segunda-feira, 1 de abril de 2013

CONTO RÁPIDO


Passou pela casa onde ela morava e nem sequer ia olhar para cima, quando sentiu novamente o perfume dos cabelos louros que, um dia, lhe chicotearam o rosto, em câmera lenta, numa cena de uma série da Warner. Ela o fuzilou com o olhar. Estavam, então, parados na mesma porta, e ela girou o pescoço longo, sem perceber que o cabelo, o vento e o ângulo da cabeça dele se alinharam numa configuração nunca vista antes, e as pontas restauradas pelo Advance Techniques da Avon que ela usara de manhã se embrenharam, por segundos, na barba rente do rosto dele. Achou tudo muito estranho, um começo assim, o vento da tarde, a porta entreaberta, a desculpa soprada na orelha fria – “Perdoe-me, nem vi que você estava aí...” – e as coisas não faziam sentido mesmo. Olhou-a de relance, com medo de ser apanhado pelo olhar dela, mas a moça sorria, os olhos claros fixos em algo, além dele, algo fixo do outro lado da alma, ainda que fosse um pôr do sol, mas não ele, ainda que fosse uma cena cotidiana, mas não ele, ainda que fosse um outro mundo, mas não ele... ainda que fosse cega, a moça, mas não ele, cego há tanto tempo ou há tanta distância do coração. Agora, neste relance, era como tivesse despertado para tudo o que ela um dia foi no instante em que se conheceram, o mesmo momento da porta, do vento, do louro cabelo marcando de vermelho o rosto já previamente ruborizado. Haviam caminhado uma longa distância juntos, depois de terem trocado sorrisos e desculpas pela invasão do espaço social, sem perceber que já haviam percorrido quase toda a calçada, os ombros dele e dela roçando-se sem grandes intimidades, as mãos se tocando naquele espaço vago entre as pontas dos dedos e a curvatura óssea que se junta com o ombro onde haveriam de se cravar os dentes, tempos depois. Ficou com medo, pensou em voltar, mas um aviso ecoou em seu corpo: siga, desta vez siga, vá ao encontro dela, e ele foi, os passos decididos, sem medo que seus olhos não fossem se cruzar de novo, como namorados que param de se falar achando que o tempo vai restaurar tudo e, um dia, um morre no outro, morrem os dois, e nada se restaurou. Melhor não ver, melhor evitar tudo isso? E como controlar o grande medo da felicidade, aquele que nos faz colocar tudo a perder, como se não nos víssemos merecedores de tal sentimento? Entre outras razões, sobreviver a um encontro daqueles não era o melhor dos mundos com os quais sonhara depois do Big Bang. Não se sobrevive por inteiro, e a parte de nós que sobra estiola-se num não saber o que fazer do tempo, que não flui, e da própria vida, que estanca. É um não saber o que fazer de si mesmo. Entendia apenas que nada tinha muito sentido mesmo e que, naquela tarde, quando ela disparou, sem querer, um sorriso de porte exclusivo das forças amadas, digo, armadas, era para ele como se alguém finalmente lhe tivesse aberto uma porta e sua vida estivesse toda do lado de lá...


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