
Pois é, o ano ainda está longe de terminar e ela já é considerada a mulher do mesmo, com toda a razão, diga-se a bem da verdade. Entendo que ser considerada a mulher do ano é homenagem que a põe num patamar bem mais alto do outras que fazem sua existência modesta acontecer sob os mesmos auspícios desses 365 dias. A novela, concordo, deu projeção, mas ela é muito mais do que um personagem descoberto pelo autor. Ela dá corpo – se me permitem a expressão um tanto óbvia no caso – ao que se pode chamar de “beleza inteligente”, pois basta olhar com um pouco de atenção para ver que ela resolve fácil a antiquíssima divisão entre o físico e o imaterial. Se os filósofos especulam sobre a beleza enquanto os cientistas afirmam que ela é resultado de um aumento de fluxo sanguíneo na base do lobo frontal, não vou bater de frente com ninguém. Assim como o cérebro é esculpido pela música, as áreas mais sensíveis à beleza são formadas a partir da visão que temos dela. Explico: quando alguém observa uma obra de arte, diversas áreas do cérebro se ativam em sincronia. Chamam isso de neuroestética, palavra meio feia para o que ela representa, eu sei, e acredito que Vinicius de Moraes não a teria acolhido por sob as barbas brancas. Mas teimo. Esses seres femininos que habitam o mundo e o imaginário dos homens têm seus mistérios e suas ilogicidades. Querem, não querem. Sabem, não sabem. Chegam, indo. Fazem-se profundamente ausentes na mais sólida presença. Por isso, ela persiste em todas as capas de revistas, nos programas de televisão, nas conversas com cheiro de esmalte dos salões cheios de mulheres que parecem ter só pés e mãos, nas esquinas, nos bares, na alma. A melhor de todas as tropas de elite, pode ser explicada pela cor da pele, ou o formato sonoro do sorriso. Mas é mais. Tem “catiguria”, sem cortes, mantendo a unidade espacial e temporal. Tem também, certamente, mais de um milhão de citações numa busca simples por seu nome no Google. É o exemplo perfeito de que são as imagens que nos captam. Lacan, sempre ele, dizia que antes de olhar, somos olhados. Ela nos olhava diariamente, sem nos ver, sabendo que estávamos de olho nela. Agora, a temos queimada, como a imagem eterna de um DVD idem, na memória daquilo que consideramos lindo. Vai descansar a beleza longe dos que a absorviam, nem sempre com bons olhos. A existência humana requer uma dose de anonimato. Clark Kent tem a segurança de seus óculos, exatamente quando vê sem querer ser visto. Como Super-Homem, ele está sendo olhado sempre por todos e por tudo. Não pode ser assim o tempo todo, nem para o filho de Jor-El. Destarte, ela também precisa sair do foco, descansar no backstage, pendurar por uns tempos os saltos altos. Chega de ser a Super-Mulher, demiurgo que a exposição exacerbada da mídia tornou quase que obrigatório ao nosso cotidiano mortal. Missão dada é missão cumprida. Há de existir, alhures, sua fortaleza de gelo, onde, sem ninguém do showbiz por perto, poderá dizer: “Venci!”.
071008
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