segunda-feira, 10 de junho de 2013

MINHAS AMIGAS - 10

Eu tenho uma amiga que anda meio encafifada com um novo colega de trabalho que chegou meio quieto, meio misterioso, mas de cujos movimentos ela ainda não conseguiu tirar os olhos negros, também enigmáticos, segundo observação meio sarcástica de um ex-namorado que ela prefere relegar ao olvido. Ela passou a cercá-lo com uma indiferença disfarçada: alto, magro, sem aliança e com uma indumentária que variava entre o esporte casual e um estilo mais contido, com cores neutras e nada mais que posasse de acessório, a não ser o relumbramento prateado de uma caneta tinteiro que lhe habitava a gola da camiseta ou o bolso da camisa jeans. Ela logo achou que não era nada e, mais que isso, era mesmo loucura dela, esse súbito e incômodo interesse por aquele homem que ela mal conhecia. Afinal, estava noiva, comprometida até o último fio de cabelo, como lhe disse, entre crítica e invejosa, uma conhecida com quem fazia as unhas. No entanto, ao ir para o trabalho, percebeu que a escolha das roupas, o perfume, o penteado e o sapato lhe eram inspirados pela antecipação do encontro silencioso com o homem misterioso. Isto a deixou inquieta e com aquela dúvida da qual se esgueirava com habilidade olímpica, a partir do momento que a relação começou a ficar mais séria. Por uns dias, ficou sem saber o que fazer. E se aquele homem sem nome e sem história fosse um jeito de cair em si, de se tocar que sua vida não estava tão segura assim, de descobrir que tanto compromisso a estava sufocando, sem que ela se desse conta disso? Minha amiga tratou logo de se desvencilhar deste espinho, procurando não mais tentar decifrar aqueles sinais e se esforçando para se convencer de que tudo aquilo que achava que estava sentindo – ou dessentindo – era mesmo efêmero como uma escultura de gelo que, gota a gota, como se pranteasse a si mesmo, deixando uma poça de água no chão. E, assim, foi levando, injetando com a seringa da razão doses cada vez maior de desimportância ao homem misterioso do trabalho e aos pensamentos que ele invocava. Dedicou-se a este esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas também dar sentido ao vácuo absoluto. Um dia, ela já ia saindo, quando ele, o homem que tinha começado toda aquela revolução interior que ela experimentava, lhe perguntou: “Quer uma carona?”. Minha amiga fez a cara típica de quem está falando com a pessoa errada, disse um não quase inaudível, virou as costas e foi embora pegar o ônibus.

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