Atenção,
gerúndio! Mexam-se os tempos compostos. Sentido! Ela está lendo. Ponham-se aos
lugares, não deixem a vírgula para que o sujeito tropece nela. Cuidado com as
crases, neologismos e, caraca!, estas palavras-fashion que desfilam nas bocas
dos mais descolados. Levante cedo, lá pelas seis, pois Deus ajuda quem da
gramática cuida, e trate de revisar o trabalho de uma vida inteira dedicada a
perfilar palavrinhas rebeldes, com cabelo caído na franja umas, com piercings
em lugares inusitados, outras. Corrija seus verbos irregulares que não foram
correspondidos em sua regência e ligue para o 0800 do Instituto Fernando
Pessoa, para marcar uma aplicação de botox nos infinitivos mal flexionados.
Proteja-se das idiossincrasias adverbiais que fazem birra com a língua-mãe,
policie os cacófatos e os erros de digitação, pois num mundo pós-moderno
dominado pelos corretores de textos, alguns aproveitam a deixa e corrigem
também as emoções e, daí, o verbo quente e duro acaba não penetrando na menina
dos olhos da leitora. Não falte ao respeito com a morfologia dos adjetivos nem
chegue a trocas de carícias explícitas com os pronomes pessoais do caso reto.
Ela, no caso. Modere seu fetiche com o pezinho da letra M e seja tolerante com
a sujeita oculta, indeterminada, inexistente - far-lhe-á um bem enorme, pois
quem não teve uma mesóclise na vida que atire a primeira pedra no travessão.
Olhe os modos, menino! Ela está lendo. O subjuntivo deve ser usado com
comedimento, porque você, sabemos, é um poço de desejos e tudo é indicativo de
um amor grande. Não exagere e segure com rédeas curtas as orações e seus
predicados, imponha uma regra culta ao seu texto de bermudas e mantenha a coerência
e a coesão, custe o que custar. Nada dessas liberdades do ditongo crescente
chegar para cima das subordinadas na voz ativa. Domine os ímpetos das
comparações fáceis, escrevendo que, se você é um sujeito simples, ela é um
presente mais-que-perfeito. Disfarce seus vícios de linguagem, as regências transviadas,
as concordâncias desrespeitadas, as ideias confusas. Preste atenção na reforma
ortográfica, os acentos abolidos e trema apenas nas pernas, quando pensar nela.
Isso pode. Ela está lendo. Deixe de intimidades com a língua, essa coisa de dar
tapinhas na barriga do objeto direto, de passar a mão no joelho da primeira
pessoa. Passe uma vassoura nas negativas duplas na mesma frase para, em
seguida, fazer paciente relatório cheio de interjeições espantadas, a fim de
dar entradas nos papéis e viver no gozo das hipérboles de uma aposentadoria em Pasárgada.
Escreva no escuro, de madrugada, o rosto iluminado apenas pelo monitor e o
silêncio frio cortado, de tempos em tempos, por aquela voz passiva feminina
dizendo “as atualizações de vírus foram atualizadas”. Tenha extremo cuidado com
o estilo, respire fundo antes de usar o vocativo e não queira irritar aqueles
olhos serenos quando ela os passar por seus trôpegos adjuntos adverbiais de
tempo e lugar. A esferográfica indócil querendo cair de dente na parte carnuda
das palavras, e você, firme, sem delírios, sem muito romantismo. Limite-se ao
registro à risca da sua pulsação eletrocardiogramatical. Pertencem a ela as
mais belas bilabiais fricativas, todas adornadas com uma flor de açucena entre
os dentes que se materializarão em um sorriso perfeito que, espero, um dia ela lhe
mostre, ao contar como cultivou tal jardim de sintagmas nesses dias de
preposições tão dolorosas e adversativas. Por isso, passe o rodo em expressões
que contenham brigas, broncas e brioches. Não se atreva a expor qualquer relato
de intenção de suas conjunções carnais. Não falte às sessões de análise
sintática com seu terapeuta de confiança, que lhe dirá, num discurso direto,
que são as nossas emoções que podem nos afastar de nossos maiores objetivos. Ela
está lendo. Faça-se silêncio absoluto, o que pode incluir a supressão
definitiva destes textos virtuais, para sempre. Esteja preparado, pois. De nada
adianta a discurseira de improviso que escancara a retórica anêmica, os
escorregões gramaticais, as pausas hesitantes, a adjetivação gordurosa e,
sobretudo, a argumentação indigente. Não abuse das reminiscências por escrito,
pois tal qual na arte oriental da caligrafia, praticada sobre papel tão fino
que se rasga a qualquer pincelada mais brusca, elas provocam sensações
inesperadas e agudizam o silêncio e o abismo. Sim, as emoções, há-as. Lembre
que, se fosse um sinal de pontuação, você seria uma linha com pontinhos de
reticências... Não canse as retinas da leitora com um código de barras
desbotado. Confira, sem ferir, os dados, tire uns advérbios de modo, corte
vírgulas desnecessárias que apenas tocam o segundo violino para o concerto da
clareza, mesmo que você não consiga se ver livre de certos conteúdos que, sem a
forma adequada, se perdem no tempo que transforma todo amor em quase nada, como
na canção. Portanto, mantenha sob intensa vigilância o risco de uma opinião
pouco original, uma ideia inconsistente, uma tirada sem graça, pois poucas
coisas abrandam a desoladora aridez reiteradamente sublinhada pelas colisões
entre o sujeito e o predicado, pela falta de intimidade entre o começo e o fim
e pelo sumiço do raciocínio lógico. Por isso, trate de descrever o cenário
possível para o melhor desfecho: quando reencontrar aquela mulher, você vai
acessar o HD da memória - que não se presta a estas dores da saudade - e
vasculhará as polaroides de um vestido levantando, do corselete preto liberando
botões e dos tic-tacs se abrindo a cada puxão de cabelo. Uma cena que poderia
dar um episódio de “Friends” ou um suspense de Hitchcock, se a realidade não
lhe providenciar logo um tranco de bom senso e você cair em si, quebrando
apenas as regras sintáticas e o caco cardíaco que resta intacto. Você dirá “há
quanto tempo...”, como se fossem as últimas palavras de um condenado no
cadafalso, pedindo ao carrasco que acabe logo com o sofrimento e estique a
corda. E ela, psicodelicamente, sorrirá umas orquídeas e lhe cutucará o baixo
ventre com a pergunta “o que você tem feito?”. E você engolirá em seco, sentido
a madeira do cadafalso estalar sob seus pés. Então, será como um justiceiro que
começa a cumprir a sentença espalhada por alguma Vara Criminal do Amor nos
Tempos do Cólera. E durante o silêncio que se seguirá, você vai sentir a corda
encostando na garganta, até que seja executada ali, em praça pública, na frente
de todos, a indenização por danos vinicius de morais que a Lei da Gramática e
da Falta de Lirismo haverá autorizado cobrar a quem de direito.

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