Domingo à tarde. Saiu para o jogo,
com a confiança de quem, no final, ia ser o vencedor. Desceu a ladeira
enlameada da favela, com o coração cheio de esperança e o bolso nem tanto – só
havia a conta exata para o ônibus e para a entrada no Maracanã. Deixaria a
cerveja para outro dia, com os amigos do morro, só para esticar mais um pouco o
deleite pela vitória do Flamengo. Faria hora-extra, se fosse o caso, e assim
teria uma grana para comemorar a vitória do rubro-negro. Bem, isso se tivesse
emprego fixo – mas, o que uma conquista do Mengão não faria por ele? Era bem
capaz de arranjar um bom emprego logo na segunda-feira cedinho, sem esforço. Só
tinha uma coisa faltando e não era de hoje: nunca havia conseguido comprar uma
camisa do seu time de coração. Isso era uma frustração apenas amenizada por
tantos gols de Zico que ele testemunhara ali bem de pertinho, da geral do Mário
Filho. Mas, tudo bem. Hoje, fazia um calorão dos diabos, e ele logo
providenciou seu traje de torcedor: sandália de dedo, uma bermuda surrada - que
já fora uma calça jeans um dia - e uma camiseta de propaganda política, com um
furo aqui e ali, que ele enrolou na cabeça, para se proteger do sol de
fevereiro. Porém, faltava a camisa do Flamengo. É, faltava, e a falta se fazia
maior quando chegou ao asfalto, entrou no ônibus e, da janela, ficou vendo seus
futuros companheiros de torcida, mais abastados, vergando o Manto Sagrado e
seguindo na mesma direção. Aí, até que ele entendia: a maior torcida do Brasil
tem representantes em todas as classes sociais. Até ele - pobre, negro, sem
emprego, mas orgulhoso da honestidade e dos valores que pregava em casa para a
prole que não parava de crescer, diabos! Sua alegria, fora a família, era ver o
Flamengo jogar. Era ver o Flamengo vencer. Era ter, um dia, uma camisa dez
rubro-negra, para sair por aí e dizer ao mundo que naquele homem morava uma
paixão em preto e vermelho. No trajeto para o estádio, viu o que lhe parecia
uma vertigem nas duas cores amadas: torcedores devidamente uniformizados com a
camisa sonhada pareciam brotar de todos os lugares, carregando bandeiras e um
orgulho de fazer parte de uma nação maior que o próprio país. Os carros
passavam lotados: todos vestiam o Manto. Era tal festival flamenguista pela
cidade, que parecia que não ia haver jogo – apenas o Flamengo entrando em campo
e saudando os torcedores emocionados a gritar: Flamengo, eu te amo! Preto e
vermelho, preto e vermelho, preto e vermelho: o mundo era assim, rubro-negro,
de corpo e alma. Então, sentiu, com certa amargura, que, apesar de amar o clube
até morrer, talvez não fizesse mesmo parte daquela torcida que, devidamente encamisada,
parecia enfrentar o mundo sem medo de nada, pois nada lhe faria mal desde que
estivesse dentro daquele círculo magnético, em forma de manto, que pulsava em
preto e vermelho. Este momento de tristeza e frustração foi interrompido com um
tumulto dentro do ônibus – alguém que não gostava da vida, não gostava de
mulher, não gostava nem de futebol, sacou uma arma e anunciou um assalto e que
lhe dessem já o que tinham de valor. O que faria ele, se não tinha nem o que
considerava seu bem mais precioso – uma camisa listrada em preto e vermelho,
para lhe salvar a vida? Sentiu o cano frio do revolver a lhe cutucar a nuca
suada. Como não tinha nada? Não adiantou balbuciar algumas desculpas – o
assaltante disparou quatro tiros no seu peito descamisado, o mesmo peito que
abrigava o maior amor do mundo, de onde, com ele caído no chão do 763, jorravam
filetes de sangue que, em misterioso paralelismo pulsante, se harmonizavam com
sua pele negra.
Finalmente, o manto
sagrado lhe cobria o corpo.
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