Eu ia fingir que não vi ela e
colocar a culpa no cacófato, tropeçar no paralelepídedo da última flor do Lácio
que me obliterou a visão e me esborrachar nas ruas das pedras tão antigas, que
conheceram Camões ainda com o olho direito funcionando. (Pronto, já dei a entender que gosto da língua portuguesa, sou-lhe
amante e lhe pago o aluguel para morar nestas mal traçadas, mal digitadas, em
causa própria, pro meu bem. Ficou claro? Fiz-me entender? Pode ser que sim,
pode ser que não. Não importa – ando a esmo, movido apenas pela busca
desesperada do ponto final, fazer o quê?) Mas, ia dizendo mesmo que estava
me declarando estendido no chão, passado por morto, vítima de uma queda de
cabeça lastimável, imóvel, respiração suspensa, esperando em decúbito dorsal que
a ambulância conduzisse o defunto, eu, para longe dos olhos do mundo, para
algum lugar ignorado, onde eu poderia voltar a respirar e ter, de novo, a posse
provisória de minhas faculdades mentais, na qual não sou o melhor aluno - e nem
- o pior. No fundo, lá embaixo, eu sentia mesmo era um baita orgulho de ter
recuado na caminhada em rumo à minha nata vocação para o precipício e e de ter
posto as engrenagens psíquicas em constante movimento, para, enfim, constatar
que a Literatura é justamente uma fratura na precariedade do mundo, um talho
que faz sangrar o sol negro que se deseja esconder. Pois é mesmo a Literatura,
com suas formas femininas, seu cálido hálito, os cabelos perfumados, os pés
perfeitos, que estende a mão delicada, como naquele poema do cummings, e me
recolhe do olvido de uma viagem rumo ao nada. Sua imagem me vem à mente como se
fosse colocada no Google da alma e me fosse devolvida na forma de milhões de
ocorrências. Aproveito-as. Degusto-as. Chupo-as, rodando a língua. E elas me
vêm, escorridas, lubrificadas, úmidas, a escandir a temida palavra trissílaba
que é, ao mesmo tempo, aconchego e lancinante sofrimento. Aquela forma feminina
da Literatura não teve lá como evitar uma abalo sísmico perto de 9.7 na escala
Richter, deslocar algumas placas tectônicas, pelo jeito que soletrou a palavra,
quase o estalar de três sílabas, quase três gotas de colírio de sangue, para eu
abrir os olhos e não mais ver os pousos e decolagens no aeroporto do amparo
que, quando a vida está nublada, parece que nunca mais vai abrir às aeronaves
que poderiam me levar ao exílio numa ilha no meio do Pacífico e jamais escrever
períodos tão longos assim. Há quem tome drágeas bicolores. Há quem tatue a
felicidade no ombro macio. Há quem tome energéticos com Coca-Cola e entoem
mantras em “fogs” de incenso aloe vera. Pensei em tentar o álcool ou as agulhas
de saltos pretos de sandálias idem. Considerei uma religião exótica ao estilo
zen-budista, como a Letã-Ortodoxa de George, pois estava convencido de que tudo
é mesmo uma questão de templo. Mas foi mesmo a Literatura que despachou os
papeis no guichê daquela repartição cheirando a mofo e “estartou” o trâmite
legal, visando a adoção, por alguma instituição de filantrópica, de um cérebro
em permanente litígio com o raciocínio lógico. Como numa história de suspense,
a suposta morte daquele substantivo próprio deixava pistas confusas, pois na
era digital, ela – a morte - é proibida e não há o silêncio que elabora a perda
– há a presença constante que espreita
nos cantos da casa, nos ruídos e nos fantasmas prestativos que obedecem ao
clique curioso e voyerista de um comando, em qualquer Galaxy. A Literatura-mulher
se deixa puxar com alegria pelos cabelos só para me contar, rindo, que, para
tanto, é preciso conviver, feliz, com a ausência, qualquer ausência, em todas
as suas formas. Fica na ponta dos pés delicados, para ver além da vida, das
muralhas que tentam manter longe o amor. É preciso paciência no trato lento do
pensamento, meu chapa. É preciso não temer as turbulências dos afetos, doutor.
A Literatura em forma de mulher ensina, com autonomia, que o lirismo da vida
nos permite encontrar a liberdade, a independência e conviver bem com a
sensação de incerteza. E que viver assim é fazê-lo teimosamente, poeticamente,
literariamente, pois não podemos ser indiferentes às imposições do mundo
material, barbárico e prosaico. Contudo, vamos ser francos, o que a Literatura-mulher
sinaliza, feminina e sutilmente, é que, sem a experiência imaterial – sem
poesia e um profundo respeito pelos sentimentos – não existe mesmo vida que
mereça este nome.segunda-feira, 1 de abril de 2013
O AMOR NOS TEMPOS DA LITERATURA
Eu ia fingir que não vi ela e
colocar a culpa no cacófato, tropeçar no paralelepídedo da última flor do Lácio
que me obliterou a visão e me esborrachar nas ruas das pedras tão antigas, que
conheceram Camões ainda com o olho direito funcionando. (Pronto, já dei a entender que gosto da língua portuguesa, sou-lhe
amante e lhe pago o aluguel para morar nestas mal traçadas, mal digitadas, em
causa própria, pro meu bem. Ficou claro? Fiz-me entender? Pode ser que sim,
pode ser que não. Não importa – ando a esmo, movido apenas pela busca
desesperada do ponto final, fazer o quê?) Mas, ia dizendo mesmo que estava
me declarando estendido no chão, passado por morto, vítima de uma queda de
cabeça lastimável, imóvel, respiração suspensa, esperando em decúbito dorsal que
a ambulância conduzisse o defunto, eu, para longe dos olhos do mundo, para
algum lugar ignorado, onde eu poderia voltar a respirar e ter, de novo, a posse
provisória de minhas faculdades mentais, na qual não sou o melhor aluno - e nem
- o pior. No fundo, lá embaixo, eu sentia mesmo era um baita orgulho de ter
recuado na caminhada em rumo à minha nata vocação para o precipício e e de ter
posto as engrenagens psíquicas em constante movimento, para, enfim, constatar
que a Literatura é justamente uma fratura na precariedade do mundo, um talho
que faz sangrar o sol negro que se deseja esconder. Pois é mesmo a Literatura,
com suas formas femininas, seu cálido hálito, os cabelos perfumados, os pés
perfeitos, que estende a mão delicada, como naquele poema do cummings, e me
recolhe do olvido de uma viagem rumo ao nada. Sua imagem me vem à mente como se
fosse colocada no Google da alma e me fosse devolvida na forma de milhões de
ocorrências. Aproveito-as. Degusto-as. Chupo-as, rodando a língua. E elas me
vêm, escorridas, lubrificadas, úmidas, a escandir a temida palavra trissílaba
que é, ao mesmo tempo, aconchego e lancinante sofrimento. Aquela forma feminina
da Literatura não teve lá como evitar uma abalo sísmico perto de 9.7 na escala
Richter, deslocar algumas placas tectônicas, pelo jeito que soletrou a palavra,
quase o estalar de três sílabas, quase três gotas de colírio de sangue, para eu
abrir os olhos e não mais ver os pousos e decolagens no aeroporto do amparo
que, quando a vida está nublada, parece que nunca mais vai abrir às aeronaves
que poderiam me levar ao exílio numa ilha no meio do Pacífico e jamais escrever
períodos tão longos assim. Há quem tome drágeas bicolores. Há quem tatue a
felicidade no ombro macio. Há quem tome energéticos com Coca-Cola e entoem
mantras em “fogs” de incenso aloe vera. Pensei em tentar o álcool ou as agulhas
de saltos pretos de sandálias idem. Considerei uma religião exótica ao estilo
zen-budista, como a Letã-Ortodoxa de George, pois estava convencido de que tudo
é mesmo uma questão de templo. Mas foi mesmo a Literatura que despachou os
papeis no guichê daquela repartição cheirando a mofo e “estartou” o trâmite
legal, visando a adoção, por alguma instituição de filantrópica, de um cérebro
em permanente litígio com o raciocínio lógico. Como numa história de suspense,
a suposta morte daquele substantivo próprio deixava pistas confusas, pois na
era digital, ela – a morte - é proibida e não há o silêncio que elabora a perda
– há a presença constante que espreita
nos cantos da casa, nos ruídos e nos fantasmas prestativos que obedecem ao
clique curioso e voyerista de um comando, em qualquer Galaxy. A Literatura-mulher
se deixa puxar com alegria pelos cabelos só para me contar, rindo, que, para
tanto, é preciso conviver, feliz, com a ausência, qualquer ausência, em todas
as suas formas. Fica na ponta dos pés delicados, para ver além da vida, das
muralhas que tentam manter longe o amor. É preciso paciência no trato lento do
pensamento, meu chapa. É preciso não temer as turbulências dos afetos, doutor.
A Literatura em forma de mulher ensina, com autonomia, que o lirismo da vida
nos permite encontrar a liberdade, a independência e conviver bem com a
sensação de incerteza. E que viver assim é fazê-lo teimosamente, poeticamente,
literariamente, pois não podemos ser indiferentes às imposições do mundo
material, barbárico e prosaico. Contudo, vamos ser francos, o que a Literatura-mulher
sinaliza, feminina e sutilmente, é que, sem a experiência imaterial – sem
poesia e um profundo respeito pelos sentimentos – não existe mesmo vida que
mereça este nome.
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