser, apenas, pois a humanidade carreia um sem número de
defeitos aos atos do ser, aquele que existe com o outro, para o outro, com uma
única e nobre finalidade: amar. Por isso, não falo sequer da minha frustração
de existir defeituosamente no mundo, pois no mundo há as pessoas e elas podem
se ferir em função do mau andamento de minha existência sartriana que tanto me
assusta e fascina. Custa-me informar a todos que possam estar interessados que
os argumentos da razão são infelizes e insuficientes quando se trata de captar
a lógica do itinerário do coração, e ainda mais insatisfatórios quando tentam
alterar seu curso. Por isso, e mais que a poesia não ousa, não te direi que meu
tesouro és tu, eternamente tu, e que não há passos divergentes para quem quer,
enfim, se encontrar...
ATÉ PARECE...
Até parece. Ela deve estar chegando na sua vida. É a mulher do terceiro
milênio. Tem “approach”, sustança e uma capilaridade que vou te contar. Gosta
das palavras da moda e tem borogodó suficiente para usar as antigas, engomadas,
passadas a ferro, nos trinques. Ela não sabe o que é virar uma laje sob o sol
de fevereiro nem apertar um parafuso em casa, mas tem conteúdo para explicar
direitinho a referência pavloviana num dos primeiros TAHM e a diferença entre
“ficar a distância” e “ficar à distância de”, sem pestanejar a suave
sobrancelha feita outro dia mesmo, num salão perto de onde o Rei Arthur deixou
a Excalibur para ser amolada entre picanhas e asas de galinha. Não liga para
modas inventadas por suas amigas e prefere o suave ronronar das felinas que lhe
apalpam a cama para um momento meg-especial, tetê-à-tête, só as três. As gatas
se entendem, bicho. Estou com ela e não fecho. Portanto, relaxe essa tensão
semântica no céu da boca e vitupere gostoso o prazer do quase impronunciável. É
assim que ela ri e diz “até parece...”, sorrindo a frase “cool”, desenhada com
gosto, cheia de decotes, como um espasmo dos sentidos neste momento de ausência
profunda, como a se desculpar por ter dito a coisa certa, no instante certo,
diante do menino que a olhava, sem se acostumar com sua beleza, sem que ninguém
tivesse dado a ele qualquer pista de que, naquele momento, o destino
estava se manifestando na tepidez daqueles nacos de carne bronzeada. Ela tem, na ponta da língua rubra, os versos
que Affonso Romano de Santanna uma vez dedicou ao mar e naquele instante
embutiu o nome amado no verso, quando falado em voz alta: o amor às vezes
coincide com o namoro, às vezes não; o amor às vezes coincide com a paixão, às
vezes não; o amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não; e o amor às
vezes coincide com o amor e, às vezes, não... Sendo assim, ela sabe que o lócus
da felicidade é individual e que o discurso amoroso supostamente adulto, com
suas tentativas de criar dependência emocional e afetiva, é uma metáfora da
realidade dos primeiros anos da vida da pessoa, e que não leva a nada, posto
que é inútil. Cita Vinicius e Cecília quando analisa sua condição de cultora
das palavras e de seus significados, mesmo sabendo-as insuficientes em alguns
momentos-chave da vida, como quando o impalpável nos preenche, como se as
lacunas nada mais fossem do que as dobras de um traje que já não serve mais.
Com a frase-grife da sua percepção do mundo – até parece ! -, faz todos os
lugares se parecerem com a Macondo de Márquez, ou a Penny Lane de Paul, e os
indivíduos que estão em seu campo magnético passam por um pon farr inesperado, ao mesmo tempo corpóreo e etéreo, livre das
distrações biológicas que afligem as formas de vida baseadas em carbono, como
disse Sheldon. Até as pedras das ruas sabem que ela possui um universo que se
expande com a intensidade de mil sóis e que quando eu a vi, pela primeira vez,
havia clarões na minha íris, como se fosse mais um dos anéis de Saturno. E que
o amor nunca foi fácil. Nunca foi linear. A não ser quando não era amor. Até
parece que eu posso, assim com este ajuntamento de palavras, com esse repuxo de
lembranças que cintilam na noite fria, com essa audácia que só a poesia é capaz
de sustentar, tentar caminhar sobre minhas próprias pegadas – de preferência,
aquelas que ainda cheiram a sangue queimado, sobre a brasa incandescente,
aquelas que, pelas sensações radicais, de ódio ou de amor, fazem a gente se
lembrar de quase tudo e perguntar franzindo a testa, como Leonard Hofstadter:
quando foi a primeira vez que você tocou meu coração? Até parece que serei
capaz de escrever, descrever, descrer e ver tudo que se me acontece na aorta
pulsante do músculo literário, de onde vaza um filete de sangue que não consigo
estancar. Até parece que tenho este direito. Até parece que ela vai ouvir, mas
a ilusão que me perpassa os canos hidráulicos hematopoéticos internos funciona
como uma descarga de anestesia como a que me paralisou o braço direito na
última segunda feira e que, depois de liberada pelo garrote que me comprimia a
veias do ombro, fez um tour feliz pelo sistema circulatório do meu corpo,
deixando tudo por dentro calmo, sereno, como se ali não mais pudesse haver
qualquer vestígio de dor. Recomendo. Vale o risco, pois a sensação só é
comparável a sentir nas pernas o suave deslizar daqueles dedos do pé, sob
lençóis, uma coisa! A moça em questão, se um dia souber que ousei escrever
isso, sorrirá, apertando levemente os olhos, e dirá com um jeito mais simples
que um átomo de hidrogênio: “Até parece...”
O FIM DO MUNDO
Eu já estive em outros fins de mundo, mas não como
esse que se prenunciou no Natal de 2011. Já estive esperando que uma grande
bola de fogo rasgasse o céu do hemisfério sul ao norte, e que tudo se acabasse
numa bela, mas paradoxal, luminosidade branca que marcasse nosso último
instante sobre a Terra. Sim, eu já havia comprado o ingresso para o show do fim
do mundo, no qual o Senhor dos Raios, responsável em pôr termo a esta minha
angústia pedestre, essa minha perplexidade diante do mundo em que todos são
felizes – ou seja, eu já estava preparado, escolado, por dentro, entendido. Mas
foi pior. Eu não esperava. Foi assim quando o cometa de Haley deu as caras por
aqui. Eu estava lá. Também senti medo, no entanto, nada. Bola fora. O mundo,
tal qual o conhecemos, ainda não estava para acabar para mim. Ou seja, sou bom
de apocalipse. Não sinto mais susto, porém ainda sinto a dor dos quase
sobreviventes. O Fim, assim mesmo com letra maiúscula, ou “The End”, para ficar
mais cinematográfico, hollywoodyano, sempre foi meu camarada, meu companheiro
de copo, aquele que me dava os toques. Anunciava-se o evento como se fosse um
show do Sting. Astrólogos garantiam a aterrissagem de uma esquadrilha de discos
voadores. O mundo ia se acabar numa feérica festa de luzes e retrofoguetes
zunindo entre montanhas e nuvens. Mas agora foi muito pior. Anos atrás, ainda
se pensava que o mundo ia acabar tão rápido que não daria tempo sequer de
digitar 140 toques nos derradeiros Twitters que ainda restariam com sinal. Eu nem
podia imaginar que seria como agora e pude sentir-me como que já viu um tsunami
pela frente, como naquele filme de Clint. Houve época em que eu nem mesmo me
importava muito, pois as perdas não seriam tantas. Mas agora é diferente e,
repito, pior, muito pior. Num outro tempo, crédulo com a possibilidade de que
daquela vez acabava mesmo, descompromissar-me-ia com a necessidade da prosa
elegante e das mesóclises inesperadas, e me deixaria levar pelas leviandades da
vida – pois a morte era inevitável, e eu não estaria sozinho no Nada que nos
engoliria a seco – e beberia, fumaria e me injetaria com as mais formidáveis
misturas patogênicas que se poderiam encontrar. Em seguida, dormiria tranquilo,
pois não perderia nada essencial, nada que já tivesse desgastado sua
importância e se perdido no tempo, como lágrimas na chuva. Mas, agora, tudo é
tão diferente, e o fim do mundo, do meu mundo, parece finalmente estar
acontecendo, lento como um fim de fogueira, dolorosamente devastando o que eu
achava que não teria fim, através de centopeias incandescentes, todas
malignamente incandescentes, que surgiram das frestas dos terremotos que este
fim tão pessoal e intransferível provocaria ao meu redor. Resisto a acreditar
que o mundo acabou, ou está acabando. Já sinto a eletricidade dos raios
cruzando a camada de ozônio e começando a flambar os miolos ainda pensantes, os
corações ainda pulsantes, como a máquina mortífera mais eficiente que já
existiu desde que Mel Gibson resolveu exterminar todos os criminosos de Los
Angeles, e a estranha energia liberada pelo cataclismo que pulverizará
montanhas e cidades, anunciando o paradoxo da beleza mortal da explosão de
todas as bombas atômicas, para, no fim aumentar milhões de vezes o meu amor por
você, mas já será tarde.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
MINHAS AMIGAS - 10
Eu tenho uma amiga que anda meio encafifada com um novo colega de trabalho que chegou meio quieto, meio misterioso, mas de cujos movimentos ela ainda não conseguiu tirar os olhos negros, também enigmáticos, segundo observação meio sarcástica de um ex-namorado que ela prefere relegar ao olvido. Ela passou a cercá-lo com uma indiferença disfarçada: alto, magro, sem aliança e com uma indumentária que variava entre o esporte casual e um estilo mais contido, com cores neutras e nada mais que posasse de acessório, a não ser o relumbramento prateado de uma caneta tinteiro que lhe habitava a gola da camiseta ou o bolso da camisa jeans. Ela logo achou que não era nada e, mais que isso, era mesmo loucura dela, esse súbito e incômodo interesse por aquele homem que ela mal conhecia. Afinal, estava noiva, comprometida até o último fio de cabelo, como lhe disse, entre crítica e invejosa, uma conhecida com quem fazia as unhas. No entanto, ao ir para o trabalho, percebeu que a escolha das roupas, o perfume, o penteado e o sapato lhe eram inspirados pela antecipação do encontro silencioso com o homem misterioso. Isto a deixou inquieta e com aquela dúvida da qual se esgueirava com habilidade olímpica, a partir do momento que a relação começou a ficar mais séria. Por uns dias, ficou sem saber o que fazer. E se aquele homem sem nome e sem história fosse um jeito de cair em si, de se tocar que sua vida não estava tão segura assim, de descobrir que tanto compromisso a estava sufocando, sem que ela se desse conta disso? Minha amiga tratou logo de se desvencilhar deste espinho, procurando não mais tentar decifrar aqueles sinais e se esforçando para se convencer de que tudo aquilo que achava que estava sentindo – ou dessentindo – era mesmo efêmero como uma escultura de gelo que, gota a gota, como se pranteasse a si mesmo, deixando uma poça de água no chão. E, assim, foi levando, injetando com a seringa da razão doses cada vez maior de desimportância ao homem misterioso do trabalho e aos pensamentos que ele invocava. Dedicou-se a este esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas também dar sentido ao vácuo absoluto. Um dia, ela já ia saindo, quando ele, o homem que tinha começado toda aquela revolução interior que ela experimentava, lhe perguntou: “Quer uma carona?”. Minha amiga fez a cara típica de quem está falando com a pessoa errada, disse um não quase inaudível, virou as costas e foi embora pegar o ônibus.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
O AMOR NOS TEMPOS DA LITERATURA
Eu ia fingir que não vi ela e
colocar a culpa no cacófato, tropeçar no paralelepídedo da última flor do Lácio
que me obliterou a visão e me esborrachar nas ruas das pedras tão antigas, que
conheceram Camões ainda com o olho direito funcionando. (Pronto, já dei a entender que gosto da língua portuguesa, sou-lhe
amante e lhe pago o aluguel para morar nestas mal traçadas, mal digitadas, em
causa própria, pro meu bem. Ficou claro? Fiz-me entender? Pode ser que sim,
pode ser que não. Não importa – ando a esmo, movido apenas pela busca
desesperada do ponto final, fazer o quê?) Mas, ia dizendo mesmo que estava
me declarando estendido no chão, passado por morto, vítima de uma queda de
cabeça lastimável, imóvel, respiração suspensa, esperando em decúbito dorsal que
a ambulância conduzisse o defunto, eu, para longe dos olhos do mundo, para
algum lugar ignorado, onde eu poderia voltar a respirar e ter, de novo, a posse
provisória de minhas faculdades mentais, na qual não sou o melhor aluno - e nem
- o pior. No fundo, lá embaixo, eu sentia mesmo era um baita orgulho de ter
recuado na caminhada em rumo à minha nata vocação para o precipício e e de ter
posto as engrenagens psíquicas em constante movimento, para, enfim, constatar
que a Literatura é justamente uma fratura na precariedade do mundo, um talho
que faz sangrar o sol negro que se deseja esconder. Pois é mesmo a Literatura,
com suas formas femininas, seu cálido hálito, os cabelos perfumados, os pés
perfeitos, que estende a mão delicada, como naquele poema do cummings, e me
recolhe do olvido de uma viagem rumo ao nada. Sua imagem me vem à mente como se
fosse colocada no Google da alma e me fosse devolvida na forma de milhões de
ocorrências. Aproveito-as. Degusto-as. Chupo-as, rodando a língua. E elas me
vêm, escorridas, lubrificadas, úmidas, a escandir a temida palavra trissílaba
que é, ao mesmo tempo, aconchego e lancinante sofrimento. Aquela forma feminina
da Literatura não teve lá como evitar uma abalo sísmico perto de 9.7 na escala
Richter, deslocar algumas placas tectônicas, pelo jeito que soletrou a palavra,
quase o estalar de três sílabas, quase três gotas de colírio de sangue, para eu
abrir os olhos e não mais ver os pousos e decolagens no aeroporto do amparo
que, quando a vida está nublada, parece que nunca mais vai abrir às aeronaves
que poderiam me levar ao exílio numa ilha no meio do Pacífico e jamais escrever
períodos tão longos assim. Há quem tome drágeas bicolores. Há quem tatue a
felicidade no ombro macio. Há quem tome energéticos com Coca-Cola e entoem
mantras em “fogs” de incenso aloe vera. Pensei em tentar o álcool ou as agulhas
de saltos pretos de sandálias idem. Considerei uma religião exótica ao estilo
zen-budista, como a Letã-Ortodoxa de George, pois estava convencido de que tudo
é mesmo uma questão de templo. Mas foi mesmo a Literatura que despachou os
papeis no guichê daquela repartição cheirando a mofo e “estartou” o trâmite
legal, visando a adoção, por alguma instituição de filantrópica, de um cérebro
em permanente litígio com o raciocínio lógico. Como numa história de suspense,
a suposta morte daquele substantivo próprio deixava pistas confusas, pois na
era digital, ela – a morte - é proibida e não há o silêncio que elabora a perda
– há a presença constante que espreita
nos cantos da casa, nos ruídos e nos fantasmas prestativos que obedecem ao
clique curioso e voyerista de um comando, em qualquer Galaxy. A Literatura-mulher
se deixa puxar com alegria pelos cabelos só para me contar, rindo, que, para
tanto, é preciso conviver, feliz, com a ausência, qualquer ausência, em todas
as suas formas. Fica na ponta dos pés delicados, para ver além da vida, das
muralhas que tentam manter longe o amor. É preciso paciência no trato lento do
pensamento, meu chapa. É preciso não temer as turbulências dos afetos, doutor.
A Literatura em forma de mulher ensina, com autonomia, que o lirismo da vida
nos permite encontrar a liberdade, a independência e conviver bem com a
sensação de incerteza. E que viver assim é fazê-lo teimosamente, poeticamente,
literariamente, pois não podemos ser indiferentes às imposições do mundo
material, barbárico e prosaico. Contudo, vamos ser francos, o que a Literatura-mulher
sinaliza, feminina e sutilmente, é que, sem a experiência imaterial – sem
poesia e um profundo respeito pelos sentimentos – não existe mesmo vida que
mereça este nome.QUANDO NÓS DANÇAMOS...
(Um conto escrito enquanto um certo show rolava na TV e
misturava os tempos verbais...)Foi Gordon quem lhe pediu para que desse o recado ao pé da orelha fria, de onde, claro, pende um brinco essencial, pois sabe que esta mesma orelha perfeita há de dar contornos delicados a mais dolorosa das notícias, mas ele falou mesmo que, se alguém a amou como ele te ama, ele se afastaria envergonhado e mudaria de cidade, mudaria até de nome, pois quando dançavam, por algum belo e misterioso motivo, os anjos fugiam e escondiam suas asas, e embora um inesperado padre que tem falado que a salvação de sua alma está no equilíbrio dos anjos e abaixo da roda da paixão, ele conserva sua fé do seu modo, você sabe, quando dançavam, os anjos desapareceram e esconderam suas asas, só para ficar bem claro que ele ainda te ama e que encontrará um lugar para viver e lhe dar tudo o que tem, que é um punhado de palavras e um outro tanto de sonhos, desde que ele pudesse derrubar estas paredes e gritar seu nome às portas do céu, ele usaria estas mãos e destruiria a sombria máquina do destino, derrubaria catedrais, não mais céus acima e, abaixo, e acabaria com o fogo do inferno, e você o ouviria dizer que ainda te ama, então venha viver com ele e os filhos, posto que ele a amará mais que a vida, se você vier e ser sua mulher, e a amará noite e dia, e vai tentar de todo jeito, porque ele teve um sonho em que você estava do seu lado, caminhando com ele e seu coração estava cheio de orgulho, porque para ele tudo o que você faz é mágica e excita, e embora sua vida tenha sido trágica, a cada vez que você respirar, a cada movimento que você fizer, cada laço que romper, a cada passo que der e a cada vez que você mudar a lógica de seus sonhos, o seu amor continua...
O CÉU SOBRE BERLIN
Ele
sai do cinema com a sensação de que o chão fugia aos seus pés. Tinha acabado de
assistir, mais uma vez, a “Asas do Desejo”, de Wim Wenders. O sol frio da
memória ilumina as ruas da cidade, então vazias e silenciosas, como se tivessem
sido varridas por uma bomba de nêutrons. Ao fundo da mente, ao mesmo tempo
confusa e aliviada, Elton canta a sua canção, enquanto quadros do filme se diluem
em cenas como na qual um anjo apaixonado, Damiel, arrasta uma asa por uma
trapezista de circo, Marion, e paga um preço alto por este amor: a mortalidade.
Seus colegas anjos são visíveis apenas por crianças e, vestindo longos
sobretudos pretos, voam por uma Berlim Ocidental em preto e branco, seguindo
seus habitantes e ouvindo-lhes os pensamentos. Quando estes se tornam muito
sombrios, os anjos intervêm, e um toque providencial de suas mãos muda o rumo
do monólogo interior. É exatamente assim que Damiel é capturado pelo coração de
Marion. Ele a escuta refletir: “Dizem que o tempo cura, mas e se o tempo for a
doença?”. Um pensamento assim, tão doído, é mesmo de arrepiar as penas, e
Damiel começa a sentir que só pode mesmo amar aquela mulher. Enquanto decide
seu destino de mortal, uma cena corta para o interior de um vagão de metrô,
onde vários pensamentos são entreouvidos. Um último passageiro pensa em
desistir. Os pais o abandonaram, o amigo mudou-se de Berlim, a mulher o deixou
e os filhos fazem chacota de sua gagueira. Damiel toca o ombro do pobre homem,
e ele subitamente pensa: “Posso sair desta situação, só depende de mim”. A cena
é linda e não sai do seu perímetro de consciência, enquanto passa pelas pessoas
na rua, todas incapazes de saber como ele se sente naquele momento. As
sequências do filme se misturam à realidade monocromática da cidade tão cinza
quanto a Berlim de Wenders. O sinal abre. Súbito, pessoas atravessam a rua e
uma delas, uma mulher, passa por ele falando ao celular. Emparelham o tempo
suficiente para ouvi-la dizer “...eu já te implorei...” Ele estanca, como um
sangue que, vermelhamente, parasse de pulsar. Que tipo de conversa pediria uma
súplica deste nível? Que situação levaria alguém a este pedido tão sofrido?
Como alguém havia deixado de lhe dar atenção? Ou seria apenas um recurso
retórico, um modo de dar seriedade a um pedido desimportante? O sinal fecha, e
ele para do outro lado da rua, observando a moça ao celular em forma de
lágrima, lamentando não ser um anjo que a acalmasse e lhe dissesse, na orelha
disponível, que há uma grande probabilidade de a vida ser assim mesmo, uma
grande e contínua solidão, e que o temor que sentimos de perder o afeto das
pessoas se atuará muito quando formos realmente capazes de ficar sós. E se
houvesse sinal e bateria suficientes, ainda lhe faria sentir que a dor aguda
que ela está sentindo agora vai se atenuar com o passar do tempo e que é
possível dizer adeus para uma pessoa com quem se imaginou ficar junto a vida
inteira. Assim, dialogamos com a mortalidade.
Entre
as pessoas da rua da cidade cinza, ela nem percebeu direito quando letras de
mel, assopradas sem desassombro por um vento súbito, afagaram-lhe os cabelos.
ACEITAÇÃO
Na difícil procura do amor, a
gente se machuca, chora, chama pela mãe, bate o telefone, procura o melhor
amigo e depois briga com ele porque ele não entendeu nada, faz terapia, escreve
o dia na agenda e depois rabisca, liga a televisão e não vê, deixa de estudar
para a prova, conta piada para fingir que está tudo bem, chora por qualquer
coisa, se desespera, espera o telefone tocar e quando ele toca não atende ou
demora para atender, toma coca com vodka, relê cartas antigas e as queima,
escreve novas, compra roupa nova, inventa um passatempo sem graça – porque a
vida está sem graça – come cebola com beterraba e acha ótimo, rói as unhas,
implica com o irmão mais novo, corta o cabelo e se arrepende depois, arruma o
armário, dá vexame no restaurante, perde o sonho, desaprende a sonhar, vende o
almoço para comprar a janta, não tá nem aí, tá aí para tudo, pega chuva, toma
sorvete, fica gripado, tira poeira da capa do Batman, marca e não vai, acha
tudo errado, faz fofoca, ri na cara, briga com a tia, bate a porta, chuta os
livros, ouve James Taylor o dia inteiro, tenta fazer arroz e queima (e come
assim mesmo), gasta dinheiro, recorta jornal, fala em código, manda um torpedo
inesperado, recebe uma resposta mais inesperada ainda, escreve um texto imenso
e então deleta tudo, usa óculos escuros mesmo dentro do elevador, sente raiva
de lembrar de tanta coisa, fica na dúvida sobre a dosimetria da saudade, revê pela enésima
vez Um Lugar Chamado Notting Hill, vibra com a reeleição de Obama, toma água
com bolinha, perde as esperanças e, depois, enfim, as redescobre num canto
inesperado do coração, subitamente vago por algum aluguel vencido, e entende
que o sofrimento só existe porque não queremos aceitar os fatos...A LÁGRIMA
... foi por um momento
apenas, mas parecia durar a eternidade e eu quis mesmo que a vida fosse assim:
você do meu lado a me mostrar doçuras, e eu sentindo, respirando seu corpo
perto, dentro, do meu, e o fato é que hoje houve um inevitável aumento nas
chances de viver, pois as estrelas estão vivas, luzindo, e os animais mais
mansos, e tudo isso me emociona de maneira tão profunda, e o contato do seu
braço, a maciez provável do seu colo e esse momento de sonho que ainda me
provoca o corpo e a alma e perdura na lembrança, e houve apenas a aproximação
dos desejos a cada fotografia do seu olhar, e essa exposição de recordações me
deixava cada vez mais perto de você e eu bebia o perfume dos seus cabelos de
mel até senti-los tocando meu rosto, e este instante ganhou todo o sentido para
fica dentro de mim essa impressão edulcorada, infinita e perfeita de felicidade
que se completava a cada instante com a desenvoltura de suas mãos de porcelana
a lidar com tic-tacs ali e aqui como fazia com meus sentidos tão excitados com
os estímulos mais radiantes que emitias, e já fascinado com a proximidade do
sorriso, dos seios nas mãos dos cabelos e todo este extraordinário milagre de
coisas suaves e sensíveis e tépidas feitas para serem amadas infinitamente, e
então eu me senti como um poeta de antigamente prestes a amar a moça real e
mesmerizante dos seus versos, prestes a fazer do seu próprio corpo o descanso
para o dela, prestes a tocá-la como quem veio pela primeira vez, e sempre, para
amar, e isso tudo porque você estava perto do meu abraço e meu coração mal dava
conta dos duzentos litros de sangue que apareciam subitamente, num instante
mágico, ao mesmo tempo de descoberta e de perda, e eu me emocionava com sua
presença física, como se vivesse a vida de suas células, sua doce vida perante
o ar leve como um sussurro de folhas, à janela, ao longe, excitante como as
vestes diáfanas de uma cigana, mas ainda assim mais leve como o adejar de uma
ave imponderável, um murmúrio perdido na distância e seu corpo era assim tão
belo, neste momento, que eu senti um aperto na garganta e os olhos úmidos, e
tive vontade de te abraçar forte, como se pudesse, assim, reter o lirismo e a
emoção inédita do melhor momento de minha vida...
CONTO RÁPIDO
Passou
pela casa onde ela morava e nem sequer ia olhar para cima, quando sentiu
novamente o perfume dos cabelos louros que, um dia, lhe chicotearam o rosto, em
câmera lenta, numa cena de uma série da Warner. Ela o fuzilou com o olhar.
Estavam, então, parados na mesma porta, e ela girou o pescoço longo, sem
perceber que o cabelo, o vento e o ângulo da cabeça dele se alinharam numa
configuração nunca vista antes, e as pontas restauradas pelo Advance Techniques
da Avon que ela usara de manhã se embrenharam, por segundos, na barba rente do
rosto dele. Achou tudo muito estranho, um começo assim, o vento da tarde, a
porta entreaberta, a desculpa soprada na orelha fria – “Perdoe-me, nem vi que
você estava aí...” – e as coisas não faziam sentido mesmo. Olhou-a de relance,
com medo de ser apanhado pelo olhar dela, mas a moça sorria, os olhos claros
fixos em algo, além dele, algo fixo do outro lado da alma, ainda que fosse um
pôr do sol, mas não ele, ainda que fosse uma cena cotidiana, mas não ele, ainda
que fosse um outro mundo, mas não ele... ainda que fosse cega, a moça, mas não
ele, cego há tanto tempo ou há tanta distância do coração. Agora, neste
relance, era como tivesse despertado para tudo o que ela um dia foi no instante
em que se conheceram, o mesmo momento da porta, do vento, do louro cabelo
marcando de vermelho o rosto já previamente ruborizado. Haviam caminhado uma
longa distância juntos, depois de terem trocado sorrisos e desculpas pela
invasão do espaço social, sem perceber que já haviam percorrido quase toda a
calçada, os ombros dele e dela roçando-se sem grandes intimidades, as mãos se
tocando naquele espaço vago entre as pontas dos dedos e a curvatura óssea que
se junta com o ombro onde haveriam de se cravar os dentes, tempos depois. Ficou
com medo, pensou em voltar, mas um aviso ecoou em seu corpo: siga, desta vez
siga, vá ao encontro dela, e ele foi, os passos decididos, sem medo que seus
olhos não fossem se cruzar de novo, como namorados que param de se falar
achando que o tempo vai restaurar tudo e, um dia, um morre no outro, morrem os
dois, e nada se restaurou. Melhor não ver, melhor evitar tudo isso? E como
controlar o grande medo da felicidade, aquele que nos faz colocar tudo a
perder, como se não nos víssemos merecedores de tal sentimento? Entre outras
razões, sobreviver a um encontro daqueles não era o melhor dos mundos com os
quais sonhara depois do Big Bang. Não se sobrevive por inteiro, e a parte de
nós que sobra estiola-se num não saber o que fazer do tempo, que não flui, e da
própria vida, que estanca. É um não saber o que fazer de si mesmo. Entendia
apenas que nada tinha muito sentido mesmo e que, naquela tarde, quando ela
disparou, sem querer, um sorriso de porte exclusivo das forças amadas, digo,
armadas, era para ele como se alguém finalmente lhe tivesse aberto uma porta e
sua vida estivesse toda do lado de lá...
domingo, 31 de março de 2013
SIM, ELE FALOU...
Sim, ele falou e
escreveu, e ela falou e escreveu melhor ainda, dando de 10 a 0 nele, deixando-o
vendo estrelas, então e agora, o deixando
zonzo, como depois de um cruzado de Tyson; em xeque-mate; dando uma cortada da
linha de três metros; ultrapassando na primeira curva, driblando o goleiro, sem
humildade em gol. Mas eu já esperava por isso, desde que a vi pela primeira
vez, e aquela cena ficou colada na cortiça do meu cerebelo, uma linda mulher
que entrou pela menina dos meus olhos e que cisma em não sair, um cisco de luz
que chega a minha orelha. Sei lá se é um bilhete para Passárgada, Strawberry
Fields Forever, ou qualquer desses paraísos fiscais da felicidade que os poetas
de tempos em tempos sugerem. Que ela venha toda de branco, toda molhada e
despenteada, como disse bem Ben Jor, e sopre seus lirismos para dentro de meus
pulmões cansados, desparagone a página certinha quando algum tsunami vier bater
em sua janela, sofistique o vocabulário e me obrigue a suar a camisa para
escrever alguma coisa que preste, alguma coisa que esteja à sua altura
sentimental e que seja capaz de mudar o rumo das nuvens. Alguma coisa que fale
também em beijinhos trôpegos, em doces vampiros, em chás que – ai...! - não
acontecem, em articulações braquiais com a cintura escapular, em pontos de
interrogação, finais e gês. E que a isso se aduzisse algo como toalhas
molhadas, sanduíches de presunto com queijo, poemas vinicianos, sapatos com a
ilusão de salto, unhas brancas and
forgotten glasses, numa viagem em que juntamos lábios para beijinhos sem
ter fim, trôpegos ou não, selvagens ou não, mas permanentemente molhados de
desejo e suor. Eu, genuflexo, boquiaberto sem chances de me boquifechar diante
desta capacidade de reinventar cheiros, toques e as tão íntimas palavras que
dizem tudo, essas que andam sem calcinha pelos corredores da alma, e que deixam
claro o que sente o mergulhador imerso em mar e na bela mulher, em cujos
ouvidos o velvet da língua inglesa se intromete molhado, nervoso, elétrico. Se
somente as rádios FM podem transmitir ondas assim, surfo-as, curto-as e emulo
um tal poeta que também versejou sobre os mesmos braços líquidos que me
cercavam num abraçar completo das águas femininas. Cai a temperatura. Ai o
queixo. Quedo-me em admiração. No papiro da pele desta mulher, o Calígrafo
Supremo parece ter rabiscado os primeiros versos que eu gostaria de ter
escrito. Na falta de incenso e mirra, balanço em sua honra meu turíbulo de
maravilhas semânticas. Sempiterno. Frêmito. Orquídea.
ELE, ELA E O CAMINHO DAS LETRAS
Sim, ele falou e
escreveu, e ela falou e escreveu melhor ainda, dando de 10 a 0 nele, deixando-o
vendo estrelas, então e agora, botando-o no lugar dele, deixando-o zonzo, como depois de um cruzado de
Tyson; em xeque-mate de Karpov; dando uma cortada da linha de três metros que
só Giba consegue; ultrapassando na primeira curva ao estilo de Senna, driblando
o goleiro igual a Zico, sem humildade em gol, como Fio Maravilha, com a
precisão de uma tacada de Tiger Woods. Mas eu já esperava por isso, desde que a
vi pela primeira vez, e aquela cena ficou colada na cortiça do meu cerebelo,
uma linda mulher que entrou pela menina dos meus olhos e que cisma em não sair,
um cisco de luz que chega a minha orelha fria e carente de segredos e
confissões amoráveis. Sei lá se é um bilhete para Pasárgada, Strawberry Fields
Forever, a Ilha Misteriosa, Além do Horizonte, a Tonga da Mironga do Kabuletê, ou
qualquer desses paraísos fiscais da felicidade que os poetas de tempos em
tempos sugerem. Que ela venha toda de branco, toda molhada e despenteada, como
bem disse Ben Jor, e disse-o bem, e sopre seus lirismos para dentro de meus
pulmões cansados, desparagone a página certinha quando algum tsunami literário vier
bater em sua janela, sofistique o vocabulário e me obrigue a suar a camisa para
escrever alguma coisa que preste, alguma coisa que esteja à sua altura
sentimental e que seja capaz de mudar o rumo das nuvens, além de trazê-la para
mais perto. Alguma coisa que fale também em beijinhos trôpegos, em doces
vampiros, em chás que não acontecem, em articulações braquiais com a cintura
escapular, em pontos de diversa natureza, sejam eles de interrogação, exclamação,
finais; do ponto a até o b, incluindo o g (ai...). E que a isso se aduzisse
algo como toalhas molhadas, sanduíches de presunto com queijo, poemas
vinicianos, sapatos lilases com a ilusão de salto, unhas brancas and forgotten glasses, numa viagem em
que há de se juntar lábios para beijinhos sem ter fim, trôpegos ou não,
selvagens ou não, mas permanentemente molhados de desejo e suor. Eu, genuflexo,
boquiaberto sem chances de me boquifechar diante desta capacidade de reinventar
cheiros, toques e as tão íntimas palavras que dizem tudo, essas que andam sem
calcinha pelos corredores da alma, e que deixam claro o que sente o mergulhador
imerso em mar e na bela mulher, em cujos ouvidos o velvet da língua inglesa se intromete molhado, nervoso, elétrico. E
a língua que se transforma em palavras, que se transformam em cartas escritas
sobre o corpo amoroso, usado como apoio definitivo; cartas que se escrevem na
cama sobre o corpo amado, com a ambígua pena que fere de amor a superfície da
pele/papel do corpo que se ama, deixando nele o gozo da escrita amoravelmente
literária. Se somente as rádios FM podem transmitir ondas assim, surfo-as,
curto-as e emulo um tal poeta que também versejou sobre os mesmos braços
líquidos que me cercavam num abraçar completo das águas femininas. Sobe a
temperatura. Cai o queixo. Quedo-me em admiração. No papiro da pele desta
mulher, o Calígrafo Supremo parece ter rabiscado os primeiros versos que eu
gostaria de ter escrito, se não me faltassem engenho e arte para tal nobre
tarefa. Na falta de incenso e mirra, balanço em sua honra meu turíbulo de
maravilhas semânticas. Sempiterno. Frêmito. Orquídea. Farpela. Bruma. Uma
mulher assim está pronta para algo definitivo. Merece as margens do Sena e um
pôr do sol em Paris. Merece jazz com sorvete de chocolate. Fellini com
Hitchcock. Perrier com trufas. Star Wars com Enterprise. Se ela finalmente se
deu conta de caber tantas coincidências numa estante, num instante, como posso
discordar? Se fica a marca no seio e no coração, por proximidade, por paixão,
abstenho-me de teorias psicanalíticas para explicar o que não pode ser
entendido, e apenas aceito o que me acontece como dogma de fé, pois é melhor
que coisas aconteçam assim, antes à tarde do que nunca, do que ficar tomando
chá de cadeira no grande baile dos desencontros e, sem esperança, desistir da
vida. Se esta mulher sentiu um arrepio a lhe percorrer o corpo, se ela sentiu
crescer em seu interior sensações de nervoso e desejo, e se ela se sentiu
linda, então está tudo certo, como dois e dois são (de) quatro e não se fala
mais nisso; então todos os astros se alinham, então todo o universo conspira a seu
favor, com a bênção de todos os jargões de autoajuda que ora recebo nestas
correntes que devo mandar para vinte pessoas, com a alma completamente aberta e
humilde. Se há tantas coisas que acontecem quando menos se espera, pois aro a
minha h(a)orta particular com simplicidade e com a sabedoria tirada dos versos
de Vinicius de Moraes e dos boleros de Anísio Silva, como ter vivido plenamente
antes, sem o que se supõe ter agora? Se a gente pode ler histórias amoráveis no
corpo amado e se o mundo continua assombrado, sem saber para aonde vão as
canetas Bic perdidas, durma-se com mais este mistério: para onde vai esta
mulher, depois que esquece, distraída, suas doçuras e sonhos dentro de mim?
sábado, 30 de março de 2013
AQUELE HOMEM
Aquele homem anda rápido em
direção a lugar nenhum. Carrega consigo um bornal cheio de recordações, e há
cartas de amor no bolso da calça jeans desbotada, igualzinha àquela de
Detalhes. Poder-se-ia dizer que é um homem de sentimentos, que quase chora ao
se dar conta da saudade daqueles momentos em que, distraído, tropeçou na
felicidade e se deu conta de que ela até existe. Há os que se entregam à bebida, ou que
preferem levantar peso com alteres improvisados, só para esgarçar a manga da
camiseta Hering, quando fazem um L com o braço musculoso e o antebraço de
Popeye, ao segurar a “long neck” que é a chave do paraíso dos comerciais de TV.
Há os que se escondem em casa, num auto-exílio de cortar o coração em fatias
isométricas como com aquelas facas guinzo 2000, e ficam horas em um silêncio
mais profundo do que certos decotes em cujos interiores muita vida já se
perdeu. Aquele homem está nas ruas, nas estradas brancas de nevoeiro, nas
esquinas dos sofrimentos sem sentido e consentidos, pois não se pode ter uma
vida completa sem uma dose exata de dor trincando sonhos e planos. Talvez
já tenha aprendido que sábado costuma ser o mais cruel dos dias para quem tem a
solidão no DNA ─ sobretudo para quem gosta de Clarice Lispector e Rubem Braga e
que acha possível substituir o beijo molhado e a língua atrevida por uma página
ou duas de puro lirismo. Até dá, mas não por muito tempo.
O CÉU
Me desculpem começar
assim, logo com um pronome oblíquo abrindo as alas do desrespeito à norma culta
da última flor, ir logo metendo os pés pelas mãos, sem desviar do
paralelepípedo semântico que me inchou o dedão, logo depois de chutar, sem
mais, sem menos, uma resposta certa neste Enem existencial, quando se vê, sem o
filtro do distanciamento, se os meninos viraram mesmo homens. Preferi buscar
palavras no bornal que escondo debaixo da cama e ao qual recorro sempre que
quero um termo mais exato, uma palavrinha mais ensaborrilhada, dessas que
encaixam perfeito, como o clique das mãos dos namorados, diante dos perigos do
mundo. O fato é que não adiantou o domingo estar completamente azul, se havia
nele uma ausência que era maior que todos os azuis tristes que conotam o “blue”
em língua inglesa, maior que todos os poemas de saudade, maior que a maior das
medidas. Preferi passar por morto, que era mais ou menos próximo do que eu era
mesmo então. Vítima de uma queda de pressão súbita e incontornável, achei
melhor deitar-me nas esperanças que me serviam de maca naquele momento. Esperei
que uma ambulância vermelha dos bombeiros viesse me recolher, o recém quase defunto,
para longe daqueles olhos perfeitos, para algum lugar aonde não chegassem
cartas ou e-mails, uma sala ampla e clara. No local, perpassar-me-iam tubos
translúcidos, em meio ao bip nervoso de alguma máquina que desse suporte à vida
que ainda me restava, líquida, na tubulação venosa. Achei que estava num
daqueles espaços intermediários que algumas religiões decantam: a porta
entreaberta entre a vida e a não-vida, esta sim pior que a morte propriamente
dita, que deve ser uma ausência de tudo, creio. O processo já se iniciava, e
ainda pude ver, de relance, alguns rostos conhecidos me olhando com preocupação
no corredor do que me parecia um enorme hospital: Rachel, Ross, Will, Morgan,
Clint... de onde estava, pude perceber que uma enfermeira colocava meus
pertences numa espécie de bolsa plástica e, entre eles, vislumbrei meu celular,
tão mudo, tão sem função... para quem ligaria? Para ela - uma fotografia na
parede da memória que, como naquele poema de Drummond, dói. Era ela, rindo e
dizendo “até parece...”, depois de qualquer bobagem romântica de minha parte, e
que são muitas. Era ela, entre tic-tacs e um celular com barulho d’água, entre
letras e bytes, livros e Elvis. A meu favor, havia a surpresa de minha quase
morte súbita, cuja notícia, entreouvida, não raro, num lugar inesperado, fatiariam
o coração da referida em alguns mil pedaços que boiariam no molho quente da incredulidade
e do susto. Porém, se assim fosse, eu nem saberia sequer se ela sentiria a
minha falta, se o órgão propulsor de seus sentimentos bateria um tambor movido
à mais poderosa Duracell, ou seria apenas um som fraco, abafado, quase
inexistente, como uma tosse no meio da noite. Esta dúvida era pior do que a
sensação de ausência de vida, eu lhes garanto. Tudo ia mal, muito mal, quando,
de inopino, ela me surge dobrando a esquina da memória e mudando o rumo das
nuvens. Eu não tinha mais como dar a volta. Eu avançava pela calçada no passo
acelerado de quem segue movido por “Every breath you take”. Ela ajeitava os
óculos. Eu sentia o vermelho do sangue se evaporar de minhas veias. Ela era uma
festa de brincos e sarais retrôs. Eu ia me dissolvendo como um homem de areia,
de joelhos, num ciclone. Ela parecia flutuar, como uma fada faria. Logo, eu estava
a quatro passos de entrar numa cena de felicidade em que já estivera por longo
tempo. Passei a provocar o coração para que ele decidisse rápido – faltavam
apenas dois passos, e ela já se cansara de procurar o celular na bolsa, e eu
temia que o mundo acabasse se ela me olhasse nos olhos e não me reconhecesse,
se eu sorrisse e recebesse de volta apenas aquele olhar que damos quando vemos
um bêbado caído na sarjeta, um olhar de que
gostaria-de-fazer-alguma-coisa-mas-não-posso; e então ouvi a voz de um anjo bom
me dizendo no ouvido para que acreditasse no amor, pois a distância tem dessas
coisas. A imaginação funciona numa direção, mas a realidade pode ser muito diferente,
até oposta. Por isso, quase sempre optamos pelo drama. O copo d’água ganha,
então, sua tempestade. Tornamo-nos romeus aos pés de julietas, lindas e
perfeitas, mas distantes, altas e inatingíveis como torres. Todos os sucos de
pêssego do mundo seriam insuficientes para edulcorar o enredo. No entanto, o
anjo insistia, deve haver, bem lá dentro da alma, alguma coisa essencial que
não pode se perder e que só tem sentido com aquele outro que agora não está...,
mas deveria.
Assinar:
Postagens (Atom)

















