domingo, 16 de junho de 2013

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

Atenção, gerúndio! Mexam-se os tempos compostos. Sentido! Ela está lendo. Ponham-se aos lugares, não deixem a vírgula para que o sujeito tropece nela. Cuidado com as crases, neologismos e, caraca!, estas palavras-fashion que desfilam nas bocas dos mais descolados. Levante cedo, lá pelas seis, pois Deus ajuda quem da gramática cuida, e trate de revisar o trabalho de uma vida inteira dedicada a perfilar palavrinhas rebeldes, com cabelo caído na franja umas, com piercings em lugares inusitados, outras. Corrija seus verbos irregulares que não foram correspondidos em sua regência e ligue para o 0800 do Instituto Fernando Pessoa, para marcar uma aplicação de botox nos infinitivos mal flexionados. Proteja-se das idiossincrasias adverbiais que fazem birra com a língua-mãe, policie os cacófatos e os erros de digitação, pois num mundo pós-moderno dominado pelos corretores de textos, alguns aproveitam a deixa e corrigem também as emoções e, daí, o verbo quente e duro acaba não penetrando na menina dos olhos da leitora. Não falte ao respeito com a morfologia dos adjetivos nem chegue a trocas de carícias explícitas com os pronomes pessoais do caso reto. Ela, no caso. Modere seu fetiche com o pezinho da letra M e seja tolerante com a sujeita oculta, indeterminada, inexistente - far-lhe-á um bem enorme, pois quem não teve uma mesóclise na vida que atire a primeira pedra no travessão. Olhe os modos, menino! Ela está lendo. O subjuntivo deve ser usado com comedimento, porque você, sabemos, é um poço de desejos e tudo é indicativo de um amor grande. Não exagere e segure com rédeas curtas as orações e seus predicados, imponha uma regra culta ao seu texto de bermudas e mantenha a coerência e a coesão, custe o que custar. Nada dessas liberdades do ditongo crescente chegar para cima das subordinadas na voz ativa. Domine os ímpetos das comparações fáceis, escrevendo que, se você é um sujeito simples, ela é um presente mais-que-perfeito. Disfarce seus vícios de linguagem, as regências transviadas, as concordâncias desrespeitadas, as ideias confusas. Preste atenção na reforma ortográfica, os acentos abolidos e trema apenas nas pernas, quando pensar nela. Isso pode. Ela está lendo. Deixe de intimidades com a língua, essa coisa de dar tapinhas na barriga do objeto direto, de passar a mão no joelho da primeira pessoa. Passe uma vassoura nas negativas duplas na mesma frase para, em seguida, fazer paciente relatório cheio de interjeições espantadas, a fim de dar entradas nos papéis e viver no gozo das hipérboles de uma aposentadoria em Pasárgada. Escreva no escuro, de madrugada, o rosto iluminado apenas pelo monitor e o silêncio frio cortado, de tempos em tempos, por aquela voz passiva feminina dizendo “as atualizações de vírus foram atualizadas”. Tenha extremo cuidado com o estilo, respire fundo antes de usar o vocativo e não queira irritar aqueles olhos serenos quando ela os passar por seus trôpegos adjuntos adverbiais de tempo e lugar. A esferográfica indócil querendo cair de dente na parte carnuda das palavras, e você, firme, sem delírios, sem muito romantismo. Limite-se ao registro à risca da sua pulsação eletrocardiogramatical. Pertencem a ela as mais belas bilabiais fricativas, todas adornadas com uma flor de açucena entre os dentes que se materializarão em um sorriso perfeito que, espero, um dia ela lhe mostre, ao contar como cultivou tal jardim de sintagmas nesses dias de preposições tão dolorosas e adversativas. Por isso, passe o rodo em expressões que contenham brigas, broncas e brioches. Não se atreva a expor qualquer relato de intenção de suas conjunções carnais. Não falte às sessões de análise sintática com seu terapeuta de confiança, que lhe dirá, num discurso direto, que são as nossas emoções que podem nos afastar de nossos maiores objetivos. Ela está lendo. Faça-se silêncio absoluto, o que pode incluir a supressão definitiva destes textos virtuais, para sempre. Esteja preparado, pois. De nada adianta a discurseira de improviso que escancara a retórica anêmica, os escorregões gramaticais, as pausas hesitantes, a adjetivação gordurosa e, sobretudo, a argumentação indigente. Não abuse das reminiscências por escrito, pois tal qual na arte oriental da caligrafia, praticada sobre papel tão fino que se rasga a qualquer pincelada mais brusca, elas provocam sensações inesperadas e agudizam o silêncio e o abismo. Sim, as emoções, há-as. Lembre que, se fosse um sinal de pontuação, você seria uma linha com pontinhos de reticências... Não canse as retinas da leitora com um código de barras desbotado. Confira, sem ferir, os dados, tire uns advérbios de modo, corte vírgulas desnecessárias que apenas tocam o segundo violino para o concerto da clareza, mesmo que você não consiga se ver livre de certos conteúdos que, sem a forma adequada, se perdem no tempo que transforma todo amor em quase nada, como na canção. Portanto, mantenha sob intensa vigilância o risco de uma opinião pouco original, uma ideia inconsistente, uma tirada sem graça, pois poucas coisas abrandam a desoladora aridez reiteradamente sublinhada pelas colisões entre o sujeito e o predicado, pela falta de intimidade entre o começo e o fim e pelo sumiço do raciocínio lógico. Por isso, trate de descrever o cenário possível para o melhor desfecho: quando reencontrar aquela mulher, você vai acessar o HD da memória - que não se presta a estas dores da saudade - e vasculhará as polaroides de um vestido levantando, do corselete preto liberando botões e dos tic-tacs se abrindo a cada puxão de cabelo. Uma cena que poderia dar um episódio de “Friends” ou um suspense de Hitchcock, se a realidade não lhe providenciar logo um tranco de bom senso e você cair em si, quebrando apenas as regras sintáticas e o caco cardíaco que resta intacto. Você dirá “há quanto tempo...”, como se fossem as últimas palavras de um condenado no cadafalso, pedindo ao carrasco que acabe logo com o sofrimento e estique a corda. E ela, psicodelicamente, sorrirá umas orquídeas e lhe cutucará o baixo ventre com a pergunta “o que você tem feito?”. E você engolirá em seco, sentido a madeira do cadafalso estalar sob seus pés. Então, será como um justiceiro que começa a cumprir a sentença espalhada por alguma Vara Criminal do Amor nos Tempos do Cólera. E durante o silêncio que se seguirá, você vai sentir a corda encostando na garganta, até que seja executada ali, em praça pública, na frente de todos, a indenização por danos vinicius de morais que a Lei da Gramática e da Falta de Lirismo haverá autorizado cobrar a quem de direito.

ACEITAÇÃO

Na difícil procura do amor, a gente se machuca, chora, chama pela mãe, bate o telefone, procura o melhor amigo e depois briga com ele porque ele não entendeu nada, faz terapia, escreve o dia na agenda e depois rabisca, liga a televisão e não vê, deixa de estudar para a prova, conta piada para fingir que está tudo bem, chora por qualquer coisa, se desespera, espera o telefone tocar e quando ele toca não atende ou demora para atender, toma coca com vodka, relê cartas antigas e as queima, escreve novas, compra roupa nova, inventa um passatempo sem graça – porque a vida está sem graça – come cebola com beterraba e acha ótimo, rói as unhas, implica com o irmão mais novo, corta o cabelo e se arrepende depois, arruma o armário, dá vexame no restaurante, perde o sonho, desaprende a sonhar, vende o almoço para comprar a janta, não tá nem aí, tá aí para tudo, pega chuva, toma sorvete, fica gripado, tira poeira da capa do Batman, marca e não vai, acha tudo errado, faz fofoca, ri na cara, briga com a tia, bate a porta, chuta os livros, ouve James Taylor o dia inteiro, tenta fazer arroz e queima (e come assim mesmo), gasta dinheiro, recorta jornal, fala em código, manda um torpedo inesperado, recebe uma resposta mais inesperada ainda, escreve um texto imenso e então deleta tudo, usa óculos escuros mesmo dentro do elevador, sente raiva de lembrar de tanta coisa, fica na dúvida sobre a dosimetria da saudade, revê pela enésima vez Um Lugar Chamado Notting Hill, vibra com a reeleição de Obama, toma água com bolinha, perde as esperanças e, depois, enfim, as redescobre num canto inesperado do coração, subitamente vago por algum aluguel vencido, e entende que o sofrimento só existe porque não queremos aceitar os fatos...

sábado, 15 de junho de 2013

A CAMISA

Domingo à tarde. Saiu para o jogo, com a confiança de quem, no final, ia ser o vencedor. Desceu a ladeira enlameada da favela, com o coração cheio de esperança e o bolso nem tanto – só havia a conta exata para o ônibus e para a entrada no Maracanã. Deixaria a cerveja para outro dia, com os amigos do morro, só para esticar mais um pouco o deleite pela vitória do Flamengo. Faria hora-extra, se fosse o caso, e assim teria uma grana para comemorar a vitória do rubro-negro. Bem, isso se tivesse emprego fixo – mas, o que uma conquista do Mengão não faria por ele? Era bem capaz de arranjar um bom emprego logo na segunda-feira cedinho, sem esforço. Só tinha uma coisa faltando e não era de hoje: nunca havia conseguido comprar uma camisa do seu time de coração. Isso era uma frustração apenas amenizada por tantos gols de Zico que ele testemunhara ali bem de pertinho, da geral do Mário Filho. Mas, tudo bem. Hoje, fazia um calorão dos diabos, e ele logo providenciou seu traje de torcedor: sandália de dedo, uma bermuda surrada - que já fora uma calça jeans um dia - e uma camiseta de propaganda política, com um furo aqui e ali, que ele enrolou na cabeça, para se proteger do sol de fevereiro. Porém, faltava a camisa do Flamengo. É, faltava, e a falta se fazia maior quando chegou ao asfalto, entrou no ônibus e, da janela, ficou vendo seus futuros companheiros de torcida, mais abastados, vergando o Manto Sagrado e seguindo na mesma direção. Aí, até que ele entendia: a maior torcida do Brasil tem representantes em todas as classes sociais. Até ele - pobre, negro, sem emprego, mas orgulhoso da honestidade e dos valores que pregava em casa para a prole que não parava de crescer, diabos! Sua alegria, fora a família, era ver o Flamengo jogar. Era ver o Flamengo vencer. Era ter, um dia, uma camisa dez rubro-negra, para sair por aí e dizer ao mundo que naquele homem morava uma paixão em preto e vermelho. No trajeto para o estádio, viu o que lhe parecia uma vertigem nas duas cores amadas: torcedores devidamente uniformizados com a camisa sonhada pareciam brotar de todos os lugares, carregando bandeiras e um orgulho de fazer parte de uma nação maior que o próprio país. Os carros passavam lotados: todos vestiam o Manto. Era tal festival flamenguista pela cidade, que parecia que não ia haver jogo – apenas o Flamengo entrando em campo e saudando os torcedores emocionados a gritar: Flamengo, eu te amo! Preto e vermelho, preto e vermelho, preto e vermelho: o mundo era assim, rubro-negro, de corpo e alma. Então, sentiu, com certa amargura, que, apesar de amar o clube até morrer, talvez não fizesse mesmo parte daquela torcida que, devidamente encamisada, parecia enfrentar o mundo sem medo de nada, pois nada lhe faria mal desde que estivesse dentro daquele círculo magnético, em forma de manto, que pulsava em preto e vermelho. Este momento de tristeza e frustração foi interrompido com um tumulto dentro do ônibus – alguém que não gostava da vida, não gostava de mulher, não gostava nem de futebol, sacou uma arma e anunciou um assalto e que lhe dessem já o que tinham de valor. O que faria ele, se não tinha nem o que considerava seu bem mais precioso – uma camisa listrada em preto e vermelho, para lhe salvar a vida? Sentiu o cano frio do revolver a lhe cutucar a nuca suada. Como não tinha nada? Não adiantou balbuciar algumas desculpas – o assaltante disparou quatro tiros no seu peito descamisado, o mesmo peito que abrigava o maior amor do mundo, de onde, com ele caído no chão do 763, jorravam filetes de sangue que, em misterioso paralelismo pulsante, se harmonizavam com sua pele negra.
Finalmente, o manto sagrado lhe cobria o corpo.     


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O CÉU DE AGOSTO

Me desculpem começar assim, logo com um pronome oblíquo abrindo as alas do desrespeito à norma culta da última flor, ir logo metendo os pés pelas mãos, sem desviar do paralelepípedo semântico que me inchou o dedão, logo depois de chutar, sem mais, sem menos, uma resposta certa neste Enem existencial, quando se vê, sem o filtro do distanciamento, se os meninos viraram mesmo homens. Preferi buscar palavras no bornal que escondo debaixo da cama e ao qual recorro sempre que quero um termo mais exato, uma palavrinha mais ensaborrilhada, dessas que encaixam perfeito, como o clique das mãos dos namorados, diante dos perigos do mundo. O fato é que não adiantou o domingo estar completamente azul, se havia nele uma ausência que era maior que todos os azuis tristes que conotam o “blue” em língua inglesa, maior que todos os poemas de saudade, maior que a maior das medidas. Preferi passar por morto, que era mais ou menos próximo do que eu era mesmo então. Vítima de uma queda de pressão súbita e incontornável, achei melhor deitar-me nas esperanças que me serviam de maca naquele momento. Esperei que uma ambulância vermelha dos bombeiros viesse me recolher, o recém quase defunto, para longe daqueles olhos perfeitos, para algum lugar aonde não chegassem cartas ou e-mails, uma sala ampla e clara. No local, perpassar-me-iam tubos translúcidos, em meio ao bip nervoso de alguma máquina que desse suporte à vida que ainda me restava, líquida, na tubulação venosa. Achei que estava num daqueles espaços intermediários que algumas religiões decantam: a porta entreaberta entre a vida e a não-vida, esta sim pior que a morte propriamente dita, que deve ser uma ausência de tudo, creio. O processo já se iniciava, e ainda pude ver, de relance, alguns rostos conhecidos me olhando com preocupação no corredor do que me parecia um enorme hospital: Rachel, Ross, Will, Morgan, Clint... de onde estava, pude perceber que uma enfermeira colocava meus pertences numa espécie de bolsa plástica e, entre eles, vislumbrei meu celular, tão mudo, tão sem função... para quem ligaria? Para ela - uma fotografia na parede da memória que, como naquele poema de Drummond, dói. Era ela, rindo e dizendo “até parece...”, depois de qualquer bobagem romântica de minha parte, e que são muitas. Era ela, entre tic-tacs e um celular com barulho d’água, entre letras e bytes, livros e Elvis. A meu favor, havia a surpresa de minha quase morte súbita, cuja notícia, entreouvida, não raro, num lugar inesperado, fatiariam o coração da referida em alguns mil pedaços que boiariam no molho quente da incredulidade e do susto. Porém, se assim fosse, eu nem saberia sequer se ela sentiria a minha falta, se o órgão propulsor de seus sentimentos bateria um tambor movido à mais poderosa Duracell, ou seria apenas um som fraco, abafado, quase inexistente, como uma tosse no meio da noite. Esta dúvida era pior do que a sensação de ausência de vida, eu lhes garanto. Tudo ia mal, muito mal, quando, de inopino, ela me surge dobrando a esquina da memória e mudando o rumo das nuvens. Eu não tinha mais como dar a volta. Eu avançava pela calçada no passo acelerado de quem segue movido por “Every breath you take”. Ela ajeitava os óculos. Eu sentia o vermelho do sangue se evaporar de minhas veias. Ela era uma festa de brincos e sarais retrôs. Eu ia me dissolvendo como um homem de areia, de joelhos, num ciclone. Ela parecia flutuar, como uma fada faria. Logo, eu estava a quatro passos de entrar numa cena de felicidade em que já estivera por longo tempo. Passei a provocar o coração para que ele decidisse rápido – faltavam apenas dois passos, e ela já se cansara de procurar o celular na bolsa, e eu temia que o mundo acabasse se ela me olhasse nos olhos e não me reconhecesse, se eu sorrisse e recebesse de volta apenas aquele olhar que damos quando vemos um bêbado caído na sarjeta, um olhar de que gostaria-de-fazer-alguma-coisa-mas-não-posso; e então ouvi a voz de um anjo bom me dizendo no ouvido para que acreditasse no amor, pois a distância tem dessas coisas. A imaginação funciona numa direção, mas a realidade pode ser muito diferente, até oposta. Por isso, quase sempre optamos pelo drama. O copo d’água ganha, então, sua tempestade. Tornamo-nos romeus aos pés de julietas, lindas e perfeitas, mas distantes, altas e inatingíveis como torres. Todos os sucos de pêssego do mundo seriam insuficientes para edulcorar o enredo. No entanto, o anjo insistia, deve haver, bem lá dentro da alma, alguma coisa essencial que não pode se perder e que só tem sentido com aquele outro que agora não está..., mas deveria.

IMPERDÍVEL


Ele vinha se preparando há meses. Além de reservar algum dinheiro extra, acompanhou todas as resenhas do Prosa & Verso e as entrevistas do Edney Silvestre na GloboNews, só para ficar por dentro dos lançamentos, dos novos autores. Achou bacana a participação de walter hugo mãe na Flip deste ano, repleta de referências sobre as mulheres brasileiras. Releu António Lobo Antunes e se convenceu de que pouquíssimos autores possuem metáforas tão incisivas. Continuou com os portugueses e aplicou mais Saramago na veia – afinal, tinha que estar preparado para qualquer impacto que porventura lhe atingisse durante uma leitura qualquer, em pleno universo literário da Bienal. Contudo, por que não voltar aos trechos marcados de amarelo nos livros do Rubem? Ainda havia muito que aprender sobre o lirismo da vida, sobre a consciência das pequenas delicadezas que nos atingem todos os dias, e que nem sempre percebemos, por tolos que somos e cegos que teimamos ser. Queria saber mais sobre os meandros da engenharia literária e leu, de cabo a rabo, “Como Funciona a Ficção”, de James Wood, e anotou algumas dicas, já que ousava algum conto, aqui e ali. E, claro, queria discutir com ela, a mulher de unhas vermelhas, a tese da possível influência da linguagem cinematográfica nos processos criativos literários, na construção dos personagens, enredo e estrutura de seus romances. Queria porque queria entender como isso funciona e qual seria a opinião que ela, a mulher a quem convidaria de surpresa para ir à Bienal, teria a respeito. Até porque imaginava sentar-se com ela num daqueles cafés literários do Riocentro, a mesa com uma pilha de livros recém comprados, apostando quem leria primeiro qual livro, e ela rindo e falando dos seus autores preferidos, das palavras de que mais gostava. E cruzariam informações sobre filmes que já tinham visto, até surgirem discussões acaloradas, mas afetuosas, sobre quem seria o melhor diretor de todos os tempos. E, daí, voltariam as conversas a respeito do melhor livro de Clarice, o poema mais pornográfico de Drummond, sem que deixássemos de detonar todos os livros de Paulo Coelho e as outras mediocridades do gênero. E seria uma felicidade, imagine. Um mundo perfeito feito de livros e filmes, uma bela mulher inteligente e culta, uma conversa com letras, sem números e equações, mas na qual só se somaria e multiplicaria. De longe, contemplaríamos os corredores da Bienal, sentindo no fundo a satisfação de ver tantos jovens interessados em ler alguma coisa, em descobrir uma novidade, em chegar perto de um autor querido, desses que, se pudéssemos, levaríamos para casa, junto com seus livros. E seria indizivelmente bom ter a sensação vívida da qual Quintana falava: tão importante quanto ler livros é viver entre eles. E lá estariam – estantes e mais estantes com lombadas coloridas, aquele cheiro indefinível de conhecimento e lirismo. Ela, a mulher com quem tomaria café, estaria ansiosa para continuar a peregrinação pelas alas das editoras e, com seu olho sábio, descobriria, onde menos se espera, graais de pura poesia. Os ingressos já lhe queimavam no bolso, antecipando a surpresa. Antevia-lhe o sorriso, o regozijo, o espanto diante da realização de um sonho supostamente comum e há muito aguardado. Passariam o dia entre os pavilhões do Riocentro. Comprar-lhe-ia uma antologia, um suspense do Garcia-Roza, um “nugget” literário qualquer garimpado num saldão da Companhia das Letras. Assistiram a palestras do Scott Turow, saboreando chocolate com Perrier. Faltava ainda uma semana, mas ele não se conteve e a procurou com as entradas para aquele universo de letras e derramamento líricos que a Bienal prometia. Subiu as escadas do prédio, tocou a companhia. Ela abriu a porta.
            _ Meu amor, tenho uma surpresa para você..., disse docemente, sem perder um segundo daquele precioso tempo de amor às letras.
            Sem parecer ouvi-lo, ela retrucou quase de imediato, num grito meio selvagem: “Eu também, querido! Venha, que quero lhe mostrar”. Puxando-o pela mão, levou-o à mesa da sala, sobre a qual repousavam, vermelhos, dois ingressos para o UFC Rio, para os quais ela apontou com um gesto largo: “Olha, a gente vai poder ver a luta do Anderson Silva e talvez até consigamos um autógrafo do Minotouro, já pensou? Dizem que a arena fica cheia de sangue ao final dos combates!!!! Imperdível, não?”

ELE, ELA E O CAMINHO DAS LETRAS SOBRE O CORPO

Sim, ele falou e escreveu, e ela falou e escreveu melhor ainda, dando de 10 a 0 nele, deixando-o vendo estrelas, então e agora, botando-o no lugar dele, deixando-o zonzo, como depois de um cruzado de Tyson; em xeque-mate de Karpov; dando uma cortada da linha de três metros que só Giba consegue; ultrapassando na primeira curva ao estilo de Senna, driblando o goleiro igual a Zico, sem humildade em gol, como Fio Maravilha, com a precisão de uma tacada de Tiger Woods. Mas eu já esperava por isso, desde que a vi pela primeira vez, e aquela cena ficou colada na cortiça do meu cerebelo, uma linda mulher que entrou pela menina dos meus olhos e que cisma em não sair, um cisco de luz que chega à minha orelha fria e carente de segredos e confissões amoráveis. Sei lá se é um bilhete para Pasárgada, Strawberry Fields Forever, a Ilha Misteriosa, Além do Horizonte, a Tonga da Mironga do Kabuletê, ou qualquer desses paraísos fiscais da felicidade que os poetas de tempos em tempos sugerem. Que ela venha toda de branco, toda molhada e despenteada, como bem disse Ben Jor, e disse-o bem, e sopre seus lirismos para dentro de meus pulmões cansados, desparagone a página certinha quando algum tsunami literário vier bater em sua janela, sofistique o vocabulário e me obrigue a suar a camisa para escrever alguma coisa que preste, alguma coisa que esteja à sua altura sentimental e que seja capaz de mudar o rumo das nuvens, além de trazê-la para mais perto. Alguma coisa que fale também em beijinhos trôpegos, em doces vampiros, em chás que não acontecem, em articulações braquiais com a cintura escapular, em pontos de diversa natureza, sejam eles de interrogação, exclamação, finais; do ponto a até o b, incluindo o g (ai...). E que a isso se aduzisse algo como toalhas molhadas, sanduíches de presunto com queijo, poemas vinicianos, sapatos lilases com a ilusão de salto, unhas brancas and forgotten glasses, numa viagem em que há de se juntar lábios para beijinhos sem ter fim, trôpegos ou não, selvagens ou não, mas permanentemente molhados de desejo e suor. Eu, genuflexo, boquiaberto sem chances de me boquifechar diante desta capacidade de reinventar cheiros, toques e as tão íntimas palavras que dizem tudo, essas que andam sem calcinha pelos corredores da alma, e que deixam claro o que sente o mergulhador imerso em mar e na bela mulher, em cujos ouvidos o velvet da língua inglesa se intromete molhado, nervoso, elétrico. E a língua que se transforma em palavras que se transformam em cartas escritas sobre o corpo amoroso, usado como apoio definitivo; cartas que se escrevem na cama sobre o corpo amado, com a ambígua pena que fere de amor a superfície da pele/papel do corpo que se ama, deixando nele o gozo da escrita amoravelmente literária. Se somente as rádios FM podem transmitir ondas assim, surfo-as, curto-as e emulo um tal poeta que também versejou sobre os mesmos braços líquidos que me cercavam num abraçar completo das águas femininas. Sobe a temperatura. Cai o queixo. Quedo-me em admiração. No papiro da pele desta mulher, o Calígrafo Supremo parece ter rabiscado os primeiros versos que eu gostaria de ter escrito, se não me faltassem engenho e arte para tal nobre tarefa. Na falta de incenso e mirra, balanço em sua honra meu turíbulo de maravilhas semânticas. Sempiterno. Frêmito. Orquídea. Farpela. Bruma. Uma mulher assim está pronta para algo definitivo. Merece as margens do Sena e um pôr do sol em Paris. Merece jazz com sorvete de chocolate. Fellini com Hitchcock. Perrier com trufas. Star Wars com Enterprise. Se ela finalmente se deu conta de caber tantas coincidências numa estante, num instante, como posso discordar? Se fica a marca no seio e no coração, por proximidade, por paixão, abstenho-me de teorias psicanalíticas para explicar o que não pode ser entendido, e apenas aceito o que me acontece como dogma de fé, pois é melhor que coisas aconteçam assim, antes à tarde do que nunca, do que ficar tomando chá de cadeira no grande baile dos desencontros e, sem esperança, desistir da vida. Se esta mulher sentiu um arrepio a lhe percorrer o corpo, se ela sentiu crescer em seu interior sensações de nervoso e desejo, e se ela se sentiu linda, então está tudo certo, como dois e dois são (de) quatro e não se fala mais nisso; então todos os astros se alinham, então todo o universo conspira a seu favor, com a bênção de todos os jargões de autoajuda que ora recebo nestas correntes que devo mandar para vinte pessoas, com a alma completamente aberta e humilde. Se há tantas coisas que acontecem quando menos se espera, pois aro a minha h(a)orta particular com simplicidade e com a sabedoria tirada dos versos de Vinicius de Moraes e dos boleros de Anísio Silva, como ter vivido plenamente antes, sem o que se supõe ter agora? Se a gente pode ler histórias amoráveis no corpo amado e se o mundo continua assombrado, sem saber para onde vão as canetas Bic perdidas, durma-se com mais este mistério: para onde vai esta mulher, depois que esquece, distraída, suas doçuras e sonhos dentro de mim?


quarta-feira, 12 de junho de 2013

CONTO RÁPIDO

Passou pela casa onde ela morava e nem sequer ia olhar para cima, quando sentiu novamente o perfume dos cabelos louros que, um dia, lhe chicotearam o rosto, em câmera lenta, numa cena de uma série da Warner. Ela o fuzilou com o olhar. Estavam, então, parados na mesma porta, e ela girou o pescoço longo, sem perceber que o cabelo, o vento e o ângulo da cabeça dele se alinharam numa configuração nunca vista antes, e as pontas restauradas pelo Advance Techniques da Avon que ela usara de manhã se embrenharam, por segundos, na barba rente do rosto dele. Achou tudo muito estranho, um começo assim, o vento da tarde, a porta entreaberta, a desculpa soprada na orelha fria – “Perdoe-me, nem vi que você estava aí...” – e as coisas não faziam sentido mesmo. Olhou-a de relance, com medo de ser apanhado pelo olhar dela, mas a moça sorria, os olhos claros fixos em algo, além dele, algo fixo do outro lado da alma, ainda que fosse um pôr do sol, mas não ele, ainda que fosse uma cena cotidiana, mas não ele, ainda que fosse um outro mundo, mas não ele... ainda que fosse cega, a moça, mas não ele, cego há tanto tempo ou há tanta distância do coração. Agora, neste relance, era como tivesse despertado para tudo o que ela um dia foi no instante em que se conheceram, o mesmo momento da porta, do vento, do louro cabelo marcando de vermelho o rosto já previamente ruborizado. Haviam caminhado uma longa distância juntos, depois de terem trocado sorrisos e desculpas pela invasão do espaço social, sem perceber que já haviam percorrido quase toda a calçada, os ombros dele e dela roçando-se sem grandes intimidades, as mãos se tocando naquele espaço vago entre as pontas dos dedos e a curvatura óssea que se junta com o ombro onde haveriam de se cravar os dentes, tempos depois. Ficou com medo, pensou em voltar, mas um aviso ecoou em seu corpo: siga, desta vez siga, vá ao encontro dela, e ele foi, os passos decididos, sem medo que seus olhos não fossem se cruzar de novo, como namorados que param de se falar achando que o tempo vai restaurar tudo e, um dia, um morre no outro, morrem os dois, e nada se restaurou. Melhor não ver, melhor evitar tudo isso? E como controlar o grande medo da felicidade, aquele que nos faz colocar tudo a perder, como se não nos víssemos merecedores de tal sentimento? Entre outras razões, sobreviver a um encontro daqueles não era o melhor dos mundos com os quais sonhara depois do Big Bang. Não se sobrevive por inteiro, e a parte de nós que sobra estiola-se num não saber o que fazer do tempo, que não flui, e da própria vida, que estanca. É um não saber o que fazer de si mesmo. Entendia apenas que nada tinha muito sentido mesmo e que, naquela tarde, quando ela disparou, sem querer, um sorriso de porte exclusivo das forças amadas, digo, armadas, era para ele como se alguém finalmente lhe tivesse aberto uma porta e sua vida estivesse toda do lado de lá...


PRETERIÇÃO

Não vou escrever que me sinto triste, pois não quero que você saiba disso, embora este sentimento meio down espreite, com seus olhos pouco felizes, por trás das palavras que pululam, em pixels e sistemas binários, na luminosidade quadrangular da tela em minha frente. Não é isso que vou escrever, porque não quero que se torne público que me sinto tão pequeno diante de meus limites como ser humano. Como ser? Como não ser? Nunca revelarei que a noite me dá medo de perder minhas poucas certezas, minhas esperanças, o meu amor. Negra e fria, ela me engole com sua saliva ácida de abandono. E nada posso fazer, a não ser esconder que, por motivos que aqui não importam, eu de modo algum devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Culpo-me tão violentamente por tantas coisas que fiz e deixei de fazer, que ninguém poderia sequer desconfiar desta minha insegurança, que se divide em muitas outras subcategorias, como a covardia, o desespero, a inabilidade e o terrível medo de ferir tocando. O que eu queria e não posso é, por exemplo, que tudo o que me acontecesse de bom e azul, dentro de mim, eu pudesse dar àquilo e a alguém que eu pertencesse. Mas não falarei, nem adianta insistir. Mesmo que você considere esta confissão pública demais, aberta demais, despudorada demais, continuarei em silêncio, sem dar uma pista. Nada, nem os mais grossos muros, tampouco os vidros blindados, me protege com tanta segurança como este silêncio por escrito. Na verdade, o silêncio não está na escrita que me brota nos poros, mas no ato de debruçar sobre o que não quero dizer. Ou escrever. Ou falar. Ou pensar. Como escapar do medo de não amar ou de não ser amado, bem como o temor seja fútil ou mal compreendido. Este dissentir é um paradoxo que me permito, posto que está frio lá fora e aqui dentro. Não lhe chamo a atenção para a pergunta para a qual não há resposta imediata: quem poderá calcular o calor e a violência de um coração de poeta, quando preso no corpo de uma mulher? E respondo, mentido: não tenho ideia, não sei, não posso... É desnecessário dizer que gostaria de encontrar uma palavra que exprimisse mais que sozinho. Inútil repetir que não acho a definição do que sinto por dentro quando sei que uma quantidade inimaginável de pessoas experimenta a felicidade, num bar, onde só se ouvem risadas e tilintares de copos e garrafas alegres. Longe de mim querer achar-me certo diante do mundo. Apenas sobrevivo. Contudo, nem direi que não se sobrevive por inteiro, e a parte de nós que sobra estiola-se num não saber o que fazer do tempo, que não flui, e da aridez de uma existência que estanca quando os sonhos e fragmentam em pequeníssimas fagulhas de esperança. É um não saber o que fazer de si mesmo, creia, sem me dar muito crédito. Não vou me deter no aspecto da existência do mundo que me fascina – o literário, o lírico, o leve – aliterando-se conforme a vida me acontece sem ensaio, sem preparação, sem avisos de cuidado. Não serei barthesiano ao me dar conta que saber que as coisas que vou escrever não me farão nunca mais amado por aquela que amo, que a Literatura não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente aí onde você não está, isso tudo é o começo, é o destampar o garrafão da escritura e beber até que as artérias se rompam sob a pressão do alto teor vocabular nelas injetado. Por que dizer que quanto mais toco na ferida, mais ela sangra? Em tempo algum lhe direi que são muito mais numerosas as horas em que não sei o caminho, que me perco, que me firo, firo e me refiro pedestremente, como se tomado pela mais baixa frequência de mediocridade, mas tudo com a mais impiedosa consciência dos meus limites humanos. É inconfessável: como gostaria de não ser humano. Ser, apenas, pois a humanidade carreia um sem número de defeitos aos atos do ser, aquele que existe com o outro, para o outro, com uma única e nobre finalidade: amar. Por isso, não falo sequer da minha frustração de existir defeituosamente no mundo, pois no mundo há as pessoas e elas podem se ferir em função do mau andamento de minha existência sartriana que tanto me assusta e fascina. Custa-me informar a todos que possam estar interessados que os argumentos da razão são infelizes e insuficientes quando se trata de captar a lógica do itinerário do coração, e ainda mais insatisfatórios quando tentam alterar seu curso. Por isso, e mais que a poesia não ousa, não te direi que meu tesouro és tu, eternamente tu, e que não há passos divergentes para quem quer, enfim, se encontrar...


ATÉ PARECE...

Até parece. Ela deve estar chegando na sua vida. É a mulher do terceiro milênio. Tem “approach”, sustança e uma capilaridade que vou te contar. Gosta das palavras da moda e tem borogodó suficiente para usar as antigas, engomadas, passadas a ferro, nos trinques. Ela não sabe o que é virar uma laje sob o sol de fevereiro nem apertar um parafuso em casa, mas tem conteúdo para explicar direitinho a referência pavloviana num dos primeiros TAHM e a diferença entre “ficar a distância” e “ficar à distância de”, sem pestanejar a suave sobrancelha feita outro dia mesmo, num salão perto de onde o Rei Arthur deixou a Excalibur para ser amolada entre picanhas e asas de galinha. Não liga para modas inventadas por suas amigas e prefere o suave ronronar das felinas que lhe apalpam a cama para um momento meg-especial, tetê-à-tête, só as três. As gatas se entendem, bicho. Estou com ela e não fecho. Portanto, relaxe essa tensão semântica no céu da boca e vitupere gostoso o prazer do quase impronunciável. É assim que ela ri e diz “até parece...”, sorrindo a frase “cool”, desenhada com gosto, cheia de decotes, como um espasmo dos sentidos neste momento de ausência profunda, como a se desculpar por ter dito a coisa certa, no instante certo, diante do menino que a olhava, sem se acostumar com sua beleza, sem que ninguém tivesse dado a ele qualquer pista de que, naquele momento, o destino estava se manifestando na tepidez daqueles nacos de carne bronzeada.  Ela tem, na ponta da língua rubra, os versos que Affonso Romano de Santanna uma vez dedicou ao mar e naquele instante embutiu o nome amado no verso, quando falado em voz alta: o amor às vezes coincide com o namoro, às vezes não; o amor às vezes coincide com a paixão, às vezes não; o amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não; e o amor às vezes coincide com o amor e, às vezes, não... Sendo assim, ela sabe que o lócus da felicidade é individual e que o discurso amoroso supostamente adulto, com suas tentativas de criar dependência emocional e afetiva, é uma metáfora da realidade dos primeiros anos da vida da pessoa, e que não leva a nada, posto que é inútil. Cita Vinicius e Cecília quando analisa sua condição de cultora das palavras e de seus significados, mesmo sabendo-as insuficientes em alguns momentos-chave da vida, como quando o impalpável nos preenche, como se as lacunas nada mais fossem do que as dobras de um traje que já não serve mais. Com a frase-grife da sua percepção do mundo – até parece ! -, faz todos os lugares se parecerem com a Macondo de Márquez, ou a Penny Lane de Paul, e os indivíduos que estão em seu campo magnético passam por um pon farr inesperado, ao mesmo tempo corpóreo e etéreo, livre das distrações biológicas que afligem as formas de vida baseadas em carbono, como disse Sheldon. Até as pedras das ruas sabem que ela possui um universo que se expande com a intensidade de mil sóis e que quando eu a vi, pela primeira vez, havia clarões na minha íris, como se fosse mais um dos anéis de Saturno. E que o amor nunca foi fácil. Nunca foi linear. A não ser quando não era amor. Até parece que eu posso, assim com este ajuntamento de palavras, com esse repuxo de lembranças que cintilam na noite fria, com essa audácia que só a poesia é capaz de sustentar, tentar caminhar sobre minhas próprias pegadas – de preferência, aquelas que ainda cheiram a sangue queimado, sobre a brasa incandescente, aquelas que, pelas sensações radicais, de ódio ou de amor, fazem a gente se lembrar de quase tudo e perguntar franzindo a testa, como Leonard Hofstadter: quando foi a primeira vez que você tocou meu coração? Até parece que serei capaz de escrever, descrever, descrer e ver tudo que se me acontece na aorta pulsante do músculo literário, de onde vaza um filete de sangue que não consigo estancar. Até parece que tenho este direito. Até parece que ela vai ouvir, mas a ilusão que me perpassa os canos hidráulicos hematopoéticos internos funciona como uma descarga de anestesia como a que me paralisou o braço direito na última segunda feira e que, depois de liberada pelo garrote que me comprimia a veias do ombro, fez um tour feliz pelo sistema circulatório do meu corpo, deixando tudo por dentro calmo, sereno, como se ali não mais pudesse haver qualquer vestígio de dor. Recomendo. Vale o risco, pois a sensação só é comparável a sentir nas pernas o suave deslizar daqueles dedos do pé, sob lençóis, uma coisa! A moça em questão, se um dia souber que ousei escrever isso, sorrirá, apertando levemente os olhos, e dirá com um jeito mais simples que um átomo de hidrogênio: “Até parece...”


O FIM DO MUNDO

Eu já estive em outros fins de mundo, mas não como esse que se prenunciou no Natal de 2011. Já estive esperando que uma grande bola de fogo rasgasse o céu do hemisfério sul ao norte, e que tudo se acabasse numa bela, mas paradoxal, luminosidade branca que marcasse nosso último instante sobre a Terra. Sim, eu já havia comprado o ingresso para o show do fim do mundo, no qual o Senhor dos Raios, responsável em pôr termo a esta minha angústia pedestre, essa minha perplexidade diante do mundo em que todos são felizes – ou seja, eu já estava preparado, escolado, por dentro, entendido. Mas foi pior. Eu não esperava. Foi assim quando o cometa de Haley deu as caras por aqui. Eu estava lá. Também senti medo, no entanto, nada. Bola fora. O mundo, tal qual o conhecemos, ainda não estava para acabar para mim. Ou seja, sou bom de apocalipse. Não sinto mais susto, porém ainda sinto a dor dos quase sobreviventes. O Fim, assim mesmo com letra maiúscula, ou “The End”, para ficar mais cinematográfico, hollywoodyano, sempre foi meu camarada, meu companheiro de copo, aquele que me dava os toques. Anunciava-se o evento como se fosse um show do Sting. Astrólogos garantiam a aterrissagem de uma esquadrilha de discos voadores. O mundo ia se acabar numa feérica festa de luzes e retrofoguetes zunindo entre montanhas e nuvens. Mas agora foi muito pior. Anos atrás, ainda se pensava que o mundo ia acabar tão rápido que não daria tempo sequer de digitar 140 toques nos derradeiros Twitters que ainda restariam com sinal. Eu nem podia imaginar que seria como agora e pude sentir-me como que já viu um tsunami pela frente, como naquele filme de Clint. Houve época em que eu nem mesmo me importava muito, pois as perdas não seriam tantas. Mas agora é diferente e, repito, pior, muito pior. Num outro tempo, crédulo com a possibilidade de que daquela vez acabava mesmo, descompromissar-me-ia com a necessidade da prosa elegante e das mesóclises inesperadas, e me deixaria levar pelas leviandades da vida – pois a morte era inevitável, e eu não estaria sozinho no Nada que nos engoliria a seco – e beberia, fumaria e me injetaria com as mais formidáveis misturas patogênicas que se poderiam encontrar. Em seguida, dormiria tranquilo, pois não perderia nada essencial, nada que já tivesse desgastado sua importância e se perdido no tempo, como lágrimas na chuva. Mas, agora, tudo é tão diferente, e o fim do mundo, do meu mundo, parece finalmente estar acontecendo, lento como um fim de fogueira, dolorosamente devastando o que eu achava que não teria fim, através de centopeias incandescentes, todas malignamente incandescentes, que surgiram das frestas dos terremotos que este fim tão pessoal e intransferível provocaria ao meu redor. Resisto a acreditar que o mundo acabou, ou está acabando. Já sinto a eletricidade dos raios cruzando a camada de ozônio e começando a flambar os miolos ainda pensantes, os corações ainda pulsantes, como a máquina mortífera mais eficiente que já existiu desde que Mel Gibson resolveu exterminar todos os criminosos de Los Angeles, e a estranha energia liberada pelo cataclismo que pulverizará montanhas e cidades, anunciando o paradoxo da beleza mortal da explosão de todas as bombas atômicas, para, no fim aumentar milhões de vezes o meu amor por você, mas já será tarde.     

segunda-feira, 10 de junho de 2013

MINHAS AMIGAS - 10

Eu tenho uma amiga que anda meio encafifada com um novo colega de trabalho que chegou meio quieto, meio misterioso, mas de cujos movimentos ela ainda não conseguiu tirar os olhos negros, também enigmáticos, segundo observação meio sarcástica de um ex-namorado que ela prefere relegar ao olvido. Ela passou a cercá-lo com uma indiferença disfarçada: alto, magro, sem aliança e com uma indumentária que variava entre o esporte casual e um estilo mais contido, com cores neutras e nada mais que posasse de acessório, a não ser o relumbramento prateado de uma caneta tinteiro que lhe habitava a gola da camiseta ou o bolso da camisa jeans. Ela logo achou que não era nada e, mais que isso, era mesmo loucura dela, esse súbito e incômodo interesse por aquele homem que ela mal conhecia. Afinal, estava noiva, comprometida até o último fio de cabelo, como lhe disse, entre crítica e invejosa, uma conhecida com quem fazia as unhas. No entanto, ao ir para o trabalho, percebeu que a escolha das roupas, o perfume, o penteado e o sapato lhe eram inspirados pela antecipação do encontro silencioso com o homem misterioso. Isto a deixou inquieta e com aquela dúvida da qual se esgueirava com habilidade olímpica, a partir do momento que a relação começou a ficar mais séria. Por uns dias, ficou sem saber o que fazer. E se aquele homem sem nome e sem história fosse um jeito de cair em si, de se tocar que sua vida não estava tão segura assim, de descobrir que tanto compromisso a estava sufocando, sem que ela se desse conta disso? Minha amiga tratou logo de se desvencilhar deste espinho, procurando não mais tentar decifrar aqueles sinais e se esforçando para se convencer de que tudo aquilo que achava que estava sentindo – ou dessentindo – era mesmo efêmero como uma escultura de gelo que, gota a gota, como se pranteasse a si mesmo, deixando uma poça de água no chão. E, assim, foi levando, injetando com a seringa da razão doses cada vez maior de desimportância ao homem misterioso do trabalho e aos pensamentos que ele invocava. Dedicou-se a este esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas também dar sentido ao vácuo absoluto. Um dia, ela já ia saindo, quando ele, o homem que tinha começado toda aquela revolução interior que ela experimentava, lhe perguntou: “Quer uma carona?”. Minha amiga fez a cara típica de quem está falando com a pessoa errada, disse um não quase inaudível, virou as costas e foi embora pegar o ônibus.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O AMOR NOS TEMPOS DA LITERATURA

Eu ia fingir que não vi ela e colocar a culpa no cacófato, tropeçar no paralelepídedo da última flor do Lácio que me obliterou a visão e me esborrachar nas ruas das pedras tão antigas, que conheceram Camões ainda com o olho direito funcionando. (Pronto, já dei a entender que gosto da língua portuguesa, sou-lhe amante e lhe pago o aluguel para morar nestas mal traçadas, mal digitadas, em causa própria, pro meu bem. Ficou claro? Fiz-me entender? Pode ser que sim, pode ser que não. Não importa – ando a esmo, movido apenas pela busca desesperada do ponto final, fazer o quê?) Mas, ia dizendo mesmo que estava me declarando estendido no chão, passado por morto, vítima de uma queda de cabeça lastimável, imóvel, respiração suspensa, esperando em decúbito dorsal que a ambulância conduzisse o defunto, eu, para longe dos olhos do mundo, para algum lugar ignorado, onde eu poderia voltar a respirar e ter, de novo, a posse provisória de minhas faculdades mentais, na qual não sou o melhor aluno - e nem - o pior. No fundo, lá embaixo, eu sentia mesmo era um baita orgulho de ter recuado na caminhada em rumo à minha nata vocação para o precipício e e de ter posto as engrenagens psíquicas em constante movimento, para, enfim, constatar que a Literatura é justamente uma fratura na precariedade do mundo, um talho que faz sangrar o sol negro que se deseja esconder. Pois é mesmo a Literatura, com suas formas femininas, seu cálido hálito, os cabelos perfumados, os pés perfeitos, que estende a mão delicada, como naquele poema do cummings, e me recolhe do olvido de uma viagem rumo ao nada. Sua imagem me vem à mente como se fosse colocada no Google da alma e me fosse devolvida na forma de milhões de ocorrências. Aproveito-as. Degusto-as. Chupo-as, rodando a língua. E elas me vêm, escorridas, lubrificadas, úmidas, a escandir a temida palavra trissílaba que é, ao mesmo tempo, aconchego e lancinante sofrimento. Aquela forma feminina da Literatura não teve lá como evitar uma abalo sísmico perto de 9.7 na escala Richter, deslocar algumas placas tectônicas, pelo jeito que soletrou a palavra, quase o estalar de três sílabas, quase três gotas de colírio de sangue, para eu abrir os olhos e não mais ver os pousos e decolagens no aeroporto do amparo que, quando a vida está nublada, parece que nunca mais vai abrir às aeronaves que poderiam me levar ao exílio numa ilha no meio do Pacífico e jamais escrever períodos tão longos assim. Há quem tome drágeas bicolores. Há quem tatue a felicidade no ombro macio. Há quem tome energéticos com Coca-Cola e entoem mantras em “fogs” de incenso aloe vera. Pensei em tentar o álcool ou as agulhas de saltos pretos de sandálias idem. Considerei uma religião exótica ao estilo zen-budista, como a Letã-Ortodoxa de George, pois estava convencido de que tudo é mesmo uma questão de templo. Mas foi mesmo a Literatura que despachou os papeis no guichê daquela repartição cheirando a mofo e “estartou” o trâmite legal, visando a adoção, por alguma instituição de filantrópica, de um cérebro em permanente litígio com o raciocínio lógico. Como numa história de suspense, a suposta morte daquele substantivo próprio deixava pistas confusas, pois na era digital, ela – a morte - é proibida e não há o silêncio que elabora a perda  – há a presença constante que espreita nos cantos da casa, nos ruídos e nos fantasmas prestativos que obedecem ao clique curioso e voyerista de um comando, em qualquer Galaxy. A Literatura-mulher se deixa puxar com alegria pelos cabelos só para me contar, rindo, que, para tanto, é preciso conviver, feliz, com a ausência, qualquer ausência, em todas as suas formas. Fica na ponta dos pés delicados, para ver além da vida, das muralhas que tentam manter longe o amor. É preciso paciência no trato lento do pensamento, meu chapa. É preciso não temer as turbulências dos afetos, doutor. A Literatura em forma de mulher ensina, com autonomia, que o lirismo da vida nos permite encontrar a liberdade, a independência e conviver bem com a sensação de incerteza. E que viver assim é fazê-lo teimosamente, poeticamente, literariamente, pois não podemos ser indiferentes às imposições do mundo material, barbárico e prosaico. Contudo, vamos ser francos, o que a Literatura-mulher sinaliza, feminina e sutilmente, é que, sem a experiência imaterial – sem poesia e um profundo respeito pelos sentimentos – não existe mesmo vida que mereça este nome.

QUANDO NÓS DANÇAMOS...

(Um conto escrito enquanto um certo show rolava na TV e misturava os tempos verbais...)
Foi Gordon quem lhe pediu para que desse o recado ao pé da orelha fria, de onde, claro, pende um brinco essencial, pois sabe que esta mesma orelha perfeita há de dar contornos delicados a mais dolorosa das notícias, mas ele falou mesmo que, se alguém a amou como ele te ama, ele se afastaria envergonhado e mudaria de cidade, mudaria até de nome, pois quando dançavam, por algum belo e misterioso motivo, os anjos fugiam e escondiam suas asas, e embora um inesperado padre que tem falado que a salvação de sua alma está no equilíbrio dos anjos e abaixo da roda da paixão, ele conserva sua fé do seu modo, você sabe, quando dançavam, os anjos desapareceram e esconderam suas asas, só para ficar bem claro que ele ainda te ama e que encontrará um lugar para viver e lhe dar tudo o que tem, que é um punhado de palavras e um outro tanto de sonhos, desde que ele pudesse derrubar estas paredes e gritar seu nome às portas do céu, ele usaria estas mãos e destruiria a sombria máquina do destino, derrubaria catedrais, não mais céus acima e, abaixo, e acabaria com o fogo do inferno, e você o ouviria dizer que ainda te ama, então venha viver com ele e os filhos, posto que ele a amará mais que a vida, se você vier e ser sua mulher, e a amará noite e dia, e vai tentar de todo jeito, porque ele teve um sonho em que você estava do seu lado, caminhando com ele e seu coração estava cheio de orgulho, porque para ele tudo o que você faz é mágica e excita, e embora sua vida tenha sido trágica, a cada vez que você respirar, a cada movimento que você fizer, cada laço que romper, a cada passo que der e a cada vez que você mudar a lógica de seus sonhos, o seu amor continua...


 

O CÉU SOBRE BERLIN

(Um conto para quem gosta de livros e filmes...)
Ele sai do cinema com a sensação de que o chão fugia aos seus pés. Tinha acabado de assistir, mais uma vez, a “Asas do Desejo”, de Wim Wenders. O sol frio da memória ilumina as ruas da cidade, então vazias e silenciosas, como se tivessem sido varridas por uma bomba de nêutrons. Ao fundo da mente, ao mesmo tempo confusa e aliviada, Elton canta a sua canção, enquanto quadros do filme se diluem em cenas como na qual um anjo apaixonado, Damiel, arrasta uma asa por uma trapezista de circo, Marion, e paga um preço alto por este amor: a mortalidade. Seus colegas anjos são visíveis apenas por crianças e, vestindo longos sobretudos pretos, voam por uma Berlim Ocidental em preto e branco, seguindo seus habitantes e ouvindo-lhes os pensamentos. Quando estes se tornam muito sombrios, os anjos intervêm, e um toque providencial de suas mãos muda o rumo do monólogo interior. É exatamente assim que Damiel é capturado pelo coração de Marion. Ele a escuta refletir: “Dizem que o tempo cura, mas e se o tempo for a doença?”. Um pensamento assim, tão doído, é mesmo de arrepiar as penas, e Damiel começa a sentir que só pode mesmo amar aquela mulher. Enquanto decide seu destino de mortal, uma cena corta para o interior de um vagão de metrô, onde vários pensamentos são entreouvidos. Um último passageiro pensa em desistir. Os pais o abandonaram, o amigo mudou-se de Berlim, a mulher o deixou e os filhos fazem chacota de sua gagueira. Damiel toca o ombro do pobre homem, e ele subitamente pensa: “Posso sair desta situação, só depende de mim”. A cena é linda e não sai do seu perímetro de consciência, enquanto passa pelas pessoas na rua, todas incapazes de saber como ele se sente naquele momento. As sequências do filme se misturam à realidade monocromática da cidade tão cinza quanto a Berlim de Wenders. O sinal abre. Súbito, pessoas atravessam a rua e uma delas, uma mulher, passa por ele falando ao celular. Emparelham o tempo suficiente para ouvi-la dizer “...eu já te implorei...” Ele estanca, como um sangue que, vermelhamente, parasse de pulsar. Que tipo de conversa pediria uma súplica deste nível? Que situação levaria alguém a este pedido tão sofrido? Como alguém havia deixado de lhe dar atenção? Ou seria apenas um recurso retórico, um modo de dar seriedade a um pedido desimportante? O sinal fecha, e ele para do outro lado da rua, observando a moça ao celular em forma de lágrima, lamentando não ser um anjo que a acalmasse e lhe dissesse, na orelha disponível, que há uma grande probabilidade de a vida ser assim mesmo, uma grande e contínua solidão, e que o temor que sentimos de perder o afeto das pessoas se atuará muito quando formos realmente capazes de ficar sós. E se houvesse sinal e bateria suficientes, ainda lhe faria sentir que a dor aguda que ela está sentindo agora vai se atenuar com o passar do tempo e que é possível dizer adeus para uma pessoa com quem se imaginou ficar junto a vida inteira. Assim, dialogamos com a mortalidade.

Entre as pessoas da rua da cidade cinza, ela nem percebeu direito quando letras de mel, assopradas sem desassombro por um vento súbito, afagaram-lhe os cabelos.

 

ACEITAÇÃO

Na difícil procura do amor, a gente se machuca, chora, chama pela mãe, bate o telefone, procura o melhor amigo e depois briga com ele porque ele não entendeu nada, faz terapia, escreve o dia na agenda e depois rabisca, liga a televisão e não vê, deixa de estudar para a prova, conta piada para fingir que está tudo bem, chora por qualquer coisa, se desespera, espera o telefone tocar e quando ele toca não atende ou demora para atender, toma coca com vodka, relê cartas antigas e as queima, escreve novas, compra roupa nova, inventa um passatempo sem graça – porque a vida está sem graça – come cebola com beterraba e acha ótimo, rói as unhas, implica com o irmão mais novo, corta o cabelo e se arrepende depois, arruma o armário, dá vexame no restaurante, perde o sonho, desaprende a sonhar, vende o almoço para comprar a janta, não tá nem aí, tá aí para tudo, pega chuva, toma sorvete, fica gripado, tira poeira da capa do Batman, marca e não vai, acha tudo errado, faz fofoca, ri na cara, briga com a tia, bate a porta, chuta os livros, ouve James Taylor o dia inteiro, tenta fazer arroz e queima (e come assim mesmo), gasta dinheiro, recorta jornal, fala em código, manda um torpedo inesperado, recebe uma resposta mais inesperada ainda, escreve um texto imenso e então deleta tudo, usa óculos escuros mesmo dentro do elevador, sente raiva de lembrar de tanta coisa, fica na dúvida sobre a dosimetria da saudade, revê pela enésima vez Um Lugar Chamado Notting Hill, vibra com a reeleição de Obama, toma água com bolinha, perde as esperanças e, depois, enfim, as redescobre num canto inesperado do coração, subitamente vago por algum aluguel vencido, e entende que o sofrimento só existe porque não queremos aceitar os fatos...

A LÁGRIMA


... foi por um momento apenas, mas parecia durar a eternidade e eu quis mesmo que a vida fosse assim: você do meu lado a me mostrar doçuras, e eu sentindo, respirando seu corpo perto, dentro, do meu, e o fato é que hoje houve um inevitável aumento nas chances de viver, pois as estrelas estão vivas, luzindo, e os animais mais mansos, e tudo isso me emociona de maneira tão profunda, e o contato do seu braço, a maciez provável do seu colo e esse momento de sonho que ainda me provoca o corpo e a alma e perdura na lembrança, e houve apenas a aproximação dos desejos a cada fotografia do seu olhar, e essa exposição de recordações me deixava cada vez mais perto de você e eu bebia o perfume dos seus cabelos de mel até senti-los tocando meu rosto, e este instante ganhou todo o sentido para fica dentro de mim essa impressão edulcorada, infinita e perfeita de felicidade que se completava a cada instante com a desenvoltura de suas mãos de porcelana a lidar com tic-tacs ali e aqui como fazia com meus sentidos tão excitados com os estímulos mais radiantes que emitias, e já fascinado com a proximidade do sorriso, dos seios nas mãos dos cabelos e todo este extraordinário milagre de coisas suaves e sensíveis e tépidas feitas para serem amadas infinitamente, e então eu me senti como um poeta de antigamente prestes a amar a moça real e mesmerizante dos seus versos, prestes a fazer do seu próprio corpo o descanso para o dela, prestes a tocá-la como quem veio pela primeira vez, e sempre, para amar, e isso tudo porque você estava perto do meu abraço e meu coração mal dava conta dos duzentos litros de sangue que apareciam subitamente, num instante mágico, ao mesmo tempo de descoberta e de perda, e eu me emocionava com sua presença física, como se vivesse a vida de suas células, sua doce vida perante o ar leve como um sussurro de folhas, à janela, ao longe, excitante como as vestes diáfanas de uma cigana, mas ainda assim mais leve como o adejar de uma ave imponderável, um murmúrio perdido na distância e seu corpo era assim tão belo, neste momento, que eu senti um aperto na garganta e os olhos úmidos, e tive vontade de te abraçar forte, como se pudesse, assim, reter o lirismo e a emoção inédita do melhor momento de minha vida...

CONTO RÁPIDO


Passou pela casa onde ela morava e nem sequer ia olhar para cima, quando sentiu novamente o perfume dos cabelos louros que, um dia, lhe chicotearam o rosto, em câmera lenta, numa cena de uma série da Warner. Ela o fuzilou com o olhar. Estavam, então, parados na mesma porta, e ela girou o pescoço longo, sem perceber que o cabelo, o vento e o ângulo da cabeça dele se alinharam numa configuração nunca vista antes, e as pontas restauradas pelo Advance Techniques da Avon que ela usara de manhã se embrenharam, por segundos, na barba rente do rosto dele. Achou tudo muito estranho, um começo assim, o vento da tarde, a porta entreaberta, a desculpa soprada na orelha fria – “Perdoe-me, nem vi que você estava aí...” – e as coisas não faziam sentido mesmo. Olhou-a de relance, com medo de ser apanhado pelo olhar dela, mas a moça sorria, os olhos claros fixos em algo, além dele, algo fixo do outro lado da alma, ainda que fosse um pôr do sol, mas não ele, ainda que fosse uma cena cotidiana, mas não ele, ainda que fosse um outro mundo, mas não ele... ainda que fosse cega, a moça, mas não ele, cego há tanto tempo ou há tanta distância do coração. Agora, neste relance, era como tivesse despertado para tudo o que ela um dia foi no instante em que se conheceram, o mesmo momento da porta, do vento, do louro cabelo marcando de vermelho o rosto já previamente ruborizado. Haviam caminhado uma longa distância juntos, depois de terem trocado sorrisos e desculpas pela invasão do espaço social, sem perceber que já haviam percorrido quase toda a calçada, os ombros dele e dela roçando-se sem grandes intimidades, as mãos se tocando naquele espaço vago entre as pontas dos dedos e a curvatura óssea que se junta com o ombro onde haveriam de se cravar os dentes, tempos depois. Ficou com medo, pensou em voltar, mas um aviso ecoou em seu corpo: siga, desta vez siga, vá ao encontro dela, e ele foi, os passos decididos, sem medo que seus olhos não fossem se cruzar de novo, como namorados que param de se falar achando que o tempo vai restaurar tudo e, um dia, um morre no outro, morrem os dois, e nada se restaurou. Melhor não ver, melhor evitar tudo isso? E como controlar o grande medo da felicidade, aquele que nos faz colocar tudo a perder, como se não nos víssemos merecedores de tal sentimento? Entre outras razões, sobreviver a um encontro daqueles não era o melhor dos mundos com os quais sonhara depois do Big Bang. Não se sobrevive por inteiro, e a parte de nós que sobra estiola-se num não saber o que fazer do tempo, que não flui, e da própria vida, que estanca. É um não saber o que fazer de si mesmo. Entendia apenas que nada tinha muito sentido mesmo e que, naquela tarde, quando ela disparou, sem querer, um sorriso de porte exclusivo das forças amadas, digo, armadas, era para ele como se alguém finalmente lhe tivesse aberto uma porta e sua vida estivesse toda do lado de lá...


domingo, 31 de março de 2013

SIM, ELE FALOU...

Sim, ele falou e escreveu, e ela falou e escreveu melhor ainda, dando de 10 a 0 nele, deixando-o vendo estrelas, então e agora,  o deixando zonzo, como depois de um cruzado de Tyson; em xeque-mate; dando uma cortada da linha de três metros; ultrapassando na primeira curva, driblando o goleiro, sem humildade em gol. Mas eu já esperava por isso, desde que a vi pela primeira vez, e aquela cena ficou colada na cortiça do meu cerebelo, uma linda mulher que entrou pela menina dos meus olhos e que cisma em não sair, um cisco de luz que chega a minha orelha. Sei lá se é um bilhete para Passárgada, Strawberry Fields Forever, ou qualquer desses paraísos fiscais da felicidade que os poetas de tempos em tempos sugerem. Que ela venha toda de branco, toda molhada e despenteada, como disse bem Ben Jor, e sopre seus lirismos para dentro de meus pulmões cansados, desparagone a página certinha quando algum tsunami vier bater em sua janela, sofistique o vocabulário e me obrigue a suar a camisa para escrever alguma coisa que preste, alguma coisa que esteja à sua altura sentimental e que seja capaz de mudar o rumo das nuvens. Alguma coisa que fale também em beijinhos trôpegos, em doces vampiros, em chás que – ai...! - não acontecem, em articulações braquiais com a cintura escapular, em pontos de interrogação, finais e gês. E que a isso se aduzisse algo como toalhas molhadas, sanduíches de presunto com queijo, poemas vinicianos, sapatos com a ilusão de salto, unhas brancas and forgotten glasses, numa viagem em que juntamos lábios para beijinhos sem ter fim, trôpegos ou não, selvagens ou não, mas permanentemente molhados de desejo e suor. Eu, genuflexo, boquiaberto sem chances de me boquifechar diante desta capacidade de reinventar cheiros, toques e as tão íntimas palavras que dizem tudo, essas que andam sem calcinha pelos corredores da alma, e que deixam claro o que sente o mergulhador imerso em mar e na bela mulher, em cujos ouvidos o velvet da língua inglesa se intromete molhado, nervoso, elétrico. Se somente as rádios FM podem transmitir ondas assim, surfo-as, curto-as e emulo um tal poeta que também versejou sobre os mesmos braços líquidos que me cercavam num abraçar completo das águas femininas. Cai a temperatura. Ai o queixo. Quedo-me em admiração. No papiro da pele desta mulher, o Calígrafo Supremo parece ter rabiscado os primeiros versos que eu gostaria de ter escrito. Na falta de incenso e mirra, balanço em sua honra meu turíbulo de maravilhas semânticas. Sempiterno. Frêmito. Orquídea.   

ELE, ELA E O CAMINHO DAS LETRAS


Sim, ele falou e escreveu, e ela falou e escreveu melhor ainda, dando de 10 a 0 nele, deixando-o vendo estrelas, então e agora, botando-o no lugar dele,  deixando-o zonzo, como depois de um cruzado de Tyson; em xeque-mate de Karpov; dando uma cortada da linha de três metros que só Giba consegue; ultrapassando na primeira curva ao estilo de Senna, driblando o goleiro igual a Zico, sem humildade em gol, como Fio Maravilha, com a precisão de uma tacada de Tiger Woods. Mas eu já esperava por isso, desde que a vi pela primeira vez, e aquela cena ficou colada na cortiça do meu cerebelo, uma linda mulher que entrou pela menina dos meus olhos e que cisma em não sair, um cisco de luz que chega a minha orelha fria e carente de segredos e confissões amoráveis. Sei lá se é um bilhete para Pasárgada, Strawberry Fields Forever, a Ilha Misteriosa, Além do Horizonte, a Tonga da Mironga do Kabuletê, ou qualquer desses paraísos fiscais da felicidade que os poetas de tempos em tempos sugerem. Que ela venha toda de branco, toda molhada e despenteada, como bem disse Ben Jor, e disse-o bem, e sopre seus lirismos para dentro de meus pulmões cansados, desparagone a página certinha quando algum tsunami literário vier bater em sua janela, sofistique o vocabulário e me obrigue a suar a camisa para escrever alguma coisa que preste, alguma coisa que esteja à sua altura sentimental e que seja capaz de mudar o rumo das nuvens, além de trazê-la para mais perto. Alguma coisa que fale também em beijinhos trôpegos, em doces vampiros, em chás que não acontecem, em articulações braquiais com a cintura escapular, em pontos de diversa natureza, sejam eles de interrogação, exclamação, finais; do ponto a até o b, incluindo o g (ai...). E que a isso se aduzisse algo como toalhas molhadas, sanduíches de presunto com queijo, poemas vinicianos, sapatos lilases com a ilusão de salto, unhas brancas and forgotten glasses, numa viagem em que há de se juntar lábios para beijinhos sem ter fim, trôpegos ou não, selvagens ou não, mas permanentemente molhados de desejo e suor. Eu, genuflexo, boquiaberto sem chances de me boquifechar diante desta capacidade de reinventar cheiros, toques e as tão íntimas palavras que dizem tudo, essas que andam sem calcinha pelos corredores da alma, e que deixam claro o que sente o mergulhador imerso em mar e na bela mulher, em cujos ouvidos o velvet da língua inglesa se intromete molhado, nervoso, elétrico. E a língua que se transforma em palavras, que se transformam em cartas escritas sobre o corpo amoroso, usado como apoio definitivo; cartas que se escrevem na cama sobre o corpo amado, com a ambígua pena que fere de amor a superfície da pele/papel do corpo que se ama, deixando nele o gozo da escrita amoravelmente literária. Se somente as rádios FM podem transmitir ondas assim, surfo-as, curto-as e emulo um tal poeta que também versejou sobre os mesmos braços líquidos que me cercavam num abraçar completo das águas femininas. Sobe a temperatura. Cai o queixo. Quedo-me em admiração. No papiro da pele desta mulher, o Calígrafo Supremo parece ter rabiscado os primeiros versos que eu gostaria de ter escrito, se não me faltassem engenho e arte para tal nobre tarefa. Na falta de incenso e mirra, balanço em sua honra meu turíbulo de maravilhas semânticas. Sempiterno. Frêmito. Orquídea. Farpela. Bruma. Uma mulher assim está pronta para algo definitivo. Merece as margens do Sena e um pôr do sol em Paris. Merece jazz com sorvete de chocolate. Fellini com Hitchcock. Perrier com trufas. Star Wars com Enterprise. Se ela finalmente se deu conta de caber tantas coincidências numa estante, num instante, como posso discordar? Se fica a marca no seio e no coração, por proximidade, por paixão, abstenho-me de teorias psicanalíticas para explicar o que não pode ser entendido, e apenas aceito o que me acontece como dogma de fé, pois é melhor que coisas aconteçam assim, antes à tarde do que nunca, do que ficar tomando chá de cadeira no grande baile dos desencontros e, sem esperança, desistir da vida. Se esta mulher sentiu um arrepio a lhe percorrer o corpo, se ela sentiu crescer em seu interior sensações de nervoso e desejo, e se ela se sentiu linda, então está tudo certo, como dois e dois são (de) quatro e não se fala mais nisso; então todos os astros se alinham, então todo o universo conspira a seu favor, com a bênção de todos os jargões de autoajuda que ora recebo nestas correntes que devo mandar para vinte pessoas, com a alma completamente aberta e humilde. Se há tantas coisas que acontecem quando menos se espera, pois aro a minha h(a)orta particular com simplicidade e com a sabedoria tirada dos versos de Vinicius de Moraes e dos boleros de Anísio Silva, como ter vivido plenamente antes, sem o que se supõe ter agora? Se a gente pode ler histórias amoráveis no corpo amado e se o mundo continua assombrado, sem saber para aonde vão as canetas Bic perdidas, durma-se com mais este mistério: para onde vai esta mulher, depois que esquece, distraída, suas doçuras e sonhos dentro de mim?   

sábado, 30 de março de 2013

AQUELE HOMEM


Aquele homem anda rápido em direção a lugar nenhum. Carrega consigo um bornal cheio de recordações, e há cartas de amor no bolso da calça jeans desbotada, igualzinha àquela de Detalhes. Poder-se-ia dizer que é um homem de sentimentos, que quase chora ao se dar conta da saudade daqueles momentos em que, distraído, tropeçou na felicidade e se deu conta de que ela até existe.  Há os que se entregam à bebida, ou que preferem levantar peso com alteres improvisados, só para esgarçar a manga da camiseta Hering, quando fazem um L com o braço musculoso e o antebraço de Popeye, ao segurar a “long neck” que é a chave do paraíso dos comerciais de TV. Há os que se escondem em casa, num auto-exílio de cortar o coração em fatias isométricas como com aquelas facas guinzo 2000, e ficam horas em um silêncio mais profundo do que certos decotes em cujos interiores muita vida já se perdeu. Aquele homem está nas ruas, nas estradas brancas de nevoeiro, nas esquinas dos sofrimentos sem sentido e consentidos, pois não se pode ter uma vida completa sem uma dose exata de dor trincando sonhos e planos. Talvez já tenha aprendido que sábado costuma ser o mais cruel dos dias para quem tem a solidão no DNA ─ sobretudo para quem gosta de Clarice Lispector e Rubem Braga e que acha possível substituir o beijo molhado e a língua atrevida por uma página ou duas de puro lirismo. Até dá, mas não por muito tempo.
  

O CÉU


Me desculpem começar assim, logo com um pronome oblíquo abrindo as alas do desrespeito à norma culta da última flor, ir logo metendo os pés pelas mãos, sem desviar do paralelepípedo semântico que me inchou o dedão, logo depois de chutar, sem mais, sem menos, uma resposta certa neste Enem existencial, quando se vê, sem o filtro do distanciamento, se os meninos viraram mesmo homens. Preferi buscar palavras no bornal que escondo debaixo da cama e ao qual recorro sempre que quero um termo mais exato, uma palavrinha mais ensaborrilhada, dessas que encaixam perfeito, como o clique das mãos dos namorados, diante dos perigos do mundo. O fato é que não adiantou o domingo estar completamente azul, se havia nele uma ausência que era maior que todos os azuis tristes que conotam o “blue” em língua inglesa, maior que todos os poemas de saudade, maior que a maior das medidas. Preferi passar por morto, que era mais ou menos próximo do que eu era mesmo então. Vítima de uma queda de pressão súbita e incontornável, achei melhor deitar-me nas esperanças que me serviam de maca naquele momento. Esperei que uma ambulância vermelha dos bombeiros viesse me recolher, o recém quase defunto, para longe daqueles olhos perfeitos, para algum lugar aonde não chegassem cartas ou e-mails, uma sala ampla e clara. No local, perpassar-me-iam tubos translúcidos, em meio ao bip nervoso de alguma máquina que desse suporte à vida que ainda me restava, líquida, na tubulação venosa. Achei que estava num daqueles espaços intermediários que algumas religiões decantam: a porta entreaberta entre a vida e a não-vida, esta sim pior que a morte propriamente dita, que deve ser uma ausência de tudo, creio. O processo já se iniciava, e ainda pude ver, de relance, alguns rostos conhecidos me olhando com preocupação no corredor do que me parecia um enorme hospital: Rachel, Ross, Will, Morgan, Clint... de onde estava, pude perceber que uma enfermeira colocava meus pertences numa espécie de bolsa plástica e, entre eles, vislumbrei meu celular, tão mudo, tão sem função... para quem ligaria? Para ela - uma fotografia na parede da memória que, como naquele poema de Drummond, dói. Era ela, rindo e dizendo “até parece...”, depois de qualquer bobagem romântica de minha parte, e que são muitas. Era ela, entre tic-tacs e um celular com barulho d’água, entre letras e bytes, livros e Elvis. A meu favor, havia a surpresa de minha quase morte súbita, cuja notícia, entreouvida, não raro, num lugar inesperado, fatiariam o coração da referida em alguns mil pedaços que boiariam no molho quente da incredulidade e do susto. Porém, se assim fosse, eu nem saberia sequer se ela sentiria a minha falta, se o órgão propulsor de seus sentimentos bateria um tambor movido à mais poderosa Duracell, ou seria apenas um som fraco, abafado, quase inexistente, como uma tosse no meio da noite. Esta dúvida era pior do que a sensação de ausência de vida, eu lhes garanto. Tudo ia mal, muito mal, quando, de inopino, ela me surge dobrando a esquina da memória e mudando o rumo das nuvens. Eu não tinha mais como dar a volta. Eu avançava pela calçada no passo acelerado de quem segue movido por “Every breath you take”. Ela ajeitava os óculos. Eu sentia o vermelho do sangue se evaporar de minhas veias. Ela era uma festa de brincos e sarais retrôs. Eu ia me dissolvendo como um homem de areia, de joelhos, num ciclone. Ela parecia flutuar, como uma fada faria. Logo, eu estava a quatro passos de entrar numa cena de felicidade em que já estivera por longo tempo. Passei a provocar o coração para que ele decidisse rápido – faltavam apenas dois passos, e ela já se cansara de procurar o celular na bolsa, e eu temia que o mundo acabasse se ela me olhasse nos olhos e não me reconhecesse, se eu sorrisse e recebesse de volta apenas aquele olhar que damos quando vemos um bêbado caído na sarjeta, um olhar de que gostaria-de-fazer-alguma-coisa-mas-não-posso; e então ouvi a voz de um anjo bom me dizendo no ouvido para que acreditasse no amor, pois a distância tem dessas coisas. A imaginação funciona numa direção, mas a realidade pode ser muito diferente, até oposta. Por isso, quase sempre optamos pelo drama. O copo d’água ganha, então, sua tempestade. Tornamo-nos romeus aos pés de julietas, lindas e perfeitas, mas distantes, altas e inatingíveis como torres. Todos os sucos de pêssego do mundo seriam insuficientes para edulcorar o enredo. No entanto, o anjo insistia, deve haver, bem lá dentro da alma, alguma coisa essencial que não pode se perder e que só tem sentido com aquele outro que agora não está..., mas deveria.