segunda-feira, 1 de abril de 2013

O AMOR NOS TEMPOS DA LITERATURA

Eu ia fingir que não vi ela e colocar a culpa no cacófato, tropeçar no paralelepídedo da última flor do Lácio que me obliterou a visão e me esborrachar nas ruas das pedras tão antigas, que conheceram Camões ainda com o olho direito funcionando. (Pronto, já dei a entender que gosto da língua portuguesa, sou-lhe amante e lhe pago o aluguel para morar nestas mal traçadas, mal digitadas, em causa própria, pro meu bem. Ficou claro? Fiz-me entender? Pode ser que sim, pode ser que não. Não importa – ando a esmo, movido apenas pela busca desesperada do ponto final, fazer o quê?) Mas, ia dizendo mesmo que estava me declarando estendido no chão, passado por morto, vítima de uma queda de cabeça lastimável, imóvel, respiração suspensa, esperando em decúbito dorsal que a ambulância conduzisse o defunto, eu, para longe dos olhos do mundo, para algum lugar ignorado, onde eu poderia voltar a respirar e ter, de novo, a posse provisória de minhas faculdades mentais, na qual não sou o melhor aluno - e nem - o pior. No fundo, lá embaixo, eu sentia mesmo era um baita orgulho de ter recuado na caminhada em rumo à minha nata vocação para o precipício e e de ter posto as engrenagens psíquicas em constante movimento, para, enfim, constatar que a Literatura é justamente uma fratura na precariedade do mundo, um talho que faz sangrar o sol negro que se deseja esconder. Pois é mesmo a Literatura, com suas formas femininas, seu cálido hálito, os cabelos perfumados, os pés perfeitos, que estende a mão delicada, como naquele poema do cummings, e me recolhe do olvido de uma viagem rumo ao nada. Sua imagem me vem à mente como se fosse colocada no Google da alma e me fosse devolvida na forma de milhões de ocorrências. Aproveito-as. Degusto-as. Chupo-as, rodando a língua. E elas me vêm, escorridas, lubrificadas, úmidas, a escandir a temida palavra trissílaba que é, ao mesmo tempo, aconchego e lancinante sofrimento. Aquela forma feminina da Literatura não teve lá como evitar uma abalo sísmico perto de 9.7 na escala Richter, deslocar algumas placas tectônicas, pelo jeito que soletrou a palavra, quase o estalar de três sílabas, quase três gotas de colírio de sangue, para eu abrir os olhos e não mais ver os pousos e decolagens no aeroporto do amparo que, quando a vida está nublada, parece que nunca mais vai abrir às aeronaves que poderiam me levar ao exílio numa ilha no meio do Pacífico e jamais escrever períodos tão longos assim. Há quem tome drágeas bicolores. Há quem tatue a felicidade no ombro macio. Há quem tome energéticos com Coca-Cola e entoem mantras em “fogs” de incenso aloe vera. Pensei em tentar o álcool ou as agulhas de saltos pretos de sandálias idem. Considerei uma religião exótica ao estilo zen-budista, como a Letã-Ortodoxa de George, pois estava convencido de que tudo é mesmo uma questão de templo. Mas foi mesmo a Literatura que despachou os papeis no guichê daquela repartição cheirando a mofo e “estartou” o trâmite legal, visando a adoção, por alguma instituição de filantrópica, de um cérebro em permanente litígio com o raciocínio lógico. Como numa história de suspense, a suposta morte daquele substantivo próprio deixava pistas confusas, pois na era digital, ela – a morte - é proibida e não há o silêncio que elabora a perda  – há a presença constante que espreita nos cantos da casa, nos ruídos e nos fantasmas prestativos que obedecem ao clique curioso e voyerista de um comando, em qualquer Galaxy. A Literatura-mulher se deixa puxar com alegria pelos cabelos só para me contar, rindo, que, para tanto, é preciso conviver, feliz, com a ausência, qualquer ausência, em todas as suas formas. Fica na ponta dos pés delicados, para ver além da vida, das muralhas que tentam manter longe o amor. É preciso paciência no trato lento do pensamento, meu chapa. É preciso não temer as turbulências dos afetos, doutor. A Literatura em forma de mulher ensina, com autonomia, que o lirismo da vida nos permite encontrar a liberdade, a independência e conviver bem com a sensação de incerteza. E que viver assim é fazê-lo teimosamente, poeticamente, literariamente, pois não podemos ser indiferentes às imposições do mundo material, barbárico e prosaico. Contudo, vamos ser francos, o que a Literatura-mulher sinaliza, feminina e sutilmente, é que, sem a experiência imaterial – sem poesia e um profundo respeito pelos sentimentos – não existe mesmo vida que mereça este nome.

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