sexta-feira, 5 de outubro de 2007

MULHER FALANDO COM A FILHA


Ela está num restaurante. Dá uma rápida olhada no salão e avalia, com olho sábio qual a melhor mesa. Escolhe uma, com cuidado, porém com rapidez. Há rosas vermelhas no vaso de vidro transparente, a mesma toalha e os guardanapos vermelhos bordados em branco. É como ela deseja, como imaginou.
Há poucas pessoas no restaurante no meio da tarde. Ela pretende só tomar uma xícara de chá, enquanto descansa e se prepara para os outros afazeres.
Súbito, seu celular toca. A partir daí, um espetáculo se instala naquele local fechado, exclusivo. Ela se levanta, ajeita os cabelos com a mão direita. Com a esquerda, leva o aparelho ao ouvido e começa a sorrir bem antes de falar. A princípio, não me dou conta, mas logo entendo a cena simples, mas multiplamente significativa que acontece a minha frente: a mulher está falando com a filha.
Seus olhos parecem assumir outras tonalidades, seu rosto se ilumina numa expressão de alegria e contentamento, sublinhado por um sorriso contido, mas que é todo uma mistura de orgulho e satisfação. Ninguém sabe, ninguém poderia saber. Mas eu sei, ela está falando com a filha, e alterna voz e sorriso com sábia discrição. Em dado momento, é firme e taxativa: “Não pode, e assunto encerrado!”. Em outro, é terna e irrefreavelmente delicada: “Claro, filha, claro que pode!”.
Os sapatos altos, de bico fino, a faziam mais alta e, contraditoriamente, íntima e hierática. As formas, pude bem constatar, eram coisa de Deus. O braço do telefone dobrava-se com sutileza, formando um ângulo oblíquo com o corpo ereto, de singular elegância. As mãos não apenas seguravam o aparelho, mas pareciam envolvê-lo com certo carinho, como se estivesse afagando os cabelos da filha, sussurrando ao seu ouvido.
Era, em si, uma fonte independente de luz. Sua sombra se projetava na parede de granito, amalgamando-se às reentrâncias do bloco mineral. Era como uma flor rara, solitária, que nasce da pedra, inesperadamente. Ela mesma, no recato de seu diálogo íntimo, tentou se incorporar naturalmente ao ambiente, sem querer chamar atenção, como se isso fosse possível. Só queria, naquele momento, mergulhar na filha que estava do outro lado da linha imaginária do celular, talvez brincando; talvez se arrumando para ir ao cinema com as amiguinhas; talvez brincando no quarto; talvez estudando, com uma dúvida que só a mãe poderia tirar.
A filha contava segredos e desfiava uma série de acontecimentos da escola. A mulher, então, fez um movimento que a deixou ainda mais linda. Continuou com a angulação do braço esquerdo, o que segurava o celular e, na a mão direita, apoiou com suavidade o cotovelo. Em pé, sempre, cruzou o pé direito sobre o esquerdo e se reclinou até quase encostar-se à parede. Sim, ela parecia em contato com a parede, mas não era assim que acontecia aquela cena. Ela não estava mais ali – havia se transportado para perto da filha quando pequena, a ida ao hospital, as roupas do enxoval, as noites em claro, as instruções às empregadas, o banho de sol no final da tarde, a doença inesperada, as primeiras palavras, o primeiro dia no colégio, as primeiras notas, as amigas do colégio, a dúvida entre tantos lápis coloridos. Ela ouvia a filha, mas também a via correndo na praia, rindo, tomando banho já atrasada para o colégio, deitada no quarto ouvindo música, chorando, pedindo, cantando. Via a filha dançar e imaginava como seria quando crescesse, que rumos tomaria aquela vidinha que ela cuidava como uma planta rara. Que faria a filha no futuro? Que profissão escolheria? Casaria? Teria filhos? Continuaria estudiosa e terna como agora? Estas questões passavam como turbilhão na sua cabeça, mas ela não perdia o rumo da conversa das duas, e se divertia com as descobertas que a sua menina estava fazendo. Uma coisa era certa: faria tudo para vê-la feliz. Súbito, atravessou-lhe também um medo: e se acontecer alguma coisa? Alterando levemente a voz, fez a filha prometer tomar cuidado e ligar mais tarde, de onde estivesse, ela iria pegá-la e cobri-la de beijos.
Mas essa apreensão passou logo, e a mulher, mais linda do que nunca, se recompôs. O laivo de preocupação foi deixado de lado e ela voltou a sorrir, tombando levemente a cabeça para o lado e, desta vez, olhando para um ponto infinito a sua frente. As duas tinham uma a outra. Nada mais importava.
Desligou o telefone, mas a sensação era que ainda estava em conexão com a filha, cuidando, protegendo, nutrindo. Caminhou, assim, leve, para a mesa. Colocou o celular na bolsa e se sentou. Sorriu mais umas orquídeas e começou a beber o chá que o garçom havia trazido.
Eu, que a observava de longe, tentei permanecer discreto. Mas nossos olhares se encontraram rapidamente e pude ver que seus olhos, agora, tinham a cor que enxergaríamos se pudéssemos olhar todas as estrelas de uma vez.

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