quarta-feira, 12 de junho de 2013

O FIM DO MUNDO

Eu já estive em outros fins de mundo, mas não como esse que se prenunciou no Natal de 2011. Já estive esperando que uma grande bola de fogo rasgasse o céu do hemisfério sul ao norte, e que tudo se acabasse numa bela, mas paradoxal, luminosidade branca que marcasse nosso último instante sobre a Terra. Sim, eu já havia comprado o ingresso para o show do fim do mundo, no qual o Senhor dos Raios, responsável em pôr termo a esta minha angústia pedestre, essa minha perplexidade diante do mundo em que todos são felizes – ou seja, eu já estava preparado, escolado, por dentro, entendido. Mas foi pior. Eu não esperava. Foi assim quando o cometa de Haley deu as caras por aqui. Eu estava lá. Também senti medo, no entanto, nada. Bola fora. O mundo, tal qual o conhecemos, ainda não estava para acabar para mim. Ou seja, sou bom de apocalipse. Não sinto mais susto, porém ainda sinto a dor dos quase sobreviventes. O Fim, assim mesmo com letra maiúscula, ou “The End”, para ficar mais cinematográfico, hollywoodyano, sempre foi meu camarada, meu companheiro de copo, aquele que me dava os toques. Anunciava-se o evento como se fosse um show do Sting. Astrólogos garantiam a aterrissagem de uma esquadrilha de discos voadores. O mundo ia se acabar numa feérica festa de luzes e retrofoguetes zunindo entre montanhas e nuvens. Mas agora foi muito pior. Anos atrás, ainda se pensava que o mundo ia acabar tão rápido que não daria tempo sequer de digitar 140 toques nos derradeiros Twitters que ainda restariam com sinal. Eu nem podia imaginar que seria como agora e pude sentir-me como que já viu um tsunami pela frente, como naquele filme de Clint. Houve época em que eu nem mesmo me importava muito, pois as perdas não seriam tantas. Mas agora é diferente e, repito, pior, muito pior. Num outro tempo, crédulo com a possibilidade de que daquela vez acabava mesmo, descompromissar-me-ia com a necessidade da prosa elegante e das mesóclises inesperadas, e me deixaria levar pelas leviandades da vida – pois a morte era inevitável, e eu não estaria sozinho no Nada que nos engoliria a seco – e beberia, fumaria e me injetaria com as mais formidáveis misturas patogênicas que se poderiam encontrar. Em seguida, dormiria tranquilo, pois não perderia nada essencial, nada que já tivesse desgastado sua importância e se perdido no tempo, como lágrimas na chuva. Mas, agora, tudo é tão diferente, e o fim do mundo, do meu mundo, parece finalmente estar acontecendo, lento como um fim de fogueira, dolorosamente devastando o que eu achava que não teria fim, através de centopeias incandescentes, todas malignamente incandescentes, que surgiram das frestas dos terremotos que este fim tão pessoal e intransferível provocaria ao meu redor. Resisto a acreditar que o mundo acabou, ou está acabando. Já sinto a eletricidade dos raios cruzando a camada de ozônio e começando a flambar os miolos ainda pensantes, os corações ainda pulsantes, como a máquina mortífera mais eficiente que já existiu desde que Mel Gibson resolveu exterminar todos os criminosos de Los Angeles, e a estranha energia liberada pelo cataclismo que pulverizará montanhas e cidades, anunciando o paradoxo da beleza mortal da explosão de todas as bombas atômicas, para, no fim aumentar milhões de vezes o meu amor por você, mas já será tarde.     

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