domingo, 16 de junho de 2013

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

Atenção, gerúndio! Mexam-se os tempos compostos. Sentido! Ela está lendo. Ponham-se aos lugares, não deixem a vírgula para que o sujeito tropece nela. Cuidado com as crases, neologismos e, caraca!, estas palavras-fashion que desfilam nas bocas dos mais descolados. Levante cedo, lá pelas seis, pois Deus ajuda quem da gramática cuida, e trate de revisar o trabalho de uma vida inteira dedicada a perfilar palavrinhas rebeldes, com cabelo caído na franja umas, com piercings em lugares inusitados, outras. Corrija seus verbos irregulares que não foram correspondidos em sua regência e ligue para o 0800 do Instituto Fernando Pessoa, para marcar uma aplicação de botox nos infinitivos mal flexionados. Proteja-se das idiossincrasias adverbiais que fazem birra com a língua-mãe, policie os cacófatos e os erros de digitação, pois num mundo pós-moderno dominado pelos corretores de textos, alguns aproveitam a deixa e corrigem também as emoções e, daí, o verbo quente e duro acaba não penetrando na menina dos olhos da leitora. Não falte ao respeito com a morfologia dos adjetivos nem chegue a trocas de carícias explícitas com os pronomes pessoais do caso reto. Ela, no caso. Modere seu fetiche com o pezinho da letra M e seja tolerante com a sujeita oculta, indeterminada, inexistente - far-lhe-á um bem enorme, pois quem não teve uma mesóclise na vida que atire a primeira pedra no travessão. Olhe os modos, menino! Ela está lendo. O subjuntivo deve ser usado com comedimento, porque você, sabemos, é um poço de desejos e tudo é indicativo de um amor grande. Não exagere e segure com rédeas curtas as orações e seus predicados, imponha uma regra culta ao seu texto de bermudas e mantenha a coerência e a coesão, custe o que custar. Nada dessas liberdades do ditongo crescente chegar para cima das subordinadas na voz ativa. Domine os ímpetos das comparações fáceis, escrevendo que, se você é um sujeito simples, ela é um presente mais-que-perfeito. Disfarce seus vícios de linguagem, as regências transviadas, as concordâncias desrespeitadas, as ideias confusas. Preste atenção na reforma ortográfica, os acentos abolidos e trema apenas nas pernas, quando pensar nela. Isso pode. Ela está lendo. Deixe de intimidades com a língua, essa coisa de dar tapinhas na barriga do objeto direto, de passar a mão no joelho da primeira pessoa. Passe uma vassoura nas negativas duplas na mesma frase para, em seguida, fazer paciente relatório cheio de interjeições espantadas, a fim de dar entradas nos papéis e viver no gozo das hipérboles de uma aposentadoria em Pasárgada. Escreva no escuro, de madrugada, o rosto iluminado apenas pelo monitor e o silêncio frio cortado, de tempos em tempos, por aquela voz passiva feminina dizendo “as atualizações de vírus foram atualizadas”. Tenha extremo cuidado com o estilo, respire fundo antes de usar o vocativo e não queira irritar aqueles olhos serenos quando ela os passar por seus trôpegos adjuntos adverbiais de tempo e lugar. A esferográfica indócil querendo cair de dente na parte carnuda das palavras, e você, firme, sem delírios, sem muito romantismo. Limite-se ao registro à risca da sua pulsação eletrocardiogramatical. Pertencem a ela as mais belas bilabiais fricativas, todas adornadas com uma flor de açucena entre os dentes que se materializarão em um sorriso perfeito que, espero, um dia ela lhe mostre, ao contar como cultivou tal jardim de sintagmas nesses dias de preposições tão dolorosas e adversativas. Por isso, passe o rodo em expressões que contenham brigas, broncas e brioches. Não se atreva a expor qualquer relato de intenção de suas conjunções carnais. Não falte às sessões de análise sintática com seu terapeuta de confiança, que lhe dirá, num discurso direto, que são as nossas emoções que podem nos afastar de nossos maiores objetivos. Ela está lendo. Faça-se silêncio absoluto, o que pode incluir a supressão definitiva destes textos virtuais, para sempre. Esteja preparado, pois. De nada adianta a discurseira de improviso que escancara a retórica anêmica, os escorregões gramaticais, as pausas hesitantes, a adjetivação gordurosa e, sobretudo, a argumentação indigente. Não abuse das reminiscências por escrito, pois tal qual na arte oriental da caligrafia, praticada sobre papel tão fino que se rasga a qualquer pincelada mais brusca, elas provocam sensações inesperadas e agudizam o silêncio e o abismo. Sim, as emoções, há-as. Lembre que, se fosse um sinal de pontuação, você seria uma linha com pontinhos de reticências... Não canse as retinas da leitora com um código de barras desbotado. Confira, sem ferir, os dados, tire uns advérbios de modo, corte vírgulas desnecessárias que apenas tocam o segundo violino para o concerto da clareza, mesmo que você não consiga se ver livre de certos conteúdos que, sem a forma adequada, se perdem no tempo que transforma todo amor em quase nada, como na canção. Portanto, mantenha sob intensa vigilância o risco de uma opinião pouco original, uma ideia inconsistente, uma tirada sem graça, pois poucas coisas abrandam a desoladora aridez reiteradamente sublinhada pelas colisões entre o sujeito e o predicado, pela falta de intimidade entre o começo e o fim e pelo sumiço do raciocínio lógico. Por isso, trate de descrever o cenário possível para o melhor desfecho: quando reencontrar aquela mulher, você vai acessar o HD da memória - que não se presta a estas dores da saudade - e vasculhará as polaroides de um vestido levantando, do corselete preto liberando botões e dos tic-tacs se abrindo a cada puxão de cabelo. Uma cena que poderia dar um episódio de “Friends” ou um suspense de Hitchcock, se a realidade não lhe providenciar logo um tranco de bom senso e você cair em si, quebrando apenas as regras sintáticas e o caco cardíaco que resta intacto. Você dirá “há quanto tempo...”, como se fossem as últimas palavras de um condenado no cadafalso, pedindo ao carrasco que acabe logo com o sofrimento e estique a corda. E ela, psicodelicamente, sorrirá umas orquídeas e lhe cutucará o baixo ventre com a pergunta “o que você tem feito?”. E você engolirá em seco, sentido a madeira do cadafalso estalar sob seus pés. Então, será como um justiceiro que começa a cumprir a sentença espalhada por alguma Vara Criminal do Amor nos Tempos do Cólera. E durante o silêncio que se seguirá, você vai sentir a corda encostando na garganta, até que seja executada ali, em praça pública, na frente de todos, a indenização por danos vinicius de morais que a Lei da Gramática e da Falta de Lirismo haverá autorizado cobrar a quem de direito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário