Passou
pela casa onde ela morava e nem sequer ia olhar para cima, quando sentiu
novamente o perfume dos cabelos louros que, um dia, lhe chicotearam o rosto, em
câmera lenta, numa cena de uma série da Warner. Ela o fuzilou com o olhar.
Estavam, então, parados na mesma porta, e ela girou o pescoço longo, sem
perceber que o cabelo, o vento e o ângulo da cabeça dele se alinharam numa
configuração nunca vista antes, e as pontas restauradas pelo Advance Techniques
da Avon que ela usara de manhã se embrenharam, por segundos, na barba rente do
rosto dele. Achou tudo muito estranho, um começo assim, o vento da tarde, a
porta entreaberta, a desculpa soprada na orelha fria – “Perdoe-me, nem vi que
você estava aí...” – e as coisas não faziam sentido mesmo. Olhou-a de relance,
com medo de ser apanhado pelo olhar dela, mas a moça sorria, os olhos claros
fixos em algo, além dele, algo fixo do outro lado da alma, ainda que fosse um
pôr do sol, mas não ele, ainda que fosse uma cena cotidiana, mas não ele, ainda
que fosse um outro mundo, mas não ele... ainda que fosse cega, a moça, mas não
ele, cego há tanto tempo ou há tanta distância do coração. Agora, neste
relance, era como tivesse despertado para tudo o que ela um dia foi no instante
em que se conheceram, o mesmo momento da porta, do vento, do louro cabelo
marcando de vermelho o rosto já previamente ruborizado. Haviam caminhado uma
longa distância juntos, depois de terem trocado sorrisos e desculpas pela
invasão do espaço social, sem perceber que já haviam percorrido quase toda a
calçada, os ombros dele e dela roçando-se sem grandes intimidades, as mãos se
tocando naquele espaço vago entre as pontas dos dedos e a curvatura óssea que
se junta com o ombro onde haveriam de se cravar os dentes, tempos depois. Ficou
com medo, pensou em voltar, mas um aviso ecoou em seu corpo: siga, desta vez
siga, vá ao encontro dela, e ele foi, os passos decididos, sem medo que seus
olhos não fossem se cruzar de novo, como namorados que param de se falar
achando que o tempo vai restaurar tudo e, um dia, um morre no outro, morrem os
dois, e nada se restaurou. Melhor não ver, melhor evitar tudo isso? E como
controlar o grande medo da felicidade, aquele que nos faz colocar tudo a
perder, como se não nos víssemos merecedores de tal sentimento? Entre outras
razões, sobreviver a um encontro daqueles não era o melhor dos mundos com os
quais sonhara depois do Big Bang. Não se sobrevive por inteiro, e a parte de
nós que sobra estiola-se num não saber o que fazer do tempo, que não flui, e da
própria vida, que estanca. É um não saber o que fazer de si mesmo. Entendia
apenas que nada tinha muito sentido mesmo e que, naquela tarde, quando ela
disparou, sem querer, um sorriso de porte exclusivo das forças amadas, digo,
armadas, era para ele como se alguém finalmente lhe tivesse aberto uma porta e
sua vida estivesse toda do lado de lá...

Nenhum comentário:
Postar um comentário