Eu já estive em outros fins de mundo, mas não como
esse que se prenunciou no Natal de 2011. Já estive esperando que uma grande
bola de fogo rasgasse o céu do hemisfério sul ao norte, e que tudo se acabasse
numa bela, mas paradoxal, luminosidade branca que marcasse nosso último
instante sobre a Terra. Sim, eu já havia comprado o ingresso para o show do fim
do mundo, no qual o Senhor dos Raios, responsável em pôr termo a esta minha
angústia pedestre, essa minha perplexidade diante do mundo em que todos são
felizes – ou seja, eu já estava preparado, escolado, por dentro, entendido. Mas
foi pior. Eu não esperava. Foi assim quando o cometa de Haley deu as caras por
aqui. Eu estava lá. Também senti medo, no entanto, nada. Bola fora. O mundo,
tal qual o conhecemos, ainda não estava para acabar para mim. Ou seja, sou bom
de apocalipse. Não sinto mais susto, porém ainda sinto a dor dos quase
sobreviventes. O Fim, assim mesmo com letra maiúscula, ou “The End”, para ficar
mais cinematográfico, hollywoodyano, sempre foi meu camarada, meu companheiro
de copo, aquele que me dava os toques. Anunciava-se o evento como se fosse um
show do Sting. Astrólogos garantiam a aterrissagem de uma esquadrilha de discos
voadores. O mundo ia se acabar numa feérica festa de luzes e retrofoguetes
zunindo entre montanhas e nuvens. Mas agora foi muito pior. Anos atrás, ainda
se pensava que o mundo ia acabar tão rápido que não daria tempo sequer de
digitar 140 toques nos derradeiros Twitters que ainda restariam com sinal. Eu nem
podia imaginar que seria como agora e pude sentir-me como que já viu um tsunami
pela frente, como naquele filme de Clint. Houve época em que eu nem mesmo me
importava muito, pois as perdas não seriam tantas. Mas agora é diferente e,
repito, pior, muito pior. Num outro tempo, crédulo com a possibilidade de que
daquela vez acabava mesmo, descompromissar-me-ia com a necessidade da prosa
elegante e das mesóclises inesperadas, e me deixaria levar pelas leviandades da
vida – pois a morte era inevitável, e eu não estaria sozinho no Nada que nos
engoliria a seco – e beberia, fumaria e me injetaria com as mais formidáveis
misturas patogênicas que se poderiam encontrar. Em seguida, dormiria tranquilo,
pois não perderia nada essencial, nada que já tivesse desgastado sua
importância e se perdido no tempo, como lágrimas na chuva. Mas, agora, tudo é
tão diferente, e o fim do mundo, do meu mundo, parece finalmente estar
acontecendo, lento como um fim de fogueira, dolorosamente devastando o que eu
achava que não teria fim, através de centopeias incandescentes, todas
malignamente incandescentes, que surgiram das frestas dos terremotos que este
fim tão pessoal e intransferível provocaria ao meu redor. Resisto a acreditar
que o mundo acabou, ou está acabando. Já sinto a eletricidade dos raios
cruzando a camada de ozônio e começando a flambar os miolos ainda pensantes, os
corações ainda pulsantes, como a máquina mortífera mais eficiente que já
existiu desde que Mel Gibson resolveu exterminar todos os criminosos de Los
Angeles, e a estranha energia liberada pelo cataclismo que pulverizará
montanhas e cidades, anunciando o paradoxo da beleza mortal da explosão de
todas as bombas atômicas, para, no fim aumentar milhões de vezes o meu amor por
você, mas já será tarde.

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